Redenção
13 O inimigo público
Natasha acomodou-se melhor na poltrona da enfermaria enquanto observava o paciente a sua frente. Loki fora medicado e cuidado pressupondo-se que sua fisiologia fosse semelhante a dos humanos. Mas o efeito havia sido mínimo. Ela viu as mãos dele presas ao lençol do leito, se contorcendo em dores óbvias. Mas da boca dele não saiu nenhum ruído. Além das mãos, os olhos se espremeram vez ou outra.
Thor havia retornado com seus dois guerreiros bastante machucados, porém recusou qualquer tratamento na enfermaria dos mortais. – Nós sabemos como cuidar de nós mesmos, — disse com maus modos. – Trouxemos alguns emplastros e medicamentos conosco.
—Isso não serviria para Loki? – perguntou Banner sem paciência.
—Ele é mestiço de Jötun e Álfr, como já afirmei antes, e não um asgardiano, esses remédios nunca fizeram efeito nele. Só a magia de nossa mãe o curava de qualquer coisa. – Ele abaixou a cabeça.
—Conseguiram contato com Asgard? – perguntou a espiã, com um misto de esperança tanto para um sim como para um não.
—Nada. – E o príncipe não quis pronunciar mais nenhuma palavra.
Assim, todos aguardavam a recuperação de Loki, que já estava naquela enfermaria fazia um dia. Thor ou qualquer um dos asgardiano foram proibidos de se aproximar do jotun por Banner e Stark, até ordem contrária, e os Vingadores iniciaram um esquema de plantão. Era a vez de Natasha, que observava atentamente o príncipe jotun. Um pensamento sombrio passava em sua mente e ela lutava para desfazê-lo: que Loki não sobreviveria. Seria um golpe de sorte e tanto para o grande rei Odin.
De repente Steve entrou no local e foi direto para o leito onde estava o rapaz. Sem dizer uma palavra, ele acariciou suavemente a franja dele. Depois de um bom tempo, sussurrou: — Ele parece que está bem, pelo menos dorme.
—Ele está praticamente desmaiado, Steve. Não sei se isso é um bom indício de cura.
Ele se virou para ela e suspirou. – Ele passou por tanta coisa, e por coisas que nem imaginamos... Ele é forte, Nat.
—Ele está cansado. E dolorido. – Ela fez uma pausa. – Quando ele estiver melhor, vamos ter que conversar sobre o que houve. Sobre a tentativa de estupro. E não sei se estamos aptos para isso, Steve.
—Eu concordo. Não estamos. Talvez se pedíssemos para um terapeuta...
—E envolver mais gente? Não sei nem se devíamos confiar nesses médicos daqui. – E ambos olharam rapidamente para a equipe médica que estava em outro ambiente, separada por um vidro a prova de bala. Eles monitoravam os sinais de Loki por aparelhos e equipamentos.
Loki se mexeu levemente e os outros dois olharam atentamente para ele. Mas o príncipe não acordou.
—Stark em breve vai acordar e vai dar um jeito nisso, — disse o capitão. – Ele conhece as pessoas certas, nisso devo admitir. E achará alguém para ajuda-lo. – Suspirou. – E estou preocupado com outra coisa também. Sobre Hulk. Ele se expôs demais e fez um grande estrago na cidade. Fora os Chitauri... A imprensa deve estar nos crucificando.
Ela assentiu minimamente e pegou seu smartphone, digitando algumas coisas nele. Após isso, mostrou a tela do aparelho para ele. Uma notícia em letras grandes alertava para o perigo da fera. Steve leu rapidamente, pelo texto, que o repórter acusava os Vingadores de promoverem o caos. – Eles já estão nos destruindo, — disse ela. – Provavelmente Fury virá até aqui exigir algo de nós, algo de Banner. Ele não sabe ainda, o Bruce.
—Não seria o caso dele fugir?
—E deixar Loki?
As feições de Steve decaíram. – Será que também exigirá algo de Loki? Eu não vou deixar que o levem. Banner não vai deixar que o peguem, ninguém conseguirá parar Hulk, mas Loki... Frágil assim, eles não terão consideração. Não deixarei ninguém leva-lo, nem Fury, nem os asgardianos, muito menos os Chitauri!
Ela pigarreou. – Já disseram a você que os asgardiano e os Chitauri são alienígenas? Que usam magias e possuem força incomum...?
—Muito engraçado, Romanoff. – E ele voltou a acariciar os cabelos do rapaz. – Eu vou cuidar dele.
—Steve... Tome cuidado.
Ele se virou para ela aborrecido. – Não, Natasha, eu não vou ouvi-la, sinto muito. Vou seguir meu coração, e não as razões tortas desse mundo de hoje. Eu... eu não consigo entender esse tempo de agora. Talvez eu seja igual a Loki, vivendo num mundo que destoa totalmente do que sou, tanto que passei a ser um incômodo. Não! – disse quando ela tentou falar. – Eu farei o que é certo, não vou me importar com SHIELD, com Thor, com o que quer que seja. Eu quero ajudar Loki e é o que farei.
—Ajudará por quê? Qual é a sua expectativa?
—Eu não quero nada para mim, se é o que está pensando. Veja, é disso que eu falo: sempre se pensa em segundas intenções, nenhuma intenção seria pura.
Ela suspirou. – Você está apaixonado, Rogers.
—Er... eu? – disse gaguejando e muito vermelho. – Eu tenho apenas compaixão e...
Natasha sorriu. – Tudo bem, Steve. Não é grave, em nosso tempo, ser gay. Não será jogado na fogueira por isso.
Ele abaixou a cabeça. – E-eu sei. Mas não sei se sou, quer dizer, apenas quero ajudar Loki, de verdade.
—Tudo bem, se diz...
Ele engoliu seu constrangimento e não disse mais nada. A espiã se acomodou novamente na poltrona recostando-se no espaldar. O barulho do monitor cardíaco mantinha-se estável e preenchia o silêncio do local. Antes de fechar os olhos e adormecer, ela ainda viu Steve sentando-se numa cadeira ao lado do leito e pegando com delicadeza numa das mãos do rapaz.
~0 ~
— Stark por que fez isso?
Por que?
Uma voz feminina, em algum lugar, soou lamentosa para ele.
—Me perdoe, querida, eu... Eu tentei tanto...!
E uma mulher ruiva colocou as mãos no rosto, em desgosto. – Por que?
Ele tentou abraça-la, mas ela parecia feita de vento. Seus braços atravessaram o corpo dela, sem se deter em alguma coisa sólida. – Pepper...
Tony ergueu-se rapidamente da cama, olhando a sua volta com respiração acelerada. Tudo estava aparentemente quieto: foi só um pesadelo. Mais um. Ele respirou profundamente. – Jarvis.
O barulho metálico ecoou pelo ambiente. – Sim, senhor.
—Últimas notícias da cidade. Algo sobre os Vingadores? Sobre... Hulk?
—Sim, há, senhor, a segurança avisou...
—Ótimo, me conte depois, — disse interrompendo. -Más notícias somente após o café. – Ele se levantou da cama e começou a caminhar pelo ambiente. – Os nossos queridos asgardianos estão acampados na cozinha?
—Sim, senhor.
—Jesus... – Ele colocou as mãos no rosto. – Que horas são?
—Sete e meia.
—Da noite? – E olhou em direção as cortinas cerradas.
—Da manhã, senhor.
Stark se jogou na cama novamente. – Jesus... como é ruim ser eu! Como está Loki?
—Ele ainda dorme, senhor.
—Quem está com ele?
—Agente Romanoff e o capitão Rogers.
—E Bruce? Onde está?
—Ainda adormecido, senhor.
—Ótimo... – Sussurrou.
Agora era levantar. Levantar e enfrentar tudo o que viria. Ele abriu a gaveta e olhou seu relógio, confirmando o quão cedo ainda era. Fury deveria vir em breve. – Loki acordou em alguma hora?
—Não senhor. Faz horas que dorme direto.
Melhor assim.
—Seus sinais estão estáveis?
—Estão senhor, pessimamente estáveis.
Merda.
Tony se vestiu e foi direto à enfermaria e lá encontrou Natasha adormecida em sua poltrona e Steve próximo ao leito do príncipe, inclinado no colchão e muito cansado. – Stark, — cumprimentou em voz baixa.
—Rogers. E então, como está nossa Bela Adormecida?
O capitão deu um meio sorriso. – Ele é forte. Vai sobreviver. – Tony deu um sorriso solidário, que se desfez ao ver Loki cada vez mais pálido.
O barulho metálico soou, anunciando Jarvis. – Senhor Stark.
—O que foi, Jarvis?
—Fury e os agentes Hill e Coulson adentraram na Torre.
Meu café...
—Diga que vou atendê-los assim que terminar de bater uminha...
Steve arregalou os olhos. – Stark! Olha os modos!
Tony pigarreou. – É muito fácil te provocar, Picolé. Jarvis, encaminhe-os para meu escritório. Já estou indo.
~o ~
Fury andava de um lado para outro no escritório de Stark enquanto seus agentes se acomodaram em poltronas. Tony logo adentrou com um sorriso irônico nos lábios. – Como vão? Espero que tenham tomado o desjejum de vocês, eu mesmo estou sem o meu. Há uma invasão asgardiana na minha cozinha, vejam só, quase ratos devastando meus mantimentos!
—Já comemos, Stark, — respondeu Maria. – Obrigada.
—Se ouvirem algum ronco, já sabem que parte de meu estomago. Bom, o que os trazem aqui tão cedo, quase madrugada?
Fury franziu a testa. – Não viu os noticiários?
Droga. Eu me esqueci...— O que houve? A série Friends retornou? E Jarvis nem me avisa!
—Stark!
—Ou estamos em plena guerra nuclear? Precisamos ir a um esconderijo, mas eu nem tenho esconderijo... Vamos morrer, simples. Preciso rever meu testamento. Darei tudo para caridade, não tenho filhos, talvez para alguns amigos, mas você não está incluso, Fury, nem vocês, agentes. Impedir alguém de se alimentar é desumano e claramente hostil e...
—Stark!!
—Pois não? – e estampou um belo sorriso.
—Banner está em perigo! – gritou o diretor. – Aliás, Hulk, mas dá no mesmo, não é? Estão procurando um culpado para essa bagunça que aconteceu na cidade, Chitauri de volta e toda quebradeira que o Hulk ajudou causar. As pessoas estão assustadas, Stark, e com razão!
O engenheiro teve alguns milésimos de segundo para compreender tudo aquilo. Fury deu um meio sorriso de triunfo. – Peça pro seu A.I. mostrar o noticiário ao vivo e verá exatamente o que eu digo.
E assim foi feito. – Hum... – A grande tela mostrava uma multidão considerável em volta da Torre dos Vingadores, muitos com cartazes e palavras de ordem. A câmera focou em um deles. – “Hulk deve ser eliminado”, — sussurrou Tony. Outros cartazes preencheram a tela, e o jornalista que cobria a matéria lia um a um com evidente satisfação. – Vejam, o cidadão de Nova York não tolerará mais ver sua cidade destruída por esses seres mutantes, alienígenas ou o que quer que sejam! Basta!, é a palavra mais ouvida entre a multidão. Será pedir demais que nossa cidade não sofra mais com invasões, destruições, e com todos esses segredos do governo? Anthony Edward Stark, um dos maiores fornecedores de armas de destruição em massa, agora sedia um quartel general de malucos perigosos, entre eles o Hulk! A fera verde causou grande destruição em várias partes da cidade nessas últimas horas, quem arcará com o prejuízo? Quem velará pela segurança dos nossos cidadãos? Sim, o povo exige respostas de nosso governo e da companhia Stark. Eles não podem mais decidir coisas sem o conhecimento público! Gail, é com você!
A imagem muda para outro repórter, que estava do lado oposto do colega. – Mark, estou aqui com Marina Louis, ela teve suas janelas destruídas e um alienígena foi parar em sua sala. Conte para gente, senhora Louis!
A senhora respirou fundo. – Eu estava jantando com meu marido quando essa coisa foi atirada em nossa janela. Tomamos um susto horrível! A criatura estava imóvel, parecia morta, mas eu e George saímos correndo, tremendo de medo, e chamamos os vizinhos para ligarem para polícia. E não veio a polícia, exatamente, vieram uns sujeitos que me parecem da CIA e recolheram o corpo daquele ser. Tiveram que raspar meu assoalho para tirar todos os vestígios e hoje veio um vidraceiro, mandado por eles, e arrumou tudo. Podíamos estar mortos agora, que me interessa uma janela arrumada? – E ela começou a fungar. – Quero que eles sejam responsabilizados por essas invasões, e também culpo o sr. Stark por essa bagunça. Chega! Um primo meu morreu na primeira invasão alienígena, não quero mais ter que passar por isso! – E ela abaixou a cabeça, com as mãos no rosto.
—Desligue, Jarvis, — pediu Tony suspirando. – Mostre imagens do circuito interno.
—De qual parte, senhor?
—Do lado de fora, na entrada principal.
A tela da TV novamente se enche de imagens, agora em preto e branco e sem som. Era uma multidão furiosa, alguns brigando com os seguranças, a polícia intervindo, afastando os manifestantes de perto da entrada, tentando manter uma distância aparentemente segura. –Merda! Desligue! Desligue tudo!
Fury pigarreou. – Hulk tem chamado muita atenção desde anteontem. Os Chitauri chamaram a atenção. Porém, pelo que observamos, Loki não foi reconhecido por ninguém. Ainda.
—Há outros jornalistas lá fora, de outras emissoras, — avisou Hill. – Eles estão querendo uma entrevista com o Homem de Ferro e com o Hulk.
—Com esse bode expiatório, — disse Coulson, — a imprensa adorou estampar em sua primeira página uma notícia como essa. Eles acham que foi Hulk quem atraiu essas coisas.
—Isso explicaria algumas coisas, — afirmou o diretor. – Não podemos negar que ele é um perigo real para a cidade. Banner não o controla, isso já estamos cansados de saber.
Tony fechou os olhos em frustração. – E vocês precisam que Banner seja sacrificado?
Coulson sorriu. – Não, ele não será sacrificado. Não seja dramático, sr. Stark. Será apenas contido.
Você mentia melhor antes, pensou Tony.
—O Conselho está louco com isso, — afirmou Maria. – Eles querem a cabeça dele!
—E quanto a Loki, falarei com Thor, — afirmou Fury. – Ele precisa levar o irmão dele daqui o mais rápido possível. Não queremos mais alienígenas em nosso país e, se a imprensa souber da presença deles aqui também, será o inferno.
—É uma pena que desperdiçaremos uma bela oportunidade, — disse o agente. – Com Loki debilitado, poderíamos leva-lo para a Shield e fazer testes com ele.
—Como um ratinho de laboratório? – perguntou Stark. – Desde que ele tentou mata-lo, agente, espera ansioso por uma oportunidade de vingança. – E ele suspirou exasperado. – Loki não pode voltar, o acesso ao reino deles está impedido.
—Como? – perguntaram os três ao mesmo tempo.
—Thor não sabe o que acontece, ainda. Pode ser que tenham entrado em guerra e estão ocupados guerreando ou teve um golpe de estado. Coisas assim também acontece por lá. – E o engenheiro foi até seu mini bar. – Aceitam?
Nick pôs a mão na testa. – Mais um complicador. De qualquer forma, acho melhor todos os asgardianos e Loki ficarem na Shield até segunda ordem. Lá é mais seguro.
Tony bateu com força um copo vazio no balcão. – Se esquece, Fury, que não estou na folha de pagamento da Shield e, portanto, não sigo ordens que não me convém. Loki estará protegido nessa Torre com o Hulk e eu por perto. Podemos incluir Rogers nessa.
Phill deu uma risadinha. – Vocês se apegaram ao inimigo. Isso é tão clichê.
—Se der errado, Stark, eu não poderei ajudar vocês nessa. – disse Fury. – Estará por conta própria.
Tony respirou fundo. – Eu sempre estive.
—E quanto a Banner, vamos falar com ele. Ele deve ficar a par do que está acontecendo e quero convencê-lo a ir espontaneamente conosco.
—Acho que devemos falar com Loki também, — disse Hill. – Ele deve nos dar informações sobre esses alienígenas hostis, se há intenção deles retornarem e o que eles querem aqui. Além disso, é um mistério o fato de terem chegado à Terra sem um portal a vista.
Tony deu uma risada sem vida. – Mistérios... – murmurou. – O que vocês acham que está acontecendo? Tenho certeza que irão falar com Loki com algumas suspeitas na manga, e só vão querer que nosso querido alienígena as confirmem ou não.
Fury e Coulson se entreolharam. – Está certo, — confirmou o diretor. – Temos alguns palpites. Mas nenhuma certeza, realmente.
Tony se serviu de uma bebida. Hill franziu a testa. – É de manhã ainda Stark.
—Meu fígado não sabe disso. Mas... continuem. Falem das teorias sobre os Chitauri.
Coulson iniciou. – Acreditamos que eles não foram embora depois da primeira invasão. Que provavelmente muitos deles permaneceram aqui na Terra, escondidos, aguardando uma oportunidade de lutar novamente. Devem ter ficado em galpões vazios, florestas, ou algo do tipo.
—Foram os que escaparam dos vingadores durante a batalha, — disse Maria, — ou aqueles que nem guerrearam, que, se aproveitando da distração da luta, se infiltraram em algum lugar e lá se esconderam, aguardando novas ordens.
—Podem também terem criado outro portal, — disse Fury, — um que não fosse detectado por nossos sistemas. Teorias, como já dissemos. Que Loki poderá elucidar qual seria a correta.
—Se for um portal, vocês deverão descobrir como fechá-lo, — concluiu o engenheiro. – Boa sorte.
—Boa sorte para você também, — replicou o diretor. – Você vai nos ajudar com isso, Stark. Temos que descobrir logo o que está acontecendo, os malditos devem estar se arregimentando nesse momento. É bem óbvio que retornarão com os ataques.
—E ainda querem se livrar dos Vingadores, — murmurou Tony. – Eu ajudo. Mas quero fazer um trato.
Fury ergueu a sobrancelha. – E qual seria o trato?
—Não leve Loki e nem Banner pra Shield. Preciso deles aqui. Se quiser, leve Thor, é um inútil pra mim, e aquele Fandral das couves. Se couber mais gente, a noiva esquisita do grandão, a Sif. Faça um pacote e leve todos! Já estou sem comida... Jarvis?
—Sim, senhor.
—Eles já saíram da minha cozinha?
—No momento só estão o príncipe Thor e a guerreira Sif, senhor.
—Menos mal. Vou comer. – E se voltou para Nick. – Pense que usar Hulk para acalmar os ânimos só demonstrará incompetência e insegurança. Precisamos de certezas e não de cortinas de fumaça. Não à custa de Banner. Eu vou achar essas criaturinhas simpáticas e vou eliminá-las.
—Stark, se usar o Hulk novamente...
—Ele não vai. Vai ficar aqui, quietinho, tomando conta do nosso príncipe adormecido. – E suspirou. – Se me dão licença, meu estomago está roncando de modo horrível e isso é muito deselegante. A saída, já conhecem? – E piscou para eles, se retirando do ambiente.
Ao pegar o elevador, apertou o andar da enfermaria para dar outra olhada em Loki. Lá, viu Steve ainda próximo a Loki, Natasha na poltrona e outra pessoa se juntou ao grupo: Bruce. – Tony, acordado a essa hora? – perguntou o cientista mordiscando uma torrada e na outra mão segurava uma caneca.
—De onde pegou isso?
Bruce se olhou. – Isso o quê?
Tony aspirou o aroma do café. – Sim, é disso que eu preciso.
—Eu soube que Fury está ou estava aí. O que eles queriam?
O engenheiro pigarreou. – N-nada. Queriam discutir a situação de Loki e outras coisinhas. Como os Chitauri.
Banner sacudiu a cabeça em concordância. – Onde será que se escondem?
—Boa pergunta. – E ele olhou rapidamente para Natasha que o observava atentamente. – Vou comer. Talvez até não perceba a presença de todo poderoso e de sua súdita.
—Eles falaram de mais alguma coisa? – perguntou a espiã.
—Bom... Nada urgente. Falarei com vocês mais tarde. – E olhou significativamente para ela antes de sair do ambiente.
~o~
Thor andava de um lado para outro enquanto Sif inspecionava os mantimentos daquele local. Havia excesso de pacotes do que ela supôs ser açúcar e sal. Numa câmera refrigerada pode constatar um bom estoque de queijos e manteigas, de variados tipos, além de uma adega bem abastecida. – Finalmente, Thor, um lugar parecido com o que temos no palácio. – E ela pegou uma garrafa de vinho. – Esse é de 1915... Um pouco recente, mas deve ser bom. – E Sif foi até a mesa e pegou dois copos. – Vamos, tome comigo, meu noivo.
O príncipe fez um esgar sutil e pegou o copo. – Depois podemos doar alguns dos nossos para Stark, — disse vagamente. – Para não onerá-lo.
Ela sorriu. – Ele nem vai sentir falta. Pelos parâmetros mortais, ele deve ser muito abastado dentre os seus. Eu fiquei pensando, Thor... Quando nos casarmos, gostaria de uma habitação de Midgard. Além de outra em Vanaheim, é claro.
—Temos nosso palácio de inverno lá, Sif. Não será necessário outra morada.
Ela suspirou. – Que seja, Thor. Vamos brindar.
—A que?
—A nós, é claro. Ao nosso noivado. Vamos combinar a data assim que retornarmos a Asgard, o rei ficará feliz com uma decisão.
Thor largou o copo na mesa e foi até a janela. – Eu não estou pronto ainda, Sif. Preciso de um tempo.
Ela espremeu os dedos no copo com força. – Eu entendo. Mas já faz anos que estamos esperando e...
—Não estou pronto, — disse em voz firme. – E o rei entendeu meu posicionamento. – Ele se virou para ela. – Por que tem tanta pressa? Tem privilégios como uma princesa, é bem recebida em todos os eventos como minha noiva.
—Eu quero ser sua esposa! – disse Sif em voz alterada. Thor franziu a testa e ela respirou fundo, retomando a voz suave. – Tudo bem. Continuarei esperando.
—Você tem todo direito de ficar aborrecida e de procurar outro parceiro, se for do agrado. Eu lhe dou esse direito de desfazer o noivado.
O coração dela acelerou rapidamente e, sem perceber, deixou seu copo escorregar entre seus dedos, caindo ruidosamente ao chão. – Droga.
—Algum empregado limpará isso, não se preocupe, — disse o guerreiro.
—Caso não tenha percebido, não há serviçais aqui. E-eu não sei como se viram sem eles!
Thor esperou ela se acalmar. – Eu continuo com a oferta. Você pode se desfazer do noivado sem nenhum prejuízo a sua pessoa. Farei com que isso seja assim, — disse em voz solene.
—Thor, por favor! – Ela se aproximou dele, colocando suas mãos no peitoral do guerreiro. – Eu te amo, isso nunca me passou pela cabeça! Eu te amo desde sempre, meu querido. Eu sempre serei sua!
Ele suspirou fechando os olhos. – Tudo bem. – E ela o abraçou.
Naquele momento o barulho do elevador se faz ouvir e em poucos segundos Tony chegou ao ambiente vendo a cena do casal abraçado. – Ora, ora, que cena romântica. Estou atrapalhando algo? Espero que sim. – E seu olhar se dirigiu para a garrafa em cima da mesa. – Oh, céus, meu vinho caro... Isso é um Romanée! E vocês estão tomando em copos! – Tony rosnou e foi até a geladeira. – Onde estão todas as comidas que tinham aqui?
—Acabaram, é óbvio, — disse Sif com cabeça erguida. – Você precisa de serviçais aqui.
Ele respirou fundo tentando manter o autocontrole. – Jarvis, peça para o serviço de entregas fazer a reposição de sempre, mas o triplo, desta vez. E cinco vezes em cerveja. E seis vezes em carnes, da variação de sempre.
—Sim, senhor.
Ele fechou a geladeira e se voltou para o casal. – O que houve aqui? — disse apontando para o copo despedaçado. – Aqui cada um limpa sua bagunça.
—Stark, como está Loki? – perguntou Thor ansioso. – Ele acordou?
—Não, ele não acordou, — respondeu procurando uma pá. – Está estavelmente mau, isso é uma boa notícia? Talvez. – E começou a recolher os cacos do chão.
—Quando estabelecermos contato com Asgard o levarei comigo. Ele não vai sobreviver aqui.
Tony pegou um rolo de papel toalha e começou a enxugar o chão. – Não seria mais fácil libertá-lo das pulseiras, caro guerreiro? Droga, uma porra de caco de vidro, — disse tentado arrancar o pedaço do seu dedo. – Mas sei que esse pensamento é complexo demais para seu cérebro real.
—Eu não posso libertá-lo, Stark, sabe disso. Tenho obrigações que vão além de meus desejos.
Tony soltou uma gargalhada. – Acho que andou se esquecendo disso algumas vezes.
—Cuidado com suas palavras, mortal, — disse Sif enfurecida. – Thor é o futuro rei de Asgard e líder de todos os reinos, inclusive desse daqui.
—Devo temer o que dele? Que me jogue num calabouço? Que eu seja arremessado num torneio de luta com homens e tigres? Tão Idade Média...
—Não é má ideia, senhor Stark, — disse Sif com um sorriso.
Ele terminou a limpeza ignorando a guerreira. -Tenho novidades pra você, Thor. Fury veio falar comigo. Dentre outros assuntos, ele achou interessante fazer experimentos com Loki, aproveitar que ele está debilitado e sem oferecer resistência.
Os olhos de Thor imediatamente escureceram. – Como ousam? – Na mesma hora ele esticou seu braço e seu martelo, vindo não se sabe de onde, foi até sua mão. – Eles pensam que meu irmão é algum animal?
—Não, apenas um alienígena e ótima fonte de descobertas. Farão testes, espetarão agulhas, e, no final, partirão sua carne para avaliação. Não é provável que sobreviva. – E fez uma pausa. – Final nada diferente do que acontecerá em breve.
—Mais um motivo para que eu leve meu irmão de volta.
—Como, He-Man? Já conseguiu o passaporte de volta?
Thor rosnou. – Não zombe dessas coisas. Asgard pode estar em perigo.
—Eu respeito isso, só não posso aceitar que você deixe Loki, seu irmão, morrer para cumprir ordens absurdas do seu rei. Não faz sentido obedecer nessas circunstâncias! Estamos em um momento de exceção!
—Thor, — disse Sif em pânico, — não ouça esse mortal! Ele quer te enganar! Loki é vingativo, com os poderes de volta ele se voltará contra você!
—Eu não temo meu irmão, e sim a desonra perante meu rei e pai.
Tony quase rolou os olhos. – Desonra maior será Loki morrendo com a solução em mãos. – Ele foi até o armário e pegou um pacote de bolachas. – Não acredito, que sorte a minha, sobrou um pacote! – Também achou uma caixinha de suco perdida numa gaveta. – Sim, agora desjejum completo. Se me deem licença, vou comer no meu quarto. E pense rápido no que falei. O nosso tempo é curto.
Stark pegou novamente o elevador, indo direto ao andar da enfermaria. Lá, viu que Banner havia permanecido com os outros dois. Natasha mexia em seu smartphone com expressão preocupada.
—Tony, – disse Banner se aproximando dele com testa franzida. – Está com uma cara bem preocupada... aconteceu algo? Algo além do que já temos?
Naquele momento ouviram um gemido vindo de Loki: ele se mexeu levemente, com uma expressão de dor em seu rosto. Um dos médicos veio rapidamente e aplicou pelo acesso mais remédio. – Um calmante para ele, — explicou o doutor. – Talvez faça efeito e ele fique bem.
Steve suspirou pesadamente. – Ele está sofrendo tanto! Tantas dores...!
Natasha havia se erguido e se aproximado do príncipe. – Ele é forte, Steve. Como você mesmo disse, ele já passou por coisas piores.
Tony permaneceu em silêncio, com olhar vago. Ele precisava agir, mas não sabia o que fazer. Havia Banner. Havia Loki. E havia todo o resto pra pensar. Precisavam escapar dali em segurança, incógnitos, e ir para um abrigo. Ou permanecerem e enfrentar o mundo inteiro.
—Stark, estou ficando preocupado com sua cara! – disse Bruce segurando no braço dele. – O que está acontecendo?
—Deixe-o, Bruce, — pediu Natasha. – Fury está exigindo algumas explicações sobre Loki, sobre a bagunça que Nova York se tornou novamente.
O doutor empalideceu. – Entendo... é por minha causa? Por causa de Hulk? Loki não tem culpa de nada!
—Tem sim, de certa forma, — respondeu a espiã. – Ele atraiu os Chitauri. Que atraiu Hulk. E aqui estamos nós.
Steve franziu a testa. – Fury esteve aqui?
—Sim, esteve, — disse Tony finalmente falando. – Ele quer algumas cabeças.
Banner cruzou os braços e deu um sorriso irônico. – Seria a minha cabeça, não é? E a do Loki. Penso em que pesadelo ele conseguiria isso, deter o Hulk ou mesmo desafiar Thor por conta do irmão.
—Seria uma proeza e tanto... – murmurou Tony. – Vamos todos ao meu escritório para uma reunião. Steve pode ficar com Loki.
No escritório, Bruce foi direto: -Conte em detalhes tudo que está acontecendo, Tony.
—Tudo bem, mas só peço que mantenha o Popeye turbinado quieto. Não terei tempo para reconstruir a Torre dos Vingadores. Jarvis, mostre o canal de notícias.
—Sim, senhor.
A grande tela na parede se acende, sintonizando rapidamente imagens da população revoltada com os novos ataques à cidade. A reportagem muda para a transmissão ao vivo, mostrando a entrada da Torre Stark e uma multidão considerável exigindo justiça com cartazes à mostra.
Banner suspirou pesadamente, e começou a andar de um lado para outro, tentando se conter. – Eu sou um problema. Isso é fato.
—Não é você, Bruce... – disse Natasha.
—Eu sou Hulk. Hulk sou eu, — disse ele cansado. – Aquela porcaria de laboratório, aquelas experiências... Tudo inútil! Eu nunca descobrirei como me livrar dele!
—Um pouco de paciência, amigão, — disse Tony. – Nós chamaremos mais cientistas, vamos desvendar essa conexão entre vocês dois e...
—Não vamos não, Tony! – gritou Bruce. – Se conseguirmos, será tarde demais. Hulk terá matado muita gente, feito muitos estragos! Eu... eu devo voltar à Índia, me esconder em algum lugar muito remoto, e tentar ser esquecido...
Natasha abriu a boca para argumentar sobre Loki, mas ela calou-se. Que direito tinha de amarrar o destino de Bruce a mais outra pessoa? Era mais um fardo a se carregar.
Tony permanecia com o olhar para suas mãos. Um inferno tudo aquilo, realmente. Com a fuga de Banner em breve, Loki estaria à mercê de Thor. E tudo acabaria. Novamente. Esses volteios emocionais o estavam deixando exausto.
—Eu sei o que estão pensando, — disse o cientista parando no meio da sala. – Loki. Vocês vão precisar protegê-lo sem mim.
O engenheiro foi até seu minibar pegar um uísque, mas, ao olhar para seu copo com a bebida, hesitou: seu fígado já estava protestando. – Bom, definição de inferno sendo atualizada. – E despejou o conteúdo do copo na pia. – Logo teremos a dupla não-sou-gay Thor e Fandral exigindo algo, que entreguemos Loki e mais um pacote de salgadinhos. Talvez dois pacotes. Precisarei rever meu estoque, não dobrei a quantidade para esse item.
Natasha cruzou os braços. – Eles se viram sem salgadinhos, Tony.
Bruce espremeu as mãos, num autocontrole frágil. – Vou até meu quarto descansar um pouco. Preciso esfriar a cabeça com urgência.
—Entendemos, Bruce, — disse ela. – Quando estiver pronto voltaremos a conversar.
Ele assentiu e saiu rapidamente pela porta, quase se esbarrando em Barton. – Ora, ora, então achei vocês. – Bruce o ignorou e se dirigiu ao elevador.
—Barton? – Natasha havia franzido a testa. – O que faz aqui? Não estava em missão?
—Fui convocado para ficar aqui, na Torre Stark, — respondeu com ironia. – Onde está a donzela em perigo?
—Loki está na enfermaria, — respondeu Tony. – Ele ficará bem, esperemos.
Clint deu um sorriso maldoso. – Loki bem significa cidade em perigo. Já deviam saber disso.
—Fury o mandou aqui? – perguntou o engenheiro sem esconder a raiva. – O serviço sujo sempre cabe ao gavião? Pensei que fossem os urubus que comessem a carniça.
O sorriso do arqueiro se desfez e ele olhou para Natasha. – Vocês estão envolvidos demais. Precisam se afastar desse caso. Estão se comprometendo além do bom-senso. – E se voltou para Tony. – E onde está aquele Homem de Ferro que conhecia, que faria Loki ir direto para o inferno? Que não deixaria Thor e sua gangue invadir e se instalar na Torre? Amoleceu, Stark, é o que eu digo. Seria idade? Ou a falta de Pepper?
Tony se aproximou rapidamente dele o encarando. Barton deu outro sorriso de lado e o encarou também. – Não ouse citar esse nome aqui. Você não tem permissão! — disse Stark entredentes.
—Não tenho? Ora, Stark, todos sabemos que desde que ela o largou você tem decaído. E muito. Abandonou suas armas, não cria nada novo! Agora tem uma nova distração: o príncipe alienígena. Tenho que contar uma novidade, caso não saiba: ele vai embora. Quer queira, quer não. Não há chances de ele ficar e formar uma linda família com você.
—Clint, já chega! – gritou a espiã se pondo entre os dois. – Não precisamos de seus conselhos, já temos ciência do que nos espera.
Tony recuou até a janela, olhando para o lado de fora.
—Tudo bem, eu passei dos limites. Mas é muito absurda essa defesa por aquele assassino. Ele deve voltar com o grandalhão pra Nárnia e que se dane o que acontecer com ele lá. Não é da nossa conta! Nossa responsabilidade, Tony, é com nosso mundo! Há Chitauri invadindo novamente, devemos nos focar nisso, em encontra-los e liquidá-los. Entenderam? – Barton estava com rosto vermelho de excitação raivosa. – Se essa não for a ação dos Vingadores, devo considerar como traidores da pátria. Nada menos que isso. – E ele se retirou, batendo a porta com força.
—Tony... – começou Nat, sendo logo interrompida.
—Não, não fale nada. Deixe-me ficar a sós. – Ele se virou pra ela com expressão séria. – Vá ver o que nosso defensor número um da pátria foi fazer. Creio que é capaz de enfiar uma estaca no coração de Loki. Sim, ele vai confundir as séries...
Ela abriu a boca mais uma vez, porém resolveu se calar. Assentiu levemente com a cabeça e se retirou, deixando o engenheiro a sós.
~o ~
Clint chegou a enfermaria e viu Steve sozinho com o enfermo. Controlando a irritação, ele se aproximou do capitão. – Como vai, Rogers? Ele está melhorando?
Steve negou com a cabeça. – Eu não sei dizer, na verdade. Isso seria o processo normal de recuperação da raça dele? É confuso.
O gavião deu um meio sorriso de solidariedade. – Se quiser, eu fico aqui um pouco com ele. Vá tomar um café ou qualquer coisa. Você precisa.
O soldado olhou a sua volta como se despertasse e notou que estava já há muito tempo ali. – Acho que tem razão. Vou fazer um café. Vai querer um?
—Pode deixar, já tomei um na rua, a caminho daqui.
Steve deu uma última olhada no príncipe e saiu da enfermaria. Quando Barton ouviu o barulho do elevador se fechar, ele se voltou para Loki. – Bom, acho que estamos a sós.
Um dos médicos adentrou o recinto e cumprimentou o agente. Ele fez algumas medições e depois se retirou. Clint retirou cuidadosamente do seu bolso uma seringa cheia de um líquido esverdeado. Ele retirou a tampa e rapidamente enfiou no braço do príncipe, despejando todo seu líquido dentro do jotun, retirando e devolvendo ao bolso logo depois. Alguns segundos depois o medidor cardíaco começou a apitar e toda a equipe médica veio correndo para o leito do rapaz. – O que aconteceu? – perguntou um ao agente.
—Eu não sei, estava aqui o observando quando de repente isso.
Uma das médicas veio com uma caixa cheia de medicamentos e algumas caixas de seringas. Outro pegou o material e começou a encher com medicação. – Rápido, — alguém disse, — estamos perdendo ele.
Barton se afastou e ficou a porta observando o desenrolar dos acontecimentos. Ele olhou para o seu relógio e aguardou. – Acorde, pequeno príncipe, — sussurrou. – O que te dei daria para acordar um elefante.
—Ele está se mexendo! Está sem ar!
E Clint sorriu.
Fale com o autor