Red and Black (HIATUS)
1 Prólogo: Pândega
Bato com força no despertador que tocava incessantemente. Meus olhos semi-cerrados não conseguem separar-se devido a claridade. Os esfrego para que se acostumem com a luminosidade, e avisto minha mãe adentrar meu quarto. Estava com suas pantufas rosadas, ainda de pijamas, parecendo pendurar meu uniforme — devidamente passado e engomado — em meu armário.
- Bom dia! — Diz ela, após perceber que havia despertado.
- Bom dia... Ah, mais um dia de aula? Por que não posso faltar mãe?
Ela me encara por alguns segundos, e mostra um breve sorriso. Torna-se séria novamente e despeja em mim sua resposta a minha inútil pergunta, sonoramente:
- Porque não.
- Tudo bem, eu já esperava! — Admito, me vendo repentinamente animada em ir a escola. — Hora do café! – Salto da cama e corro em direção ao andar inferior.
Entro na cozinha e minhas narinas são instantaneamente preenchidas pelo quente aroma de café fresco. Meu pai está sentado diante a mesa, lendo as notícias do jornal semanal, como de costume.
- Bom dia, pai! – Digo, dando-lhe um beijo na bochecha.
- Bom dia. – Ele responde, com um sorrisinho torto ao lado da boca, sem desviar os olhos das folhas de jornal.
Abro a geladeira e pego uma caixa de suco. Bebo direto da embalagem, sentindo o frescor escorrer por minha garganta e acabar com sua secura. Ah! Pego uma maçã da fruteira farta e a devoro enquanto retorno ao meu quarto. Chegando ao segundo andar, percebo que minha mãe havia deixado meu quarto, provavelmente fora realizar suas atividades matinais. Retiro então meu uniforme do armário, o típico nipônico, em estilo marinheiro. Visto primeiro a blusa, depois a saia, as meias. Chacoalho a cabeça, duas ou três vezes, e como mágica minhas madeixas encontram-se devidamente em seu lugar. Meu cabelo é um tanto quanto curioso. Com certeza é a parte mais enigmática de meu ser. São tingidos naturalmente de ruivo, porém não um ruivo qualquer, mas sim um vermelho vivaz como escarlate. O mantenho curto devido a facilidade em cuidar, porém minhas amigas dizem a todo momento que seriam magníficos se longos. Embora eu não me importe muito com sua aparência, de fato.
Olho o relógio e assusto-me. Está na hora. Na realidade, já passou da hora. Escola. Desço as escadas e pego meu lanche em cima da mesa, às pressas, e vou em direção a mais um dia escolar. Minha casa não fica muito longe da escola, assim, faço todo o percurso a pé. No caminho, passo pela casa de minha melhor amiga, — que fica a poucas quadras da minha — Mitsuko, para caminharmos juntas.
Mitsuko é minha melhor amiga desde sempre. Lembro-me do dia em que nos conhecemos na escola elementar. Ela havia acabado de se mudar para a cidade por causa do emprego de seu pai, e agia de forma nada amigável. Desde que ela chegou a escola, eu á observava, provavelmente curiosa ou fascinada por aquela criatura ranzinza. Algumas garotas tentaram convencê-la a conversas, contudo ela as respondeu rudemente, e estas garotas — minhas amigas, por sinal — começaram então a maldizer Mitsuko. Porém uma vez, a vi sentada em um canto da escola sozinha, e não conseguindo me conter, puxei assunto com ela. Primeiramente ela me pareceu exatamente como minhas amigas haviam descrito, contudo, aos poucos, eu fui descobrindo nela alguém doce e gentil. A partir deste dia, sempre estávamos juntas. Reapresentei ela às minhas amigas, que ficaram muito felizes quando Mitsuko começou a deixar seu lado frio e ríspido. Tempos depois descobri que o único motivo que a fazia querer se afastar das pessoas era por não gostar da ideia de ter se mudado para Kamakura, se negando a criar qualquer laço. Quando percebo estou rindo sozinha enquanto imagino a carinha emburrada de Mitsuko naquela época. Era realmente muito engraçada. Ah! Cheguei! Aperto a campainha e logo avisto uma radiante Mitsuko — muito mais do meu o normal — correr escadas abaixo.
- Bom dia! Pelo jeito está bem alegre hoje, não? E qual o motivo de tanta felicidade? – Pergunto, curiosa.
- Ah, Akane... A vida é simplesmente maravilhosa, não é?! – Ela grita, erguendo seus braços para o céu.
- Claro, eu sei disto! E e o tempo passa rápido, sabe? Vamos logo ou então iremos nos atrasar! — Digo, a puxando pulso.
Corremos a ladeira abaixo o mais rápido que conseguimos, porém, em vão, pois ainda assim chegamos atrasadas.
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