- Ei! O que você tá fazendo?! — Eu disse me repuxando e me soltando de sua mão.

Mark vira-se para mim, mas apesar dos olhos eternamente fechados ele está com uma expressão bem aflita.

- Perdão! Me Perdoe! — Clamou ele em choque — Por favor, perdão!

- Calma. Do que você tá falando? — Senti remorso por ter ficado brava com ele agora pouco.

- Eu devia ter vindo á tempo, não devia ter te abandonado. Eu quero muito o teu bem! Me perdoa!

- Eu ainda não entendi...

Ele baixa a cabeça.

- Teu pai...e tua mãe te magoaram...

Nossa! Deu pra ouvir tudo da rua? Fiquei constrangida agora...

- Deixa! — Eu disse tentando faze-lo não se sentir culpado. — Isso sempre acontece.

Mark levanta a cabeça como se me fitasse, mas seus olhos estão fechados o tempo todo, por isso não sei o que aquilo significa. Ele dá um sorriso tristonho.

- Me acompanharia numa caminhada?

- Tá bom. — Aceitei pois me parece uma ideia melhor do que voltar para casa.

Começamos a andar um do lado do outro. Seu sorriso já não é mais triste, é aquele sorriso bobo de sempre. Os primeiros minutos andando são silenciosos, e u somente reparo em como ele consegue andar com os olhos fechados. Durante estes minutos ele desvia dos obstáculos com tanta facilidade como se enxergasse através das pálpebras, até que ele vira o rosto para mim, reparando na minha curiosidade.

- Está pensativa. — Ele comenta.

- Por que você não abre o olhos? — Perguntei indelicada. Ele hesitou um pouco para responder, por um segundo pensei que não devia ter tocado no assunto, mas depois ele disse.

- Eu não posso, mas também não preciso.

- Agora tenho duas perguntas...

- Bem, eu não posso por causa da cor dos meus olhos, são muito diferentes e algumas pessoas ficam abaladas. Mas não preciso por que, como você pode observar, estou me saindo bem.

- Mas como você consegue?

- Você já teve a sensação de alguém te olhando, e quando você vê, a sensação estava correta? Imaginesomente sentir as coisas os teu redor, saber onde estão sem vê-las.

- Tipo um sentido-aranha?

Ele ri um pouco do que eu disse, e eu sorrio retribuindo a piada.

- Se a senhorita preferir chamar assim...

- Você é incrível. — Disse em relação ao seu sentido-aranha.

- Estou lisonjeado. — Respondeu.

- Será que eu posso ver seus olhos? — De repente me surgiu a curiosidade.

- Ah não! — Disse ele ainda sorrindo. — Sinto muito.

- Eu não vou ficar abalada, eu juro!

- Lamento.

- Mas que tipo de cor é essa que assusta as pessoas?

- Acho que você conhece bem.

- Como? Eu nunca te vi de olhos abetos!

- Viu sim, mas não sabe que viu. Lamento, não posso refrescar tua memória.

Eu bufei de curiosidade, acho que ele tá é me enrolando mas não comento. Passam-se alguns minutos novamente em silêncio, mas dessa vez são mais curtos.

- Como foi ontem no cinema? — Mark novamente desfez o silêncio.

Estou achando que eu corei ao ouvir isso, pois foi uma coisa repentina.

- Ah!... — Quis olhar pra tudo menos pra ele. — Foi legal.

- Só isso? "Foi legal"? — Perguntou ele como se quisesse muito que eu confessasse que chorei.

- É!...Foi legal... Boa remasterização.

- É um filme lindo.

- Não acredito! — Exclamei por descobrir um homem que chora com Titanic. Ele continuou.

- Minha cena favorita é quando o Jack salva a Rose do suicídio.

- A minha não é porque a Rose sobrevive. — Pensei que ele daria uma risada ou ao menos um sorrisinho, mas ele continuou com o raciocínio distante, nem se quer ouviu meu comentário.

- Alguém quem nem a conhece faz de tudo para salvar a vida da dama... E ele se dedica até o final de sua vida á moça desconhecida que ele salvou á poucos dias. — Ele fez uma pausa depois se virou para mim e paramos de andar — Mas eu a conheço.

Paraliso por entender sua analogia, sou afetada quase do mesmo jeito no cinema: aquilo cai em mim com um solavanco esquisito no coração, eu me importo com o que ele diz. Mas é melhor eu me concentrar para não cair em lágrimas como antes e percebo que paramos abaixo de uma árvore com flores lilases, cheia delas.

Ele reparou que fiquei atordoada com o seu comentário e ele sorri.

- Por isso o teu bem é algo precioso. — Disse e tornou a andar.

O acompanho calada, provavelmente tão vermelha quanto um pimentão, e, sem perceber, me levou novamente para casa.

Na porta ele se vira para mim e também me viro. Encaro-o na despedida.

- Eu quero que você... — Disse ele meio sério. — ...Fique longe do teu pai, ok? Ele não é alguém que valha a pena confrontar, ele está sempre num passo á frente, apenas desvie-o.

- Você o conhece? — Perguntei com a voz fraca por causa do que ele havia feito comigo.

Ele pegou a minha mão, mas como estou meio desnorteada eu deixo. Ele a segura com uma mão e acaricia com a outra.

- Cuide-se...Mas quero que saiba eu jamais te deixarei.

Eu gaguejo sem conseguir dizer nada com nada. Ele esboça seu sorriso de sempre que, por sinal, não me parece tão bobo. A mão que ele usava para acariciar a minha se esconde nas suas costas, ele se afasta meio-passo, curva-se ligeiramente e leva a minha mão á seus lábios.

- Tenha uma ótima tarde. — Disse ele que se afastou de mim e eu o vi ir embora... Como sempre.

No final das contas tive mesmo uma ótima tarde. Meu pai não estava quando cheguei, fiquei o tempo todo no meu quarto, ouvindo minhas músicas, arrumando-o com energia de sobra, e olhando para todos os meus desenhos do lobo.

Agora estou na minha cama. Já é noite. O sono está vindo calmamente e aos poucos a imagem do lobo surge...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.