Redenção
6 Rastros
Loki estava sentado tentando ler o livro em suas mãos, mas as palavras dançavam no papel. Ele suspirou e virava as páginas sem nem olhar o que aparecia de novo.
—Loki?
A voz rouca e grossa era inconfundível. O rapaz se ergueu rapidamente e foi para o outro lado da sala. Thor foi se aproximando devagar, com medo que seu irmão saísse correndo. – Como você está, irmão?
O mago estreitou os olhos. – O que você quer?
—Ver como está. – E Thor deu uma boa olhada no irmão, dos pés a cabeça. – Vejo que está bem. Está comendo?
—Isso não é da sua conta.
Thor deu outro passo em direção ao seu irmão, que recuou mais ainda. – Claro que é. Eu sou teu irmão.
—Não é! Você sabe que não é!
Ele se aproximou mais ainda. – Eu sempre serei. E você sempre será meu.
Loki estremeceu com a implicação daquela frase. – Não quero vê-lo. Saia daqui!
—Você sabe que, se eu quisesse, levaria você agora daqui, não sabe? Seu lugar é em Asgard.
—Meu lugar é longe de você, Thor.
O mais velho franziu a testa em evidente mágoa. – Continua tão áspero... Devemos olhar para frente, Loki. Seus crimes precisam de expiação, sabe disso.
—Só os meus?
Thor bufou e avançou mais um pouco, fazendo com que Loki fosse para o outro lado da sala, perto da saída. – Pare de correr! – reclamou o guerreiro.
—Então fique longe de mim!
O mais velho mediu Loki e depois tirou algo de seu bolso. – Aqui tem uma carta da mãe. Ela implora que leia, que não rasgue como fez com as outras. – E colocou em cima de mesa.
Loki não se mexeu, apenas olhando o envelope selado com o brasão da casa de Odin em cera. – Se é só isso, pode se retirar? Preciso retornar a minha leitura.
Thor hesitou por um momento, mas acabou se retirando. – Nos veremos depois, — disse ele. Mas para Loki soou como ameaça.
Quando ficou a sós, pegou o envelope e cheirou a carta. O cheiro de sua mãe, cheiro de bondade e amor. Tão distantes... Retornando ao seu quarto, foi rapidamente tomar um banho.
~o~
—Eu posso expulsá-los, todos eles! E foda-se a diplomacia! Teremos uma guerra, mas teremos honra! – E ele engoliu uma dose inteira de seu uísque.
Tony andava de um lado a outro furioso e só parou para encher novamente o seu copo. Natasha lhe fez companhia, tomando mais de seu drink. – Isso é ótimo para dor de cabeça. Como não soube disse antes?
Steve estava em pé e parado, apenas pensativo. Considerava todas as alternativas viáveis e honrosas, não apenas a guerra. Como soldado entendia que o maior triunfo era evitar uma batalha, e não criar uma. Mas aquele caso estava o desafiando. – Nunca vamos entrega-lo, não depois disso. Eu não vejo como ele pode ser culpado por ter se vingado de sua noiva com tantas circunstâncias atenuantes. Aqui ele teria sido absolvido, talvez.
—Depende do estado... – comentou Bruce. – Em alguns seria exaltado, em outros, pena de morte.
Barton estava em silêncio e cabisbaixo. Ele tinha assistido a todos os vídeos e já não tinha tanta certeza da culpa do malandro. – Aquela Sif é mesmo uma...
—Tudo bem, Clint, — cortou Nat. – Acho que existe uma fila interminável de culpados. Mas é opinião unânime que esse rei Odin deve ser um canalha de primeira.
Tony bufou e atirou o copo contra a parede, o estilhaçando em mil pedaços. – Filha da puta! Isso não se faz com ninguém, ainda mais com o próprio filho! Por que ele odeia tanto o Loki? E por que o adotou se não o amava?
—Isso também não entendo, — disse Steve. – Ele poderia permanecer apenas com Thor, seu filho único e herdeiro. Por que adotar e depois odiar o filho adotivo?
—Será que Loki fez alguma coisa que o deixou assim? – perguntou Clint. – Sei lá, algo que ele desgostou muito?
Bruce suspirou. – Nada justifica. E se odeia tanto assim, deveria ter mandado Loki para outro lugar, outro planeta, não sei como eles dizem isso.
—Bom, — tornou o arqueiro, — só sei que estou pasmo pelo grande Thor. Cara, não sabia que ele era gay!
—Acho que o grande espanto não é esse, não, Barton? – disse Steve incomodado. – Ele está assediando o próprio irmão!
—Será que é isso que Odin viu? – perguntou Tony. – Essa preferência em Thor e achou que Loki fosse o culpado?
—Bom palpite, — falou a espiã. – Ele deve ter achado que Loki o seduzira.
Todos os rostos se iluminaram. – Bingo! – disse Steve. – Acho que descobrimos.
—Sim, — falou o engenheiro. – E onde está a mãe deles? Ela também é conivente com isso?
—Thor sempre frisa que as mulheres em Asgard são inferiores... – comentou Nat. – Talvez o lugar de uma rainha não seja tão acima.
—Impressão minha ou esse reino é da Idade Média? – bufou Stark. – Devem ter disputas com cavalos ou coisas assim.
—Justas, — informou Bruce.
—Obrigado, vou te contratar como meu assistente! – E sua expressão ficou séria novamente. – Então, expulso esses cretinos? O Hulk poderia me ajudar.
—Calma, Tony, — pediu Steve. – Pense em toda terra, não só na sua Torre.
Barton interveio. -E existem cretinos desse tipo também na terra e nem por isso o expulsamos.
—Não, nós o prendemos. Encarceramos. Coisas assim.
—Eu vou falar com Loki, — informou Natasha. – Eu quero saber o posicionamento dele.
—Ele não vai falar, — opinou Barton.
—Talvez ele não fale. Mas eu falarei. – E ela se ergueu. – Irei até lá.
—Thor não está com ele?
A espiã pôs a mão na cabeça. – Esqueci de ver o vídeo do encontro deles. Jarvis, onde está Thor?
—Ele está com senhora Sif em um dos quartos.
Tony deu um sorriso mau. – Jarvis, coloque o vídeo do quarto...
—TONY! – alertaram todos.
—Ok. Jarvis, abortar ordem. – Saco.
—E Loki, Jarvis? Onde ele está? – pediu ela.
—O senhor Loki está tomando banho.
Steve assobiou em espanto. – De novo?
—É um cara asseado, qual o problema? – disse Tony.
—Ele tomou um banho faz menos de uma hora... – informou o capitão.
—Pode ser algum transtorno, — disse Nat. – Estou indo lá. Vocês ficarão bem sem mim?
—Sim, ficaremos, o Steve me fará um cafuné, — avisou Tony, para desgosto do outro.
Natasha se dirigiu para o quarto de Loki e, previsivelmente, encontrou o ambiente vazio e ouviu o barulho da ducha. Ela avisou Loki através da porta do banheiro que estava no quarto e teve como resposta o resmungo dele. A espiã se sentou na cama e aguardou o rapaz terminar.
Sua mente, a sua revelia, vagou por imagens do passado, por uma mão grande e forte segurando seu braço, por uma boca nojenta percorrendo seu corpo. Ela estremeceu e suas mãos se espremeram, tentando manter o autocontrole. A espiã queria matar o idiota que disse que o tempo curava tudo.
Loki saiu logo depois com roupão e pegou umas roupas dele no armário. – Eu já volto. – E ele se trocou no banheiro.
Quando ele estava pronto, vestido e penteado, Natasha respirou fundo. – Loki, precisamos conversar.
—Não, Lady Natasha, eu não quero destruir o seu mundo. Mais alguma coisa?
—Olha, Loki, vamos nos sentar e quero que me escute.
Ele deu de ombros e sentou-se elegantemente a borda da cama. Sua expressão era de curiosidade.
—Eu conversei com Thor, — e ela observou a reação dele. Loki se mexeu desconfortavelmente. – Ele me disse que você matou alguns guerreiros. Também contou que eles abusaram de sua noiva.
Ela viu a expressão dele empalidecer e Loki se ergueu, indo em direção a janela. – São tolices. Como acreditar nele? É apenas um parvo.
—Vocês estão noivos há muito tempo? Você e ... Sinyn?
Ele deu uma risada sarcástica. – Sigyn. Não há muito tempo. Mas somos amigos desde a infância.
—Onde ela está agora?
Ele se virou para ela com olhar irônico. – Nunca direi a ninguém. Ela está a salvo, Lady Natasha. E se Thor quer saber sobre ela, ele que venha perguntar. Que me coloque em tortura, mas nunca direi!
—Não vim a mando de Thor. Aliás, ele não mostrou interesse nela. Nem quando abusaram de sua noiva.
Os lábios dele crisparam de raiva. – Eu sei. E por que quer saber, então?
—Você a escondeu? A protege, de alguma forma?
Ele ergueu seu queixo. – Sim. Ela está segura onde mora. Ninguém nunca mais lhe fará mal.
—E ela está bem?
Loki deu uma risada fraca e triste. – Está melhor do que em Asgard.
—E você?
—O que tem eu? – Ele ficou em posição defensiva.
—Eu sei o que Thor fez, — empurrou.
Ele ficou parado, em pânico, olhando para ela em expectativa. – O que quer dizer?
—O que eu quis dizer.
Ele estreitou os olhos e ela percebeu que as mãos dele tremiam. – Ele contou, então? Nada ele lhe esconde? Que poder que tem, Lady Natasha!
—O mesmo poder que demonstrei na Helicarrier, onde ficou preso. Acabou entregando seus planos para mim.
Ele esnobou. – Você deduziu, eu não entreguei nada. Mas tanto faz agora...
—Odin acha que você tem culpa no caso?
Loki desviou o olhar dela. – Não quero falar disso. Dou-me o direito do silêncio.
Ele vai ser difícil. – Assim não poderemos ajudar, Loki. Ou talvez... libertá-lo.
Ele forçou um sorriso. – Está tentando negociar, Lady? Você acha que me vendo por tão pouco?
Vai ser difícil mesmo. – Não, Loki, não acho. Só quero que saiba que já passei por isso. Já fiquei em situação tão vulnerável, nas mãos de outro, que pensei que morrer seria a melhor coisa que me poderia acontecer. Tive medo, e tanto medo... Hoje penso em como consegui sobreviver. Eu sei, Loki, o que é ser abusado.
Loki não disse nada, apenas vagueou pelo quarto com olhos distantes.
—Sei que é difícil conversar sobre isso. Ainda mais porque envolve seu irmão, que você amava tanto.
Ela esperou. E esperou. Mas ele se manteve teimosamente calado. Não, não seria difícil, seria impossível.
—Tudo bem, Loki. Você tem o direito de ficar calado. Mas eu estarei disponível para uma conversa. Estamos do seu lado.
Ele franziu a testa. – E por quê? Por que estão ao meu lado? O que vocês querem?
—Não acredita em boas ações?
—Depois de mil anos, agente, eu entendi que não existem ações sem interesses. Todos querem alguma coisa.
—Talvez o que você precisa, Loki, é conhecer novas pessoas. – E ela se levantou, saindo do quarto.
Loki pôs as mãos nos cabelos e um soluço despontou nele. Não, não iria chorar. A conversa que teve mais cedo com seu irmão, na biblioteca, o manteve alerta. Thor quase o tocou, foi sorte que Loki teve a mesa para impedi-lo. Foi sorte que estava tão atento às ações do outro.
Ele foi até o criado-mudo e retirou de lá a carta. Ainda estava fechada. Loki ainda reunia coragem para ler. O que será que ela escreveu? Estaria, ainda, decepcionada? A imagem iluminada de Frigga em seu jardim privativo apareceu em sua mente. E ela lhe sorria.
Loki devolveu a carta à gaveta e empurrou com força. Ele precisava ter paciência. Ele iria conseguir fugir.
~o ~
Sede da S.H.I.E.L.D.
Agente Hill caminhava apressadamente entre os corredores movimentados do prédio enquanto tentava localizar seu chefe, Nicholas Fury. Olhou para seu celular e a ligação caía sempre em caixa postal. – Droga!
Ela entrou em uma das salas e se sentou em um computador. Digitou em algumas teclas e, na tela do monitor, surgiu a imagem de uma gravação. Maria fixou seus olhos em um ponto da imagem e imprimiu o que vira. – Aí está! – Ela simulou um sorriso, que logo se desfez em espanto. – Teremos problemas.
O celular vibrou em seu bolso: era Fury. – Pois não, agente?
—Chefe, temos problemas.
—Isso é redundante, Hill. O que aconteceu?
—Já analisamos aquelas imagens das gravações dos prédios do perímetro da batalha.
—E?
—Conseguimos algo mais recente, depois da reconstrução. Alguém no topo, fazendo alguma espécie de ritual.
Ela escutou um longo suspiro irritado. – Deixa eu adivinhar: Loki?
—Sim. Essa gravação foi feita há um mês, antes de captura-lo. Ele está vestindo roupas parecidas com as da batalha, mas sem a capa... ou os chifres.
—Mais alguma coisa?
—Temos detectado atividades estranhas em outros prédios, uma espécie de ondas eletromagnéticas não identificadas.
—Eu estou indo aí. Convoque Stark para uma reunião agora. E sem alardes: essa notícia pode mudar muita coisa.
~o~
Tony repetia à exaustão as gravações dos vídeos do quarto de Loki e da conversa de Natasha com Thor. Merda. Mil vezes merda. Ele bebeu mais um gole de sua bebida e se manteve estatelado no sofá. Natasha tinha ido embora, ela tinha uma missão a cumprir naquele dia. Barton a acompanhou. Bruce desceu para o laboratório para trabalhar e Steve... Onde diabos estava o capitão? Ele olhou para os lados, como se Rogers pudesse estar ali, de repente. Tsc.
Deve estar paparicando o nosso garoto, pensou ele. Eu deveria ir lá também, mas o que eu diria? Sinto muito, vamos ver um filme? Sinto muito, quer que eu o mate para você? Eu sinto muito...
—Muito mesmo... – murmurou.
Ele não era bom com as palavras doces. Era bom em discursar, fazer propaganda de si mesmo, de um monte de mentiras. Deveria deixar mesmo para o capitão. Para Natasha. Tony olhou para seu copo, como se considerasse pegar mais uma dose. Para isso ele servia: pegar mais doses. Céus, estou ficando patético e autodestrutivo de novo, pensou ele.
Tentou se erguer e voltou a cair no sofá. Na segunda tentativa teve sucesso e caminhou cambaleante para fora do escritório. Sua cama deveria estar o esperando, quente e aconchegante. Os convidados que se danem! Havia muitas rosquinhas para Thor comer. Ele e os outros se virariam. – Jarvis?
—Sim, senhor.
—Onde está meu quarto?
—No lugar de sempre, senhor.
Tony bufou. – Eu ainda posso te desligar, engraçadinho. Ou colocar um antivírus grátis em seu sistema.
—De que forma isso não afetaria o senhor é um mistério.
—Meu quarto, Jarvis, — pediu novamente apertando o botão para o elevador abrir.
—Andar 90, senhor.
—Viu, não é difícil responder.
—Ou andar 71, onde dormiu ontem. Também há outro quarto no andar...
—Oh, cale-se! Andar 90 está bom para mim. – E digitou os botões 9 e 0.
Quando chegou ao quarto, seu celular vibrou ruidosamente. Tony suspirou e o jogou em cima da cama enquanto foi ao banheiro. Na volta, o aparelho ainda vibrava. – Mas que droga! Stark.
—Stark? Agente Hill.
—Oh, agente. Que saudades!
—Fury o convoca para uma reunião agora.
—Agora estou ocupado. Estou de ressaca.
—É urgente, Stark. É sobre Loki. Achamos mais uma coisa sobre ele.
Shit...
~o ~
Sede da S.H.I.E.L.D.
Tony colocou a mãos nos olhos, aquela sala estava iluminada demais. – Agente Hill, poderia fechar as cortinas?
—Não temos janelas nem cortinas, Stark, — respondeu ela enquanto arrumava uma papelada.
—Então apague as luzes.
Ela rolou os olhos. – Em breve Fury estará aqui. Tenha um pouco de paciência.
—Eu vim o mais rápido possível, e voando na minha armadura! Sabe o quanto isso me custa?
—Publicidade? – E ela sorriu.
—Sim, e de graça! Meus minutos são caros.
Fury adentrou de repente com o agente Phil Coulson ao seu lado. – Hill? Stark?
—Olá, Fury, Coulson, — cumprimentou Tony enquanto colocava óculos escuros. – Fico feliz em ser convocado com tanta urgência.
O diretor olhou atentamente para o engenheiro. – Está de ressaca? A essa hora?
—Não! Apenas enxaqueca... – E ele guardou os óculos.
—E como está nosso prisioneiro?
—Pensei que ele fosse convidado, devido a falta de provas e...
—Temos novas suspeitas contra ele. – E se dirigiu para Hill: — Coloque o vídeo.
Oh, mais vídeos...
A grande tela para projeção se iluminou, mostrando imagem de uma gravação de câmera de segurança de um prédio. Após alguns segundos, uma pessoa caminha pela beirada desse prédio e estendeu suas mãos. Uma luz saiu dessa pessoa e se derramou pelas paredes do edifício, sumindo tudo logo após isso.
—Outra gravação, Hill.
Outro prédio, muito parecido, a mesma pessoa com os mesmos gestos, e a luz novamente derramando-se e envolvendo a construção. Outras gravações se sucederam e Tony pode notar que as datas das gravações, muitas vezes, coincidiam.
—O que isso quer dizer? – Ele perguntou. – Essa pessoa... é o Loki?
—Parece muito, não é? – disse Coulson.
Maria congelou o vídeo na imagem da pessoa. Era Loki, só que com outras roupas. Ele estava com um casaco comprido e botas. E de suas mãos saía uma luz verde.
—O que ele está fazendo ali? – perguntou Fury. – Isso tudo é muito suspeito.
—Ele... Ele pode estar limpando a fachada dos prédios, algumas precisavam mesmo de uns reparos e...
—Stark! – gritou Fury. – Também detectamos atividades eletromagnéticas suspeitas em alguns edifícios da cidade, no perímetro da batalha. Elas estão emitindo algum sinal para alguém.
—Tem certeza? – Tony franzia a testa. Aquilo era bem sério. – Eu posso ajudar a traduzir os sinais, eu e o Banner poderíamos ver isso.
—Agradeço, Stark. Vamos precisar mesmo de ajuda especializada. E quanto a Loki, eu o quero aqui de volta!
—O quê? – disse Tony espantado.
—Você me ouviu. Eu quero que ele volte aqui para ser detido e interrogado até que conheçamos toda sua verdade. Chega de ser mimado na Torre Stark.
Tony franziu a testa. – De jeito nenhum! Estamos descobrindo muitas coisas que estão acontecendo com ele em Asgard e...
—Em Asgard? – Fury elevou a voz. – O que me importa que porra acontece em Asgard? Stark, temos que saber quais os planos dele aqui!! O que ele faz curando pessoas? É um truque?
O engenheiro bate a mão na mesa. – Eu não sei! Mas eu vou saber! Tudo a seu tempo, Fury. E Loki está comigo e eu cuido disso. Não ouse invadir minha Torre. Você sabe que posso retirar minhas doações para a S.H.I.E.L.D. a qualquer momento!
—Está me ameaçando, Stark?
—Sim, estou! – Ele se ergueu, encarando a todos. – Eu conseguirei as respostas que precisa. Se quiser, apareça na Torre para o chá das cinco. Mas Loki ficará onde está.
—Stark, — disse Coulson, — ele pode ser muito perigoso. Por que essa defesa de alguém que lhe atirou pela janela?
Tony estreitou os olhos. – Também pensávamos que ele tinha lhe matado, mas ei-lo aqui, muito bem e saudável. Às vezes a verdade é mais complexa que imaginamos. – E olhou para todos. — Passar bem, pessoal. Tenho um suspeito para investigar. E me mandem os dados dos sinais pelos canais habituais.
Quando ele retornou para a Torre em sua armadura, foi logo ao quarto de Loki. – Jarvis, onde ele está? — perguntou quando não o encontrou.
—Ele se encontra na biblioteca, senhor.
Ao chegar ao local, Tony se deparou com Loki sentado em um canto, encostado a parede, com lágrimas nos olhos. Em suas mãos havia um papel que parecia uma carta. O jeito que ele estava encolhido partiu o coração do engenheiro. — Loki?
O rapaz logo se recompôs, secando as lágrimas, e se ergueu, indo para o lado contrário do engenheiro. – Stark.
—Você está bem?
—Claro que estou. — Loki dobrou a carta e a colocou no bolso. – Gostaria de alguma coisa? – Perguntou sem olhar para o outro.
—Sim, eu preciso falar com você. Vamos nos sentar. – E indicou a mesa, que ambos se sentaram. Loki ficou elegantemente sentado e tinha um ar de interrogação. – A SHIELD me contatou. Parece que eles têm vídeos de você em cima de prédios e fazendo algum vodu ali.
—Um o quê?
—Você sabe, magia, raios verdes saindo de sua mão.
Loki rolou os olhos. – Stark, não tenho que lhe dar satisfações...
—Mas que merda, tem sim, Loki! Aqui é meu planeta e você deve satisfações de tudo que fizer aqui!
O rapaz olhava para ele atentamente como se considerasse. – Pois bem, creio que tem um ponto. O que quer saber?
—Sério mesmo? – E agora Tony sorria. – O que faz aqui na terra?
—Desfazendo algumas maldades de Thanos.
Hum... – E quais são elas? Temos alguns aliens por aqui?
—Não sei o que quer dizer, mas afirmo que Thanos deixou seu rastro em várias construções dessa cidade, trazidas, é claro, pelos seus chitauri.
—E o que você fazia em cima daqueles prédios?
—Estava tirando cada um. Primeiro investigava o tamanho do estrago e depois aplicava a magia adequada.
—Detectamos algumas ondas estranhas sendo emitidas em alguns prédios. Seriam esses rastros de Thanos?
Loki ficou pálido por um momento e pensou um pouco antes de responder. – Pode ser nada. Mas é algo de Thanos. Eu não consegui tirar todos os rastros ainda. – E mostrou suas pulseiras.
Estou melhor que a Natasha, pensou. – E por que curava as pessoas?
O olhar de Loki descaiu e ele suspirou, mais melancólico que o normal. – Eu não posso dizer.
—Mas...
—Stark, quero que entenda algo: sou um príncipe, tenho meus direitos, porém tenho muito mais obrigações. Mesmo banido, tenho o dever de defender Asgard. Há coisas que não podem ser ditas sem prejudicar o lugar de...
—De...?
Loki suspirou, cansado. – De Frigga.
—Ah, sua mãe.
—Rainha de Asgard, — corrigiu. – Ela não é minha mãe.
—Entendo... – Tony pigarreou, sentia a ressaca ainda. – Eu custo a entender como funciona um reino desses. No qual você será sacrificado em prol... Em prol de quê, exatamente? Para que todo o resto fique bem, menos você? Isso para mim é muito estranho.
Os olhos de Loki brilharam e Tony pode perceber que suas palavras surtiram algum efeito nele. – Eu sou a pessoa errada no lugar errado, Stark. Nunca queira estar nessa situação, — disse em voz baixa.
—Eu já estive, — disse lembrando-se de seu cativeiro com terroristas. – Eu sei como é. Às vezes te fazem pensar assim, como se fosse uma carga para os outros, — e a imagem do próprio pai passou em sua mente. – Howard Stark, meu pai, me fez me sentir diversas vezes assim. Eu quase não o via, sabia? Lembro-me dele, muitas vezes, bêbado e infeliz. Sei lá...
—Acho que não existem pais bons, — afirmou o rapaz com tristeza. – Homens não foram feitos para criar, eu acho.
—Não! Não... – Tony tentou sorrir. – Existem diversos pais muito bons por aí. Só tivemos o azar, sorteio do destino!
Loki olhava sério para ele. – Eu sou muito azarado, então. Do meu passado, conheço por eu tê-lo vivido, do meu futuro eu sei por previsões nada boas.
—O que vai acontecer?
—Apenas causarei o fim dos mundos. Ragnarök.
Stark arregalou os olhos e começou a rir. – Para você tudo deve ser mega, não?
O rapaz rolou os olhos. -Não sou eu quem escolhe, Stark. E essa previsão é um fardo imenso. Estou tentando evita-la o máximo que posso.
—Soube que previu que esse lugar desaparecia em algumas gerações. Banner me disse.
Loki não respondeu, sua expressão ficando cada vez mais triste. Tony tentou animá-lo. – Já está de tarde e não comeu nada. Eu também não! Que tal eu encomendar algo para gente?
—Não quero comer com Thor, — rosnou.
—Não, sem Thor! Sem os amigos deles! Só a gente. Poderíamos comer no meu andar. O que acha?
O rapaz assentiu e, depois de algum tempo, ambos estavam no luxoso andar do engenheiro. Uma mesa em um dos cômodos serviu para depositar o almoço deles, Tony colocou uma garrafa de vinho, e guardou a sobremesa no frigobar. – Sorvete de chocolate! Não é bom?
Loki deu um sorriso mínimo. – Sim, eu suponho.
Quando estavam quase acabando, o barulho metálico soou no ambiente. – Senhor?
—Sim, Jarvis, — respondeu Tony limpando a boca com guardanapo.
—O capitão procura por Loki. Informo que ele está aqui?
—Sim, mande ele aqui. – E se dirigiu para o rapaz. – Ele deve estar com saudades.
Loki ficou vermelho. – Saudades do quê?
Tony deu risada. – De você, é claro! Steve é firme defensor dos frascos e dos comprimidos.
—Como?
O sinal do elevador ecoou ao longe e passos foram ouvidos se aproximando deles. – Tony! Loki! O que estão fazendo? – A voz de Steve soou irritada.
—Estamos almoçando, caro capitão! – falou o engenheiro em voz alta. – Quer se juntar a nós? Loki estava me contando sobre os dragões que existem em... onde mesmo?
—Vanaheim. Em certa parte há muitos dragões. Freya me deu um.
Steve bufou. – Eu fiz seu almoço, eu ia levar para você! Sei que não gostaria de almoçar com os outros...
—Você fez almoço para eles, Rogers? –perguntou Tony com expressão irônica.
—Precisa mandar alguém para cozinhar aqui, — disse o capitão estressado. – Essa turma come muito.., Sobretudo o ruivo grandão.
—Volstagg tem um grande apetite, — informou Loki bebericando seu vinho.
—Desculpe, Steve, mandarei encomendar todas as refeições e em grande quantidade. Sobretudo carne.
—E cerveja, — pediu o vingador. – Eles bebem tanto!
Tony sorriu. – Sente-se conosco, temos a sobremesa ainda.
E o sorriso contido de Steve foi a resposta.
~o ~
Sif caminhava entre os cômodos, observando tudo atentamente. Eram curiosas as construções de Midgard, feitas para sufocar e entreter ao mesmo tempo. A vista era magnífica, como se estivessem no meio de nuvens. – Essa deve ser uma construção cara, — avaliou.
Fandral e Volstagg se recolheram para seus quartos cedidos por Stark para a sesta. Thor estava sentado em um sofá com expressão perdida. Ela sabia que ele sentia falta do irmão, da companhia dele. Sua respiração se intensificou só em pensar nisso. Maldito ergi!
A guerreira foi até o bar e pegou um copo. Olhou para as bebidas até achar uma parecida com vinho. Abriu a garrafa e cheirou o líquido: sim, vinho! Derramou no cálice até quase enchê-lo e retirou algo de seu bolso: uma raiz de uma planta muito antiga. Ela sorriu e mergulhou a raiz na bebida, mexendo três vezes para a direita e três vezes para a esquerda. Devolveu a raiz para seu bolso e foi até seu noivo. – Thor, parece triste.
Ele assentiu com a cabeça em desânimo. – Eu temo pelo futuro, Sif. Meu pai anda irredutível. Creio que Loki poderá ser executado.
Ela balançou a cabeça, acompanhando a tristeza dele. – Eu sinto por isso, Thor. Eu não gosto dele, mas sei o quanto Loki é importante para você. – Ela estendeu o cálice. – Tome esse vinho para se alegrar um pouco.
Ele sorriu. – Obrigado, Sif. Você tem sido uma grande amiga.
—Estamos noivos, devo estar ao seu lado, Thor.
Ele bebeu tudo em um só gole e depois jogou a taça no chão, estilhaçando em mil pedaços. – Vinho fraco.
—Estamos em Midgard, eles não sabem fazer bons vinhos como nós.
—Ou cervejas. As daqui parecem mijo, — e ele riu.
Sif se aproximou dele e o beijou. – Vamos para o quarto de novo. Vamos tentar mais uma vez.
—Não estou com vontade, Sif, perdoe-me. Minha cabeça está cheia.
Ela bufou e se afastou. – Tudo bem. Farei minha sesta. Ficará aí?
—Sim, — respondeu olhando para o nada.
Após muito tempo da retirada dela, Thor ainda olhava para o nada. Ele sentiu seu corpo quente, com um pouco de formigamento. Ele se coçou, tentando estancar aquela sensação. De repente se levantou e foi até o elevador. Com ele chegou ao andar de Loki e foi direto para o quarto dele. Ao abrir a porta, pode ver seu irmão com Steve.
—O que faz aqui? – perguntou irritado para o capitão.
—Thor? Estou jogando com Loki. Xadrez. – E apontou para o tabuleiro com diversas peças. — Ele aprende rápido.
O guerreiro olhou o ambiente e viu que não tinha mais ninguém. – Gostaria de falar com meu irmão a sós.
—Oh, claro...
—Não, Steve! – pediu Loki em voz baixa. – Fique, por favor.
O capitão assentiu com a cabeça, irritando Thor mais ainda. – Eu disse SAIR.
—Não, Steve...
—Thor, Loki quer que eu fique e eu ficarei. – Droga, e pus meu escudo no meu quarto, pensou ele.
—Não quero lhe machucar, amigo Steve. Loki e eu temos coisas a tratar, e são particulares.
Loki continuava a balançar a cabeça em negativa e Steve pode notar o pânico tomando conta dele. – Não sairei. Jarvis, chame Tony aqui.
—Sim, senhor.
Thor ajeitou seu martelo em sua mão e sorriu arrogante. – Precisa de ajuda, capitão?
—Oh, sim. Jarvis, chame também o doutor Banner.
—Claro, senhor.
O guerreiro bufou. – Só queria falar com meu irmão. Somos príncipes, temos assuntos particulares e de alto sigilo. Não se ponha no meu caminho, capitão Rogers!
Tony chegou um pouco depois apressado, em sua armadura e com o escudo de Steve. Bruce apareceu logo depois, olhando tudo com atenção. – O que acontece aqui?
—Ele insiste em falar com Loki a sós. Loki não quer.
Tony se virou para Thor. – Ele não quer. Qual é a sua dúvida?
—Eu. Vou. Falar. Com. Meu. Irmão.
—Mas não sozinho, — insistiu Steve. – Ele não quer e a vontade dele conta nesse lugar.
Thor espremeu o martelo em suas mãos avaliando as opções. Bruce já se posicionava, e ele pode ver o ódio no olhar do cientista. Steve empunhara seu escudo e Tony acionara sua armadura, pronta para disparar. Sim, seria uma guerra.
—Tudo bem. Eu falarei com Loki na companhia de vocês.
—Ok, então, — disse Tony visivelmente aliviado. – Vamos todos para o outro cômodo nos sentar e conversar. Vai ser muito divertido.
Bruce ainda estava em alerta e Thor deu-lhes as costas, indo em direção ao local indicado por Tony.
—Sim, será muito divertido, — murmurou Steve ladeando Loki.
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