Redenção

5 De volta para Midgard


Thor esperava no grande pátio do topo junto a Fandral, Volstagg e Sif. O guerreiro andava de um lado para outro impaciente, não ousando, no entanto, invadir a Torre Stark. Ele sabia de seus limites, a não ser que quisesse começar uma guerra.

—Eles foram informados que estamos aqui, — disse Thor rosnando. – Será que escondem Loki?

Sif olhou para o céu. – Está escuro ainda, Thor. O tempo aqui não é sincronizado com nosso reino. Tenha paciência.

—Deve ser madrugada agora, — disse Fandral tentando amenizar o temperamento do amigo.

—Será que eles têm comida aí? – falou Volstagg colocando a mão na barriga.

—Eu disse para você ter comido uma terceira rodada, — falou a guerreira com expressão séria. – Tente não acabar com o estoque deles.

A primeira pessoa que despontou no pátio foi Steve. – Oi, Thor, como vai? – e apertou a mão dele. – Como vão?

Naquele momento chegaram Bruce e Tony, e por última Natasha.

— Thor, que surpresa! – cumprimentou Tony com um sorriso sarcástico.

—Como vai, filho de Stark, — disse o guerreiro sem entusiasmo.

Natasha observou que, além dos habituais guerreiros, havia uma mulher muito alta e forte com eles. Ela era muito bonita, seus cabelos escuros eram compridos e lisos até a cintura, presos em um rabo de cavalo elaborado, e tinha uma estola rústica de pele cinza em seus ombros.

— Temos alguém novo em sua comitiva, Thor?

—Sim, claro, Lady Natasha. Essa é Lady Sif, também da guarda especial do palácio. A única mulher guerreira de toda Asgard.

Sif ergueu o queixo e sorriu a todos. – Tenho um imenso prazer em conhecê-los. Thor fala muito de todos. Sou a noiva dele, futura rainha de Asgard.

—Oh, — disse Tony espantado. – Thor não nos disse nada. Parabéns...

Thor abaixou a cabeça em silêncio estranho. Fandral pigarreou. – O casamento será em breve. Que tenham muitos herdeiros!

—Que tenham! – repetiu Volstagg.

Natasha balançou a cabeça em cumprimento, mas nada disse. Steve e Bruce também parabenizaram. Sif olhava a todos ainda de cabeça erguida.

Banner mudou de assunto: – Thor, creio que você deve ter conhecido nossa convocação.

Ele assentiu. – Sim, caro Bruce. Heimdall, nosso guardião, me alertou. O meu pai me autorizou para voltarmos ao seu reino para atendê-los.

—Já decidiram alguma coisa? – perguntou logo Tony.

—Ainda não, o conselho está refletindo sobre o assunto. Há muitas coisas a considerar.

—Agradecemos por ter atendido nosso apelo, — disse Natasha. – Eu gostaria de conversar com você a sós, se for possível.

Escolheram uma sala de reunião em outro andar cedido por Tony. Todo o resto foi ao andar da cozinha para prepararem um café da manhã reforçado naquele dia que nascia.

Natasha sentou-se em um sofá, em frente a uma grande TV e convidou o asgardiano a fazer o mesmo. – Thor, gostaria que visse um vídeo que gravamos de seu irmão durante um pesadelo. Depois podemos conversar sobre o que verá. Jarvis, por favor.

A grande tela de TV ligou e as imagens do pesadelo de Loki começaram a passar diante deles. Natasha percebeu o quanto Thor estava desconfortável, ansioso para que aquilo terminasse logo. Ela parou antes da entrada de Tony. – Não entendo o que isso significa, Lady Natasha.

—Vou ser direta com você, Thor. Loki foi abusado por alguém em Asgard?

Thor empalideceu e se ergueu, indo em direção a janela. Raios começaram a atravessar os céus e trovões ribombaram pelos ares. –Não sei o que quer dizer com isso. Temos leis rígidas em Asgard e ninguém ousaria tocar em um príncipe. A punição seria execução pública. – Ele se virou para ela ainda pálido. – Talvez seja Thanos. O que se passou entre eles não foi revelado pela minha mãe nem por Lady Freya. Apenas fomos informados que ele foi controlado.

Natasha observava o guerreiro atentamente. – Por que ele tentou se matar, Thor? Obviamente que houve um problema antes de Thanos.

—Isso é assunto de Asgard, Lady Natasha, — rosnou ele irritado.

—Ele não será liberado enquanto não tivermos tudo esclarecido. E eu quero que saiba, Thor, que não espalharemos os segredos de Asgard, será somente entre nós, os vingadores.

Hesitante, ele espremeu as mãos. – Nós tivemos um problema com meu irmão. Loki é um assassino. Matou cinco de nossos melhores guerreiros. Por isso deve voltar e cumprir sua sentença.

Ela engasgou. -Como?

—Sim, Lady. E ele fez isso sem sua magia! Penso no grande prejuízo que ele trará se liberarmos as pulseiras. Ele é muito perigoso...

Ela soltou a respiração que segurava. – Por que não nos disse antes?

—Já disse, isso é assunto de Asgard e...

—Thor, já chega! Qual foi o motivo dos assassinatos? Pare de omitir os fatos!

Thor segurava seu martelo agora e o ergueu com ódio. – Tem sorte de ser uma mulher, Lady. Por muito menos homens sentiram o peso de meu martelo!

—Eu não tenho medo, — arriscou. – O que temo, Thor, é que uma injustiça seja feita e que nós poderemos sacrificar a vida de alguém inocente. Isso não te incomoda?

O silêncio da sala só era quebrado pela forte respiração do asgardiano, que abaixou o martelo. Natasha chegou a pensar que ele iria desabar em choro, mas Thor se conteve. – Eu sou um guerreiro e devo obedecer a ordens. Eu devo obedecer ao meu rei.

—É ele que não quer que você conte a verdade? – Thor assentiu levemente. – Loki é seu irmão, mesmo que não seja de sangue. Isso não pesa para você? – E cutucou mais ainda. – Ele não significa nada para você?

Ele suspirou e pôs a mão no rosto cansado. – Ninguém ama mais meu irmão do que eu, Lady. Ele ficará seguro perto de mim, mesmo em cadeias.

—Thor, ele não estava seguro! Ele tentou se matar e, pelo que entendi, matou guerreiros por algum motivo forte. Foram eles que abusaram dele?

Thor ergueu o rosto em fúria. – Se tivessem encostado um dedo nele, eu mesmo os mataria!

—O que você esconde, Thor? – empurrou a espiã. – O que fizeram com ele? Qual o motivo dos assassinatos?

Thor voltou a se sentar e encostou o martelo ao lado, agora colocando as duas mãos no rosto, em grande dúvida. Se ele falasse... Talvez algo se aliviaria. – Loki era noivo. Ou é, ainda.

Alguma coisa, finalmente. – Onde está a noiva dele?

—Ela caiu em desgraça, Lady. Era uma jovem da nobreza. Seu nome é Sigyn, filha do falecido general de Asgard, Björn. Uma das jovens mais lindas do reino.

Natasha assentia com a cabeça para incentivá-lo a contar mais. – E onde ela está agora? – insistiu.

—Não sabemos. Ele fugiu com ela após os assassinatos.

—Ela tem a ver com isso? Com a morte dos guerreiros?

—Sim. Eles é que abusaram dela. Foram eles...! – Thor bateu com força no braço do sofá, que afundou com a batida. – Loki estava fora, perdido com Thanos, e ela estava desprotegida em Asgard. Quando ele retornou em cadeias, soube na prisão o que acontecera. Fugiu e matou os guerreiros. Loki pendurou um a um nas portas do palácio, empalados, e com as barrigas abertas. Foi um escândalo. Depois soubemos que após isso ele foi até Sigyn e ambos fugiram.

Pela primeira vez Natasha sentiu suas palavras faltarem. Ela olhava pasma para o guerreiro a sua frente. – Por que ele fugiu da cadeia, se ele seria solto?

Thor não respondeu, olhando fixamente para o chão.

—Thor? Ele não seria solto?

Ele suspirou. – Meu pai não tem tanta certeza da inocência dele. Ele sempre achou Loki perigoso e o que ele fez só confirmou isso.

—Mas sua mãe não tinha provado isso? Com outra que esqueci o nome?

—Lady Freya é o nome. – Ele tinha uma expressão desolada. – Meu pai coloca as funções de rei acima de tudo e é elogiado por isso. Ele é rei antes de ser pai.

Natasha ergueu a sobrancelha e soltou um suspiro exasperado. – Seu pai sabia, não sabia? O rei sabia o que eles tinham feito, por isso não o soltou?

Thor espremeu as mãos no cabo do martelo e resolveu não responder.

—E Loki também será condenado pelo que fez? Os guerreiros não seriam punidos?

—Não punimos por esse tipo de coisa. Mulheres não têm direitos em Asgard, sobretudo se não for da nobreza.

—Você disse que ela era da nobreza, filha de um general...

—Ela era. Como disse, caiu em desgraça e saiu do palácio. Loki tinha desaparecido então ela estava sozinha, sem proteção.

—Por que não a protegeu, Thor? – sua voz a traiu, saindo mais frágil do que queria.

Ele abaixou a cabeça envergonhado. – Eu não sei...

—Acho que sabe sim.

Thor mordeu os lábios e sua voz saiu amarga. – Ela caiu em desgraça. Não podemos ter contato com pessoas assim.

—E como ela caiu em desgraça?

—Não posso contar. É segredo real.

Natasha respirou fundo, tentando recuperar o autocontrole. – Ela caiu em desgraça por causa de Loki? Ele estava preso, afinal.

—Não posso dizer, Lady Natasha. – Ele bufou, e contrariado disse: – Ela não era boa para ele. Ela iria me afastar do meu irmão.

Natasha suspirou, tentando controlar sua exasperação. -Você gosta muito de seu irmão, não é mesmo? Muito mesmo...

Ele ergueu os olhos e Natasha teve a confirmação que precisava. – Tudo bem, Thor. Isso acontece.

—Isso é vergonhoso, — afirmou em voz muito baixa.

—Por que ele tentou se matar? Foi por isso?

—Não! Não... – Thor foi novamente até a janela e uma grande tempestade caía lá fora, trovões e raios desfilavam no céu. Demorou um tempo até que ele voltou a falar. – Eu sei que é difícil acreditar, mas Loki é a pessoa mais adorável que existe. Quando estávamos em paz, o sorriso dele iluminava toda a vida. Tão inteligente, espirituoso, elegante...

—E bonito. Muito bonito.

Ele sorriu fracamente. – Sim, muito. Cada pedaço dele.

Ela respirou fundo com a implicação daquela frase. – Vocês são ou foram amantes?

—Não, Loki nunca me amou desse jeito... E isso é passível de morte. Mesmo entre príncipes.

—Por que ele tentou se matar, Thor? Ele descobriu sobre seus sentimentos? – perguntou de novo. — Foi isso?

Thor abaixou a cabeça e a espiã viu uma lágrima saindo dos olhos dele. – Eu fiz coisas reprováveis. Que ele nunca me perdoará.

Natasha já podia adivinhar o que seria quando a porta da sala se abriu. Era Fandral. – Thor, já está um bom tempo aqui. – E ele olhou para os dois analisando o ambiente. — Vamos comer? Estão fazendo uma boa refeição.

Thor olhou para ele como se tentasse lembrar o que Fandral fazia ali, o que ele fazia ali. Ele olhou para Natasha com olhar entristecido e secou seus olhos. – Melhor comer. As coisas melhoram com a barriga cheia. – E completou com raiva. – Isso fica entre nós!

Ela ergueu a sobrancelha e eles saíram, deixando-a a sós. A chuva agora havia amenizado, mas ainda descia triste pela cidade.

~o ~

Enquanto esperavam por Thor, os guerreiros estavam na cozinha vendo os ingredientes diferentes do povo de Midgard. Volstagg apreciou muito um pacote de salgadinhos de batata. – Bem salgado, do jeito que eu gosto.

Sif analisava e não gostou das comidas exóticas. – Tem um gosto estranho, como quase tudo aqui nesse reino. Um sabor que não parece natural.

Tony sorriu para ela. – Cara Sif, vemos as coisas por outro ângulo: chegamos a um estágio de fabricar comidas, e não colhê-las em campos apenas. Chegará um tempo que não precisaremos nem de plantas nem de animais para nos alimentar. – Ele piscou para Banner. – Os vegetarianos vão me amar depois dessa.

—E ficaremos todos doentes, Tony, — afirmou Bruce enquanto ria. – Lady Sif tem razão em estranhar essa comida.

—Não estrague meu discurso, penso em entrar para o ramo alimentício. Está dando muito dinheiro.

—E você precisa de mais dinheiro para?

—Faz muito tempo, caro Bruce, que sou bilionário. Preciso subir de nível.

Steve rolou os olhos enquanto comia um sanduíche.

—É muito importante um homem não se acomodar, — disse Sif olhando fixamente para Stark. – Um homem poderoso sempre age dessa forma.

Tony sorriu para ela encantado. – Não é mesmo? Sempre atento às oportunidades. – E a mediu dos pés a cabeça.

Steve se sentiu desconfortável com o que via e se afastou um pouco dos dois. Bruce o acompanhou, evitando ser testemunha de qualquer coisa.

—Filho de Stark, — disse ela quando ficaram mais afastados de todos – gostaria de aproveitar o momento e lhe fazer uma petição.

—Qualquer coisa, Lady Sif! E me chame de Tony...

—Queria ver Loki. Nós sempre fomos muito amigos e sinto falta dele. Onde ele está?

—Oh, vocês eram amigos? Isso é muito bom, ele é um cara muito antissocial. Fico espantado com isso, que ele tenha amigos. Ele nunca falou da senhora.

—Oh, sim, — ela riu. — Ele é muito arredio. Mas ficará feliz em me ver.

O engenheiro prontamente a levou até o quarto dele. Sif ainda sorria. – Poderia entrar a sós, Tony? Quero ter uma conversa privada com ele. Coisas de melhores amigos.

—Claro, claro. Qualquer coisa, chame pelo Jarvis e ele lhe indicará o caminho de volta.

Ela agradeceu e, quando ele se afastou, abriu a porta do quarto do rapaz. Loki estava olhando pela janela, observando a tempestade que caía. Ele suspirava com aflição: sabia o que significava aquilo. Que ele tinha voltado.

—Como vai, jotun?

Loki virou-se rapidamente ao ouvir a voz e viu a figura odiada de Sif. – Ora, e não é que Thor trouxe a amante junto.

Ela avaliou o estado dele. – Vejo que emagreceu. Não foi boa a estadia com Thanos?

—Ele não é muito hospitaleiro. Obrigado pela preocupação.

—Está sem sua magia novamente. Por que não está azul?

Loki conteve sua raiva. – A magia de Odin é mais forte.

—Em breve ele a desfará e todos verão o que é realmente: um monstro.

Loki foi até a sua cama e se sentou na beirada. – O que faz, Lady Sif, visitando um monstro?

—Lembrar-lhe seu lugar, ergi.

Ele se ergueu rapidamente e tentou desferir um golpe nela, o que foi logo defendido com um contragolpe. – Fraco. Sempre foi. – E mais um golpe no estômago dele. – Você sabe para o que serve, de verdade.

Loki se afastou dela com dor e ficaram ambos se medindo. – Eu matei cinco guerreiros sem minha magia. Quer experimentar como foi?

—Com certeza foi com truques. Deve ter prometido prazeres a eles. – A voz dela derramava veneno.

Ele sabia que não a conseguiria derrotar sem alguma arma. Sif era bem treinada, Loki não seria páreo para ela. Não ainda.

—Fico pensando, Loki, porque não foi até suas duas famílias. Jotuns ou elfos. Eles não o querem? Foi por isso que ficou vagando aqui em Midgard, uma terra sem tradição, sem nada? Ou porque só aqui consegue ser alguma coisa? Soube de suas curas. Está tentando se redimir ou ganhar alguma notoriedade?

Loki ficou em silêncio olhando para ela com desprezo.

—Você é muito tolo, Loki Laufeyson. Ou Loki o que mesmo? Artanisson?

—Sabe, Sif, reservarei para você uma vingança muito especial. O que aconteceu com seus cabelos foi coisa de criança. Agora somos adultos e o nível deve subir, não é mesmo?

Ela respirou profundamente e começou a rir. – Como, Loki? Não tem magia, não tem nada! Logo será preso! Nossos guardas estão ansiosos por sua volta. Você matou os amigos deles, lembra? Prepare-se para ser a diversão de todos.

Ele permaneceu em silêncio, olhando para ela em desafio. Sif ainda sorria. – E eu vou assistir a tudo de perto. Assim não se sentirá sozinho. – E saiu da sala em passos firmes. No corredor, chamou por Jarvis, que a orientou onde deveria seguir para voltar aos amigos.

Loki soltou um longo suspiro e sentiu suas mãos tremerem de raiva. Um desespero subiu até sua garganta e ele se sentiu sufocar. Não poderia voltar. Ela iria cumprir suas promessas. E, se não fosse ela, seria... ele. Não havia saída.

Depois de um tempo, Loki seguiu para o banheiro e tomou um longo banho escaldante.

~o ~

Natasha caminhou até ao escritório de Stark e com ela estava Bruce. Ela trancou a porta e pediu que Jarvis rodasse a gravação em vídeo da conversa que teve com Thor.

—Sim, senhora.

Bruce assistiu com atenção e em diversas partes abria a boca em espanto, mas nada disse até o fim da gravação. – Que horrível. Está pensando o mesmo que eu?

Ela balançou a cabeça. – Sim, estou. Isso nos dá mais motivos para não entregar Loki. Eu não sei o que acontecerá a ele em Asgard.

—E também não podemos soltá-lo ou tentar libertá-lo, pois temos dúvidas do que ele faz aqui. É uma situação difícil.

—Precisamos de mais informações, Bruce. Falta alguma coisa.

—Como o quê?

—Mais verdade.

Steve bateu na porta e Natasha destrancou a sala, pedindo a Jarvis que rodasse novamente a gravação. Ao final, o capitão pendeu a cabeça em silêncio.

—Steve?

Ele balançou a cabeça em desgosto. – Isso é inaceitável. Que bagunça é a vida dele! É como um joguete nas mãos deles! Isso tem que acabar! E Thor não está noivo?

Bruce caminhava de um lado para outro tentando manter a calma. – Eu preciso tomar um ar, Nat. Eu sinto muito! – E se retirou rapidamente.

—Onde está Tony?

—Está com a amiga de Thor, — disse Steve. – Ele está encantado com ela.

—Imagino, — disse com impaciência. – Eu vou ver Loki, ele não subiu para tomar seu desjejum.

—Deixa que eu vou, acho melhor você chamar Tony para ver o vídeo. – E ele saiu.

Natasha ainda ficou um bom tempo olhando para o nada e reorganizando as ideias. Depois foi ao mini bar instalado num canto da sala e tomou vários drinks. – Hum, isso tem um efeito bom, — murmurou para si.

Steve chegou rapidamente ao quarto do rapaz e ouviu o barulho do chuveiro. Sem pensar muito, abriu a porta do banheiro e viu Loki parado debaixo da ducha, o vapor quente tomando todo o ambiente. – Loki?

O outro não respondeu, e o capitão notou que ele estava de olhos fechados e a pele bastante vermelha. Steve correu para desligar a água e isso despertou o argadiano. – O que faz aqui? – E tentou se cobrir.

—Sinto muito... E-eu só quero ajudar... – E abaixou o olhar pelo corpo do outro.

—SAIA! AGORA!

Steve ficou atônito e fez o que foi ordenado, saindo e fechando a porta do banheiro. Ele respirou fundo, confuso consigo mesmo, e foi até a janela para se acalmar. A imagem do que notara passou pela sua mente e ele fechou os olhos em agonia. Deus!...

Depois de um tempo Loki saiu do banheiro vestindo seu roupão toalha e secando os cabelos, e observou que Steve ainda estava lá. Suspiro. – O que faz aqui, capitão? Além de me espionar, é claro.

—Loki, eu não quis invadir sua privacidade, eu sinto muito! – Disse muito vermelho.

—O que queria então, Rogers?

—Apenas chama-lo para o desjejum. Thor e seus amigos estão aí e...

—Não vou subir. Obrigado.

Steve mordeu os lábios. É claro que Loki não iria querer. – Eu posso trazer aqui para você. O que gostaria?

Loki ergueu a sobrancelha. – Traria? Para mim? – E ele foi se aproximando do capitão com desconfiança. – Por quê?

Steve sentiu seu coração bater forte. – P-porque você precisa comer, e é nosso convidado.

O rapaz se aproximou mais e olhou bem nos olhos do capitão, seus grandes olhos verdes. – Tudo bem. Eu agradeço.

O outro soltou a respiração que nem notara que havia prendido e foi caminhando rapidamente para buscar o desjejum do asgardiano. Loki ficou um tempo pensativo sobre o comportamento do capitão.

Steve voltou logo e lhe trouxe diversas iguarias como pães, queijos, leite morno, chocolate, entre outras coisas, tudo numa bandeja. Loki aceitou tudo e comeu devagar, saboreando cada item como se fossem únicas. Não confessou que achou o pão seco, o queijo salgado demais, o leite sem gosto, salvando-se apenas o chocolate, iguaria predileta dele. – Obrigado, você é muito gentil. Sempre foi assim?

O capitão sorriu ruborizado. – Gentileza deveria ser obrigação de cada ser humano, Loki. É isso que eu penso. – E suspirou. As frases de Thor ainda ecoavam em seus ouvidos. – Mas vivemos tempos difíceis, duros. Na minha época tudo era mais delicado, talvez.

—Eu compreendo. Tem família? – perguntou enquanto comia mais um tablete de chocolate.

—Eu tive. Joseph e Sarah Rogers, meus pais. Eles morreram há muito tempo...

—Eu sinto muito.

—Tudo bem. Às vezes penso que foi em outra vida, sabe, eles, minha vida antes do soro. Eu era muito magro e pequeno.

—Eu soube, pela mente de Barton. Mas não consigo imaginá-lo assim.

Steve sorriu timidamente para ele. – É como imaginar as magias de vocês, se não visse, seria difícil imaginar que tanta coisa assim exista.

—É a coisa mais bela que existe, a magia. Sinto falta dela, como se parte de mim tivesse sido extirpado. Daria tudo para tê-la de volta, para me sentir completo de novo. – E Loki olhou para ele com olhos brilhantes e tristes.

Steve engoliu em seco. – Eu entendo. Estamos em negociação com Thor, eu creio que no fim tudo dará certo. Devemos ser persistentes.

—É claro.

O capitão ficou olhando por um tempo para o rapaz e imaginando todo sofrimento que ele tinha passado. E parecia que havia mais coisas. Como um pai poderia ser tão cruel? E por que Thor era tão conivente? Loki olhou para ele interrogativamente, constrangido com o olhar do outro. – Algum problema, capitão?

Steve sorriu, balançando a cabeça, e se retirou do quarto quando Loki terminou seu desjejum. Loki se esticou na cama e fechou os olhos. As palavras duras de Sif ecoaram em sua mente e Loki fechou os olhos de ódio. Fugir, fugir, fugir. Ele sabia que logo mais seu irmão iria até ele. Só torcia para que não viesse sozinho, que trouxesse o idiota do Fandral ou Volstagg. Assim estaria razoavelmente seguro. Só assim.

~o ~

Não demorou muito para que Thor exigisse ver o irmão. Natasha foi a que mais se opôs. – Thor, depois de nossa conversa...

—Ele é meu irmão, tenho o direito de vê-lo! – E olhou para todos em desafio. – Quem me impedirá?

Bruce havia saído e Steve e Tony deveriam fazer o bloqueio, porém... Era inútil. Thor ainda tinha direito.

Barton chegou naquele momento na Torre. – Voltou, Thor? – E ele cumprimentou a todos. – Por favor, me diga que levará seu irmão!

—Barton... – pediu Natasha sem paciência.

—Ele tem um fã clube aqui, — disse o arqueiro com ironia, — mas eu não compro isso. Estou contigo, Thor.

—Fico feliz que meu irmão tem agradado.

Barton soltou uma risada. – Agradado? Ele é muito arrogante e desagradável, mas estou achando que o pessoal aqui é masoquista.

Sif sorriu. – Loki é uma aberração. E aberrações devem ser encarceradas.

Tony franziu a testa. – Espera... Não era grande amiga dele?

—Eu verei meu irmão agora, Stark. – Avisou o guerreiro. – Libere meu acesso!

Tony suspirou e avisou a Jarvis. Natasha cruzou os braços insatisfeita. – Você irá sozinho? – perguntou ela

—Não tenho medo de Loki, Lady Natasha. – E ele foi até o elevador.

—Não é ele o problema... – murmurou ela.

—Eu vou com você! – disse Sif em voz alta e correndo em direção a ele. Porém, um olhar de Thor a paralisou e o guerreiro entrou no elevador e partiu.

Enquanto todos foram conversar na sala, com um Barton particularmente animado, a espiã retornou ao escritório de Tony. – Jarvis, mostre o quarto de Loki.

—Sim, senhora.

A imagem da TV mostrou o quarto do hóspede, porém estava vazia. Ela ainda viu Thor entrar no quarto e procurar pelo irmão por todos os cantos, inclusive no banheiro. – Jarvis, onde está Loki?

—O senhor Loki está na biblioteca, entretido com um livro em especial.

—Mostre.

A imagem se alterou para um ambiente cheio de estantes e mesa. E lá estava Loki, sentado, folheando um grande livro. Ela notou que a expressão dele estava bastante carregada e triste. – Aconteceu algo com Loki, Jarvis?

—Aconteceram várias coisas com senhor Loki.

—Sabia!...

—Mas como acontece com todos, senhora. Há algo específico que deseja saber?

Ela bufou. – Alguém foi ao quarto dele hoje?

—O senhor Rogers trouxe comida numa bandeja para ele.

Claro, era verdade. Steve havia falado sobre isso. Ela sorriu para si imaginando a cena.

—E senhora Sif, um pouco antes do capitão.

Natasha franziu a testa. – Como?

—Ela veio visitar o senhor Loki.

—Jarvis, mostre-me o vídeo desse encontro.

Naquele momento, a imagem de Thor estava adentrando a biblioteca quando tudo mudou para o vídeo de Sif com o príncipe.

—Vamos ver o que aconteceu, — disse para si mesma.