Redemption

1 Fear, Fear, Punishment - treason:


“O traidor dos traidores.”

“AH!” Suas mãos prendiam-se às costas por um kidou bem aplicado. Shinsou estava na sua cintura, de propósito, para aumentar ainda mais sua sensação de impotência.

“Você merece um prêmio, Ichimaru Gin.”

Fiquei surpreso ao ver que, dessa vez, não havia sorriso algum em seu rosto. Nem de perto. A boca só mostrava seus dentes, cerrados com toda a força que o Arrankar tinha, arranhando como se fosse medo, dilacerando músculos. Estavam os dois num quarto vazio, de paredes geladas e uma enorme janela, virada para a imensidão do Hueco Mundo. A mesmice daquela lua iluminava a cena sem piedade, pretendendo que o mundo todo assistisse à vergonha daquele homem.

Os cabelos lilases (agora avermelhados em grande parte) não mais contornavam aqueles olhos alegres. Alguns fios refletiam, do chão, o luar impiedoso. Outros estavam na gloriosa mão de Aizen-sama, que os puxava com violência e ódio, enquanto arrastava seu querido braço-direito pela saleta, atiçando a língua ferina com palavras mordazes. Falava como se cantarolasse, como se dilacerar aquele homem fosse divertido.

Eu só assistia.

Merda.

“Acho que eu não sou o único por aqui que quer bancar Deus. Seu ego não tem limites, Gin?”. Aizen-sama empurrou-o de cara ao chão, com tanta força que o senti tremer, e logo a sobrancelha direita do Arrankar abria-se em sangue. Ele olhava para Aizen-sama por entre os olhos miúdos e estreitos. Ele olhava, não; ele amaldiçoava com pavor e arrependimento, eu sentia todo o remorso contorná-lo como se fosse sua própria reiatsu. “Só que, ao contrário de você, eu sou invencível. Um verdadeiro... Deus.”

“Então, parece que por todo esse tempo eu fui capaz de enganar um Deus”. Vi que aquilo tudo saiu completamente sem querer. Ichimaru, no instinto, colocou as mãos na boca e escorregou um pouco para trás, como se pudesse fugir da futura ira de Aizen-sama. Ele levou um tempo para processar aquelas palavras – ou então se demorou somente para pensar em um castigo razoável.

“Você me diz, então, que durante todo esse tempo você era um servo fiel da Soul Society”.

Virei o olhar para Ichimaru, curioso. Ele sentava-se ao chão, apoiado nos braços paralisados, as pernas abertas, sangrava, tremia. Bem, agora que começara a história, melhor seria continuá-la. Mas sua boca não o obedecia mais, sem ao menos precisar de um kidou para travar-lhe os movimentos; puro medo. Aizen-sama tinha as mãos nos bolsos e o encarava de cima, próximo – sem sorrir. Os olhos...

Um calafrio percorreu o meu corpo e desviei o olhar para Ichimaru, mais uma vez.

O que eu sentia era o mesmo que preenchia o olhar, os gestos, o corpo machucado do Arrankar de cabelos lilases?

“Não diz nada? Quem cala, consente... Ou então isso é simplesmente todo o reflexo de sua admirável fraqueza. RESPONDA-ME, GIN!”. Aizen-sama puxou-o pela gola, com uma só mão, e empurrou-o contra a parede. Ouvi uns estalos e percebi que eram os braços de Ichimaru quebrando-se com o choque – berros, lacrimejantes, recheados de agonia, ecoaram por Las Noches.

Aizen-sama estava completamente fora de si, e o medo de Ichimaru Gin era tão intenso que sentia até mesmo minhas pernas dormentes. Os olhos estavam arregalados, vermelhos, a testa se franzia, seu ódio equiparava-se à dor de Ichimaru.

Mais uma vez, ele ficou quieto – e eu assistia, paralisado, estático.

A glória de Aizen-sama convertia-se de uma só vez em puro ódio. Aversão. Nojo. E a minha curiosidade...

Transformava-se em algo que eu nunca havia sentido. Não eu, um Espada, invencível... Medo. Não mesmo.

Então por que meus dentes tremiam e o vento que balançava os cabelos daquele Deus pareciam queimar minha pele, em cada mísero centímetro?

“Pare de ser mentiroso, Gin.”. Aizen-sama sorriu. Parecia acalmar-se. Passou os nós dos dedos com suavidade pelo rosto de Ichimaru; parecia até mesmo, de longe, sentir um afeto pelo Arrankar. “Desde que nos conhecemos, você foi fiel a mim e a ninguém mais. Virou meu fukutaichou. Deu cobertura para que eu matasse aqueles quarenta e seis malditos da Soul Society. Quase assassinou alguns taichous de lá – e veio ao Hueco Mundo comigo.”

“Você sempre foi o mais devoto a mim. Chegava a pensar que era algum tipo de amor, mas deixei para lá. De nada me adiantava saber a razão de sua fidelidade, conquanto você continuasse assim.”

A cada palavra, Aizen-sama parecia despedaçar o ar ao redor, quebrando-o como se fosse sólido, e embora eu não precisasse daquilo para viver, senti que faltava algo. Ficava fraco a cada frase. Parecia cada vez mais humano, com sensações estranhas, incapaz de encarar o homem de cabelos castanhos de verdade...

“E agora... Você aponta Shinsou para mim, pelas costas, achando que pode me substituir?”

Do sorriso, a gargalhada. Aizen-sama desferiu-lhe um soco estrondoso, em cheio no abdômen, fazendo Ichimaru cuspir sangue e saliva ao mesmo tempo. Caiu no chão, escorregando pela parede, indo parar aos joelhos de nosso Líder.

“De todos os shinigamis, só você e Komamura tinham medo da morte. Ainda é assim, não é?” Aizen-sama puxou seus cabelos para trás, virando ao máximo o pescoço do Arrankar, promovendo mais gritos. Ouvi a espada deixando a bainha de nosso Líder, vi seu reflexo e hesitei.

Se Aizen-sama soubesse que, há dois dias, quem tivera a intenção de matá-lo fora eu, seria o meu sangue derramado, seria aquela crueldade em pessoa a fazer-me implorar por misericórdia...

“Aizen taichou... Por favor... Sousuke... Por tudo, tudo o que passamos...”

“Por tudo o que passamos, essa espada vai cruzar suas costelas e rasgar seus músculos. Gin, você é o mais canalha de todos nós, achou que sua punição seria mesmo contornável?”

A cena seguinte me fez desabar, quase como se eu houvesse recebido o golpe. Ainda com o contato visual, vi os olhos de Ichimaru se arregalarem, sem bem identificar a cor daquelas íris foscas, sem bem entender se estava vivo ou morto. Aizen-sama sorria. Sua espada cruzava-lhe o espaço que deveria ser ocupado por um coração, e que agora só palpitava por resquícios de medo e arrependimento. E eu, eu apenas procurava minha respiração, mas só encontrava aqueles dois homens banhados pelo luar, que dessa vez parecia mais intenso, mais claro e mais venenoso. Só um sorria. O outro o encarava com a imensidão vazia daqueles olhos, exatamente como o mundo ao nosso redor. Sua reiatsu sumia, mas a de Aizen-sama crescia com tamanha proporção que me fazia contrair os músculos.

Quase como se insistisse para que sacasse minha zanpakutou e avançasse para ele, muito embora eu soubesse ser incapaz.

Travado, não consegui sair do chão gélido. Não entendia por que ficar tão impressionado com uma cena daquelas, só sabia que, se Aizen-sama era capaz de matar tão friamente o único homem que o servira em qualquer situação, então eu deveria ter medo dele. Pavor. Aquele Deus no qual nunca acreditei, aquele Deus o qual eu almejava trair, abandonar e destronar. Aquele mesmo Deus agora me obrigava a obedecê-lo através do mais fino horror, me paralisava com seus movimentos calculados e incontroláveis.

Aquele Deus olhou para mim no momento que retirou a espada do corpo sem vida de Ichimaru. Olhou como se olha para um ser mais fraco, para alguém cuja morte já está programada.

Sua zanpakutou também me mirou, cegando-me com seu brilho.

O corpo de Ichimaru Gin desapareceu, mas não porque morrera; sumiu, junto com o sangue, com os fios de cabelo, com qualquer presença.

E Aizen-sama riu.

“Yare, yare... Acho que já o apavoramos o suficiente, Aizen taichou!”

A voz da cobra veio pelas costas, e depois os braços, e depois a verdade.

“Concordo. Agora... Vamos castigar para valer o verdadeiro traidor. Sem ilusões.”

“Será que Arrankars também têm medo da morte, taichou?”

O olhar de Aizen-sama e o sorriso de Ichimaru Gin foram o suficiente para que eu começasse a gritar naquela noite sem fim.

Notas finais
É claro que eu pensei em alguém como o traidor, mas como eu nem comecei direito a saga Arrankar preferi deixar em aberto... Deem suas opiniões? 8D

E desculpem por colocar o Gin ainda chamando o Aizen de "Aizen taichou"... Não resisti, é fetiche meu. XDDD~

Gostaram? Odiaram? Querem que o Aizen me mate? Reviews! Obrigada por lerem
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!