Porque tinha de chover justamente hoje?!, Resmungava Shiro para si mesmo. Uma tarde nublada e chuvosa, Kojima foi enterrado no cemitério público. Por não ter nenhum parente vivo, os únicos que presenciaram o enterro foram seus amigos. Kojima havia se mudado do Japão após a morte do pai, que também era um apostador. Na tentativa de realizar o último desejo do pai, ele decidiu tentar a sorte na cidade das apostas. No seu túmulo, a frase que expressava os ideais que ele nunca deixou de seguir: A única coisa que não consegui na vida foi ser o melhor apostador do mundo, pois o resto eu já tenho.

Shiro Haruki, Cale Jo Astor, Mi Nakaido e Emily Berniece. A única família que lhe restava, os rostos escondidos pelos guarda-chuvas, e apenas o barulho das gotas quebrava o silêncio de luto.

Apenas mais um túmulo entre tantos outros que nunca serão reparados, afinal, vamos ao cemitério e ignoramos os outros mortos além de nossos entes queridos, imagino como eles se sentiriam se pudessem se expressar.

— Shiro, temos que ir. — Cale tocou o ombro de Shiro, mas ele ficou imóvel.

— Eu quero ficar — ele respondeu, soluçando.

— O cemitério vai fechar agora. — Mi apontou para o portão, que estava prestes a fechar.

— Mas, ainda tem uma pessoa aqui. — Shiro apontou.

— De quem está falando? Não vejo ninguém. — esse comentário estremeceu o corpo de Haruki.

Shiro forçou os olhos para tentar ver a pessoa que se aproximava. Quanto mais perto ela chegava, podia-se perceber sua pequena estatura. Logo conseguiu distinguir, era uma garota carregando uma pá maior do que ela nas costas, vestia uma regata junto a uma saia e sorria. Mas o que é isso? Ela está seca! Shiro recuou. Ela aproximou-se do grupo e parou ao lado do túmulo.

— Oi, pelo visto você pode me ver, deve ser muito próximo do Kojima, não? — ela perguntou, sorridente, deixando Shiro irritado.

— Quem é você? Por que suas roupas estão secas? — Ele rosnou.

— Só porque está chovendo não significa que eu deva estar molhada. — Ela sorriu, batendo a pá contra o chão.

— Isso que você disse não fez sentido nenhum. — Ao olhar para trás, ele percebeu que seus amigos estavam congelados como estátuas, não só isso, ele já não ouvia o som da chuva e nem sentia o vento em seu rosto, mas podia ver claramente as gotas caindo pelo rosto daquela garota, que o olhava fixamente.

— Não gosto de você — Viviette sussurrou.

A garota ergueu a pá com força e cravou no chão, Shiro recuou e ela começou a cavar a terra rapidamente. Movimentos velozes que cavavam toda a superfície e logo eles se depararam com o túmulo.

— O que está fazendo, sua louca?! — Shiro avançou, porém ao tentar agarrá-la atravessou seu corpo. Ele gritou e caiu, assustado.

— Se for possível, não me atrapalhe, estou trazendo seu amigo de volta, entendeu, seu bobão? — a garota disse piscando o olho direito.

Shiro congelou ao ouvir aquilo, a terra foi retirada por completo, ela afastou-se e largou a pá. Tudo voltou a se mover.

— Kojima você já pode voltar, se for homem o suficiente pra isso.

Todos entraram em silêncio. Anda, eu te expliquei como fazer. A tampa estremeceu e voou violentamente para longe, Kojima ergueu-se, olhando fixamente para a coveira improvisada e sorriu, tirando o pó da roupa, Emily e Mi desmaiaram, Cale riu e Shiro correu até o amigo para abraçá-lo. Essa não, cena de drama, que nojo,pensou Viviette.

— Kojima? É você? Você mesmo? Hein? Kojima? Responde? Eu pensei que tinha te perdido irmão — falou Shiro quase chorando.

— Hunf! Claro que sou, né? Noro ainda me deve o dinheiro, não vou deixar ele se safar assim — respondeu Kojima.

— Garota... Obrigado! Você é um anjo. — Shiro ajoelhou-se para a garota de cabelos brancos.

— É... Sou mais ou menos isso. — Ela riu. — Vamos embora? Estou ansiosa para o próximo passo.

— Podemos ir para o clube. — Cale sugeriu.

— Aquela espelunca ainda está inteira? — riu Kojima.

No dia seguinte, todos estavam reunidos no galpão repleto de aparatos de apostas, o Clube Top Stand. Esse é um daqueles lugares em que você se sente à vontade, parece algo entre uma casa de solteiro e um salão de festas. O lema é “Uma vez no clube, torna-se sua segunda casa”.

Depois de um bom descanso e um café da manhã reforçado, todos se reuniram em uma roda. Kojima matinha o visual, shorts, camiseta e chinelo, o tímido Shiro vestia uma camisa de botões e calças jeans, o atlético Cale esbanjava uma regata marrom e shorts militares, a sensual Mi hipnotizava com um short curto e uma blusa de algodão, enquanto a frienta Emily mantinha-se coberta por uma calça e uma blusa de moletom roxo. Havia muito que explicar, e tempo era o que não faltava. Kojima já estava com roupas limpas.

— Bom, como vou começar? Eu obviamente não sou de seu mundo, sou o que chamam no meu mundo de espíritos Soul Anti, ou também chamados de Solith. Eu vi a morte do amigo de vocês e, sério, foi a coisa mais horrível que vi. — Havia um brilho nos olhos de Viviette que fez Kojima achar a morte engraçada por um momento. — A diversão no mundo dos humanos é bem curta, mas enfim, eu...

— Uma pergunta. — Shiro interrompeu a garota. — Se você é um fantasma, como podemos te ver?

— Ai, ai, vocês humanos andam assistindo muito filme. Saiba que fantasmas podem ser vistos quando querem, ouviu bem? Deixemos as perguntas pro final, se não for incomodar.

— Ah, desculpe. — E entrou em silêncio.

— Continuando... Vim para seu mundo resolver questões relacionadas ao trono dos espíritos. Eu sou filha de Ankou Makai Saotora, Rei dos espíritos Soliths, Senhor de toda magnitude de vida e morte e blá, blá, blá. Sou Viviette Makai Saotora.

— Então você é uma princesa, não? — Para de perguntar seu bobão. Ela xingava Shiro mentalmente.

— Exato... Atualmente o meu pai está desaparecido, enquanto ele não for encontrado, deverá ser escolhida uma sucessora para o trono, pois infelizmente não sou a única filha. Foi então decidido que eu e minhas irmãs Miyado D'Ghata Saotora e Allison Geisser Saotora, devem vir para seu mundo. Eu, D'Ghata e Allison devemos escolher, cada uma, um humano que esteja na fase inicial da vida ou na fase da morte. Uma pessoa que esteja à beira da morte, no caso de Kojima, ou uma pessoa que esteja prestes a nascer, no caso de minha irmã Miyado. Escolhidos os três guerreiros, eles devem enfrentar-se após um ano e meio no tempo dos humanos.

— Mas pra que escolher alguém? — Kojima aproximou-se.

— Se houvesse uma disputa entre mim e minhas irmãs, creio que Kabugaimei, mundo dos espíritos, não suportaria os danos.

— Ainda não entendi isso de contato no início da vida, vou ter que enfrentar um bebê? — Kojima riu.

— Isso é porque existe uma diferença enorme de poder entre nós princesas, funciona assim: Como minha irmã Miyado é a mais nova, foi dado a ela um prazo de 15 anos para treinar um humano, então ela decidiu fazer o contato no início da vida de alguém, Allison é a do meio, recebendo apenas 5 anos, quanto à mim... Recebi o prazo de exatamente um ano.

— Você é a mais velha, então por que não se torna a rainha? — Cale perguntou, confuso.

— Não seria totalmente justa com minhas irmãs, todas nós estamos levando isso a sério, e quero que haja uma batalha equilibrada, na verdade, Ponjo decidiu isso.

— Então vocês decidiram que a luta tem de ser entre humanos? Por quê? — Mi franziu o cenho enquanto perguntava.

— Humanos são os únicos seres que lutam contra a própria espécie... Olha, eu salvei a vida de Kojima, mas ele ainda não é o meu escolhido. Para que isso aconteça ele deve tomar uma decisão.

— E o que seria? — Kojima olhou fixamente. Viviette levantou.

— Você seria capaz de rever Ponjo para tornar-se o maior apostador que existe no mundo?

— Rever? Então quer dizer que Ponjo é... — Kojima sentiu um calafrio.

— Exatamente, e aí? Você topa?

— Fim—