Redenção

5 Na calada da noite


Victor e Pedro caminharam na calada da noite rentes a parede do castelo até alcançarem a janela do dormitório feminino da Corvinal. Pedro com a varinha em punho e Victor com seu violão favorito, que Ana Luisa havia devolvido a alguns dias.

– Você tem certeza que é essa à janela? – perguntou Pedro a Victor.

– Tenho. Lembro-me bem das montanhas e do lago. Ana Luisa chamou minha atenção para isso quando estive em seu quarto – respondeu o outro garoto.

– Você esteve passeando no quarto dela? – quis saber Pedro.

– Você não precisa saber disso pra me ajudar. Os 15 galeões são suficientes – Victor tentou encerrar a conversa.

– E uma provável detenção – ironizou Pedro.

Ana Luisa estava sentada na janela observando a sombra da lua crescente no Lago Negro, o vento nas árvores que as faziam balançarem, os jardins silenciosos e Pedro e Victor correrem escondidos junto à parede.

– Não creio... – comentou Ana Luisa para si mesma inclinando-se para ver melhor a movimentação.

Victor arrumou o violão sobre seu ombro e esperou que Pedro fizesse o resto. Pedro enfeitiçou Victor para que sua voz e o som do violão ecoassem por todo o castelo. Então Victor começou a tocar:

Mas eu que falei sem pensar

Agora me arrependo

Roendo as unhas

Várias testemunhas

E um crime sem perdão

Mas eu falei sem pensar

Coração na mão como refrão de bolero

Eu fui sincero como não se pode ser

Um erro assim tão vulgar

Nos persegue a noite inteira

E quando acaba a bebedeira

Ele consegue no achar

No bar

Tomo um vinho barato

E um cigarro no cinzeiro

E uma cara embriagada no espelho do banheiro

Ana

Seus lábios são labirintos

Ana

Que atraem meus instintos mais sacanas

O seu olhar sempre distante

Sempre me engana

Eu entro sempre na sua dança de cigana...

– Mas o que é isso!? – a serenata de Victor fora interrompida pela diretora.

Alguns alunos estavam à porta da escola observando a cantoria, e muitas janelas estavam ocupadas por cabeças curiosas. Lysander estava ao lado de Ana Luisa, incrédula

– Ih, fudeu! – disse Pedro tentando fugir, mas foi impedido pela diretora.

– Você esta junto com ele nessa empreitada? – perguntou a diretora enfurecida.

– Acho que não temos muito que explicar. Tragam os ferros! – disse Victor fazendo com que muitos alunos dessem risadinhas abafadas para não aumentar à ira da diretora.

– Muito bem então. Detenção para os dois! – sentenciou por fim a diretora.

Pedro e Victor foram levados para dentro do castelo e os alunos voltaram aos poucos para seus dormitórios, mas antes que Victor sumisse completamente das vistas de Ana Luisa, deixou um “eu te amo” no ar para ela.

– O que você vai fazer? – perguntou Lysander a Ana Luisa.

– Dormir. Já está tarde e amanhã tem aula cedo. Boa noite – respondeu Ana Luisa deitando em sua cama e fechando a cortina azul.

Lysander olhou para as companheiras de quarto, que voltavam as suas camas também, e foi dormir.

Deitada na cama e protegida pela cortina, Ana Luisa mirava o teto enquanto pensava no que acabará de ver e ouvir: a música que Victor cantará dizia “Ana”, não “Lavínia”, e Victor sempre a chamará apenas pelo primeiro nome. Ele aceitou uma detenção para poder reconquistá-la. Ele cantou como fizera no dia em que a pediu em namoro. Ana Luisa tinha provas suficientes para aceitar Victor novamente, mas era sensato deixar as coisas como estavam. O futuro iria decidir por eles.

Notas finais
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