Redenção
3 O Pecador
Então finalmente bate o sinal da escola, o sinal para o intervalo.
O pátio da escola é bem grande e tem uma parte de grama, com umas duas árvores ao redor, para dar ao lugar um tom mais verde eu acho. É lá onde eu gosto de ficar, pois é fresco, não é concreto e por isso é bom para deitar. Quando me deito fico por lá até o intervalo acabar...
Com meus fones eu relaxo e me apaixono pelo céu, seja um dia ensolarado ou nublado, eu estou por lá até mesmo na chuva — não sou feita de açúcar mesmo.
Este dia é da cor azul bem forte, com nuvens que parecem areia de praia: solta e oscilante por causa dos ventos baixo e da ausência de pegada, e o sol estava fraco, estava frio (esquisito este raciocínio, mas ele realmente não esquentava muito). É um bom dia para ouvir "Knocking on Heaven's Door" do Bob Dylan, eu realmente gosto de ouvir essa música nessas horas, dá até um sono leve, e eu gosto do meu sonho...
Inocentemente eu fecho meus olhos, a imagem do lobo começa a ficar nítida na minha cabeça, como se eu já tivesse começado a sonhar, é uma sensação muito boa que só consegue ser perfeita se eu estiver com meu fone, o céu lindo sob mim, a grama fresca sendo usada como travesseiro, o sonho em minha mente, e ninguém me interrompendo, mas não foi perfeito.
Com os olhos colados, o ar agradável envolvendo-me, e a música rolando, eu estava em plena paz, mas de repente eu acordo ao perceber, num leve susto, logo após uma sutil cócega no pescoço, que eu fico surda do ouvido direito. Nisso eu automaticamente percebo o que ocorreu, mas não foi exatamente o que eu pensei que fosse: achei que o fone tivesse escorregado do meu ouvido, só que foi pior do que eu pensei.
Percebo uma notável presença ao meu lado. Lá está um garoto de cabelos bem negro e pouco grande, de olhos fechados, com um sorriso bobo no rosto e deitado do mesmo jeito que eu, mas o pior de tudo é que ele havia pegado o MEU FONE!
– Você tem um gosto musical esplêndido! – Disse ele com uma voz serena, o safado parece querer me cantar.
– O quê que você quer? – Eu perguntei rudemente, e puxo o meu fone de seu ouvido com força para ver se seus tímpanos saiam junto.
– Eu lamento muito estar incomodando-a numa hora dessas, mas eu gostaria que você aceitasse...
– Aceitar o quê?
– Aquele convite que Angel lhe fez. Do cinema. Você não faz idéia de como ela ficaria agradecida.
– Quem é você pra me dizer o que fazer?
Ele se calou por um minuto, eu quase penso que finalmente o esculachei, mas quando eu vou dizer para ele sumir da minha frente ele torna a falar.
– Eu sou apenas um amigo... Alguém que quer somente o seu bem...
– Mas que bem me faria se eu fosse ver essa merda de filme? Nem se me pagasse! E eu também não sou sua amiga! Quer fazer um bem pra mim? Me deixa em paz seu desgraçado!
O desgraçado riu de meu insulto, o que me deixou com o sangue fervendo.
– Mil perdões... – Disse ele se recuperando da risada de má hora – É que eu... Esqueça! Acho que sou mesmo um desgraçado. Mas o fato de pedir que você vá ao cinema com Angel não tem nada haver com isso, não quero que você vá por má vontade. Aliás, eu gostaria que você se divertisse um pouco, que você se esforçasse somente para gostar. Se você se importasse com alguém, quem sabe teriam mais amigos... Você já vê que as pessoas ao seu redor te consideram, você não faz ideia de como as pessoas se importam com você. – Ele começou a se levantar para ir embora finalmente – Talvez você não saiba, mas gostar de alguém que não se importa com nada é muito doloroso, mas inevitável...
Ele começa a seguir seu rumo longe de mim, mas há algo que me incomodou muito: o fato dele estar sempre de olhos fechados, sem querer encarar nada e ninguém, o jeito que ele falava, e por ter se rachado de rir quando o chamei de desgraçado, ele ainda concordou com a ofensa, e por ele ter dito tudo aquilo, porque iria querer o meu bem? Porque insistiu tanto para eu ir ao cinema? E o pior: como ele sabia disso? Angel falou com ele? O que há com aquele cara? Não sei o que seria, e não tenho nenhuma resposta, mas eu estou sentindo uma tremenda raiva agora por pensar no assunto do cinema duas vezes depois do que ele disse.
O intervalo acabou. Volto para a sala do mesmo jeito que saí sozinha. Quando chego à minha carteira, eu me ajeito, e um minuto depois aparece a Angel, rodeada de amigas. Ela parece feliz, sorrindo com suas amigas, por que é que ninguém queria acompanhá-la no cinema? De repente eu ouço a conversa delas.
– Você não arranjou ninguém pra te acompanhar, onee-chan? – Disse Dayse, uma sagitariana otome de visual ousado, logicamente estava falando do cinema. Angel fez que não com uma cara de decepção – Se eu pudesse, eu ia com você! Que droga, amanhã eu tenho consulta no médico!
Está explicado... Suas amigas têm coisas mais importantes para fazer. De repente me bate um impulso esquisito de levantar do meu lugar. Eu esfrego a testa, aperto a minha cabeça, puxo o meu cabelo, mordo a meus lábios. Maldita sensação! Maldita agonia que não passa!
Aparece alguém que passava do lado da minha carteira com um olhar preocupado.
– Tá tudo bem? Tá com dor de cabeça? – Quem perguntou foi um garoto da sala que eu não conheço.
Eu me explodo por dentro mais ainda. Provavelmente eu devo ter corado por isso. Eu respirei fundo, pois falar sobre o que eu sentia era uma vergonha, e mentir confirmando que eu estava com dor de cabeça só iria piorar minha situação.
– Tá tudo ótimo. Dá licença... – Eu me levantei naturalmente, não quero que essa sensação transpareça.
Ando até Angel e suas amigas. Quando me aproximo delas, todas me olham atentas. É a primeira vez que eu me dirijo á alguém, por isso elas me olharam como se esperasse um mágico tirar o coelho da cartola.
Eu tossi para limpar a garganta. Com certeza ainda corada, tanto que me foi impossível olhar em seus olhos para falar.
– Você não arranjou ninguém pra te acompanhar?... – Repeti o que Dayse havia perguntando, não fitei seus olhos, mas sabia que sua expressão era de surpresa – Nesse caso... – Fiquei sem jeito – Á que horas vai ser o filme?...
Houve uma pausa silenciosa, talvez para ela tentar distinguir se o que eu havia dito era verdade mesmo.
– Ás 17hrs... – Disse ela, com a voz quase rouca.
– Te vejo no Parque amanhã ás 16hrs então... – Disse e saí o mais rápido que pude.
De repente veio o doce alívio no peito, mas comecei a agonizar de novo lembrar o que eu teria de assistir no cinema...
– DESGRAÇADO... – Praguejei contra aquele garoto por ter me obrigado a fazer isso.
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