Redenção
17 Capítulo 16
Notas iniciais
POV OLIVER
Observei o rosto inexpressivo de Felicity e tentei o máximo possível manter minha língua quieta e lhe dar o tempo que precisava para digerir todo o lance de mãe aparecendo após anos sem vê-la. Eu realmente tentei.
Emiti um suspiro impaciente e audível após conseguir resistir cinco minutos.
— Se você vai ficar parado e me encarando que faça isso em silêncio. – Murmurou me lançando um olhar aborrecido. – E dentro da banheira. – Acrescentou recolhendo suas pernas e abraçando os joelhos. Ela havia feito isso novamente, assim como no dia em que seu pai chegou ela correu para se trancar no banheiro. Sua mãe a estava abraçando, tagarelando o quanto sentia sua falta e Felicity não conseguia abraça-la de volta, ou dizer qualquer coisa que mostrasse que ela estava ali, até que sua mãe notou sua inércia e se afastou para encara-la, então ela despertou. Ra’s tentou segurar seu braço e impedi-la de se afastar, mas Felicity estava decidida e o próprio Ra’s parecia confuso com a chegada de sua... Eu não sei como definir a relação dos dois, eu não sabia muito sobre o envolvimento, e se chegou a um relacionamento, mas Ra’s estava visivelmente abalado e Sara eu estávamos mais do que confusos com o que víamos, então foi impossível impedir Felicity de subir as escadas e deixar sua mãe para trás.
Mas eu consegui impedi-los de segui-la.
Eu sabia que ela não queria ver ninguém no momento, suspeitava que nem mesmo eu seria bem vindo, e eu respeitaria caso assim fosse, mas ainda assim eu me vi diante a porta do banheiro e chamando seu nome suavemente. Antes que ela pudesse perguntar eu disse que estava sozinho, e após alguns segundos em que julguei que ela iria sequer querer a mim por perto, ela abriu a porta. A observei recuar e entrar na banheira vazia, fechei a porta atrás de mim e por pelo menos 20 minutos fiquei encostado a porta observando-a encarar a parede a sua frente.
Até que não contive o suspiro.
— Você está bem? – Perguntei caminhando até a banheira e sentando em sua frente. Eu odiava essa pergunta. Eu odiava tanto essa pergunta, por que ela era feita quase sempre quando não estamos bem, e ainda assim erguemos nossa cabeça e dizíamos sim, mesmo quando tudo estava desmoronando ao nosso redor, mesmo quando tudo estava um verdadeiro caos, a resposta era “sim”. Não por que estávamos bem realmente, mas por que sabíamos que em algum momento ficaria, em algum momento eu teria que me erguer e lidar com o que quer que fosse. Sozinho.
Eu não queria que ela lidasse com o que quer que fosse sozinha.
Ela tinha a mim, e eu queria que ela soubesse disso.
— Princesa? – Murmurei atraindo sua atenção até que ela me encarou, seus olhos com o típico brilho de lágrimas não derramadas. Eu odiava isso também, esse brilho. – Não tem que estar bem. – Murmurei em tom suave. – Eu estou aqui, estando bem ou não. – Estendi minha mão para ela. Por alguns momentos tudo o que ela fez foi encara-la, como uma criança faz quando um adulto faz a mesma ação, julgando se deveria confiar ou não nesse estranho que lhe estende a mão. Acontece que eu não era um estranho, eu poderia lidar com qualquer coisa que ela quisesse jogar em meus ombros, mas não aceitaria que ela me encarasse como um estranho, então me movi aproximando-me dela, e puxei sua mão que estava em seu joelho. A puxei para mim, surpresa refletindo em seu rosto quando me encostei na banheira com ela em meu colo. Suas mãos segurando meus ombros com surpresa. – Assim está melhor. – Ela respirou fundo antes de encostar sua cabeça contra a minha, um suspiro pesado saindo de seus lábios.
— O que ela está fazendo aqui Oliver? – Perguntou ainda contra meu rosto, só então se afastou, apenas o suficiente para observar meu rosto enquanto aguardava minha resposta.
— Eu não sei. – Murmurei acariciando seu rosto. – Talvez seu pai saiba.
— Eu não quero conversar com nenhum dos dois. – Confessou deslizando suas mãos até minha camisa e agarrando o tecido na região do tórax, deixando seus olhos caírem lá. – Eu sei como isso soa, eu sei como isso parece. Eu corri apartamento adentro e me tranquei, como uma criança que foge dos pais, eu sei que todo mundo está me vendo como uma maldita criança mimada, eu sei que você também deve estar achando essa atitude infantil, mas é no que isso me transforma, é nisso que sua presença me transforma. Eu volto no tempo e passo a ser aquela adolescente que ela deixou para trás, eu não quero vê-la.
— Ninguém está te julgando. – Neguei. Ela ainda não me encarava, mas sua cabeça balançou em negativa, mostrando que não acreditava em mim. – Ninguém está te julgando. – Repeti. – Na verdade todo mundo está confuso, isso é tudo. E eu entendo que não queira vê-la. Você falou pouco sobre seu relacionamento com ela e seu pai, mas foi o suficiente. O suficiente para eu saber que você ainda está chateada e magoada, eu entendo que não queira vê-la. Eu realmente o faço...
— “Mas”. – Interrompeu-me. Sua cabeça finalmente se ergueu, seus olhos encontrando os meus com nítido desafio. – Vem uma “mas” não vem?
— Eu só acho que apesar de obviamente você não querer falar com ela... – Interrompi-me percebendo que talvez o que eu ia dizer fosse deixa-la irritada, e possivelmente eu seria expulso do banheiro, ainda assim vi-me falando. – Eu só acho que você deve conversar com ela.
— Não. – Veio à resposta rápida. Ela tentou recuar, mas segurei seus braços a impedindo.
— Não precisa ser agora. – Continuei. – Eu acho que antes você deveria falar com seu pai. – Ela franziu o cenho tentando me acompanhar. – Ele precisa esclarecer o que sua mãe está fazendo aqui. Talvez algo tenha acontecido. – Expliquei.
— Você acha que ela está aqui por que algo ruim aconteceu? – Perguntou séria.
— Eu acho que não dá para saber até que você tenha perguntado. – Respondi. – E como você ainda não está pronta para conversar diretamente com ela, você pode perguntar ao seu pai.
— Você está certo. – Assentiu apoiando sua cabeça em meu ombro. A fragrância de seu shampoo me envolvendo. – Mas não agora.
— Tudo bem. – Concordei. – Podemos ficar aqui e fazer nada até que você se sinta pronta.
— Eu acordei feliz. – Confessou se afastando novamente e me encarando. – Eu tinha esse cara perfeito em minha cama...
— Perfeito? – Sorri.
— Charmoso. – Continuou também sorrindo.
— Bonito. – Acrescentei com humor.
— Definitivamente. – Concordou. – Embora seja um pouco arrogante.
— Mesmo?
— Mesmo. – Sorriu. – Eu estava feliz. Com esse cara bonito, charmoso e perfeitamente arrogante. E o dia estava perfeito, por que eu estava imaginando em que momento eu poderia afasta-lo de seu melhor amigo e roubar alguns momentos a sós com ele. – Piscou. – Talvez alguns beijos e algo mais.
— Mas então sua mãe chegou. – Concluí. Ela assentiu tristemente.
— Então Donna Smoak chegou, e transformou esse dia perfeito...
— Ela não tem esse poder. – A interrompi. – Esse é o nosso dia perfeito. Só nos dois podemos estragar isso. E nenhum de nós dois quer estragar isso. – Acariciei seu pescoço e afastei seus cabelos antes de me inclinar e depositar um beijo ali. Senti seu corpo amolecer e acariciei a curva elegante com meu rosto, minha barba rala fazendo maior parte do trabalho e arrancando um suspiro seu. – Quais eram seus planos? — Perguntei contra seu ouvido. – Em nossos momentos roubados? Eu a beijaria aqui? – Perguntei deslizando meus lábios suavemente pelo ponto pulsante logo abaixo de sua orelha.
— Humm. – Ronronou.
— Talvez eu a tocasse aqui? – Perguntei roçando seu seio através da blusa com o polegar.
— Talvez. – Murmurou de volta apertando meu bíceps com força enquanto jogava sua cabeça para trás dando-me maior acesso. Afundei meus dedos em seu cabelo atraindo seu olhar até o meu. – Diga-me princesa, do que você precisa?
POV FELICITY
Abri meus olhos para encarar os de Oliver. O desejo estava ali, mais forte do que nunca, intenso, cálido e palpável. Do que eu precisava? Eu precisava disso, eu precisava me sentir perdida em seus braços fortes, precisava sentir o calor de seu corpo contra o meu, precisava de nossas roupas fora, e de nossas bocas unidas em um beijo que apenas Oliver poderia fazer com que fosse carinhoso e obsceno ao mesmo tempo. Eu precisava de Oliver.
Eu estou ou não ferrada?
Ele ainda me encarava com expectativa, seus olhos ardendo lentamente, e queimando-me com seu fogo. Ele sabia o que eu queria, ele sabia do que eu precisava, mas não seria Oliver, se ele não me forçasse a dizer, se não me empurrasse a isso, ele não daria um passo a frente se eu não estive pronta para caminhar a seu lado, e ele demonstrava isso mesmo em momentos como esse, onde uma pergunta tinha mais do que apenas um contexto, com Oliver tudo poderia partir do sexual para algo mais sério.
— Eu preciso de você. – Cedi. – Eu quero você, todo você. – Sorri arrastando minhas mãos de volta a sua camisa. – Você pode me dar isso?
— Eu sou todo seu. – Assentiu antes de voltar sua atenção para meu pescoço novamente, sua boca sugando a pele, sua língua deixando um rastro úmido, seus dentes puxando e reivindicando. Minhas mãos moveram-se impacientes por ele. Eu queria livra-lo de sua camisa, queria toca-lo, acaricia-lo, tocar seus músculos fortes e me perder no cheiro de sua pele.
— Talvez devêssemos ir até seu quarto. – Sugeri.
— Não. – Negou rapidamente, suas mãos apertando minha cintura e me erguendo para ficar de pé junto a ele. – Eu venho pensando em usar esse banheiro dessa forma, desde o maldito dia que você me deixou duro aqui mesmo.
— Você me expulsou. – Argumentei com um sorriso. Ele pegou isso, ele viu meu sorriso convencido e meneando a cabeça com um sorriso semelhante me tirou da banheira e guiou-me até a pia, como em um flashback suas mãos me ergueram para ficar sentada ali, a posição nem um pouco cômoda, mas assim como na outra vez eu pouco me importando com isso. Voltei a segurar o tecido de sua camisa e sem dar uma oportunidade de protesto eu a puxei para fora de seu corpo. Ele se apressou em me ajudar ao erguer os braços, eu tive apenas o vislumbre dela sendo jogada ao chão de forma displicente antes dele se encaixar entre minhas pernas, nossos corpos separados apenas pelas poucas camadas de roupa. Abracei seu corpo completamente, minhas unhas deslizando por suas costas, sua boca saqueando a minha de uma maneira que poderia ser descrita apenas como pecaminosa. Eu amava a boca de Oliver, amava como ela explorava a minha, amava como ela abafava cada gemido que eu deixasse escapar e amava como ela era faminta pela minha assim como a minha era pela dele.
— Eu estou em desvantagem. – Reclamou tocando em minha pele por baixo da blusa, sem precisar escutar uma palavra a mais eu rapidamente me livrei de minha blusa e sutiã. Sua boca cai sobre meu seio como se ele não pudesse esperar um segundo a mais por isso. Nós dois estávamos afoitos um pelo outro, estava rápido demais, mas nenhum queria desacelerar. Senti sua mão entrar em meu short e soltei um gemido ao sentir seus dedos me tocarem sem cerimônia por cima da calcinha e sentindo o quanto havia ficado úmida em tão pouco tempo. – Eu sinto muito princesa. – Murmurou contra meus lábios. – Eu não posso ser delicado agora. Eu também preciso de você. Agora.
— Eu não quero que seja. – Retruquei. Sua respiração se acelerou ainda mais e eu percebi o exato momento em que ele perdeu o controle. Eu tenho muita certeza que combinou com o momento em que eu também perdi o meu. Ele se afastou para puxar meu short e calcinha para baixo, enquanto eu erguia meu quadril facilitando o movimento, suas mãos foram rápidas em se livrarem da própria calça descendo-a junto com sua cueca, e em um movimento rápido e direto ele estava dentro de mim.
Ofeguei ao senti-lo me preencher completamente e soltei um gemido audível quando ele moveu o quadril me deixando sem fôlego com o movimento. Uma mão envolvia minha cintura com força enquanto a outra estava apoiada ao lado da minha cabeça, que estava encostada contra a parede. Abracei seus quadris com minhas pernas e arquei meu corpo acompanhando-o quando ele tornou a investir contra minha entrada.
— Eu vou para o inferno. – Murmurei apertando seu braço quando ele saiu. – Eu tenho certeza que talvez eu possa estar viciada em sexo. – Ele riu, o som rouco saindo de sua boca e deixando-me ainda mais quente por ele, sua cabeça encontrou meu pescoço , e seus lábios desceram até minha clavícula antes de subirem até meu ouvido. Arrepios se propagando por todo o meu corpo.
— Eu tenho certeza que estou céu. – Respondeu antes de acelerar o ritmo, seu quadril chocando-se com o meu, meu corpo movendo-se junto ao seu, eu queria saber como era nós dois nos movendo dessa forma, desesperada, urgente... Obscena. A palavra ia e vinha em minha cabeça. Talvez alguém nos achasse feios, não era cena de amor dos cinemas, onde o rapaz descia seu corpo sobre a amada, beijos íntimos, a câmera se afastando lentamente, apenas os suspiros dominando a tela. O que fazíamos agora era cru, não era trabalhado nos detalhes, ele ia forte, fundo, me preenchia apenas para sair novamente, o cheiro de sexo invadia minhas narinas, o sabor de suor tocando minha língua quando beijei seu ombro. Não, não devia ser uma visão romântica, mas eu podia apostar que nós dois juntos era bonito. — Você está perto? – Assenti pesadamente ao escutar a pergunta feita em tom rouco. Eu sentia a familiar sensação... A familiar tensão percorrendo meu corpo. – Primeiro as damas? – Perguntou deslizando sua mão entre nossos corpos e alcançando o botão que ele sabia seria o desencadeador da poderosa onda que dominou meu corpo, desde o ponto em que estávamos unidos até a ponta dos meus dedos do pé. Meu corpo todo convulsionava em resposta ao orgasmo. O som rouco de Oliver acompanhou meu grito, e eu o senti explodir em sua própria onda de prazer. Foi quando senti aos poucos nossas respirações se normalizarem, quando senti que seu corpo se acalmar que percebi o que ele havia dito. Então eu ri. Eu realmente, o que fez com que ele me encarasse atônito.
— Ninguém nunca poderá dizer que você não é um cavalheiro, Oliver Queen. – Murmurei acariciando seu cabelo. – Mesmo no sexo.
— Principalmente no sexo. – Brincou. Acariciou meu nariz com o seu antes de beijar meus lábios levemente. – Mas eu não sou um cavalheiro. – Negou. – Eu sou seu ogro, lembra?
— Hum... – Sorri. – Eu acho que se eu sou a Dama, isso faz de você o vagabundo? – Ele franziu o cenho sem entender. – Não se preocupe. Eu vou fazer você assistir. – Prometi. – Meu vagabundo.
— Eu odeio ser o que vai trazer a tona isso de volta...
— Mas precisamos sair daqui. – Suspirei. – Encarar a realidade.
— Sinto muito. – Murmurou se afastando. Quis protestar com a falta de contato, mas ele estava certo, eu precisava pelo menos conversar com meu pai. Por hora eu podia lidar apenas com ele.
— Eu preciso tomar um banho antes de falar com meu pai. – Murmurei ajeitando minhas roupas. – Farei isso no meu quarto ou não vai ter um banho apesar de tudo. – Pisquei.
— Por quê?- Perguntou colocando sua camisa de volta.
— Eu estou cheirado a sexo. – Murmurei. – Não posso falar com Ra’s Al Ghul assim.
— Eu pessoalmente adoro esse perfume. – Murmurou atraindo-me até ele, seu nariz deslizando pelo meu pescoço. – Nós não usamos proteção. – Falou de repente.
— Está tudo bem. – Meneei a cabeça o tranquilizando. Na verdade a forma como ele falou sequer pareceu preocupada. – Comecei a tomar pílulas. E eu confio em você.
— Eu sempre uso. – Jurou. – Eu estou limpo.
— Eu também. – Assenti me afastando e ajeitando meus cabelos em um coque improvisado. – Eu preciso ir, vá para baixo, você abandonou Merlyn.
— Eu vim por minha namorada, ele entende. – Minimizou. – Tommy me conhece, parte do meu passado pelo menos, ele sabe as razões pelas quais eu tenho que está aqui com você e não com ele, ele sabe quão importante você é para mim. – Pisquei surpresa com a facilidade com que ele disse isso.
— Você é importante para mim também. – Murmurei voltando a abraça-lo. Beijei sua bochecha em um acesso de carinho. — Eu sinto muito pelas coisas que você passou. Eu sinto muito que de alguma forma você tenha... Se perdido. – Murmurei procurando uma forma de colocar o que eu pensava.
— Está tudo bem. – Sua testa se encostou a minha. Eu precisei me perder para encontrar você. – Murmurou antes de me beijar uma última vez. – Agora vamos tirar todo esse cheiro de sexo louco e pesado de você.
— Ei!! – Protestei. – Não coloque dessa forma. – Ele riu desferindo um tapa em minha bunda e me surpreendendo com o gesto.
— Talvez devêssemos repetir. – Sugeriu abrindo a porta. — E você poderá encontrar mais algumas palavras para descrever.
— Com certeza vamos repetir. – Retruquei. – Ei. – O chamei parando em frente à porta do meu quarto, Oliver se voltou seu rosto assumindo uma expressão mais séria. – Peça que ele suba, mas que me dê alguns minutos. – Pedi.
— Claro. – Assentiu. – O tempo que você precisar.
— Obrigada. – Murmurei deixando um sorriso pequeno escapar. Agradecia por mais do que ele chamar meu pai.
— De nada. – Murmurou com um aceno. – Tome seu banho, grite com ele, escute-o, e se no final ainda não se sentir bem, eu estarei por perto. – Prometeu. – Eu sempre estarei por perto.
O observei se afastar depois que eu assenti mais uma vez, meus pensamentos passando de leves a pesados e confusos no momento em que escutei a porta se fechar. Entrei no meu quarto e fui direto para o banheiro, entrei no chuveiro sentindo como se tudo tivesse sido jogado em mim novamente.
Minha mãe estava aqui.
Minha mãe me abraçando como se nunca tivesse me abandonado em primeiro lugar, me entregado como um presente ao meu pai.
Minha mãe me abraçou.
Por um longo tempo eu senti falta de seus abraços, de sua mão recolhendo meus cabelos e deslizando por minha cabeça com carinho. Agora eu não sabia o que pensar sobre seu abraço, eu não saia até que ponto era real, e se era... Por quê? Por que ela estava aqui? Por que agora? O que aconteceu? O que mudou?
Eu me lembrava perfeitamente do dia em que eu passei a ama-la incondicionalmente para sentir algo muito semelhante ao ódio. Não foi sequer no dia em que ela me contou que estaria me mudando com o estranho que eu havia visto apenas brevemente antes dela me mandar subir as escadas, pois precisava de alguns momentos a sós para conversar com ele. Não, não foi no dia em que ela me contou que Ra’s Al Ghul era meu pai e que eu deveria morar por um tempo com ele. Foram três dias depois. Quando eu entrei no apartamento dele.
FLASHBACK ON
— É um apartamento grande. – Ra’s... Meu pai, comentou antes de abrir a porta. – Eu acho que você vai gostar, tem uma... – Eu desliguei minha mente a partir daí, eu precisava me acostumar que agora não era apenas minha mãe e eu, eu precisava me acostumar que agora era eu, esse desconhecido e sua filha mais velha de quem ele não tinha parado de falar desde que havíamos entrado no avião. Minha irmã. Eu tinha uma irmã.
Isso tudo era muito confuso, eu não queria conhecer esse grande apartamento, eu não queria conhecer essa irmã mais velha ou esse cara que agora eu deveria chamar de pai. Eu não queria uma nova escola, uma nova vizinhança, eu queria voltar para casa. Eu queria ir para meu quarto com paredes velhas, portas desgastadas e o piso que já havia conhecido dias melhores, eu queria ter que brigar com minha mãe por que eu estava atrasada para a aula e tínhamos apenas um banheiro. Tão infantil quanto isso podia soar saindo da boca de uma garota que tinha quinze anos e não seis... Eu queria minha mãe.
Mas havia sido ela que teve toda a brilhante ideia. Ela que havia agido por minhas costas e o chamado, ela que só veio falar comigo apenas depois que ele já estava em meu apartamento, olhando tudo, cada canto e detalhe como se vivêssemos em um lixo. Eu havia ficado inerte com sua decisão, ela havia argumentado tão bem que eu não havia protestado muito, eu acho que eu estava em choque.
Agora eu estava puta. Não acho que ela gostaria que eu usasse uma palavra assim, mas era assim que eu me sentia. Eu estava nesse momento tão chateada que eu sentia que se a visse no momento eu estaria aos gritos, mas ela não estava aqui. Então tudo o que me restava era a raiva silenciosa. A raiva que nos corrói e envenena.
—... Eu mandei preparar um quarto para você. – Pisquei percebendo havia o acompanhado até pararmos em frente a uma porta, que eu deveria supor ser o quanto em questão. — Eu não sei se você vai gostar, mas Nyssa...
— Por quanto tempo vamos fazer isso? – Perguntei no momento em que ele girou o trinco da porta. Eu estava com os braços cruzados e o encarando esperando sua pergunta, mas ele me encarou confuso, deixou a porta entreaberta e ficou me encarando parecendo até mesmo envergonhado. – Fingir que um quer conhecer o outro, fingir que você não quer estar em qualquer outro lugar que não seja esse, fingir que uma filha aparecendo do nada não é a última coisa que você precisa em sua vida? Em minha vida.
— Felicity...
— Por quanto tempo? – Repeti.
— Eu quero conhecer você Felicity. – Falou mantendo seu rosto inexpressivo. – Você é minha filha, não há um prazo de validade aqui, nós já conversamos...
— Quando? – Perguntei deixando minha voz se elevar. – Ninguém conversou comigo. Vocês decidiram e pronto, conversaram entre si, mas nunca me perguntaram o que eu queria.
— Você estar aqui é o melhor...
— Não. – Neguei balançando minha cabeça com firmeza. — Não é.
— Eu sei que você está chateada. – Argumentou. – Podemos conversar agora. Conhecer-nos e quem sab...
— Muito tarde. – Falei passando por ele em um rompante e entrando no quarto, ele recuou surpreso, sendo esta sua última expressão que eu vi antes de fechar a porta, o fato de ele ter recuado foi o que salvou seu rosto, por que eu bati a porta com força, pela primeira vez desde que cheguei mostrando o quanto eu estava aborrecida com tudo o que aconteceu.
— Felicity... –Escutei a batida na porta. – Nós temos que conversar. Se não agora, mais tarde. – Escutei seu suspiro exasperado antes dele acrescentar quase em tom inaudível. – Quando você decidir ser mais razoável.
Isso me deixou ainda mais irritada, irritada com ele e principalmente com minha mãe. Quem manda a filha para morar com um desconhecido que acha que diante tudo isso, a volta completa que meu mundo tinha dado, que eu era a que não estava sendo razoável? Quem?
FLASHBACK OFF
Quem aparece depois de tantos anos? Quem?
— Felicity? – Escutei o chamado feminino vir em tom hesitante, reconheci a voz de Sara. Ajeitei minha blusa, e amarrei meus cabelos antes de abrir a porta do quarto para ela. – Tudo bem? — Perguntou preocupada.
— Ninguém morreu Sara. – Suspirei. – Eu não vou cair no choro ou algo do tipo, eu estava apenas surpresa...
— Eu sei. – Assentiu. – Mas ainda assim eu precisava saber se você está bem. – Deu de ombros. – Foi meio estranho...
— Eu sei. – Concordei e soltei um suspiro. – Ela... – Hesitei antes de continua. — Ela ainda está aqui? Na academia? – Acrescentei.
— Não. – Negou. Fiquei surpresa com a sensação inquietante que a palavra me trouxe, quase como... Decepção. – Ela disse que voltaria, quando seu pai julgasse a hora certa, eu acho.
— Bom. – Murmurei. Sara meneou a cabeça antes de entrar no quarto completamente e me abraçar. — Distraia-me Sara. – Murmurei fechando os olhos e aceitando seu conforto. – Qualquer coisa. – Acrescentei antes de concluir. — Eu não quero pensar nela agora.
— Eu tenho um encontro. – Murmurou fazendo com que eu recuasse surpresa. Ela riu com minha expressão.
— Ray finalmen...
— Não. –Negou me interrompendo, exibia um sorriso triste. – Não Ray.
—Então... Quem? – Ela me encarou com a expressão culpada, deu de ombros como se tivesse se desculpando. – Tommy?! — Perguntei incrédula. – Tommy não deve ser levado a sério.
— Eu sei. – Concordou. – Eu sei, mas aquele desgraçado é charmoso, e daquele jeito irritante dele disse que enquanto eu não aceitasse ele estaria aparecendo na academia. Todos os dias! – Exclamou dando ênfase. – Até que eu aceitasse. Eu conheço Tommy, ele não estava blefando, o que eu deveria fazer?
— Ok. Divirta-se. – Murmurei. – Ele é um cara legal, mas cuide-se, sim?
— Eu sei me defender Felicity...
— Seu coração. – Esclareci. – Pergunte-se se vale a pena, se valer...
— É apenas um encontro. – Protestou. – E apenas para ele me deixar em paz.
— Ok. – Sorri não tendo certeza, mas lhe dando a resposta que queria. Encarei a porta e soltei um novo suspiro. – Eu suponho que eu não posso mais deixa-lo esperando.
— Ele parece chateado. – Avisou. – Com ele mesmo. Arrependido.
— Ele deveria. – Falei. –Vamos. Eu preciso resolver logo isso. – Ela assentiu concordando e me acompanhou corredor a fora, quando eu entrei na sala e parei em frente ao meu pai eu pude notar ela se afastando discretamente e nos deixando a sós. Ele estava com a cabeça baixa, seus braços apoiados em seus joelhos, mãos unidas. – Precisamos conversar. – Ele assentiu antes de erguer a cabeça. – Eu estou sendo razoável agora. Você pode fazer o mesmo?
— Sim. – Concordou dando-me espaço para sentar ao seu lado no sofá.
— Então por que você não começa me dizendo o porquê? – Questionei cedendo e sentando-me ao seu lado. – Por que abrir uma ferida antiga, agora?
— Essa ferida nunca se cicatrizou querida. – Meneou a cabeça. – Você nunca se permitiu a isso.
— Eu?
— Eu a chamei, liguei para ela. – Corrigiu-se. — Pelo o que conversamos no outro dia. – Explicou. – Você disse que eu significava abandono para você, por causa dela.
— Pai...
— Deixe-me falar. – Pediu. – Eu entendo, eu realmente entendo. – Murmurou colocando uma mão em meu ombro. – Eu sei que eu não era o que você esperava, principalmente quando você tinha uma relação tão próxima com ela, eu sei também que você empurrou todo esse ressentimento que tinha por mim, você tentou fazer seu melhor por que você não era mais uma criança, você já não é uma criança, e por isso não podia gritar, espernear e dizer o tradicional “Eu te odeio e queria que não fosse meu pai.”.
— Eu não te odeio. – Falei com certo desespero. – Eu nunca...
— Eu sei. – Sorriu. – Você aprendeu a me amar. Assim como eu aprendi a te amar, mas você nunca me perdoou por ser o cara que te afastou de sua mãe, o cara que apareceu 15 anos depois e a levou para longe, você nunca me perdoou por ser seu pai, nunca realmente o fez. Você guardou isso, temos nossas discursões, às vezes elas são divertidas, às vezes nem tanto, mas nunca foi realmente levada até o fim. Você diz que eu represento o abandono. Eu nunca soube que tinha uma filha, outra filha e quando soube... Eu amo ser pai Felicity, eu criei Nyssa sozinho e amei cada momento, e eu queria ter tido todos esses momentos com você, eu nunca teria te abandonado, eu apenas não sabia, eu nunca a abandonei. E eu sei que você sabe disso. – O encarei compreendendo onde ele queria chegar, eu nunca o acusei de ter me abandonado, por que eu sempre soube que ele não sabia da minha existência. Eu sabia disso. – Então eu represento o abandono dela.
— Você vai defendê-la. – Meneei a cabeça. – Ela me escondeu de você lembra?
— Eu sinto muito dizer isso, mas ela não me conhecia, você foi fruto de uma semana de sexo. – Abri a boca para implorar que ele não trouxesse isso, eu não queria essa imagem mental, mas ele continuou, e parte de mim queria saber como foi, através do seu ponto de vista. – Nos conhecemos em uma noite, e eu passei uma semana correndo atrás dela, nunca falávamos muito um sobre o outro, e a única vez que a levei para o meu apartamento foi no último dia, o dia em que ela viu a foto de Nyssa, e de sua mãe. Ela pensou que eu era casado, que eu estava traindo minha esposa, então foi embora. – Deu de ombros. – Imagino que saber que estava grávida tempos depois a deixou confusa, mas não o suficiente para trazer isso a minha suposta família. – A mãe de Nyssa havia morrido cedo, eu conhecia a história, depois que a própria Nyssa me contou. – Apenas ela poderá contar como e por que me encontrou tanto tempo depois. Você sabe o básico, mas nem mesmo eu sei por que ela resolveu confiar em mim depois.
— Você quer que eu fale com ela. – Deduzi. – Para o quê?
— Para mudar sua cabeça. – Declarou. – Ela nunca a abandonou. Você encarou assim.
— Nunca?
— Ela ligou para você, inúmeras vezes. – Falou soando chateado comigo. – E você sempre se negou a atender, quando atendia parecia estar falando com algum parente distante, não havia animação. Eu ofereci passagens para você ir visita-la, você nunca quis. Ela nunca te abandonou Felicity, você a abandonou. E ela sempre se manteve distante, por que respeitava seu desejo, ela é uma boa pessoa que acabou fazendo uma escolha ruim, ela julgou estar fazendo o melhor para você, o que eu concordo. Naquela época eu era o melhor, mas isso nunca significou que você não podia ter os dois. Você se trancou, se distanciou, e eu me nego a deixar você fazer isso novamente, eu não queria que ela chegasse assim, eu queria conversar com você antes, mas essa parece ser a primeira vez em que ela tomou rédeas e escolheu a atitude certa. Você deve isso a ela, você precisa conversar com sua mãe.
— Desculpe. – Murmurei o surpreendendo. – Por fazer você pensar que você era o problema, eu nunca o perdoei, você está certo. Mas apenas por que significava perdoar a ela também, o que eu ainda não sei se sou capaz de fazer, mas agora eu sei separar os dois, e eu juro, eu não o culpo mais, eu perdoo você. – Constrangida notei o calor de lágrimas descendo por meu rosto e me apressei em tira-las dali. — Nyssa teve sorte, eu sempre tive um pouco de inveja, quando via as fotos dos dois quando ela ainda era uma criança, você foi um bom pai, e queria ter tido esses momentos também. – Senti seu braço envolver meus ombros, e se inclinar para beijar a lateral da minha cabeça, deixei-me ser abraçada daquela forma.
— Você é minha garotinha. – Murmurou depois de alguns instantes. – Meu presente grego que eu nunca quis devolver. – Brincou fazendo com que nós dois risse. – Seu único defeito é não saber perdoar, mas tudo bem, isso leva algum treino.
— Eu preciso conversar com ela, não é mesmo? – Perguntei me afastando.
— Sim. – Assentiu. – Mas não precisa ser agora.
— No que você está pensando? – Perguntei desconfiada.
— Eu estava pensando em um jantar. – Confessou. – Mais tarde em minha, nossa casa. Você pode levar Oliver se quiser. Eu posso convida-la.
— Você tem certeza? – Perguntei hesitante. – As coisas podem ficar tensas.
— Você ainda tem um quarto para se esconder. – Deu de ombros. Soquei seu ombro fazendo com que ele risse e mais uma vez minha risada acompanhou a sua.
Um jantar com Donna Smoak. As coisas realmente podem ficar tensas.
Nada bom poderia vir dali.
Eu definitivamente estaria levando Oliver comigo.
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