Red Like Blood

2 Capítulo 1 - Amaldiçoada.


Notas iniciais
Este é o primeiro capítulo, se decidiu que gostou disso no prólogo, enjoy!

Depois de muito tempo, me levantei, ainda trêmula, e caminhei para o pequeno banheiro que havia no apartamento onde eu vivia. Se é que era possível chamar aquilo de apartamento. Parecia muito mais uma toca. Mas ainda dava pra chamar de lar. Parei em frente ao espelho da pia, com certo temor de olhar para ele e encontrar uma imagem que não fosse a minha. Levantei a cabeça vagarosamente, vendo que era eu mesma no espelho. Eu era uma versão genérica da minha inquilina perfeita. Idêntica. Idêntica e bem mais acabada. Ao contrário de R, minha pele era pálida e doentia, e não à lá Branca de Neve como a dela. Eu tinha olheiras profundas e escuras como túmulos. Meus olhos estavam inchados e vermelhos, eram de um castanho opaco e sem graça. Meu cabelo parecia um ninho de ratos, negro e bagunçado, cheio de nós. Eu estava muito magra. Quase esquelética. Eu definitivamente não era curvelínia como R. Parecia mais um menino. Um menino esquelético de 10 anos, sem corpo algum. Havia hematomas e cicatrizes pelo meu corpo todo. Minhas unhas estavam longas, mas quebradiças. Eu era baixa e fraca, enquanto R era alta e poderosa. Tentei abrir um sorriso, a pele seca dos meus lábios doeu ao repuxar e o formato ficou estranho. Os caninos salientes estavam ali também. Mas eu não tinha um sorriso de comercial de pasta de dente como o dela. Eram apenas dentes, brancos, sem brilho e fim. Retirei as peças de roupa calmamente. Primeiro o maldito Capuz Vermelho. Eu o chamava assim por diversão. Havia algo mais irônico do quê a Chapeusinho ser o Lobo? Na verdade era uma blusa vermelha, com zíper e touca, ia até metade da minha coxa. Eu estava de pijama o dia todo, como era de costume nos fins de semanas. Uma camiseta velha, manchada e que tinha o dobro do meu tamanho, e um shorts de flanela que ficava oculto pela camiseta. Meus joelhos já haviam cicatrizado, como todo ferimento meu, deixando apenas marquinhas de perfuração. Com a minha mão era a mesma coisa. Minha aparência mórbida de quem morrera e se esquecera de deitar sumiu do espelho quando R surgiu. Ela sorriu, me avaliando de cima à baixo.

– Está precisando de um trato, Amada. Desse jeito o trouxa vai correr antes de perceber que é o jantar.– Disse, rindo baixo. Cerrei os punhos, engolindo o bolo de palavras em minha garganta. Suspirei, saindo da frente do espelho, pelo canto do olho, vendo sua imagem sumir também. Ela só podia aparecer quando eu me olhasse em qualquer espelho. Eu estava determinada a ignorá-la. Entrei na banheira de cerâmica. Liguei o chuveiro velho que produzia cheiro de borracha queimada e deitei-me com a cabeça do lado oposto à queda de água, que estava sobre meus pés. Aguardei a torrente de água fervente subir, e em poucos momentos ela já cobria minhas orelhas, abafando os sons do mundo exterior. A voz confiante e sedutora de R ecoou em minha mente: "Parece que hoje não vou conseguir mais lágrimas suas Amada, que entediante. O que espera que eu faça nesse lugar depressivo e abafado até a Lunae subir? Já estou cansada de assistir suas tentativas falhadas todo banho, você sabe que não vai morrer Pequena, pare de tentar". Nesse momento a água já cobria alguns centímetros acima do meu nariz, e eu prendia a respiração automaticamente, mesmo não querendo. Instinto de sobrevivência. Tão humano quanto bestial. Sentei-me respirando fundo, quando meus pulmões queimaram. Não resisti e respondi R mentalmente: "Desculpe por não poder inflar um pouco mais seu ego por hoje R. Quem sabe um dia sua cabeça explode para o bem da humanidade. O que eu espero que você faça? Que tal calar a boca e ser um monstro bonzinho? Já não te basta saber que hoje vai poder sair e comer os namorados dos outros em todos os sentidos? Eu tentarei enquanto viver. E pela enésima vez, não me chame disso! Ah, e a propósito, esse lugar abafado e depressivo se chama mente! Minha mente!". Suspirei de irritação. Recolhi a familiar lâmina que repousava junto com o sabonete. Levei-a ao pulso e fiz um corte profundo, começou a sangrar imediatamente e a água se tornou turva em instantes. Mas momentos depois, mesmo fraca pela falta de sangue, pude sentir o processo de cura lupina se iniciando. Em menos de 15min a porcaria do corte estaria curado. Ouvi a resposta de R, acompanhada de risadas baixas e arrepiantes: "Ah Amada, você é tão iludida a ponto de me fazer rir. Ele não é seu namorado, mas devorá-lo será um prazer. E sua mente é uma moradia humilhante se quer saber, eu já residi em lugares melhores até no século XIX. E olha que naquela época eles usavam quilos de roupa e toda casa tinha pelo menos uma caixa de artefatos de prata. Adagas, balas, até talheres. A igreja havia mandado distribuir, eu dava muito trabalho naquela época". Revirei os olhos, ouvindo pela milésima vez sobre os tempos antigos. R tinha obcessão pelo tempo em que todos acreditavam em Lobisomens e em que ela vivia aventuras sob a Lua Cheia. O corte já cicatrizara e agora só restava água vermelha. Levantei-me, puxando o ralo e indo para debaixo do chuveiro. A água vermelha escorreu para o ralo ao mesmo tempo em que saía do meu corpo. Lavei-me e saí, finalmente. Coloquei um jeans e o Capuz Vermelho, sem nada por baixo. Eu não costumava tirá-lo para nada mesmo. Eram 9h da manhã de domingo. Eu havia passado a noite acordada discutindo com R, como sempre. Saí do apartamento, trancando-o. Baixei o capuz sobre o rosto, o sol tão vibrante e iluminado zombava da minha visão noturna, quando tocava o meu rosto. Desci os 13 andares de escada, pondo os fones de ouvido no mp3 depois do terceiro. Monster — Skillet rugia nos meus ouvidos, até eu sentir vontade de chutar alguma coisa e começar a correr escadaria abaixo, ás vezes pulando para o andar debaixo, entre um rosnado e outro. Era a parte boa da Fera. O parkour estava no meu sangue sem eu nunca ter feito, e eu ainda tinha a certeza de nunca cair. Aquela história de que só os gatos sempre caiam de pé era coisa pra boi dormir. Quando cheguei ao último lance de escadas sem nem estar ofegante, notei que meus caninos haviam aumentado por causa da brincadeira cheia de adrenalina, e que haviam cortado minha boca, que sangrava levemente, e já começava a se curar. "Diga-me que não gosta disso e eu calo a boca", R disse e eu não pude evitar um sorriso de canto. "Cale a boca Problema Peludo. Isso não compensa o resto". Respondi, apagando o sorriso do rosto. Acenei para o porteiro e saí do prédio. Os aromas diferentes se aguçaram no meu faro, e eu sabia que choveria mais tarde, embora o sol brilhasse. "É R, parece que vai ser uma noite de cachorro molhado", pensei. Havia se tornado costumeiro conversar com R. Ouvi sua risada. "Parece que sim. Bom, quem fica com o cheiro é você mesmo.", ela zombou. Revirei os olhos e segui a rua costumeira para a biblioteca pública. Os livros eram o meu conforto, e embora R insistisse em ler Chapeusinho Vermelho toda vez, até ela se interessava pela leitura. Ela gostava de contar o quê exatamente acontecera na história de verdade.

Aquele conto era sobre R. Mas ocultava a verdade. A mãe de "Chapeusinho Vermelho" era uma prostituta, e era à ela que o manto vermelho pertencia, aquilo era o sinal de sua "profissão". Dos muitos filhos que já tivera, somente a mais velha permanecera com ela. Os outros foram doados para orfanatos diferentes. A mais velha cuidava dos "negócios" da mãe. E tinha fascinação pelo capuz vermelho, que fora dado pela sua vó à sua mãe, mesmo sabendo de seu significado, o resto da vila usava cores opacas e sem graça, enquanto sua mãe parecia banhada em sangue no meio da multidão. A menina sempre pedia à mãe para usá-lo e esta recusava, dizendo que ela era uma criança. Um dos passatempos preferidos da jovem era ouvir sobre seu pai. "Mamãe, conte-me de novo como papai era", dizia, imaginativa. Sua mãe então olhava para ela, e traçava o contorno dos olhos dela com o dedo, como sempre fazia ao falar do homem. "Ele era um estrangeiro. Quando passou por aqui com seu garanhão selvagem e veloz de raça, tudo se alvoroçou. Ele tinha olhos famintos, e um sorriso confiante de tremer as pernas. Era alto e forte, e foi cobiçado imediatamente por todas as mulheres da vila. Além de tudo ele era cortês e sedutor. Eu estava em meio a multidão que se formou quando ele passou, eu estava em frente ao bordel, e usava este manto. Desde o momento em que ele entrara com seu galope selvagem, prendera seus olhos castantos em mim. Pais fizeram filas compridas para oferecer o dote de suas filhas e as meretrizes filas maiores ainda para se oferecer, mas seus olhos não saíram dos meus. Ele ignorou a todos e caminhou até mim. Eu estava em meu décimo nono ano de vida na época. Suas primeiras palavras a mim foram: "Desejo a garota dos olhos de cigana, senhores. E hoje ela é minha". Com aquela única frase ele me conquistou e naquela noite me possuiu. Eu nunca havia me deitado com ninguém. Eu trabalhava no bordel com outros tipos de habilidades. Mas naquele dia, deitamos dois e levantamos três. Ele me disse antes de amanhecer, enquanto eu ainda repousava em paz sobre seu peitoral forte, que eu esperava seu herdeiro. Ele era diferente. Durante nosso momento pecador, seus olhos se tornaram amarelos, e ele quase me matou de exaustão. Explicou-me que a criança em meu ventre seria diferente como ele. E mais forte em tudo. E então foi embora. Ele vivia como um nômade afinal. Eu aceitei bem, e que presente maravilhoso ele me deixou"... Ela contava sonhadora. A garota sempre estremecia na parte dos olhos. Lembrava-se claramente de quando era menor, e não sabia controlar seus dons, sua mãe costumava cutucar-lhe com uma adaga para visualisar momentaneamente os olhos amarelos do amado refletidos nos da menina. O cutucão se curava mais rápido que os machucados das outras crianças, sem nem deixar marcas. Agora não era mais preciso, ela aprendera a mostrá-los quando a mãe queria vê-los.

Quando a menina cresceu mais, no décimo terceiro ano de sua vida, tornou-se útil para a mãe, desenvolvendo o corpo esbelto de uma mulher. Sua mãe mostrou-lhe as habilidades que conhecia antes de se deitar com um homem pela primeira vez, e deu-lhe o capuz vermelho, se aposentando assim, e passando para fazer pãos caseiros e vendê-los na vila. Outra serventia da garota era fazer entregas. Sempre com o capuz vermelho, caso surgisse algum cliente, chamavam-lhe Chapeusinho Vermelho, um codinome de prostituta".

"Você foi treinada para ser uma puta R? Que decadente", pensei, interrompendo a história. Ouvi seu riso. "Eu era a melhor depois de minha mãe, e se quer saber, ao menos eu era útil na vida.", ela respondeu, cutucando a ferida da minha depressão. Resolvi ficar quieta e deixar que ela continuasse.

"Um dia sua mãe lhe pediu para entregar alguns pães na casa da avó. Ela gostava bastante de ir para à casa da velha senhora, pois esta sempre lhe contava sobre a linhagem de magia cigana que era a da família materna. Ela costumava contar que eram cheios de magia, e que era possível vê-la por seus olhos, se fosse a pessoa certa. Aproveitando que os olhos mágicos atraiam atenção, a tataravó da vó de Chapeusinho abriu um bordel de família. Os olhos ciganos atraiam homens como mel atraia abelhas. Assim que uma garota completava 13 anos de vida, eles a mandavam para trabalhar no bordel, com mantos de cores vibrantes, na época somente possíveis com magia. O primeiro e mais antigo era o manto vermelho. Esse passava numa linhagem direta de mãe para filha. Era o mais poderoso feitiço de atração. Assim que a vó de Chapeusinho soube sobre os seus olhos incandescentes, dizia-lhe que dentro dela vivia uma criatura forte e capaz de dizimar vilas inteiras numa única noite. Chapeusinho, por sua vez, gostava do poder. Sempre fora ambiciosa, e a ideia de morte parecia cada vez mais atraente. Sua vó disse-lhe que quando completasse seu décimo quarto ano de vida, na primeira Lua Cheia, a Fera se libertaria. Ela aguardou ansiosamente, e seguindo os conselhos de sua vó, na Lua Cheia depois de seu décimo quarto ano, ela tomou distância de todos. E quando a Lua subiu, a Fera despertou. Um uivo cortou o ar da noite, e o banho de sangue começou. No lugar da bela menina, havia agora uma Loba gigantesca, do tamanho de um cavalo. A pelagem era negra, grossa e longa, os olhos eram amarelo incandescente, e podiam ser vistos na mais profunda escuridão. Os rosnados e uivos da criatura faziam os ossos tremerem e a pele arrepiar. As patas eram maiores que uma mão humana adulta, e extremamente poderosas e fortes. As garras podiam partir um osso ao meio como se fosse mantêiga. Os dentes podiam arrancar cabeças facilmente. Mas ao final daquela noite, a vó de Chapeusinho descobriu o pior quando a Fera adormeceu e a garota voltou ao seu estado normal. Ela recolheu a neta em sua casa no bosque, vestiu-lhe o manto vermelho que encontrara largado na floresta, perto de onde a garota iniciara a transformação, pois ela estava nua, e cuidou dela. Mas quando ela falou, a velha senhora se esforçou para não se afastar: "Vovó... Foi maravilhoso... Eu me senti livre, forte, a cada gota de sangue meu êxtase aumentava...", dizia alucinada.

Isso durou um bom tempo, e cada vez mais a mãe e a avó sentiam a humanidade da menina se esvair. Chegou ao ponto de que ela já não conseguia mais manter os olhos castanhos. E por isso não podia sair de casa sem um pedaço de pano tapando-os. Até que um dia ela cansou dos limites impostos pela família. Guardou o capuz vermelho em casa, e saiu. Ela havia descoberto como controlar a transformação há algum tempo, escondendo de suas ancestrais. No meio da vila, ela se tranformou. E não houve sequer um sobrevivente a não ser a avó, que fugira a tempo, sabendo que algo estava errado. A carnificina chamou a atenção. E pela primeira vez, ela interagiu com um de sua espécie. Ele chegou imponente. Era maior que ela. Tinha pelos extremamente negros e olhos vermelhos, trazia uma matilha de lobos normais consigo.

Este lobo se tornava um rapaz belo, de olhos azuis-cobalto, em talvez seu décimo nono ano de vida. Seu nome era Hunter. Ele a seduziu, usou dela e a fez se apaixonar. E depois de determinado tempo, prendeu-lhe e jogou-a nos braços da avó feiticeira. Em troca de uma única coisa, a receita da cura. Ele buscaria por uma vida toda. Morrendo sem uma resposta, e passando a busca para seus descendentes. A avó de Chapeusinho deu-lhe um outro fim. Num último esforço de vida, prendeu-lhe em um livro, e morreu logo depois. O livro contava toda a história da menina. E foi encontrado por dois irmãos contadores de história. Os Grimms. A história foi modificada diversas vezes. Mas ninguém nunca libertou a garota de lá, pois era preciso ler em voz alta, à luz da lua cheia, as palavras: Por que essa boca tão grande vovó? É para te devorar melhor — Aquelas frases no fim do conto infantil de hoje em dia, eram parte de uma brincadeira que a avó costumava fazer com a neta quando esta era menor — Coisa que ninguém havia feito, por felicidade. O livro rodou o mundo, até parar nas mãos de uma família. Por destino ou acaso — nunca se saberá — a família eram descendentes diretos da família de Chapeusinho. Descendentes do segundo filho mais velho da mãe cigana. De modo que a magia corresse esquecida, por suas veias".

No caso, R seria Chapeusinho, Hunter logicamente, o caçador, e os demais personagens continuaram com seus papéis. R parou de contar. Eu já sabia o resto. Por uma infelicidade infame, a filha mais nova dos descendentes daquela família, encontrou o livro no sótão. E leu como exatamente era pedido para libertar a Fera. Mas ela leu em frente à um lago espelhado, como costumava fazer, fugindo de casa de madrugada para ler naquele lugar especial. O espelho d'água fez com que o poderoso ser fosse preso em seu corpo, corrompendo assim, sua alma com a maldição do Lobo, e castigando sua mente com a companhia da garota de capuz vermelho. No caso, eu. Eu tinha 14 anos. Me assustei. Fui à psicólogos e psiquiatras. Nenhum deles notou nada de anormal. Tentei suicídio com 16. Tinha fugido de casa depois de matar a primeira pessoa, com 15. Eu tenho 18 agora. O suicídio não funciona. E eu tenho um inferno com nome em minha mente. Eu nunca tinha respondido R até os 16, quando resolvi aceitar o quê tinha acontecido e começado a pesquisar sobre licantropia. R não me disse o seu nome, pois isso me daria algum tipo de poder sobre ela, então me informou a primeira letra e fim. Eu vivo assim. Sou completamente demente. "Somos todos dementes, Amada", a garota de Capuz Vermelho completou meu pensamento.

Notas finais
Espero que tenham gostado.