Red

2 Capítulo 1


E pela milésima vez minha mãe perguntava se eu tinha certeza do que estava fazendo. É claro que eu não tinha, afinal, não tinha a menor ideia do que seria voltar a morar com George depois de tantos anos sem vê-lo direito, e como seria começar a vida em uma cidade completamente diferente.

Não é que eu não gostasse de Calden é só que eu tinha péssimas habilidades de começar conversas com qualquer outra criatura viva e Calden era aquele tipo de cidade pequena que todo mundo se conhece.

Sorri e respondi que sim, voltando a abrir a janela para sentir o calor do sol, já que em Calden calor e sol seriam as coisas que eu menos teria, afinal aquela região era a mais chuvosa dos Estados Unidos (o que me deixava imensamente feliz).

Minha mãe voltou a dirigir, mas consegui perceber que ela olhava pelo retrovisor de cinco em cinco minutos para ver se eu estava realmente certa da minha decisão, já que tinha sido tão abrupta.

Faziam alguns anos desde que a minha mãe havia começado a namorar com Phil, e eu gostava dele, mas o trabalho dele fazia ele viajar muito, e minha mãe acabava ficando presa em casa comigo para que eu não ficasse sozinha por tanto tempo e eu percebi que ela ficaria mais feliz indo com Phil. Não foi difícil achar uma solução para o problema: liguei para o George, que demonstrou muita felicidade em me receber.

Minha mãe, que não escondia o fato de odiar Calden, fez uma careta ao chegarmos. Deu um aceno rápido para George e me deu um abraço, disse que me amava e que eu devia me cuidar, respondi o mesmo.

George se aproximou e me abraçou de lado, ele estava com o uniforme do trabalho, afinal, era o chefe da polícia Scott. Entrei no carro e começamos a dirigir para casa.

—Como você está Blake? – Perguntou Geroge e eu respondi que estava bem, ele perguntou se eu ainda gostava de chuva e eu apenas sorri olhando para as gotas que começavam a escorrer pelo vidro da janela.

Não demorou muito para chegarmos em casa, e ela não tinha mudado nada, ainda estava com a fachada branca e a porta meio lascada.

George me ajudou com as malas escada acima e abriu a porta do meu quarto.

-Não mudei nada porque não sabia do que você gostava... Mas você pode ir em alguma loja de Port Angeles procurar um papel de parede. – Falou George apontando para as paredes verde-água, mas o meu amor por aquela cor não havia mudado. – Mas comprei uns lençóis novos e uma bancada para você estudar.

Agradeci ele com um abraço e ele disse que ia descer para preparar o jantar.

—Desde quando você cozinha? – Perguntei sentando na cama e correndo meus dedos pelos desenhos da colcha.

—Desde nunca, eu vou só pedir pizza mesmo. – Disse rindo consigo mesmo e sacando o celular, ri junto com ele e fechei a porta para começar a me ajustar no meu novo quarto.

Após guardar todas as roupas no armário e colocar os meus (muitos) livros nas estantes, deitei na cama e coloquei os fones de ouvido, não existia clima melhor que aquela chuva pra ouvir música e não fazer nada.

Alguns minutos depois George abriu a minha porta e disse que tinha uma surpresa. Desci as escadas rapidamente, curiosidade era meu ponto fraco. Do lado de fora da casa um jipe me esperava ao lado do carro de patrulha de George.

O encarei com os olhos arregalados e pulei no seu pescoço, era perfeito. Até me lembrava vagamente o jipe do Stiles, de Teen Wolf, o que fez eu o amar ainda mais. Minha mãe nunca tinha me dado um carro e morria de medo de me deixar dirigir.

Enquanto estava dentro do meu carro novo ainda olhando tudo maravilhada, uma picape velha apareceu e Seth Cadden, um menino da reserva, e seu pai Billy, saíram dela.

Saí da picape e Billy disse que era bom me ver, Seth me abraçou e falou que sentia saudades. Fiquei meio sem graça, quase não lembrava do menino, mas sorri e rezei para que ele não percebesse.

George pediu que eu tomasse banho que a pizza já devia estar chegando e que falávamos com os Caddens outra hora. Me despedi deles e subi para o banheiro.

Só quando o espelho do banheiro começou a embaçar foi que eu entrei debaixo da água, fiquei uns bons minutos tentando relaxar e observei os restos do meu amigo fiel, delineador, escorrendo pelas minhas mãos, havia esfregado os olhos na esperança de tirar o máximo de maquiagem que eu pudesse com água.

Ainda enrolada na toalha, me observei no espelho, não era nada com uma garota de Phoenix, não era bronzeada e nem loira, detestava esportes e trocaria a aula de educação física por ficar lendo livros em um piscar de olhos.

Chacoalhei a cabeça, afastando o pensamento e vesti meu pijama. Ouvi George me chamando e desci as escadas ainda com a toalha prendendo o cabelo e ele riu da minha cara.

Apoiei a toalha molhada em uma cadeira e peguei meu pedaço de pizza. Não teve muita conversa durante o jantar e ele me liberou para dormir, afinal, devia estar cansada da viagem.

Pegar no sono ouvindo o barulhinho de chuva foi a melhor sensação do mundo.

Acordei abruptamente estranhando não ver as paredes florais do meu quarto de Phoenix, e me lembrei que estava em Calden. Vi que ainda era cedo, mas preferi me arrumar logo.

Jeans rasgados, blusas pretas e delineador não podiam faltar um dia sequer, passei mais uma camada de rímel e calcei os all-stars. Não liguei muito para a bagunça que eram meus cabelos e peguei um moletom.

George já segurava uma xícara de café quando eu desci, com a mochila nas costas e os fones no ouvido. Peguei a caneca que costumava usar quando era menor e me servi de café.

Ele me desejou um bom dia de escola e eu sorri, esperando que aquilo fosse verdade; pouco depois de George sair, peguei as chaves do meu carro novo e saltitei até ele.

A sensação de dirigir era absolutamente maravilhosa, principalmente no frio de Calden, as ruas não eram cheias e a paisagem era formada de árvores.

Ao chegar no estacionamento consegui sentir os olhares curiosos para o carro que nunca esteve ali. Respirei fundo e abri a porta, jogando a mochila nas costas e comecei a andar.

Achei a secretaria facilmente e a moça me fitou e me deus boas vindas, recebi um mapa da escola e o meu horário. A primeira aula era literatura com um tal “Mr. Gordon”, que sorriu ao ver meu nome e me deixou sentar na última cadeira. Fiquei feliz em saber que os títulos abordados já eram conhecidos por mim e não me preocupei muito em prestar atenção, por isso, tirei meu caderno de desenhos, que podia se até considerado um diário. Nunca fui muito boa com palavras, sempre senti que elas saíam erradas e desenhos eram a minha salvação.

Quando o sinal tocou, fui a primeira a sair da sala e acabei esbarrando com um menino de cabelos pretos.

—Você é Blake Scott, não é? – Perguntou e começou a me guiar pelo corredor, respondi que sim e ele riu, perguntou qual era a minha próxima aula e eu bufei ao constatar que era educação física. – Sou o Sean, eu tenho uma aula perto do ginásio, te levo lá.

Fomos conversando pouco, e ele me deixou para entrar na sala de História. Troquei de roupa no vestiário e entrei no ginásio, parecia um pesadelo.

Juro que tentei jogar, mas acabei acertando um menino na cabeça e fui logo me desculpar. Se apresentou e disse que era Evan e eu sorri, cumprimentando-o. Uma menina baixinha e loira apareceu e falou que era Laura, e ela parecia muito enciumada do menino ter falado comigo, então dei um sorriso amarelo e deixei os dois conversando.

Na hora do almoço Sean me chamou para sentar com ele e percebi que Laura e Evan também estavam lá, segui e sentei. Começaram a me bombardear de perguntas e eu tentei ficar o menos desconfortável possível, e agradeci mentalmente quando o assunto mudou para série de televisão.

Não estava lá muito conectada no assunto e percebi um grupo de alunos muito estranhos que passava. Todos eram bem pálidos e tinham os olhos meio dourados, além de não confraternizarem com ninguém. Sentaram na mesa do fundo, recebendo alguns olhares.

—Quem são eles? – Perguntei com um careta e uma outra menina, Sarah, me respondeu.

—Eles são os filhos adotivos do Sr. e Sra. Foy... – E começou a falar seus nomes, Ted era o mais forte e ria alto, Rosalie era loira e parecia muito de mal-humor, Zoe era pequenininha e parecia uma fada, Pete parecia muito desconfortável em estar ali e Adam olhava para fora do refeitório, apreciando a chuva.

-Mas eles são super estranhos, porque tipo, Ted e Rosalie são um casal e Pete e Zoe também... Mas sério, eles moram na mesma casa, isso não é, tipo, errado? – Comentou Laura olhando estranho para Ted e Rosalie, que estavam de mãos entrelaçadas.

—Laura, eles não são realmente relacionados... – Argumenta Sarah, mas Laura continua olhando feio e eles percebem. Os olhos de Adam encontram os meus e ele comenta algo com os seus irmão, e eu tento decifrar o que é, mas não tenho sucesso.

—Nem tenta Blake, ninguém é bom o suficiente para aquele ali... – Fala Laura e eu respondo que não tenho intenção nenhuma de ficar com ele, e volto a encarar a minha comida.

Ao final do horário de almoço segui para o laboratório e falei com uma tal de “Sra. Keegan”, ela disse que eles trabalhavam em duplas e pediu que eu achasse um lugar vago.

Passei os olhos pela sala e encontrei uma cadeira vazia bem ao lado de Adam Foy. Ele me encarou com os seus olhos incomuns e observou que realmente aquele era o único local vago, parecendo muito desconfortável.

Andei até o seu lado e sentei, evitando encará-lo, por isso joguei meus cabelos por cima do ombro. A aula foi mais teórica e agradeci por não ter que fazer muito contato com aquele menino que parecia não querer me ver nem pintada de ouro.

O som do sinal fez com que Adam levantasse e saísse da sala o mais rápido possível, tentei pensar em um motivo para que ele tivesse ficado tão desconfortável ao meu lado, mas não consegui achar nenhuma razão, vai que ele apenas não gostasse de interagir com outras pessoas, não seria algo tão difícil de entender.

No caminho da saída, teria que passar na secretaria para tirar uma dúvida e foi para lá que fui, e qual foi a minha surpresa ao encontrar os cabelos desgrenhados de Adam, que parecia muito aborrecido ao não conseguir trocar o horário de laboratório por outro, qualquer outro.

Aquilo me deixou seriamente aborrecida, o que tinha de errado com aquele garoto? Se ele não conseguia sequer sentar com outra pessoa não devia nem estar na escola. Trombei com ele de propósito ao passar para falar com a outra secretária.

No momento que eu esbarrei nele e pareceu se esquivar e falou qualquer coisa para a mulher, saindo logo do ambiente. Fiquei ainda mais incrédula. Conversei rapidamente com a moça e fui embora. A única coisa que livrou minha cabeça da raiva que eu estava daquele menino foi a sensação do vento em minha cara enquanto eu dirigia.