Nem consegui prestar atenção na aula, eu realmente estava com uma dor de cabeça colossal.

Cheguei em casa á passos largos, fui diretamente ao meu quarto, e decidi gastar o resto do meu tempo dormindo. Tentei relaxar na minha cama, e aconteceu algo fatal.

De repente meu despertador toca. Eu me sinto bem descansada mas eu não dormi, acho que o despertador com o horário errado, mas a luminosidade lá fora confirma que já é de manhã. Meu coração bate apertado e esquisito por perceber que não sonhei esta noite, é a primeira vez na minha vida que não vejo o lobo. Isso não pode estar certo! Por que não sonhei? Estou incrédula!

Eu me deito novamente e espero o sono chegar para me certificar de que ainda posso sonhar com o lobo outra vez, mas eu dormi demais, desde tarde, assim que eu cheguei da escola, até de manhã, sem nenhuma interrupção de que eu me lembre. Eu realmente não sei o que fazer... Sem falar que hoje é sábado e meu despertador me acordou para o meio-da-semana, só me resta continuar deitada, até um horário descente para levantar, e tem mais: o que eu poderia estar fazendo até as 16hrs?

Estou inquieta na cama, talvez se eu tivesse desativado o despertador como eu sempre faço, poderia ter dormido mais, mas o problema nem é esse, e sim o sonho que eu não consegui ter. Estou tão confusa que sinto um impulso enorme de perguntar em voz alta, estou tão indignada que o meu medo é sentir saudade do meu sonho, daquele belíssimo lobo.

Com tudo que ficou se martelando na minha cabeça, vejo que consegui comer 2 horas... Já basta para eu levantar. Vou até a cozinha, como alguma coisa, volto para o meu quarto, e me arrumo para ir ao Parque. Comigo levo uma bolsa com um caderno de desenhos, uma caneta e a minha carteira. Vou desenhar enquanto as horas passam, e na minha carteira há dinheiro para comprar o almoço.

O Parque, com "P" maiúsculo, é o ponto de encontro dos alunos do Colégio. Lá há variados ônibus em circulação constante e rápida, e aquilo não é bem um parque, é só uma praça grande, sem grades ou portões, com um playground e vários bancos espalhados. Não sei por que o chamam de "Parque"...

Fico num dos bancos, desenhando o lobo, como um protesto contra a minha saudade e a noite passada. Algumas horas depois fome bateu, então eu decido comprar algo para comer. O dinheiro que eu tenho não é de salário, não é mesada, não é emprestado, e eu também não consegui apostando, esse dinheiro é furtado do meu pai, ás vezes eu pego algumas notas, o suficiente para ele não notar que sumiu. Este é o preço por ele ter transformado a minha vida num inferno. Não é um preço muito alto, juro que um dia o farei pagar de verdade!

Vou até uma lanchonete furreca por perto e compro um cachorro-quente e um refrigerante. De repente tenho uma surpresa ao voltar pro meu lugar com meu almoço nas mãos.

Aquele garoto que me convenceu a ir ao cinema está sentado lá onde eu estava antes. Eu finjo que não o vi e decido dar uma volta bem longa no quarteirão até ele ir embora, mas acho que ele estava a minha espera, por que ele gritou.

— Gray! Pro favor, sente-se ao meu lado!

Antes que eu pudesse dar uma passo e fingir que não ouvi e não era comigo, ele se levanta e insiste

— Gray, eu estou aqui! — Acenou com aquele sorriso idiota e os olhos fechados, será que ele pensa que suas pálpebras são transparentes?

Eu não tenho escolha, ando um pouco até ele.

— Vamos, sente-se comigo.

— Me obrigue!

Ele deu uma risadinha sem jeito.

— Eu não lhe disse o meu nome antes, onde é que estão os meus modos... — Estendeu a mão para mim. — Me chamo Mark.

— Sugiro que abra os olhos. — Eu disse em relação as minhas mãos ocupadas, mas também jamais lhe cumprimentaria.

— Ora, vamos, sente-se! — Apontava para o banco.

— Me obrigue! — Repeti.

— Eu gostaria de ver teus desenhos, se não for muita audácia...

— Não tenho desenhos — Menti. — e é muita "audácia"! — Isso é verdade.

— Bom, mas eu a vi desenhado bem aqui á pouco tempo.

— Você tava me espionando? — Isso aí é mais "audacioso" do que ele querer ver meus desenhos do nada. — Eu posso te denunciar, seu safado!

Ele começa a rir.

— Não me preocuparia com isso, mas se eu ando te chateando, poderia te deixar em paz por hoje. Não quero vê-la chateada.

— AMÉM! — Eu disse baixinho enquanto o vejo ir embora como dá última vez.

Que raio de gente se chama Mark? Não é um nome exótico, é um nome ruim!

Eu me sento no banco onde estava antes, descanso a lata de refrigerante do meu lado e recomeço a desenhar, ora rabiscando, ora mastigando, ora bebendo, e com isso o tempo acabou passando mais rápido.

Sinto uma presença do meu lado, quase atrás de mim, sem sombra de dúvidas que é a Angel. Eu guardo meu caderno e a caneta bem depressa e me levanto.

— Oi. — Eu a cumprimento meio sem jeito.

— Você veio... — Disse ela com uma expressão pálida.

— É, eu vim. Achou que eu tava brincando? — Pode me chamar de tudo, menos de mentirosa ou desonesta.

— M... — Parece que ela ia dizer algo como um "mas", só que sua voz não saiu, então ela deixou pra lá e deu um sorrisinho meigo. — Obrigada por vir comigo hoje.

— OK. Qual ônibus a gente pega?

Ela põe um dedo no queixo e olha em volta todos os poucos pontos que há, mas que passam variados ônibus. E por falar no diabo, um deles acaba de chegar no outro lado da rua, para deixar um passageiro apenas.

— Aquele. — Ela apontou.

— Ainda dá pra pegar.

— O quê...?

Eu pego seu braço e saio correndo até lá, quando tiro o pé da calçada, puxo-a para perto de mim e agarro-a na cintura. Ela começa a gritar mesmo assim não para de correr comigo. Um Cadillac freia na nossa frente buzinando, ele freou tão perto da gente que eu pude dar-lhe um tapa por cima, mas não chegou a relar na gente. Nós paramos na frente do ônibus. Eu estendo o braço pedindo que o motorista abra a porta, e assim ele o fez, um pouco surpreso por sinal.

Largo a cintura dela e nós subimos no ônibus calmamente como se aquela corrida e risco nunca tivessem acontecido, Angel até um pouco descabelada e cambaleando.

— Você é louca! — Disse ela espantada, depois começa a rir e nos sentamos.

Eu sorri retribuindo. Ela começou a arrumar o cabelo depois geme um "ai" risonho e põe a mão na perna.

— Foi mal. — Confessei. Parece que ela estava cambaleando, e talvez gritando, por que torceu o pé no caminho, mas ela trona a rir mesmo com dor.

— Mesmo assim, eu conheço alguém mais doida do que você.

Não sei se ela me ouviu, ou se isso foi uma resposta ao meu pedido de desculpas.

Isso que eu fiz não foi loucura, eu usei minha "benção" para que nós duas atravessássemos a rua em segurança e a tempo de pegarmos o ônibus. Eu a segurei perto do meu corpo, se ela fosse atropelada, eu também seria, como eu tenho a "benção", nada iria acontecer a mim, igualmente a ela. Como posso dizer? É como um superpoder, uma barreira contra a morte (ou contra a vida).

Ficamos a viagem inteira no mais sólido silêncio entre nós. Nos shopping compramos umas porcarias para beliscar durante o filme. Quando entramos na sala do cinema, reparo que nosso ingressos infelizmente têm uma vista boa.

Nos sentamos com os óculos 3D que uma funcionária nos deu ao entrarmos, acompanhadas com minha santa paciência e as porcarias. O filme mal começa eu já ouço de Angel.

— Eu vou chorar!

— Mas já!? — Seu comentário me deixou enojada.

Ela fungou e engoliu seco de mentirinha, só podia mesmo está zuando comigo!

Durante o filme, torci para que a Rose se matasse naquela cena e que o Jack explodisse do nada antes de salvá-la, como naqueles filmes grotescos de comédia. Fiz comentários ignorantes e maldosos, ri quando eles se dava mal, tudo isso em voz alta para irritar os fãs, mas parece que Angel não se afetava, ela ria junto e aproveitava o filme mesmo assim, até parecia o tal do Mark... O que há com essas pessoas?

De repente começou a melhor parte: ICEBERG Á VISTA! Eu me rachei com o desespero das personagens. Angel não sabia se ia na minha ou se seguia seus instintos de fã de Titanic com o resto do povo em volta.

Então chegou o final, começou os soluços á minha volta. Alguns gemiam tentando acompanhar as falas. Se tal gente conhecia o filme de cabo á rabo, por que ainda choravam?

E acaba. Começa os créditos e aquela música chata, Eu tiro meus óculos e me levanto para sair quando sinto uma fisgada na blusa.

— Podemos ficar mais um pouco? Só até a música acabar...

Já fui torturada por três longas horas. Sim, eu posso ficar mais três minutos.

— OK. — Respondi com uma cara de tacho e sentei de volta.

Olho em volta: mais da metade do povo foi embora, o resto ainda se debulha em lágrimas. AINDA! Eu sou a única aparentemente com o rosto seco.

Percebo que Angel também chora os montes. Como assim?!

— É só um filme! — Explique pois sua lágrimas estavam me incomodando demais.

Ela de repente se joga no meu ombro, escondendo o rosto no meu braço e puxando o resto da blusa.

— Muito obrigada — Disse ela chorosa. — por ter vindo! Muito obrigada mesmo! Você não faz ideia do quanto isso foi importante pra mim!

Ela continua agarrada em mim e chorando em tom mais forte. Ao dizer isso, meu coração começou a bater esquisito, minha garganta dói e sinto meu estômago estranho. De repente alguma coisa bem pequena cai no cabelo escuro dela, e cai outra, e ela começa a ficar embaçada. Sinto meu encharcado, estou chorando... Mas como? Por quê? Parece até...que eu me importei com o que ela disse...