Red Dead: Rebirth

5 Apetite Incontrolável


Charlotte olhou para o céu, da vista de sua janela. Alaranjado, a quase recostar o horizonte. O dia estava se encerrando e Arthur Morgan ainda não havia retornado a Willard's Rest. Armado até os dentes, optou por ir à caçada do urso maligno montado em Guinevere, uma bela égua negra que ele havia domado quando ainda no Canadá. Horas se passaram desde que ele partiu e nada pôde ser escutado além do som dos pássaros. Nenhum tiro ou rugido por perto. O tempo passava e Charlotte se preocupava, pois temia que ele ignorasse o anoitecer e permanecesse a caçar o desgraçado. Esperava que sua sempre tão admirável coragem não o tornasse tolo o bastante para subestimar a floresta traiçoeira de Roanoke Ridge.

Aprontou-se ao ouvir o som do cavalo. Ele estava retornando.

-Parece que nosso amigo urso sentiu o cheiro do perigo e se embrenhou em alguma caverna por aí. – disse, retirando os rifles que pendiam sobre seus ombros e os deixando recostados à parede. Observá-lo voltando para casa poderia até ser reconfortante à Charlotte, mas saber que ele estava de mãos vazias ainda a preocupava muito.

-E se ele nos atacar enquanto dormirmos?

Arthur sorriu com a hipótese.

-Ursos não tem hábitos noturnos, Charlotte. Eles costumam dormir, até mais do que nós, humanos. É muito difícil achar um urso vagando pela floresta à noite. Eu, pelo menos, nunca vi.

A julgar pela experiência dele com animais selvagens, talvez estivesse certo, pensou Charlotte, não escondendo seu alívio de que, ao menos por hora, estariam livres dessa criatura.

-Espero que não esteja me achando uma histérica, sei lá...

-Oh, nem um pouco... – disse Arthur, sentado a uma cadeira e retirando seu característico chapéu de couro negro, revelando seus fios de cabelo castanho claro um tanto bagunçados. – Qualquer um em seu lugar estaria preocupado com um urso vagando pelos arredores de sua casa.

-Há alguma maneira de afugentá-lo?

-Temo que não. Essa floresta é o lar dele, nós é que somos os invasores. Os indígenas diziam isso, e agora vejo o quanto estavam corretos. Mas como não desejamos ir a lugar algum, temo que o único jeito seja realmente mata-lo. Alguns ursos temem humanos e procuram se embrenhar pela mata, fugindo de nossa presença, mas outros... Estes são mais perigosos, e infelizmente é o caso do grandalhão que está por aí. A natureza pode estar certa em reivindicar seu espaço, mas entre o urso e eu, obviamente eu escolho a mim.

Charlotte havia preparado o jantar. Uma sopa de legumes com os restos de carne do cervo, temperada com tomilho. Refeição simples, mas comida como um banquete pelo esfomeado Arthur. Beberam um pouco de uísque para afugentar o frio. A noite tornou-se um pouco mais animada quando Charlotte revelou um jogo de dominó. Jogaram inúmeras partidas, das formas mais variadas possíveis, enquanto compartilhavam um pouco de suas próprias vidas e expectativas quanto ao futuro.

Foram dormir, não tão tarde como na noite em que Sadie Adler estavam com eles.

Arthur acordara repentinamente, como quem levava um susto. Vira os raios de sol a baterem em seu corpo. Dormira muito. Não sabia se era cansaço por ter dormido tão pouco na última noite, ou se estava inebriado pelo conforto daquela cama tão macia, do qual seu corpo calejado pela vida na estrada não estava acostumado. Mas era certo que dormira demais, talvez até mais do que a dona da casa, Charlotte. Dos poucos protocolos de educação que aprendera na vida, um era certo: um hóspede jamais deve dormir mais do que dono da casa. Por isso, levantou-se, apesar do calor daquelas cobertas ainda serem muito tentador.

Parou quando escutou um som estranho. Parecia vir da cozinha. Deve ser Charlotte, pensou. Provavelmente fazendo café. Vestiu-se rapidamente. Quase deixou seu coldre com suas inseparáveis pistolas para trás, mas sabia que o conforto daquela casa não poderia deixa-lo tão suave assim. Ainda era um homem procurado em dois estados americanos, um fora-da-lei quase em extinção. Não podia se dar ao luxo de relaxar, nem por um momento. Por isso, o atou à cintura e abriu a porta do quarto de hóspedes, já a caminho da cozinha.

Mortificou-se, tão logo deparou-se com ninguém menos que o urso na cozinha.

O animal, imenso e de pelagem negra como a noite, estava se fartando com o pouco de sopa e dos restos de cervo que Charlotte havia deixado sobre o fogão. Comia sossegadamente, alheio ao fato de estar diante de um dos maiores pistoleiros da América. Imóvel, Arthur analisou a cozinha. Procurou por seus rifles. Estavam todos recostados à parede, ao lado da cadeira que havia sentado. Perigosamente perto do urso. Impossível alcança-los sem que a fera percebesse. E enfrenta-lo com duas pistolas, tão de perto, era quase suicídio. A única alternativa viável ali era deixar que o animal simplesmente comesse tudo até o ponto de ficar satisfeito e saísse dali.

Uma questão logo lhe preocupou. Charlotte. Onde diabos ela estava? Já era tarde, e tudo indicava de que ela não estava na casa. Talvez tivesse saído para caçar, ou buscar um pouco de água no rio. Onde quer que estivesse, esperava que ela não retornasse enquanto o urso ainda estivesse ali, do contrário as consequências seriam desastrosas.

Como o destino parece pouco se importar com os planos de Arthur Morgan, infelizmente, no segundo seguinte, uma sorridente – e cantarolante! – Charlotte abre a porta principal da casa. Trazia em uma das mãos um balde cheio de água, que imediatamente foi ao chão. O som metálico do balde a cair tirou o interesse do urso na comida da panela, e o fez olhar imediatamente para Charlotte, estremecida de pavor. Olhou diretamente nos olhos do urso. A criatura soltou um grunhido. Claramente a via como uma ameaça à sua comida.

-Charlotte! Corra!

O grito de Arthur Morgan fez a atenção do urso voltar-se ao pistoleiro, que sacou seu revólver com a agilidade que lhe era afamada e pôs-se a disparar sem parar. Os tiros tornaram Arthur uma ameaça ainda mais visível do que Charlotte, e tudo que o animal fez foi ataca-lo. Arthur disparou três vezes. Poderia ter disparado mais, se o urso não estivesse tão perto, mas acreditava que mesmo que tivesse descarregado seus dois revólveres naquele animal, não teria sido capaz de abatê-lo. Só dois tiros rasparam a cabeça do urso, que imediatamente o derrubou no chão, rugindo contra sua cabeça.

Arthur tentou atirar mais, mas as garras do urso estavam agora cravadas em seus braços, fazendo o mero movimento de seus braços romper a carne como uma navalha afiada. Apesar da dor, sabia que precisava lutar. Um dos revólveres acabou por cair ao chão, e restou ao pistoleiro socar tolamente o urso, que resmungava das pancadas. Um novo rugido, ainda mais enfurecido, foi soltado sobre o rosto de Arthur, que sentiu o hálito quente da fera tão perto de si que sabia que teria seu rosto abocanhado. Restou-lhe fechar os olhos e torcer para que a morte fosse instantânea, mas antes que esta viesse, um disparo forte de arma de fogo ressoou em seus tímpanos. Seu rosto cobriu-se de um sangue viscoso e negro e o urso, pesadíssimo, caiu sobre si, com a boca entreaberta recostada em seu ombro. Estava morto.

Precisou limpar seu rosto de todo aquele sangue que não era seu para entender melhor o que havia acontecido. Próximo a si, estava Charlotte, com seu rifle de ferrolho em punho, ainda fumegante pelo disparo à queima-roupa na cabeça do urso. Tremia, tanto quanto ele. Ambos ficaram a se observar, ofegantes, sem dizer uma palavra por longos minutos. Por fim, a mulher deixou a arma cair no chão e tombou.

-Você está ferido? Esse sangue...

-Esse sangue no meu rosto não é meu.

-E quanto a esses arranhões? – disse, tocando em seus braços e causando um leve grunhir de dor no pistoleiro.

-Nada que alguns curativos não resolvam. Está tudo bem.

Ambos se abraçaram. Charlotte sequer se importou que aquele abraço a deixava tão encharcada de sangue como alguém que trabalhava em um curtume. Importava-lhe senti-lo, saber que ele estava bem. Que ela havia salvo a sua vida. Pôs-se às lagrimas, quando percebeu que fizera exatamente aquilo que não conseguira quando seu marido Cal foi atacado por um urso. Ela, de arma em punho e trêmula de medo, não conseguiu atirar, e assistiu com seus próprios olhos o seu marido ter o rosto destruído pela mordida do animal, que agora ela tinha mais do que certeza se tratar do mesmo.

-Eu pensei que ia te perder... – disse, em meio às lágrimas. Por fim, o beijou. Dessa vez, não no rosto, mas em seus lábios, sujos de sangue. Ignorou o gosto enferrujado de sangue e o beijou longamente. Arthur ficou sem reação. Não soube o que fazer. Acabou por retribuir o beijo também, talvez pelo calor da emoção. Quando terminaram, ambos optaram pelo silêncio. Enfurnados em suas próprias conclusões.

Talvez ela estivesse pensando no marido, que morreu em um ataque de urso, por isso o beijou. Porque se recordou dele. Sim, deveria ser isso.

Talvez ele esteja me achando uma moçoila patética e sentimental, fraca...

-Er... Melhor limparmos essa bagunça... – disse Arthur, evitando olhar em seus olhos. Mas Charlotte o encarou mesmo assim.

-Você está ferido. Precisa cuidar desses arranhões primeiro, antes que infeccionem. – comentou, ouvindo do pistoleiro um suspiro em assentimento. Enquanto o observava recorrer à sua pequena bolsa, que certamente deveria ter um conjunto de curativos para tais eventualidades, certamente recorrentes em sua vida de pistoleiro, a jovem decidiu oferecer ajuda, no que ele recusou.

-Er... Melhor não. – disse, recolhendo-se com a bolsa para seu quarto. Ao ouvir a porta fechada, Charlotte olhou para o enorme urso negro e sua poça de sangue, que parecia cobrir metade do carpete. Suspeitava que um pouco de massa a flutuar pelo sangue pudesse ser fragmentos de cérebro do animal. Foi um belo tiro, mas agora ela precisava ficar com a pior parte, e sozinha. Não iria aceitar a ajuda de Arthur com ferimentos pelos braços. Seria horrível de sua parte demandar isso dele.

Recorrendo a um pano, já escarlate de sangue, e um balde de água, pouco a pouco o chão de madeira voltava à sua aparência normal. A carcaça do urso estava do lado de fora, depois de ter sido arrastada com enorme dificuldade por Charlotte. Sabia que Arthur mais tarde iria esfolá-lo e provavelmente obter um belo cobertor ou casaco de pele, de modo que preferia deixar essa tarefa para ele.

Terminando de limpar a cozinha, não pôde de se ver como uma perfeita tola. Beijá-lo na boca, mas o que diabos ela estava pensando com isso? Ele claramente ficou um tanto sem jeito com seu gesto, de modo que Charlotte temia ter estragado por completo a bela amizade que ambos tinham um pelo outro. Idiota, mil vezes idiota! E agora, como ela faria para encará-lo depois de ter sido tão estúpida? Não poderia culpa-lo se ele desejasse ir embora na primeira oportunidade, depois de praticamente se jogar nos braços dele, como uma desavergonhada desesperada por um homem! Provavelmente era assim que ele a estava enxergando: como uma viúva desejosa em ter um homem que ocupasse o lugar de seu falecido marido.

-Está tudo bem?

Afastou os pensamentos recriminatórios, quando o viu de volta. Usava agora as mangas dobradas de uma camisa xadrez, com os dois antebraços enfaixados. Como ele conseguiu fazer tamanho curativo, e tão rápido, ela não sabia.

-Eu é que deveria te perguntar isso...

-Oh, já tive dias piores. Em alguns dias, estarei novo em folha. Queria saber se você precisava de ajuda com toda essa... Carnificina em sua casa, mas vejo que você já fez tudo sozinha.

-Estava ficando enojada com tanto sangue.

-E o urso? – perguntou, sentando-se à mesma cadeira que lhe era costumeira. Não sem antes pegar um copo de uísque e beber. A julgar pelo desconforto, ainda sentia um pouco de dor.

-Deixei lá fora. Pensei em esfolá-lo, mas...

-Sim, é grande demais. Creio que você nunca esfolou um animal tão grande assim.

-Não mesmo! – admitiu Charlotte, sentindo-se melhor por ver que Arthur estava agindo com naturalidade, mesmo depois do beijo idiota que trocaram. Talvez fosse melhor assim.

-Precisamos esfolá-lo o quanto antes, do contrário a pele poderá estragar junto com a carne. E quanto mais fresco ele estiver, melhor para cortar. – disse, levantando-se e já com o facão em punho.

-Mas e o seu braço...?

-A dor está passando. Tomei uma droga forte e sequer vou sentir qualquer coisa, ao menos por algumas horas. Consigo esfolar o urso. Venha, eu vou te mostrar como é... – disse, deixando a mulher animada.

Morto, o urso sequer parecia ser tão feroz assim. A cabeça estava completamente estourada, de modo que nem mesmo dava para empalhá-la. Uma pena, pois era um belo animal para servir de troféu, muito embora ele duvidasse que Charlotte quisesse pendurado na parede de sua casa o animal que, segundo ela, matou seu marido.

-Já decidiu o que vai querer? Um casaco, ou um cobertor?

Charlotte o analisou, por uns instantes.

-O inverno está chegando. Creio que seja melhor um cobertor.

-Boa escolha. – disse, começando a cravar a faca sob a pele do urso. Havia agora um longo trabalho a ser feito, até que o desejo de Charlotte fosse cumprido.