Redemption
29 XXVI - Mischievous Night (Parte II)
― Tem certeza que não corremos perigo de ver o que não queremos ver? ― Misha era quem perguntava baixinho, ao lado de Satoshi, preparando-se para trepar na videira que subia pela coluna até a sacada do quarto dos senhores da casa. Ele não gostava muito da ideia de flagrar Mayah e Gintoki em situações um tanto quanto constrangedoras.
― Se corrermos, vai tornar as coisas ainda mais engraçadas, não acha? ― Sorriu sapeca, já pegando a planta com as duas mãos, o que fez Misha rir brevemente, negando com a cabeça, enquanto observava o albino subir com maestria na trepadeira.
― Vamos lá então ― concordou já subindo também.
Assim que alcançaram a sacada do quarto dos senhores da casa, passaram a agir com cautela ainda maior, para não fazer qualquer barulho desnecessário. Desse modo, caminharam nas pontas dos dedos os poucos metros que havia entre aonde aterrissaram e a mesa no outro canto. Com cuidado, entraram debaixo dela, que se encontrava coberta pela toalha estampada, e ali se esconderam.
Misha, o mais próximo da “parede” de vidro da varanda, riu baixinho, chamando a atenção do amigo.
― O que foi? ― sussurrou o outro, fazendo o moreno apontar com a cabeça a pequena fresta que a cortina escura deixava na parte interna da grande porta, da qual podia-se ter uma visão parcial da cama de casal.
Cama na qual se encontrava seus pais, em meio a um beijo bastante intenso, diga-se de passagem.
― Tem certeza que vamos fazer isso com eles? ― Olhou com certa pena do casal, que teria sua noite interrompida pelas travessuras dos quatro.
― Pode crer ― confirmou engatinhando até mais próximo da porta. ― Já tenho irmãos demais. ― Sorriu matreiro.
— Seu pai nem pode mais ter filhos — o outro brincou.
— É, ele não podia e então, por um milagre, apareceu a Dango. Não quero mais milagres — brincou de volta, já se posicionando para a ação seguinte.
Sem esperar muito mais, os dois pequenos colocaram suas mãos contra o vidro transparente, coberto internamente pelas cortinas vinho, e passaram a pressioná-las com força e velocidade, fazendo com que assim um barulho nem muito baixo, nem muito alto de vidraçaria batendo com o vento ecoasse no quarto.
Gintoki, por sua vez, estava altamente concentrado e ocupado com os lábios de sua esposa, quando instintivamente afastou-se dela ao ouvir a porta da sacada batendo. Ignorando a reclamação de Mayah por ter sido abandonada e um “É só o vento, Gintoki. Volta aqui~”, o comandante levantou-se, já pegando a espada que deixava à beira da cama, para o caso de ser algum desgraçado tentando invadir sua casa, indo em direção à varanda.
Satoshi e Misha já se escondiam debaixo da mesa novamente. O albino então pegou a minúscula lanterna no bolso do pijama, dando o primeiro sinal. As luzes das luminárias mais próximas da casa começaram a piscar em meio a neblina densa, no exato momento em que Gintoki saía do quarto, chamando a atenção do mais velho. Ele se aproximou da beirada da sacada, direcionando o olhar para baixo (e o segundo sinal fora dado), se arrependendo amargamente de tê-lo feito. No instante em que voltou seus olhos para o jardim, um vulto enorme e negro passara velozmente por entre a neblina.
O suor que escorreu pela sua têmpora esquerda era tão frio que com certeza foi isso que provocou o calafrio em sua espinha. Sim, com certeza. Foi apenas um animal não identificado, muito grande e com forma muito estranha que fez seus músculos retais se contraírem. "Nada demais mesmo", quase riu para si antes de voltar ligeiramente para o quarto e trancar a porta, de costas mesmo, encarando sua esposa, quase que desesperadamente, agora suando como um maratonista.
― O que diabos aconteceu? ― Os meninos ouviram a mais velha questionar, confusa.
― Exatamente! FOI O DIABO QUE EU VI. ― Assistiram pela cortina desarrumada o homem finalmente surtar. ― O DIABO QUE SAIU DO INFERNO PRA ME ASSOMBRAR.
― PARE DE GRITAR, SEU DESEQUILIBRADO ― a morena rugiu, imitando o marido, enquanto já ouvia o choro baixo de Soujirou no berço.
Levantou-se irritadiça, ajeitando sua camisola e seguindo para o móvel.
― Nossa casa está assombrada ― murmurava enquanto andava de um lado para o outro, enérgico. ― Precisamos de um exorcista, um padre, uma sacerdotisa... Precisamos de um shinigami!!!
― Do que você está falando, Gintoki? ― perguntou em tom cansado, já sentando na poltrona para acalmar o filho caçula.
― O demônio que eu acabei de ver! ― exaltou-se histérico, apontando para o jardim, fazendo a mulher rolar os olhos e passar a ignorá-lo, enquanto ele voltava a murmurar caminhando de um lado ao outro.
As crianças do lado de fora, porém, após determinarem que era seguro sair do esconderijo, desceram deslizando pela videira, não conseguindo mais segurar o riso quando finalmente chegaram ao chão, mesmo que controlassem a altura da voz, para que ela não alcançasse os ouvidos dos adultos no quarto trancado. Souichiro despia-se da toalha negra pintada horrorosamente, também se acabando de rir, já desligando a luz do projetor que usara para aumentar e distorcer sua sombra, ao mesmo tempo em que Kari largava as duas pontas dos fios de cobre que usara para interferir nas luminárias, acompanhando as risadas.
― Foi uma das melhores pegadinhas que fizemos até hoje ― Satoshi afirmou enquanto se acabava de rir, acompanhado dos outros três.
― Pode crer ― a pequena confirmou, enquanto caminhavam em direção à entrada dos fundos da casa, para guardarem as provas do crime.
— Ainda dá pra ouvir ele gritando daqui — Souichiro comentou, tentando distinguir as palavras esganiçadas de Gintoki que faziam coro com o choro de Soujirou.
Subir a árvore cuja qual tinha uma conexão direta com a sacada do quarto das crianças Sakata, carregando um projetor foi bem mais fácil do que Souichiro imaginara a princípio — o complicado foi a toalha, que ficou presa em uns três galhos durante a subida.
De volta à proteção do quarto e tentando conter um ou outro riso que ainda davam de vez em quando, Souichiro guardou a toalha no armário, usando-a para cobrir o projetor que Satoshi havia posto ali; Misha vigiava o corredor pela fechadura da porta, mas até agora nenhuma luz além do quarto de casal se acendera.
Deitando-se com os pés pra fora da cama, Kari deu uma boa espreguiçada, descontraída.
— Ah~ Depois dessa, eu posso dormir como um anjo.
— Você é capaz de dormir de todos os jeitos, menos desse — Satoshi provocou, fazendo os outros rirem, até mesmo a própria Kari.
Sentando-se em sua cama por aquela noite, Souichiro suspirou ainda alegre. Não se lembrava da última vez em que se divertira tanto.
— Você tava certo — falou do nada para Satoshi, que o olhou sem entender. — Eu me diverti bem mais do que planejava essa noite. Valeu.
— ‘Tamo aê pra isso, trazer caos a humanidade. — Piscou com um olho só, sorrindo matreiro.
Souichiro só fez rir de leve.
— Ei, da próxima o alvo pode ser a Dango — sugeriu Kari.
— Ah, eu adoraria ter dado esse susto nela. — Um sorriso maligno surgiu no rosto do Okita e ele riu maldosamente, tanto porque gostava de perturbar a amiga quanto pelo leve desejo de vingança que ainda sentia pela festa do pijama.
— Pra ver ela virar um tomate enquanto gagueja que ela nunca teria medo de uma coisa tão irreal quanto fantasmas. — Satoshi imitou a cara que a irmã fazia nessas ocasiões, antes de cair na gargalhada junto de Souichiro, que podia afirmar que ele havia imitado direitinho a expressão da albina.
— Eu vivo dizendo que algum dia ela vai ficar tão vermelha que a cor vai passar do rosto pro cabe- — O Okita se interrompeu, seus olhos do nada brilhando de excitação, do mesmo modo que fizeram enquanto ouvia o plano de Satoshi mais cedo.
E Misha, reconhecendo isso, acabou arqueando uma sobrancelha.
— O que foi agora? — perguntou, embora não contendo um meio sorriso com a possibilidade de mais uma traquinagem.
Souichiro apenas olhou para os três e riu pela própria ideia, antes de perguntar.
— Tem tinta vermelha aí?
Sair de novo seria arriscado, não podiam afirmar que Mayah e Gintoki já haviam dormido e era bem provável que os gritos do casal, embora não tivessem acordado, haviam tornado os sonhos dos outros habitantes da mansão bem mais leves. E mesmo que eles conseguissem sair, ir até o andar de baixo, entrar no ateliê e pegar a tinta, Mayah com certeza daria por falta da quantidade que eles precisavam.
A sorte era que Mayume tinha potes enormes de tinta guache dentro de uma caixinha de brinquedos no quarto que ela raramente usava. O vermelho estava cheinho.
Diferente da última brincadeira, essa foi bem menos complicada. Souichiro só precisou entrar no banheiro e facilmente reconheceu o pote de shampoo de Vanilla que Dango usava desde Edo. Os resultados só seriam vistos no dia seguinte, mas os quatro sabiam que, valeria muito, muito a pena esperar.
— Eu tenho a impressão de que ela não vai gostar nada disso — comentou Misha, rindo apesar de tudo, enquanto Souichiro rosqueava a tampa do pote de volta no lugar.
— E é aí que mora a graça — Satoshi pontuou, finalizando o assunto.
Quando o Okita colocou o pote de volta em seu devido lugar, eles fecharam a porta do banheiro e foram para suas camas, agora sim pensando em dormirem de verdade.
Amanhã seria um dia interessante.
(...)
O homem sentado sobre o muro no alto do prédio observava a imensidão da cidade iluminada. A seus ouvidos chegavam os ruídos diversos, embora as risadas escandalosas dos bêbados e das mulheres que os acompanhavam ou a música alta eram os que mais se destacavam. Característico do Distrito do Pecado de Aokigahara.
Risos e sentimentos resultados das sensações efêmeras que o prazer trazia, fosse ele sexual, relacionado ao dinheiro ou ao álcool. Apenas escondiam as profundas mazelas daquele povo.
Riu consigo mesmo.
O que ele estava fazendo? Estava completamente fora de seu personagem naquele momento. Nunca fora alguém culto o bastante para ficar filosofando sobre a vida. Sequer sabia qual fora o gatilho para começar a seguir por aqueles tipos de pensamentos.
Afinal de contas, ele era apenas mais um entre aqueles pobres desgraçados. Apenas mais um idiota que se aproveitava daqueles mesmos sentimentos efêmeros para fugir de si mesmo ou de toda a desgraça que os rodeava por algumas horas noturnas; fugir do ódio que queimava em sua alma como a gasolina que queima até sua última gota enquanto está em contato com o fogo.
A única diferença entre aquelas pessoas e ele é que elas se afogavam nos prazeres, na esperança de esquecerem esse ódio, já que eram incapazes de fazer qualquer coisa para mudar suas realidades, ou assim elas pensavam. Ele não. Ele era diferente; não vivia aquela breve fuga com a intenção de esquecer seu ódio. Vivia apenas para que, quando voltasse em si, isso estivesse ainda maior, queimando cada vez mais; queimando a tal ponto que só seria parado quando a gasolina fosse completamente esgotada.
E sua gasolina, naquele momento, ainda não estava perto de se acabar, embora suas chamas estivessem cada vez mais próximas do barril que ele pretendia explodir.
— Achei você. — A dona da voz feminina, carregada de sensualidade, se aproximou, sussurrando em seu ouvido.
Ele virou-se, encontrando assim a loira que o acompanhava minutos antes dele deixar o quarto para ir até ali. Ela sorriu.
— Não se deve fugir da companhia de uma cortesã dessa maneira, Rinmaru-sama. — Ela fez bico, levando os dedos a brincarem com a barra do kimono sobre o peito forte do jovem. — Pode parecer que ela não está sendo um entretenimento bom o suficiente. — Olhou-o nos olhos, com a mesma sensualidade anterior, mas agora também carregava certa profundidade nas íris azuis escuras.
Ela não obteve uma resposta palavreada, mas a forma que as mãos e os braços do “cliente” lhe tomaram sem hesitação ou pudor foram o suficiente para lhe dizer que era hora de voltarem para o quarto e concluírem o que tinha sido interrompido anteriormente.
(...)
Esticando-se preguiçosamente, Dango sentava-se sobre a cama que dividira com Mayume. A pequena insistira que queria dormir com a mais velha, e acabou não conseguindo negar — ninguém parecia ser capaz de negar qualquer coisa que fosse para a Little Fairy. Ela ficou interiormente agradecida por isso não ter atrapalhado o sono de nenhuma das duas, já que a pequena não se mexia muito enquanto dormia, e Dango também costumava agarrar no sono na mesma posição até o fim do descanso.
— Bom dia. — Sobressaltou-se ao ouvir a voz de Gintoki. Acordara quando alguém abrira a cortina do quarto, mas não tinha percebido que era ele.
Encarando o pai pela primeira vez desde a cena do beco no dia anterior, as cenas voltaram fortes à mente de Dango e ela instintivamente ficou tensa. Gintoki acabou tento a mesma reação, embora bem mais discretamente, mas não por isso menos preocupado. O susto não durou na face da albina, porém; a conversa com Mayah e as boas lembranças com ele mandando o medo para longe.
— B-bom dia — gaguejou brevemente, se recuperando do susto, mas havia um sorriso pequeno em seu rosto.
Gintoki devolveu o gesto, internamente aliviado, antes de se virar para ajudar Sayuri a levantar-se, pela mão, do futon em que dormia.
— A mãe de vocês me mandou vir acordá-las — informou, sentando-se do lado em que Mayume ainda ressonava, aparentemente a caçula tinha um sono pesado.
— O café já está na me-mesa? — Ayume¹, uma pequena boneca de longos cabelos chocolates e olhos de mesma cor, questionou tentando conter um bocejo.
— Você já acorda pensando em comida — sua melhor amiga reclamou ao seu lado, fazendo a pequena Nana², de cabelos escuros, rir baixinho.
— Sim, está — Gintoki respondeu simples, ainda tentando acordar Mayume.
Dango logo juntou-se a ele, sacudindo a menor de leve, até que o mais velho perdeu a paciência de ser gentil e, pegando a rebenta pelos ombros, sacudiu uma única vez, quase berrando seu nome.
— Pudim de café!! — Foi a primeira coisa que saiu dos lábios de Mayume ao abrir os olhos e encarar o pai. — Tou-chan, eu quero comer pudim de café! — Encarou o albino com os olhinhos brilhando, não demorando a jogar-se em seus braços pra que ele a levasse no colo, o que fez algumas gotas de suor escorrer sobre sua têmpora.
— Viu? Ela é pior que eu — acusou Ayume, enquanto Nana ria agora mais alto, e Sayuri e Dango tinham a mesma reação do pai.
— Ok, — Ele ergueu-se já com ela em seu colo. — mas antes do seu pudim de café, vamos tomar café. Sua mãe me mataria só de eu mencionar a possibilidade de você comer algo assim antes do café da manhã.
— Hai! — ela apenas concordou animada, se agarrando mais ao pai e escondendo o rosto entre sua nuca (ela amava começar o dia sentindo seu cheiro), enquanto ele deixava o quarto.
Não demorou muito para as outras meninas também começarem a se ajeitar para descerem. Dango, por sua vez, decidiu-se por tomar um banho antes disso. Junto de Sayuri e Mayume, que iam pelas roupas para o dia, as três irmãs Sakata foram para o quarto que dividiam com Satoshi. O irmão, porém, não estava ali, nem nenhum de seus amigos. Provavelmente já haviam se levantado e descido.
— Você quer que a gente te espere, Dango? — Mayume perguntou quando viu a mais velha prestes a entrar no banheiro.
Ela negou com a cabeça e um sorriso.
— Podem ir assim que estiverem prontas, não acho que a Mayah-san gostaria que vocês demorassem.
— Está bem, mas não demore você também — Sayuri instruiu.
Com um último aceno com a cabeça, Dango fechou a porta. Logo as duas irmãs ouviram o chuveiro sendo aberto e elas também começaram a se trocar. Mayume mal havia acabado de vestir seu kimono quando o grito estridente veio do banheiro.
Sayuri e ela se entreolharam assustadas e correram pra porta de onde vinha o grito, chamando pela irmã, não demorou mais que 1 minuto pra seus pais e todo o resto aparecerem no quarto, os homens já em posição de ataque caso precisassem sacar suas espadas.
— O que aconteceu?! — Mas fora Mayah a primeira a se aproximar delas de maneira enérgica. — Dango! Você está bem? Dango! — Bateu na madeira que a separava da filha, sentindo o coração gelar pela não resposta.
Gintoki estava prestes a arrombar a porta quando essa abriu-se e dela saiu a menina. A surpresa na feição de cada pessoa presente era indescritível ao ver a sempre albina Dango com os cabelos manchados e pingando vermelho, o horror escrito em sua face e olhos cheios de lágrima.
O albino maior piscou algumas vezes, apavorado com a ideia da filha ter se ferido na cabeça àquele ponto, mas bastou olhar com um pouco de atenção para concluir, com um alívio enorme em seu peito, que aquela gosma vermelha não era sangue. Entretanto, a confusão substituíra a preocupação interior.
— O que diabos...?
O barulho de risadas contidas o interrompeu. Não apenas Gintoki, mas várias pessoas no quarto abaixaram os olhos para Satoshi e Souichiro, as duas crianças à frente de todos e tentando conter o riso enquanto olhavam para a situação de Dango. Não foi preciso muito para ligar os pontos.
— Você... — A palavra deixou a garganta de Dango como um rosnado.
A cada segundo que passava, o rosto da garota se contorcia e avermelhava em fúria, seus olhos tão mortíferos que os dois meninos instantaneamente pararam de rir, Satoshi inclusive dando um passinho para o lado quando notou que a mira da irmã estava mais em Souichiro do que nele. O Okita, por sua vez, engoliu em seco.
Durante os dez anos de suas existências, ele havia irritado Dango várias vezes, algumas vezes até resultando em brigas sérias, mas era a primeira vez que ele via tanta fúria e ódio nos olhos prestes a chorar da amiga. Por um momento, ele chegou a se perguntar se poderia ter exagerado na brincadeira.
Do nada, a albina agora ruiva girou o rosto em direção à mesinha artística de Mayume, onde haviam dois potes grandes de tinta, um roxo e um verde. Souichiro moveu os olhos na mesma direção e arregalou-os, sua mente processando o que a amiga iria fazer segundos antes que Dango avançasse sobre um dos potes de tinta.
— NÃO! — ele berrou, pegando o pote roxo antes que a Sakata o agarrasse e saindo do quarto à toda velocidade.
— SOUICHIRO EU VÔ TE MATAR! — Dango urrou de volta, agarrando então o pote de tinta verde e correndo atrás do Okita.
Por mais que eles se afastassem do quarto, ainda era fácil para todos os espectadores ouvirem os dois correndo pela casa, muitas vezes com um ou dois barulhos de coisas sendo derrubadas ou empurradas. Foi após o som de portas sendo escancaradas que gritos foram ouvidos do jardim, e assim as crianças Sakata — em seguida todos os outros presentes — correram para a sacada. De lá, eles puderam ver Dango e Souichiro em sua brincadeira de gato e rato.
— Volta aqui, seu imbecil! — Desenroscando o pote em suas mãos, Dango mergulhou a mão na tinta, pegou um bom bocado e atirou no garoto poucos passos à frente dela. O splash e a enorme mancha roxa nas costas de Souichiro só a incentivaram a ataca-lo mais. — Seu idiota! Estúpido! Amigo da onça!!
— Olha quem fala! — Souichiro gritou de volta, sem parar de correr, mas virando-se vez ou outra para tentar acertar a albina com sua tinta verde. — Eu sabia que vir aqui não era uma boa ideia!
— Do que é que você tá falando?!
— DO FATO DE QUE VOCÊ VAI ME ABANDONAR, SUA RATA BRANCA!
Souichiro freou com seus pés, girando completamente para berrar com Dango com toda a força de seus pulmões. O tempo de completar aquela frase foi o suficiente para o corpo da Sakata se chocar contra o dele. As duas crianças foram ao chão, os punhos sujos de tinta arranhando e puxando os cabelos um do outro.
— Você. É um. Completo. IDIOTA EGOCÊNTRICO! — Dango pausava a cada golpe, finalmente conseguindo segurar os braços de Souichiro e fazendo-o parar.
Os dois se encararam, ambos ainda com raiva, e agora parecendo prestes a chorar.
— Minha cabeça tá girando mais que um tornado nesses últimos dias! — Ela forçou a voz para dizer. — Eu vou ter que tomar uma decisão que não importa como vai ser muito difícil, e você nem liga!
— Não devia ser difícil-
— Você só se importa com você mesmo! — Dango o interrompeu. — Mas quer saber? Talvez isso seja bom. Fica mais fácil saber onde morar se seu melhor amigo de repente vira um babaca!
Aquelas palavras pareceram atingir Souichiro em cheio. O choque em seu rosto rapidamente se transformou numa expressão de dor, e lágrimas realmente começaram a deixar os olhos azuis antes de sua face se contorcer em raiva. Souichiro empurrou Dango de cima dele, mas não voltou a brigar.
As duas crianças apenas ficaram se encarando, amêndoas contra safiras, sentadas no chão gramado do jardim.
— Fica aqui então — o garoto finalmente falou. — Fica aqui se você gosta mais dessa família do que da gente. Se você gosta mais desses irmãos que você acabou de conhecer do que de mim.
— E é exatamente isso que não entra na sua cabeça oca. — Dango bufou. — Eu nunca vou amar alguém como amo você!
Novamente, Souichiro parou, o choro lutando ainda mais forte para sair após aquelas palavras de sua melhor amiga. Sua melhor amiga... era isso que Dango era, e ele também jamais seria capaz de amar outra pessoa como amava a ela. E era por isso que...
— Eu tenho medo de te perder — ele enfim admitiu.
— Você não poderia me perder nem se quisesse. — Dango meio riu, meio fungou.
O que acabou fazendo ambos rirem em meio ao choro. Era bom estar assim novamente, rindo um com o outro, em meio a roupas completamente sujas e completamente sem fôlego. Era como voltar para uma de suas tardes brincando em Edo. Era a normalidade que um trazia para o outro.
Quando as risadas cessaram, Dango respirou fundo e voltou a ficar séria.
— Souichiro... Eu não sei qual será a minha decisão no final do mês. — Foi sincera com ele pela primeira vez. — Mas eu prometo que qualquer que seja, nada nem ninguém pode te substituir.
— O mesmo vale pra você. — O Okita assentiu, antes que seu mínimo sorriso sumisse. — Embora eu mereça ser substituído depois dessa última semana. Eu só piorei as coisas pra você, né?
— Você não melhorou elas, com certeza — a albina rebateu, fazendo os amigos dividirem uma última risada.
Após mais alguns instantes de silêncio, Souichiro se levantou e abriu os braços.
— Abraço de amigo esquisito?
Dango revirou os olhos, divertida, enquanto se levantava, mas imitou o gesto do amigo.
— Abraço de amigo esquisito.
E assim, sem se importarem com a imundice que estavam separadamente, e com a meleca maior ainda que fariam, os dois se abraçaram, abriram os olhos e com expressões neutras, deram tapinhas um nas costas do outro.
— Tap, tap.
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