Red
8 Capítulo 7
Quando acordei já sabia que o dia seria difícil. Por mais absurdo que fosse eu precisava descobrir se ele realmente era o que eu achava, por mais que, se ele não fosse, ele iria achar que eu era um doida idiota.
Demorei mais que o usual dentro do jipe, e já no estacionamento o encarei. Ele parecia saber que alguma coisa estava errada. Passei por ele e ele me seguiu, não tinha muito rumo, só andava para algum lugar que não fôssemos pegos matando aula.
No momento que as primeiras árvores apareceram eu parei e virei. Achei seus olhos dourados me encarando e ele se aproximou, mas eu recuei.
—Eu preciso saber. – Disse simplesmente e ele fechou o punho, olhou para baixo e bufou. Voltou a olhar para mim e engoliu seco, perguntou a minha teoria. – Tudo começou com a lenda quileute, mas você já deve conhecê-la muito bem...
—Olha, Blake... Por favor, não faz isso... – Pediu, dando um passo. Recuei dois. Só o fato dele estar sério enquanto eu falava e essa última afirmação já eram suficientes para que eu entrasse em pânico.
—Só uma pergunta mais: Quantos anos você tem? – Perguntei, não querendo entrar em muitos detalhes sobre suas características; já sabia que essa pergunta responderia tudo o que eu precisasse saber.
—Dezessete.
—Há quanto tempo você tem dezessete? – Perguntei fechando minhas mãos, que agora tremiam. Ele abriu a boca algumas vezes antes de responder.
—Há algum tempo. – Isso foi suficiente para que eu começasse a recuar lentamente. Quando eu me considerei em uma distância segura pedi que ele me mostrasse. Ele riu secamente e alongou os caninos, me fazendo arfar, caralho, ele era real.
Antes que eu pudesse fazer qualquer outra coisa senti que ele estava do meu lado, pediu que eu não fizesse nada precipitado, ele não ia me machucar.
—Você está com medo? – Perguntou com os olhos dourados procurando os meus.
—Seria uma idiota se não estivesse. – Respondi e ele abaixou a cabeça. Por mais que eu soubesse que ele podia me matar em meio segundo antes que eu pudesse soltar o ar que eu havia respirado, ele não parecia nem um pouco perigoso naquele momento. –Eu não vou correr gritando de medo se você me explicar. Tudo.
Ele pareceu concordar e sentou em um tronco caído enquanto eu me apoiava na árvore oposta.
—O que você quer saber? Agora que você já sabe o que eu sou, eu posso responder todas as suas perguntas. – Adam disse e eu escorreguei até encostar na grama. Aquilo ainda era muito surreal para mim. Me senti como Alice no País das Maravilhas e acabei me beliscando para ver se eu realmente estava ali.
—O que você come? – Perguntei e ele murmurou ‘sangue’, perguntei de quem e ele disse o mesmo que Seth; eles caçavam animais. Me senti um pouco mais aliviada.
—O que acontece quando você vai no sol? – Perguntei e ele finalmente parou de olhar para baixo para me encarar.
—Eu queimo. Mas demora muitas horas para que eu morra queimado, só dói bastante. – Respondeu e eu senti um pouco de coragem de me aproximar. Levantei e sentei do seu lado.
—Você quer me matar agora? – Perguntei e esperei. Ele olhou e disse que o cheiro do meu sangue era um dos melhores que ele já havia sentido e eu estremeci. – Você vai me matar agora?
—Não. Eu não conseguiria te matar Blake. – Adam respondeu e eu encarei os seus olhos dourados.
—Foi por isso que você faltou aqueles dias? E foi por isso que você ficou agindo como um filho da puta?
—Sim e não. Eu sou filho da puta daquele jeito mesmo. – Ele riu e eu sorri involuntariamente. Perguntei o que ia acontecer agora que eu sabia e ele ficou tenso, disse que aquilo podia dar muito problema, mas que ele me explicaria aquilo em outra hora.
—Posso te perguntar mais uma coisa? – Ele assentiu. – Toda a sua família consegue ler mentes ou só você?
Adam pareceu surpreso e me olhou intrigado, então eu disse que havia deduzido desde o momento do carro. E só naquele momento percebi a quantidade de pensamentos idiotas que eu tive e olhei para ele com os olhos arregalados.
—O que foi? Eu não consigo ler os seus pensamentos. – Ele falou, enfatizando o “seus”. Agradeci mentalmente e ele disse que apenas ele conseguia ler pensamentos, mas que Zoe conseguia prever o futuro. – Isso é errado Blake.
—Por quê? – Perguntei e logo me senti estúpida, é claro que era porque ele era perigoso, porque ele podia me matar a qualquer momento que ele quisesse, e mais ainda, porque agora eu era uma ponta solta que sabia do seu segredo. – Mas isso não importa.
—É claro que importa, mas eu não quero mais ficar longe de você. – Adam disse e eu senti um frio na espinha, parecia-me precipitada aquela fala, não nos conhecíamos há muito tempo, mas, por algum motivo, não queria ter que ficar longe dele.
—Então não fique. – Falei e ele me encarou. Em um impulso entrelacei meus braços no seu pescoço e ele entrou em um choque, mas, me envolveu em seus braços também.
Separamo-nos e ele sorriu, parecia ter tirado um peso enorme dos ombros agora que eu sabia. Perguntei se ele iria à escola no dia seguinte e ele afirmou, disse que guardaria um lugar para mim na hora do almoço.
—Mas e a sua família? – Perguntei e ele respondeu que não precisava ficar com eles todos os dias, e, além do mais, eles não estavam muito contentes com ele. Interroguei o motivo e ele simplesmente me olhou.
Disse a para Adam que ele não devia ficar nessa situação com a família dele por mim, afinal, passaria muito mais tempo com ela do que comigo. Muito tempo.
Peguei o celular e olhei as horas, a aula ainda estava na metade e eu não tinha nenhum intenção de voltar para a escola.
—Me conta mais. – Pedi para Adam e ele levantou, disse que não era seguro ficar falando naquela parte da floresta. Ele me guiou até uma parte mais alta da mata, tendo muito cuidado para desviar dos raios de sol que as nuvens não cobriam.
Chegamos em um local reservado, com vista para o mar, e que era coberto por uma enorme árvore, não tendo perigo para Adam.
—Então, o que você quer saber? – Perguntou com um olhar divertido.
—Quando Willam... você sabe, e, como foi... – Admiti meio sem graça, afinal, não devia ser um processo muito agradável.
—Uma coisa que você tem que entender é que Willam é diferente, ele só transforma pessoas que estão perto da morte. – Começou. – Foi em 1908, eu estava morrendo de gripe espanhola. Para você virar um vampiro não adianta apenas que ele te morda, mas você precisa morrer com sangue de um vampiro no seu organismo. Willam me transformou e, logo depois, transformou Cora.
Percebi que o assunto estava se tornando desconfortável e parei, desviei o assunto para qualquer outra coisa que fosse. Adam notou e perguntou se era sua vez de interrogar a minha vida, com um sorriso maroto. Fiz uma careta, mas não discordei, afinal, ele tinha me dito tanto.
—Você acredita em amor Blake? – Perguntou ele olhando para frente. – Já que você tem a mania de não acreditar em coisas que você não consegue ver.
—Acho que você já respondeu por mim... – Não eu não acreditava em amor, pelo menos não da forma descrita por todos. O sentimento inexplicável, mas parecia que todos o usavam de forma errada. Se amor realmente existe, não teriam vários amores em uma mesma vida.
Pela expressão dele, sabia que ele devia acreditar em amor.
—Vamos. – Chamou e saiu bruscamente e trás da árvore, recebendo calor do sol sem sua pele. Adam gritou e eu me joguei na sua frente, rolamos pela grama até uma parte de sombra. Sua face se regenerava rápido.
—Desculpa. – Pedi e ele riu sem humor. – Eu só não consigo acreditar em algo que eu não tenha sentido.
—Você nunca amou? – Perguntou com uma expressão triste e eu balancei a cabeça negativamente, claro que o que eu sentia pelos meus pais devia ser amor, mas não era daquele amor que falávamos. – Eu espero mudar isso.
E ele me deixou com um suspiro sozinha no meio da floresta.
Demorei um pouco para assimilar o que ele havia me falado, e, por mais que parecesse estranho, senti uma espécie de conforto em suas palavras. Saí rapidamente da floresta, mas em todo o percurso senti que tinha algo me observando, e não era Adam.
Perto da estrada o menino se encontrava. Desculpou-se por me deixar sozinha daquele jeito e pediu que eu não fosse mais na floresta sozinha, existiam outros perigos que não ele.
Assenti e nos separamos. Charlie estava no trabalho quando eu cheguei em casa, o que me deu muita privacidade para fazer o que quisesse, que não era nada demais, só ouvir música alto e desenhar.
Quando Charlie chegou, o jantar estava pronto e eu de banho tomado, com pijamas e um sorriso falso no rosto, mas ele não estranhou nada.
Aquela foi a segunda noite que eu sonhei com Adam.
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