Rede Obscura

7 Relatório de Susie Byron, 9 de maio de 2018


Notas iniciais
Este é o penúltimo capítulo, e a emoção tá como? Espero que gostem! ^^ ♡

Eu e Michaelson passamos a noite na casa de Sebastian Scott. O dia anterior foi bastante exaustivo. Prendemos um dos membros dos S0V3R3IGNS. Francis Hatterman neste momento está sendo enviado para a prisão, onde deverá pagar uma dura pena por seus crimes virtuais e federais.

A próxima etapa da missão envolvia algo fascinante e ao mesmo tempo arriscado. Teríamos de ir até a última camada da internet para desativar a fonte de informações que alimentavam os ataques dos S0V3R3IGNS.

Sebastian concordou em nos ajudar. Às 6h da manhã de 9 de maio, pegamos o trem para Oak Ridge, no estado do Tenessee. É lá que está instalado um dos supercomputadores mais rápidos do mundo: Titan.

Quando estávamos no trem, eu vim conversando com Sebastian sobre como essa máquina poderia nos ajudar.

— Então, o que faremos? — perguntei.

— Iremos ao Laboratório de Oak Ridge, onde acessaremos o Titan.

— Se refere ao supercomputador? — Mike perguntou.

— Sim. Se de fato estamos lidando com algo vindo do Sistema Primarca, apenas um supercomputador com capacidade de fazer cálculos quânticos pode nos ajudar.

— E esse... Titan, pode nos ajudar? — eu perguntei.

— Bom, o supercomputador Titan tem mais de 500 mil processadores e é capaz de fazer mais de 17 quadrilhões de cálculos por segundo. Apesar de computação quântica ser ainda um desafio para essa máquina, é a única oportunidade que nós temos.

— Mas acha que vão deixar a gente usar ele assim, facilmente?

— Provavelmente não. Mas temos que tentar.

— É só uma questão de tempo. Só precisamos encontrar a matriz do Sistema Primarca que está enviando essas informações e desativá-la. — Mike falou.

— Não é tão simples assim. — retorquiu Sebastian. — Realmente, desativá-la solucionará o problema, mas apenas temporariamente. Depois de desativarmos a fonte, nossa próxima missão será encontrar Joseph Hall. Se não o determos, será apenas questão de tempo para ele reconstruir a matriz.

— Quanto tempo acham que isso vai levar?

— Difícil dizer, Susie. Computação quântica é uma coisa muito complicada.

— Eu imagino. Só de imaginar aquelas coisas sobre partículas subatômicas, mecânica quântica, o gato de Schrödinger, dói a cabeça.

— Você deve conhecer o código binário, não é?

— Claro que sim. Não é aquela linguagem computacional onde tida a informação pode ser resumida aos bits 0 ou 1.

— Resumidamente, sim. Mas a computação quântica ela trabalha com outro tipo de unidade de informação básica: o bit quântico. Também conhecido como "q-bit". O q-bit não assume apenas a forma como "0" ou "1", mas ele pode assumir as duas formas: 0 e 1 ao mesmo tempo.

— Uau.

— Interessante, não é?

— Só a parte que eu compreendi... Tipo... Metade da metade.

— Não existe ainda um processador inteiramente quântico. A ciência ainda não evoluiu para criar tamanha tecnologia. Mas se usarmos todos os meio milhão de processadores do Titan em conjunto, poderemos acessar a oitava camada mesmo que apenas por alguns minutos.

— E vai ser tempo suficiente para desativar a fonte de informações?

— Difícil dizer.

— O senhor faz parecer fácil, Dr. Scott. — disse Mike.

— O quê?

— É uma operação que exige muito, mesmo para um supercomputador como o Titan. Se conseguirmos acessar a fonte, poderemos desativá-la, mas provavelmente após todo esse processo cada um dos 500 mil processadores do supercomputador poderá esquentar a ponto talvez até de danificar suas peças. Acha que os cientistas do laboratório de Oak Ridge estarão dispostos a arriscar sua máquina mais potente dessa forma?

— Bom, estamos falando de um caso de segurança nacional. Espero que eles não sejam egoístas.

Chegamos na estação de trem em Oak Ridge. Não imaginávamos que ali teríamos uma grande surpresa. Quando saímos do trem, havia uma enorme multidão. Eu, Mike e o Dr. Scott andávamos com dificuldade.

De repente, um estranho homem encapuzado passou perto de nós, nos empurrando. Lembro até de Mike ter sussurrado "que falta de educação" no meu ouvido.

Nesse momento, Sebastian deu um grito alto. Sentiu o que de início pensou ser uma ferroada de abelha, mas logo se assustou ao ver que a "ferroada" era na verdade a agulha de uma seringa. Quando olhou para o lado viu o homem encapuzado lhe aplicando uma injeção.

— Mas que droga é essa!? — Sebastian gritou.

Olhamos para trás e vimos a cena. O encapuzado largou a seringa no chão e correu para longe. Mike tentou seguí-lo, mas a multidão o impedia.

Sebastian começou a se queixar de falta de ar. Imaginei que fosse devido à toda aquela concentração de pessoas ali perto, mas fiquei preocupada quando o vi caindo no chão com o rosto vermelho. Ele abria a boca forçadamente para que seus pulmões recebessem um pouco de oxigênio que fosse, mas parecia não adiantar. Peguei a seringa que estava jogada no chão ao seu lado. Me assustei quando vi que no rótulo da injeção estava escrito "Tetrodotoxina".

A Tetrodotoxina é uma substância encontrada em alguns peixes, como o polvo de anéis azuis e o baiacu. Em humanos, essa toxina provoca paralisia de alguns órgãos vitais, como é o caso do pulmão. Fazendo a vítima morrer de asfixia. E lá estava Sebastian, lutando para respirar.

— Esse homem está morrendo! — gritei. — Alguém ajude pelo amor de Deus!

A multidão se juntou, formando um círculo envolta de Sebastian. Todos queriam ajudar, mas ninguém sabia como. Nem mesmo eu.

Sebastian agarrou meu braço e me disse no ouvido: "vá para o laboratório de Oak Ridge".

— Não posso deixá-lo sozinho aqui. — eu disse.

— Os S0V3R3IGNS estão aqui. Provavelmente sabem do nosso plano. Chame Mike e vá. Diga aos cientistas do laboratório que vocês vão realizar o Protocolo 9.

— Protocolo 9? O que isso significa?

— Não dá tempo de explicar! Vá logo. — a voz de Sebastian já estava falhando devido à falta de ar. — Susie... Você e Mike são a única esperança...

Seus olhos se fecharam. Os meus começaram a chorar.

— Sebastian? Sebastian! — comecei a me descontrolar. — Por favor, Dr. Scott! Acorde.

A Tetrodotoxina tinha surtido efeito.

Fui atrás de Mike. Quando o encontrei, disse que devíamos ir ao Laboratório de Oak Ridge.

— Onde está o Dr. Scott?

— Ele morreu.

— Como assim?

— Ele morreu, Mike! O Dr. Scott está morto!

— Não pode ser... Não!

Os olhos de Mike se encheram de lágrimas e ele se desesperou. Não pude conter as minhas lágrimas também.

Ele me abraçou forte. Foi então que percebi o respeito e carinho que ele sentia pelo seu ex-professor.

Passada a emoção, saímos da parada de trem e pegamos um táxi.

— Para onde? — o taxista perguntou.

— Laboratório de Oak Ridge. — respondi. — O mais rápido possível, por favor.

Quando chegamos ao laboratório, nos dirigimos até a sala onde estava instalado o poderoso Titan. Mas ao tentarmos entrar lá, fomos impedidos pelos seguranças.

— Desculpem-me. A entrada nessa sala só é permitida para pessoas autorizadas.

— Eu sou agente da CIA. — disse, mostrando o meu crachá. — Susie Byron. Precisamos urgentemente do acesso ao supercomputador.

— Sinto muito. Temos ordens para evitar a entrada de pessoas aqui.

— Vocês não ouviram a moça? — Mike falou. — Ela é agente da CIA! Não somos simples civis. Quer dizer... Eu sou... Mas ela não.

— Chega, Mike. Não está ajudando!

— Esse crachá pode ser falso. Se é mesmo agente da CIA, quero ouvir ordens do seu próprio chefe. Você não viria aqui sem ordens superiores, correto?

— O chefe do meu departamento foi assassinado.

O segurança fez uma cara de descrente.

— Por favor! Deixe-nos entrar.

— Negativo. Cuidarei de tirá-los daqui agora!

O segurança pegou nos nossos braços e nos conduziu até a saída. Foi então que me lembrei...

— Protocolo 9!

— O quê? — o segurança parou.

— Estamos aqui para realizar o Protocolo 9.

— Então... Foram mandados aqui pelo Dr. Sebastian Scott?

— Afirmativo.

— Onde ele está?

— O Dr. Scott foi assassinado cerca de meia hora atrás.

— Sebastian Scott está morto?

— Sim.

— Esperem aqui.

O segurança subiu até o andar superior. Voltou com um homem o acompanhando.

— São eles? — o homem perguntou.

— São sim.

— Quem são vocês?

— Susie Byron.

— Michaelson Wright.

— Muito prazer. Meu nome é Dennis Muller. Sou cientista deste laboratório. O que sabem sobre o Protocolo 9?

Expliquei a ele tudo sobre os S0V3R3IGNS, o assassinato do Dr. Sebastian Scott, as informações vazadas da CIA e a missão para chegar à oitava camada.

— O Dr. Scott sabia que um dia poderíamos usar o Titan para realizar cálculos quânticos. — Dennis explicou. — Ele prometeu compartilhar algum de seus projetos de supercomputação conosco, desde que, se algum dia precisasse, ele usaria o Titan para realizar cálculos quânticos sem nenhuma interferência nossa. Ele sabia que o Titan poderia fazer coisas como...

— Entrar na oitava camada da internet. — disse Mike.

— Exatamente.

— É para isso que estamos aqui. — eu falei.

— Entendo.

— Sabem que o Titan pode ficar muito avariado após todo esse processo, não é?

— Se é a mando do Dr. Scott e tem a finalidade de proteger uma nação, vale a pena.

Entramos na sala onde o supercomputador estava localizado. Seus processadores ocupavam uma área de 404 m². Sua velocidade atinge 17,59 petaFLOPS. Possui 200 gabinetes da marca "Jaguar" trabalhando ao mesmo tempo. Os da frente, possuem em sua superfície uma bela arte do nome "Titan" pintado em um fundo azul.

Os processadores são ligados a um enorme monitor. Dennis ativa um software criado pelo Dr. Scott, que iniciava os cálculos quânticos que possivelmente levariam à oitava camada. Todos os sistemas de refrigeração foram ativados, mas era incerto se eles dariam conta do recado.

Lá fora, o segurança estava falando com uns amigos no telefone, falando sobre em qual bar iriam se reunir quando seu turno acabasse. Uma pessoa o agarra por trás e corta sua garganta.

Eu fiquei olhando Dennis e Mike trabalhando juntos, não entendo nada do que aqueles cálculos significavam.

A porta bruscamente atrás de mim. E fiquei paralisada quando vi que era um homem encapuzado. O mesmo que minutos atrás tinha matado o Dr. Scott.

— Fim da linha. — ele disse, com uma sombria voz eletrônica.

Apontou um revólver para os dois. Apertou o gatilho.

Peguei uma bandeja de aço que estava do meu lado e parei o projétil.

— Continuem! — falei. — Eu cuido desse cara.

— Susie Byron...

— Você me conhece?

— A suspeita sempre persegue a consciência culpada.

Logo reconheci de quem era frase... William Shakespeare.

— Joseph? É você?

Ele subiu o capuz e retirou o camuflador de voz do seu pescoço.

— Como veio parar aqui?

— Eu sabia que viriam até aqui. Quando fugi da CIA dois dias atrás, peguei um trem e me dirigi até Oak Ridge imediatamente.

— Os federais não te pegaram?

— Os que tentaram estão mortos.

— Então veio nos impedir.

— Não posso impedí-los.

— Que bom que você sabe.

— Você não entendeu. Não posso impedí-los porque é não é necessário.

— Como assim?

— Estão no caminho errado, Susie e Mike, e quando perceberem será tarde demais.

Mike e Dennis ouviam nosso diálogo, mas sem se desconcentrarem do que estavam fazendo.

— Como assim estamos no caminho errado? — perguntei.

— Não adianta explicar. Errado ou certo, o fim do caminho de vocês é aqui.

Ele disparou contra mim, mas me esquivei. Uma longa sequência de disparos veio em seguida. Apesar de um passar de raspão no braço, nenhum me atingiu letalmente.

Me aproximei de Joseph e tentei imobilizá-lo, mas ele imediatamente me derrubou no chão.

Apontou a arma para mim, mas não atirou. Usou o revólver para rechear seu punho e me dar fortes socos na cara. Usei meu pé para lhe dar um chute e empurrei-o para longe de mim.

Joseph avançou novamente em minha direção. Levantei-me e joguei a mesma bandeja em sua direção, acertando sua cara.

— Susie, você está bem? — Mike me perguntou.

— Ainda estou com fôlego. — respondi.

— Diferente do Dr. Scott, não é? — Joseph falou, com um sorriso sádico.

— Agora não é hora para piadinhas, Joseph. E pensar que eu te respeitava...

Ele apontou a arma para mim, mas fiz ele largá-la com um chute na sua mão. A arma voou longe.

— Agora está perfeito. Soco contra soco.

— Preferia minha arma.

— Covarde.

Eu e Joseph continuamos nosso conflito, enquanto Mike e Dennis quebravam a cabeça com todos aqueles cálculos e dados.

Dava para perceber que aquela operação estava exigindo muito do Titan. A temperatura da sala começou a aquecer subitamente.

— Dennis, não acha que é melhor pararmos?

— Não. Estamos quase lá.

Olhei rapidamente para o monitor. Dava para ver eles atravessando as camadas da internet pouco a pouco.

Os manuais de suicídio da terceira camada. Os fóruns de canibais da quarta. As teorias da conspiração da quinta e da sexta. De repente, os potentes antivírus do Titan começaram a alertar loucamente. Tinham chegado na "Sopa de Vírus".

— Chegamos na sétima camada! Falta pouco! — Mike disse.

Joseph me agarrou por trás e me derrubou no chão. Fiquei tão hipnotizada com o que Mike e Dennis estavam fazendo que me descuidei. Lá estava Joseph Hall com o revólver na minha testa.

— Bons sonhos, Susie Byron. — sussurrou.

Um sapato veio voando e o atingiu no rosto, fazendo-o largar a arma.

Quando olhei para a frente, vi Mike com um pé descalço.

— Não precisa agradecer agora. — ele disse.

Quando Joseph ia pegando a arma novamente, pisei em sua mão.

— Está um pouco quente aqui. — falei. Empurrei Joseph em direção à parede. — Acho melhor abrir a janela.

Com um último pontapé, derrubei-o pela janela. Estávamos em um andar alto. A queda foi fatal.

Minutos depois, quando minha adrenalina já estava baixando, olhei para Mike e Dennis. Eles estavam exaustos.

Alguns dos processadores já estavam faiscando. Olhei para o monitor, que também ameaçava parar de funcionar.

— Conseguimos? — Mike perguntou.

— Acho que sim. — Dennis respondeu.

Olhei para Mike.

— Então essa é...

— Sim, Susie... A oitava camada. O Sistema Primarca.

Olhei para o monitor, que mostrava vários dados se permutando entre si.

— Então é aqui a origem da internet?

— Sim, é como se estivéssemos vendo as partículas que formam os átomos virtuais.

— Temos que ir rápido! — Dennis falou. — A conexão não vai se manter por muito tempo!

Mike procurou onde estavam as assinaturas dos S0V3R3IGNS. Após alguns segundos sem nem sequer piscar, ele encontrou algo. Eram palavras escritas em código binário. Se referiam à CIA, ao exército e ao governo americano.

— Está aqui. Mas... Não pode ser...

— O que houve? — perguntei.

— Essas informações já estão prontas também.

— Como assim?

— Não é aqui a origem delas.

— Como assim a origem delas não é aí? — Dennis questionou. — Estamos no Sistema Primarca! Tudo da internet sai daqui.

— Mas não essas. Veja... Não são os dados individuais das informações que estão se permutando, são as informações inteiras. Elas não são formadas pelo Sistema Primarca, elas já vêm prontas para ele.

— E o que isso significa? — perguntei.

— Significa que os S0V3R3IGNS estão agindo além dos limites conhecidos da internet. É como se... Eles tivessem criado uma nova camada da internet... Uma nona camada... Criada apenas para enviar informações sigilosas para o Sistema Primarca. Precisamos descobrir de onde vem essa assinatura.

— Então temos que ser rápidos. — Dennis falou. — A conexão só deve durar por menos de um minuto.

— Posso aproveitar esses últimos segundos para achar a localização dela.

Mike usa o software de Sebastian para tentar rastrear a tal assinatura.

— Consegui!

Segundos depois, a conexão com o Sistema Primarca cai. O Titan, totalmente exausto, é forçado a se reiniciar.

— Acho melhor deixar seu supercomputador descansar agora. — Mike falou para Dennis.

— Concordo.

— E aí, conseguiu alguma coisa? — perguntei.

— Sim. — Mike respondeu.

— Para onde vamos agora?

— Está pronta para saber?

— Lógico que estou! Deixa de fazer suspense! Aonde temos que ir?

— Reino Unido.

Fiquei espantada.

— Vai ser uma viagem longa.

Notas finais
Reino Unido? Eita... Espero que tenham gostado. ^^ ♡