Era uma manhã fria em Londres. A plataforma 9 ¾ estava lavada pela chuva da noite anterior. Ana Luisa caminhava de uma coluna a outra, desviando das poças de água. Após aproximadamente 5 minutos de estressante caminhada, tromba com a esperada amiga que acaba de atravessar a coluna e chegar à plataforma. Inicialmente Selene se assusta com o abrupto encontro, mas logo reconhece à amiga. As garotas sorriem e abraçam-se.

Ana Luisa era um tipo aparentemente comum. Sua beleza era natural. Os olhos profundos e negros como um tranqüilo lago no outono, o formato simples de seu nariz, o suave desenho de sua boca, a delicadeza nas curvas de seu corpo, tudo escondido sobre o pesado casaco de algodão e a justa calça jeans. Os cabelos longos, negros e cacheados lhe desciam pelos ombros e costas.

Selene era mais urbana. Nos olhos trazia uma pesada maquiagem negra. Pela orelha, vários brincos de diferentes tamanhos e formatos. Os cabelos igualmente longos, negros, porem lisos.

Selene transparecia a criação trouxa e londrina que teve. Ana Luisa, ao contrário, aparentava a simples garota que era antes de receber a carta de Hogwarts e conhecer sua verdadeira identidade.

– Ansiosa para começar o 4° ano? – perguntou Selene a amiga que era dois anos mais nova.

– Nem um pouco. Amo a escola; odeio as aulas – respondeu Ana Luisa girando os olhos em sinal de contrariedade.

– Eu... – Selene foi interrompida pelo apito do expresso que sinalizava a hora da partida.

– Pensei que você não conseguiria chegar a tempo – comentou Ana Luisa.

– Eu sempre dou um jeito... – vangloriou-se Selene.

Selene virou para se despedir dos pais e do irmão mais novo. Ana Luisa foi ao encontro da avó, também bruxa, mas que renunciou aos seus poderes para viver com um trouxa, e se despediu.

As garotas entraram no expresso e se alojaram no corredor. Enquanto o trem começava a deslizar sobre os trilhos, as garotas acenavam para os familiares.

Após o trem ter saído da plataforma, as garotas ainda ficaram um tempo olhando para a paisagem que corria além da janela, até que Selene saiu do transe em que se encontrava e chamou à amiga. Elas percorreram os vagões observando dentro das cabines.

– Eu temia isso – comentou Ana Luisa observando mais uma cabine cheia.

– Aqui – disse Selene apontando com a cabeça a cabine a frente.

Dentro da cabine só havia um garoto que aparentava os 16 anos, sentado ao lado de uma das janelas. Selene cumprimentou o garoto com um sorriso, guardou o malão, e sentou defronte a ele. Ana Luisa sentou ao seu lado.

– Ana Lu, esse é o Victor Argolo. Ele também é da Sonserina. Victor, essa é a Ana Luisa.

– Nós já nos conhecíamos – comentou Ana Luisa.

Victor Argolo transparecia a descendência bruxa, mas com um toque trouxa. Mesmo com o frio, Victor usava bermuda até os joelhos e um pesado casacão por cima da blusa. Na cabeça usava um boné preto com a aba para trás e no rosto a barba por fazer.

O garoto a cumprimentou com um aceno de cabeça e voltou a mirar a janela. Então o silêncio reinou. O único som que se ouvia era o que o trem fazia.

Ana Luisa olhou para a amiga, que se distraia com a ocupação de procurar algo dentro da mochila, e depois para Victor, que continuava a observar a paisagem que corria do lado de fora. Logo desviou o olhar para a porta e a fitou durante um longo tempo, como quem deseja atravessá-la e deixar para trás aquele silêncio constrangedor. Percebendo uma movimentação, direcionou seu olhar para Victor. Ele continuava olhando para fora. Ana Luisa fitou o assento vazio ao lado de Victor, e então desviou o olhar para as mãos que seguravam os próprios joelhos como se eles pudessem cair caso ela os soltasse.

Selene começou a folhear o livro de Poções e a escrever em um pergaminho.

– O único exercício que faltou foi esse... – comentou Selene em tom de conversa.

Um vulto loiro passou correndo pela porta. Parou no corredor e voltou em marcha ré. Parou na porta e observou cada ocupante até encontrar com o de Ana Luisa. A porta automática abriu e Lysander Scamander entrou e acomodou-se defronte à Ana Luisa que continuava a segurar os joelhos.

– Oi! Oi Selene! Oi... Quem é você? – perguntou Lysander a Victor.

– Victor Argolo – respondeu o garoto. Sua voz era grave e profunda.

– Ah... Prazer, Lysander Scamander – respondeu a recém chegada estendendo a mão a Victor.

Victor apertou a mão de Lysander e voltou a observar além da janela.

– O que tem de tão interessante nessa janela? – perguntou Selene a Victor.

– Nada que você gostaria – respondeu o garoto com arrogância.

Ana Luisa e Lysander se entreolharam. Lysander respirou fundo e começou a falar:

– É... Lu, eu estava te procurando, porque, na verdade, tá todo mundo te procurando! Você disse que já ia voltar e o trem saiu e você não apareceu! E depois eu te encontro aqui! O que aconteceu garota?

– nada – respondeu Ana Luisa um tanto dura.

Lysander fitou Ana Luisa por alguns instantes. Desviou o olhar para Selene que mostrou com o olhar Victor. Lysander olhou para Victor, e novamente para Selene.

– Bem, estamos te esperando para o almoço. Caso não esteja muito... – Lysander olhou novamente para Victor – ocupada.

– Ok – respondeu Ana Luisa evitando olhar para os presentes.

Lysander levantou-se e saiu. Selene olhou de esguelha para Ana Luisa e deu um sorrisinho de canto. Ana Luisa consultou o relógio. Faltavam poucos minutos para o almoço. Selene guardou o material, levantou-se e deixou a mochila onde estava sentada.

– Eu vou procurar as meninas. Você vai ficar bem? – perguntou Selene a amiga.

– Claro – respondeu Ana Luisa sem muito interesse.

Selene olhou para Victor que retribuiu o olhar com malícia. Selene atravessou a porta e sumiu no corredor. No mesmo instante um garoto moreno com um moderno penteado entra e se acomoda ao lado de Victor.

– Cadê Netinho? – perguntou o recém chegado a Victor.

Victor pegou a mochila, abriu e respondeu:

– Não tá aqui dentro não.

– Engraçadinho – comentou o outro garoto.

Ana Luisa levantou e saiu. Ficou encostada no corredor do lado de fora da cabine respirando com dificuldade como se tivesse corrido quilômetros.

– Eu sabia que você não ia agüentar – disse Selene, que estava parada ao lado de Ana Luisa encarando-a com um sorriso de vitória.

– Vamos embora... – pediu Ana Luisa, que andava com dificuldade.

As garotas não precisaram andar muito para chegar à cabine que procuravam. Dentro da cabine Lysander, Pedro Bittencourt e Lavínia Vetrimini as esperavam. Logo que as garotas chegaram o silêncio foi quebrado e a conversa começou. Após horas de conversa, a noite começou a cair além da janela e Ana Luisa continuava com o pensamento na outra cabine.

– Vai lá – disse Selene percebendo a distância da amiga.

– O que? – perguntou Ana Luisa voltando à realidade.

– Volta pra outra cabine! – ordenou Selene.

– Nem pensar! Fiquei morrendo de vergonha!

– E daí? Eu percebi que ele gostou de você, então volta praquela cabine!

Ana Luisa olhou para a amiga, levantou-se e saiu. Caminhou até a outra cabine e espiou. Lá só estava Victor, muito mais a vontade, com os pés encima da poltrona e o boné cobrindo o rosto. Ana Luisa respirou fundo e entrou. Não fazia a menor idéia do que poderia ocorrer. Nem planejou nada. Só entrou, sentou e esperou.

– Cadê Selene? – perguntou Victor a Ana Luisa, virando novamente o boné para trás.

– Ficou na outra cabine – respondeu Ana Luisa um pouco constrangida.

– Assim é melhor... – comentou Victor mais para si do que para Ana Luisa.

– O que? – perguntou Ana Luisa que não ouvira bem o que o garoto disse.

– Nada – Victor levantou-se e acomodou-se próximo a porta, ao lado de Ana Luisa.

Victor observou por alguns instantes o rosto de Ana Luisa bem de perto, depois foi descendo o olhar. Ana Luisa manteve-se parada, dura, como uma estátua. Sentindo o olhar do garoto, virou a cabeça em sua direção e manteve os olhos fixos nos dele. Victor sustentou o olhar e então perguntou:

– De que casa você é?

– Corvinal – respondeu a garota totalmente sem graça.

– Ah... Acredito que você está no... 5° ano?

– 4°. Você não é muito bom em adivinhação, não é?

Victor riu da piada.

– Não, não sou. Mas eu posso tentar.

– Fique a vontade! – respondeu Ana Luisa com um sorriso.

– Você está nervosa – afirmou Victor aproximando-se de Ana Luisa.

O sorriso no rosto de Ana Luisa sumiu, e sua face foi tomada por um tom rubro que sinalizava que Victor estava certo. A garota manteve o olhar fixo no acento a sua frente e perguntou:

– Você está tentando adivinhar?

– Sim. Consegui?

– Por que você não adivinha isso também? – perguntou Ana Luisa com um sorriso de deboche.

– Eu tô adivinhando outra coisa – confidenciou Victor, aproximando-se ainda mais de Ana Luisa.

– O que? – perguntou Ana Luisa em um sussurro, temendo a proximidade de Victor.

Victor não respondeu verbalmente. Em resposta, começou a acariciar o rosto de Ana Luisa com a mão esquerda, enquanto a direita subia pelo pescoço da garota até a nuca e puxava mais para perto a sua cabeça. Ana Luisa sentiu o coração disparar. Victor estava cada vez mais próximo. Ana Luisa fechou os olhos de nervosismo e Victor a beijou. Um beijo inicialmente simples, apenas o encontro dos lábios, sem pressão. Depois de confirmar que a garota não negaria o beijo, Victor pôs mais pressão. Ana Luisa passou o braço esquerdo em torno do corpo do garoto, e com a mão direita alisou seu peitoral até encontrar o ombro e seguir com a mão para o pescoço. Quando Victor começou a beijá-la com mais intensidade, Ana Luisa notou o que estava fazendo. Ela queria muito aquele beijo, mas algo dizia que ela não devia, então, com dificuldade, afastou se de Victor.

A escuridão já reinava na paisagem através da janela, as luzes já haviam sido acessas, quando Selene entrou na cabine e disse:

– Já estamos chegando. É melhor trocarem suas vestes – recomendou a garota pegando a mochila e dirigindo se a outra cabine.

Victor continuou com a mão no rosto de Ana Luisa, enquanto ela já havia soltado-o, sem entender o que a fez querer parar. Nem notara a invasão efetuada por Selene.

– Espera – pediu Ana Luisa, afastando-se de Victor, pegando a mochila e correndo atrás da amiga.

Na outra cabine nenhuma palavra do ocorrido, mas Selene sabia que havia acontecido algo. Conhecia a amiga bem o suficiente.

Quando o trem parou, Ana Luisa desceu o mais rápido que pode arrastando Selene. As garotas logo entraram em uma carruagem e Ana Luisa contou o que aconteceu.

– Eu atrapalhei! Desculpa Lu! – pediu Selene.

– Não atrapalhou por que eu já tinha parado mesmo... – consolou Ana Luisa.

– Porque você fez isso? Você é doida? – Selene reprimiu-a.

– Não Selene, eu sou super normal! – defendeu-se Ana Luisa.

– Tão normal quanto Lysander... – comentou ironicamente Selene.

– Que implicância com a garota! – reclamou Ana Luisa.

– Dane-se Lysander! Eu não acredito que você dispensou o cara que você é caidinha!

– Nós fomos apresentados agora Selene! – justificou Ana Luisa.

– Você mesma disse que já o conhecia!

– Não pra isso! – reclamou Ana Luisa.

– Dane-se! – reclamou Selene.

–... E ele foi bem atirado! – continuou Ana Luisa.

– Assim que é bom Lu! Os atirados. Com cara de “qualquer dia eu passo na sua rua e te pego” são os melhores, e Victor é desse tipo! E você sabe muito bem que ele hesitou o fim do ano passado inteiro, só chegou em você hoje por que uma oportunidade como essa não aparece todo dia!

– O que você acha que ele vai fazer?

– Não sei. Ele pode continuar tentando...

– Espero que sim!

–... Ou pode pensar que você não gostou e parar.

Ana Luisa olhou para a amiga apreensiva.

– O que eu faço?

– Nada. Se ele realmente quiser vai voltar, e se ele voltar é porque ele te merece. E ponto final! – Selene encerrou a conversa ao ver que os amigos chegavam.

– Vocês saíram correndo! – reclamou Lysander, acomodando-se na carruagem.

– Eu sei – respondeu Ana Luisa, mal-humorada.

Em seguida entraram Pedro, Lavínia, Maria Clara Duek e André Turno.

Maria Clara Duek aparentava claramente a descendência bruxa. Tinha os cabelos negros como à escuridão e a pele branca como a neve. Pertencia a Sonserina.

André Turno era um dos melhores amigos de Victor e também de Ana Luisa, usava o cabelo mais comprido do que geralmente os garotos usam. Tinha um nariz grande e olhos pequenos. Não era alto. Era o menos dos garotos com quem andava. Pertencia a Lufa-Lufa.

Quando todos já haviam entrado, a carruagem começou a andar. A conversa entre os sete seguiu animada até o castelo, quando os amigos se separaram, cada um para a mesa correspondente a sua casa.

Ana Luisa fez questão de sentar de costas para Victor, pois estava muito envergonhada e não tinha coragem de encará-lo. Victor, ao contrário, sentou onde pudesse observar Ana Luisa. Não prestou atenção na cerimônia de abertura por dois motivos: 1 – sempre acho tudo aquilo uma chatice, 2 – a única coisa que desejava era continuar olhando para Ana Luisa.

Ao termino do jantar, os alunos encaminharam-se para os dormitórios, menos Ana Luisa e Selene, que primeiro foram se despedir e desejar uma boa noite.

Ana Luisa seguiu o grupo que caminhava em direção a torre da Corvinal, mas ficou um pouco mais atrás.

A garota deu um grande bocejo antes de virar a direita no corredor e topar com Victor, que claramente a estava esperando.

– Oi! – cumprimentou Ana Luisa assustada.

– Oi – respondeu Victor, tristonho.

O silêncio manteve-se entre os dois. Ana Luisa constrangida com o ocorrido no trem e Victor receoso com a reação dela.

– As masmorras são meio longe daqui. Aconteceu alguma coisa? – perguntou Ana Luisa quebrando o silêncio.

– Só queria te desejar boa noite – respondeu Victor sem sair do lugar.

– Ah... Então tá! Boa noite! – disse Ana Luisa.

A garota tentou seguir o caminho desviando de Victor, mas o garoto foi mais rápido e a puxou para um beijo. Dessa vez ele não deu chance dela desistir. Dessa vez Ana Luisa não queria desistir. Depois de algum tempo, Victor sentiu segurança e tirou um pouco da pressão que impunha no abraço. Em troca, Ana Luisa aproximou-se mais de Victor. O beijo durou o tempo que o sono permitiu que eles ficassem ali.

– É assim que eu quero te desejar boa noite todas as noites a partir de hoje – confidenciou Victor em um sussurro na orelha de Ana Luisa.

A garota sentiu novamente um arrepio e mais um beijo de despedida. Dessa vez, ela desacelerou e afastou-se de Victor.

– Amanhã nós conversamos – disse Ana Luisa quase que em um pedido.

– Ok – respondeu Victor dando-lhe mais alguns beijos de despedida.

Nenhum dos dois desejava partir. O último beijo prolongava-se cada vez mais. O barulho de passos naquela direção foi o que fez eles partirem definitivamente. Os dois com um sorriso no rosto? Victor por ter saciado o desejo que o consumiu as férias inteira, e Ana Luisa por ter recebido o beijo a tanto sonhado.

Ana Luisa subiu a escada circular que levava até a entrada da sala comunal da Corvinal, respondeu a pergunta e entrou. A sala já estava deserta. O fogo na lareira se extinguia. A garota caminhou até a porta ao lado da estátua da Rowena Ravenclaw, e, antes de seguir para o dormitório, deu uma última olhada na sala. Ana Luisa tinha consciência de toda a tragédia que ocorrera naquele castelo anos atrás. Agradecia todos os dias a todos os bruxos que se arriscaram para que ela e outros alunos experimentassem da magia que radiava aquele castelo.

Notas finais
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