Red Like Blood
10 Capítulo 9 - Treinamento.
Notas iniciais
Soana quase me derrubou com seu abraço. Abracei-a de volta, com força, me inebriando em seu cheiro adocicado tão nostálgico e familiar. Quando me soltou, uma lágrima fina e solitária escorria por seu rosto, e eu limpei-a com a ponta dos dedos, sorrindo para ela. Hunter pigarreou.
– Sabe, devido as circunstâncias, e com circunstâncias eu quero dizer: os fatos em que eu voei numa coisa insegura, explodi uma parede, fui feito de babador, acho que devo dizer: De nada. – Ele disse, revirando os olhos. Soana riu, soltando-me de vez e abraçando-o.
– Obrigada, Líkos. Por que está sem camisa? – Disse, e então segurou sua mão, indicando para mim que seguíssemos por um pequeno caminho marcado na mata. Foram em frente, e eu fui atrás.
– Looonga história envolvendo uma Pirralha teimosa e mimada. – Ele disse, me espiando por cima do ombro enquanto sorria. Revirei os olhos, ouvindo-o contar tudo, menos o meu quase afogamento e a parte do “Ursinho”.
A visão a seguir fez o meu queixo cair. Caminhamos por cerca de 20min mata adentro, a trilha desaparecendo e eles mudando de direção como se soubessem exatamente o caminho. Provavelmente para despistar os curiosos. E saímos em uma grande clareira. E bem no centro, havia A Cabana. Não uma cabana, A Cabana. Era enorme, de madeira envernizada, mas enorme. Parecia tão bem cuidada como se tivesse acabado de ser construída. Uma varanda circundava, era larga, e havia cadeiras com almofadas. Parecia bem familiar, e nada escondida.
– Wow. Chamam isso de esconderijo? Parece mais um spa. Como é que não notam isso aqui? – Murmurei, observando a construção. Soana sorriu.
– É um esconderijo mágico, Kassandra. Katherine fez um encantamento tão forte que oculta totalmente isso. Só quem tem a permissão dela pode ver, podendo assim passar essa permissão aos demais. Eu e Hunter estamos lhe permitindo ver. – Me explicou. Franzi a testa.
– “Katherine”? A moto? – Perguntei, mesmo percebendo o quanto soava idiota. Hunter soltou sua mão e foi se encaminhando para a varanda. Quase podia sentir seu revirar de olhos quando me respondeu.
– Obviamente não, Pirralha. Minha mãe. O nome da moto é... Hm... Digamos que, em homenagem a ela. – Disse, esboçando um sorriso divertido ao final, enquanto o seguíamos. Soana suspirou, sorrindo.
– “Homenagem”? Você fez para irritá-la. Sabe que ela abomina a sua moto. – Disse, mas eu não respondi nada. Estava observando o local a minha volta. Por dentro, era aconchegante, quente, um leve cheiro de ramos frescos de pinheiro pairava no ar. Havia uma sala, uma cozinha, uma sala de estar, e um corredor que devia levar aos quartos. Soana entrou por ele e voltou com um top e uma leg em mãos, jogando para mim, e piscando. Não entendi, mas entrei num pequeno banheiro, me trocando, me sentindo desconfortável com a roupa, vestindo então o Capuz Vermelho por cima. Voltei para a casa, em busca de mais detalhes. Tudo era decorado com mobília resistente de mogno, e fotos de pessoas sorrindo e se divertindo na casa em todos os cantos. Havia um casal em várias fotos. Ela era loira, branca, quase albina, tinha os olhos azuis. E ele, tinha um semblante severo. Cabelos negros e rebeldes, mesmo aparentando ser mais velho pelas feições e barba mal feita. Os olhos eram conhecidos. O mesmo azul-cobalto de Hunter. Era mais bronzeado que Hunter, então presumi que ele havia puxado a mãe nesse aspecto. Ao lado desse retrato, havia um outro. Novamente o casal, em pé atrás de um sofá, no sofá estavam dois jovens. Uma versão mais jovem e talvez um pouco mais magra de Hunter, e Soana. Do jeito que eu me lembrava antes do reencontro. Havia ataduras em volta de seu peito e pescoço, ela estava magra, mas sorria. Sua mão estava entrelaçada com a de Hunter. Ela parecia feliz. Não parecia se lembrar de mim, embora carregasse um bom lembrete. Suspirei. Eu estava sendo idiota. “Estava sendo? Você é idiota”, R disse. Revirei os olhos, era realmente um saco não poder nem pensar em paz. Passei mais 40min até olhar todas as fotos, inclusive fotos de uma família albina de olhos azuis-cobalto, uma família gigantesca, parecia que tinham filhos como coelhos. Soana chamou minha atenção na cozinha. Eu não comia desde a tal caçada, e eu não considerava aquilo como um lanche saudável. Ela estava fazendo algo, que eu conhecia muito bem, e que cheirava extremamente bem. Cookies. Cookies da mamãe. Imediatamente deixei as fotos e pisei dentro da cozinha, mas a cena lá dentro me fez recuar. Estavam brincando com a farinha como duas crianças. Existia algo mais clichê e bonitinho? Andei para trás, não querendo interromper, e voltei a explorar a casa. Notei algo estranho, parecia que uma parte do local não estava ali antes. Agora, havia uma porta de vidro de correr na sala, abria para uma piscina. E eu podia jurar que não estava ali antes. Perguntaria sobre isso depois. Joguei-me no confortável sofá de couro, fisgando uma revista sobre como matar vampiros que estava jogada no chão e tentando ignorar o ciúmes mortal personificado que rosnava dentro da minha mente. Ela nem tinha de que sentir ciúmes. Nem podia. “A forma mais convencional de matar um vampiro, também a mais clássica, é expô-lo na luz do sol e espe...”, um casal alegre e inteiramente coberto de farinha apareceu na sala, ainda rindo. Levantei as sobrancelhas, esperando que se pronunciassem. Hunter pigarreou, tirando o sorriso do rosto, e voltando a expressão dura de sempre. Soana ainda sorria bobamente, eles estavam de mãos dadas. Voltei a ler: “... e esperar que queime sozinho. Outras formas incluem estacas de madeira específica e prata, ambos letais em grande quantida...”, outro pigarro me interrompeu. Levantei os olhos, Soana não estava mais ali. Hunter fez um gesto com a mão para que eu ficasse de pé. Apenas franzi a testa, continuando a leitura. “... quantidade, portanto é sempre melhor carregar consigo, armas com água be...”, fui jogada ao chão com sofá e tudo. “Ele realmente sabe como conseguir o que quer”, “É. Percebi”, dialoguei levemente com R. A quina do móvel caiu em cima de minhas costas e eu arquejei. Ouvi a voz de Soana, algo abafado como: “Líkos! Eu disse para poupar a mobília!”. Ela realmente me amava demais. O sofá foi desvirado e senti um dos pés se enterrar na minha panturrilha quando foi colocado em sua posição certa de volta ao chão.
– Ai! Sua delicadeza é encantadora Hunter! – Exclamei, erguendo o sofá e retirando minha perna dali. Puxei a jeans para cima, checando o hematoma que começava a surgir. Hunter se agachou a minha frente, ainda coberto de farinha, era difícil leva-lo a sério.
– Ande logo, Pirralha. Para fora. Agora. – Comandou, ficando de pé. Revirei os olhos, me levantando, e olhando para cima com toda a dignidade que me restava. “Resta algo? Certeza?”, R questionou, sarcástica. “Eu sei que me odeia, mas não está ajudando R”, pensei, revirando os olhos.
– Você não manda em mim, não sou uma cadelinha, e não pode me obrigar. – Falei decidida, cruzando os braços e firmando os pés no chão. Ele ergueu as sobrancelhas, nada impressionado, e um tanto indiferente.
– Claro. Pode ser mimada lá fora, por favor? – Disse, cheio de escárnio. Bufei, e rosnei por puro instinto, batendo o pé.
– Não! – Respondi, por pura teimosia. Eu estava com raiva de Hunter, não queira concordar com nada que saísse de sua boca. Ele semicerrou os olhos, e abriu a boca para falar, mas simplesmente formou uma expressão dura, e antes que eu pudesse reagir com algo mais que socos, mordidas e chutes no ar, eu estava dependurada sobre seus ombros, bufando de irritação. Ele caminhou sacolejando o máximo possível nos 2m até a porta de vidro, me dando belas ombradas na boca do estômago a cada pulo. Largou-me com brutalidade, e eu caí em pé por pouco, cambaleando. Encarei-o irada.
– Não pode fazer isso toda vez que alguém discordar de você! Não é porque é maior e mais forte que pode abusar disso contra os outros! – Gritei irada. Ele riu baixo.
– Vai falando. Quem sabe um dia alguém te escuta. – Disse, me ignorando e caminhando até uma ducha no canto da piscina. Entrou debaixo dela até toda a farinha sair e escorrer para o ralo.
– Se fez tudo isso para que eu te visse tomar banho, já vi mais e não estou nada impressionada. – Resmunguei, revirando os olhos e lembrando do riacho. “Se ele fez tudo isso para que o víssemos tomar banho, eu teria vindo de bom grado”, R pensou como a puta que era de novo. Suspirei, essa fascinação dela por Hunter é que era patética. E isso porque ele estava vestido! Desligou a ducha, as roupas ensopadas grudadas ao corpo e o cabelo pingando. Tirou a camiseta, me encarou de forma avaliadora e deixou escapar um sorriso sinistro.
– Banho? Não. Vamos treinar. – Disse, e um arrepio passou pelo meu corpo. Respirei fundo.
– Como assim? – Questionei, estudando suas próximas palavras com atenção.
– Se vai andar com a gente, precisa ser mais que um peso morto. Vou te ensinar a lutar o básico – Tanto humana, como Lupina — e como usar armas. Soana vai te ajudar com a magia, mas eu começo. – Explicou, e eu arquejei surpresa. Aquilo seria interessante. Senti o cheiro dos biscoitos e minha barriga roncou.
– Não podemos comer antes? – Perguntei suplicante. Ele alargou seu sorriso sinistro.
– Não. Só depois do treinamento. Quem ganhar come os cookies. Quem perder fica sem cookies. Simples, ou terei que desenhar? – Disse desafiador, me incitando. Parte de mim estava horrorizada em lutar contra Hunter, ele já havia provado que nos venceria facilmente. A outra parte... Bem, era algo como: “Desafio? Adorável. Vamos lá, Amada. Vamos atender a esse chamado por confusão”. Respirei fundo. Joguei o capuz longe, erguendo os punhos em minha melhor posição de: “Olha! Eu já assisti filmes do Bruce Lee!”, enquanto ele sorria cheio de escárnio e avançava. Logo de cara, ele blefou, vindo para cima de mim, e me passando uma rasteira que fez minhas costas quase atingirem o chão, se ele já não estivesse de pé, segurando-me pelo braço. Aproximou seu rosto do meu, numa expressão maníaca.
– Morta. – Disse, eu entendi que poderia ter me matado facilmente se me derrubasse assim. Revirei os olhos.
– Hunter, você não é o Syrio Forell*. – Resmunguei em referência ao personagem, ainda suspensa pelo seu aperto de ferro. Ele revirou os olhos, e soltou, deixando que eu me estatelasse no chão. Arquejei levemente.
– Certo. Vou ficar quieta. – Murmurei, me levantando para recomeçarmos a dança mortal. Aquilo seria longo. Muito longo. “Divertido. Muito divertido”. Revirei os olhos, tentando focar após levar um soco atordoante – Ele claramente não tinha pena de garotas – e respirei fundo, vendo passarinhos. Ela claramente dizia aquilo porque não estava sentindo.
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