Tenho um tipo de azar que as pessoas preferem chamar debenção. Quando elas vêem um acidente na rua ou na Tv elas simplesmente sentem pena não importando se a pessoa era ruim ou boa, se merecia ou não, mas se tem uma coisa que as pessoas adoram parar para olhar são acidentes, sangue cobrindo uma pessoa caída no asfalto, ver alguém sobre eles chorando, desmaiando, agonizando enquanto eles assistem de boca aberta. Depois dizem ter pena sendo que elas mesmas não tiveram piedade em bisbilhotar o sofrimento de alguém, depois transformar em assunto, fofoca, paródia... Isso se chama vaidade: ao que o indivíduo necessita ver alguém em apuros para dizer a si mesmo "como é bom saber que nessa situação nunca me encontrei e não pretendo me encontrar", logo em seguida se orgulhar em espalhar os maus-bucados da vítima como se fosse moda nova, e todos aqueles infectados pela vaidade fazerem o mesmo... É sim vaidade, pois começam a se sentirem bem depois que descobrem a desgraça de outros!

Eu não paro para assistir á tragédias, não choro também por ninguém, não pretendo piorar a situação dos outros. Sempre fico na minha, aliás, nunca estive em uma situação dessas, nunca jamais sofri qualquer tipo de acidente, eu nunca senti a dor de verdade, aquela que te faz chorar, gritar, vomitar ou desmaiar, por isso eu também não digo que nunca gostaria que acontecesse comigo. Quando me praguejam um Graças á Deus maldito me explodo de raiva por dentro, como se me golpeassem, pois se Deus realmente existisse isso significaria que Ele quer me ver sofrer de vontade de viver, quer que eu esteja de fora de todo o ciclo de vida, me transformando em um mero zumbi, apodrecendo e vagando aleatoriamente com uma fome insaciável.... Enfim!

Mais um dia, mais uma lástima.

Acordo antes de todos, antes mesmo do sol. Me arrumo e o tempo que levo para fazer tudo o que eu preciso fazer dá de sobra para que os primeiros raios de sol alcancem o pedaço da Terra especificamente na porta da minha casa. Assim eu saio, fecho a porta com delicadeza, e quando me viro para a rua, me ofusca aquele raiar quente e confortável, como um abraço de mãe, ao mesmo tempo em que estou com meus bons e velhos fones de ouvido, obviamente apreciando a aqueles breves minutos de nirvana ao som de "Behind Blue Eyes" do Limp Bizkit — uma das melhores nessas horas pois também me faz lembrar dos olhos do lobo do meu sonho que são azuis cristalinos e brilhantes.

Assim que a música acaba, e simultâneamente o sol consegue erguer-se por completo, sigo meu rumo até a escola a pé. Ando quase no meio da rua, só um pouco afastada da calçada para que um dia algum carro se descuide e me pegue — coisa que jamais me aconteceu. Quando chego á escola, costumo a me sentar numa carteira que já não haja ninguém do meu lado (as carteiras são feitas de dupla, por isso procuro sempre a carteira com as duas vagas disponíveis), mas mesmo assim, sempre vem alguém "carente" querendo que eu ouça tudo o que se tem para dizer, e em algumas vezes pede opiniões também, mas não me pedem mais isso depois de descobrirem o que se passa na minha cabeça, é fácil espantar as pessoas com o que eu falo, toda a vez que eu abro a boca alguém sempre sai de mancinho com os olhos esbugalhados, mas isso não é divertido, tento sempre não opinar para que eu não envenene os sonhos ainda em construção dos outros quando os meus já viraram ruínas esquecidas.

Mas dessa vez eu me surpreeendi. Quem sentou do meu lado foi a Angellica, apelidada pelos amigos de Angel, uma garota meiga, leonina, e fã de coisas românticas. Bom, ela ter sentado do meu lado não foi surpresa, mas o que eu ouvi de foi.

Quando ela se sentou, estava corada, com vergonha de dizer o que queria para mim. Ela virou para mim encostando a ponta dos indicadores um no outro bem abaixo do queixo como uma otaku kawaii, parecia querer pedir alguma coisa, mas o que seria para ela estar com tanta vergonha? Então ela começa a falar com uma voz de criança.

– Oi Gray... — As pessoas naturalmente me chamam assim, não me incomodo — Sabe... Vão fazer um especial de Titanic em 3D no cinema amanhã, por que faz 100 que ele naufragou.... Eu tenho um ingresso sobrando e ninguém pra ir comigo... Será que você pode ir comigo no cinema?

Essa foi a surpresa: um convite para um filme que não gosto, com alguém que não tenho afinidade. Tive vontade de rir, ninguém havia me convidado pra sair antes, foi muita audácia convidar justo a mim para isso!

– Foi mal, eu não gosto de Titanic. — Meti essa, sem dó nem piedade, não estava afim de gastar meu dia num cinema, vendo um filme contra minha vontade, com um óculo 3D incomodando-me, e cercada de gente chorando, soluçando, fungando pelo DiCaprio que, ao meu ponto de vista, serve mais para ação do que romance (principalmente por que odeio romance), e o pior de tudo é ouvir aquela música enjoada da Celine Dion.

– Tudo bem. — Ela respondeu decepcionada, e saiu da carteira como um cãozinho abandonado na chuva.

Infelizmente não pode-se ter pena nessas ocasiões, as pessoas não se sacrificariam por mim quando eu mais precisasse, por que eu deveria me sacrificar por elas então?

Notas finais
Angel é baseada em Gabriela, uma de minhas melhores amigas que é otome e louca por Titanic. Sim, eu a acompanhei no Titanic em 3D no cinema e achei engraçado usar este fato na história!