Recém Casados
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Sentados no chão do quarto, nós observávamos o reflexo da Lua no mar. Era calmo e simples, e eu apenas desejava que aquele dia não acabasse nunca. Não queria passar intermináveis dias sem ele. Estava acostumada demais com sua presença constante ao meu lado e não estava disposta a perde-la.
— Quando eu comprei esse lugar, prometi a mim mesmo que traria apenas pessoas especiais e importantes para minha vida, eu nunca trouxe ninguém – Olhei para ele – Então eu trouxe você. E eu não quero que esse dia acabe, eu não quero – Concluiu num tom entristecido e o abracei, colocando minha cabeça em seu ombro.
— Isso parece uma despedida, você vai voltar e vai tudo ser como sempre foi – Sorri – Vamos terminar o programa no fim do inverno, dar entrevistas nos programas matinais, começaremos a dar pistas de que há algo entre nós, então num belo sai ensolarado de primavera, sairemos de mãos dadas nas ruas e estamparemos manchetes de sites de fofocas, como o mais novo e quente casal de Hollywood, as pessoas irão te perguntar o que deu na sua cabeça pra ficar com alguém como eu e você terá que se perguntar a razão antes de responder.
— Você é perfeita – Assinalou num sussurro – É isso que eu diria.
— Não sou perfeita, nem perto disso.
— Cada imperfeição sua, te torna perfeita aos meus olhos – Sorri e o apertei com mais força.
— Você é o melhor cara com quem saí e isso significa muito. Como alguém tão rabugento, se tornou isso?
— Não sou rabugento, não tanto, só estava te afastando.
— Me afastando?
— Uhum – Sua cabeça pendeu-se para o lado e se apoiou na minha e seus braços envolveram os meus.
— Pode me explicar isso?
— Não...
— Você e esses seus mistérios...
Ele riu baixo e permaneceu admirando a vista privilegiada de seu quarto.
— Apenas quero que saiba que eu a amo e que você foi o meu primeiro amor.
— Mas o que deu em você hoje?
— Eu não posso ser romântico com minha garota?
Apertei os lábios e o encarei por alguns segundos, com os olhos semicerrados e cenho franzido.
— Você pode, só não faça isso parecer uma despedida. Eu não gosto disso – Min Jun me abraçou com mais firmeza e apoiou seu queixo no topo de minha cabeça.
— Eu te amo, Lisa, eu te amo.
***
Passei a noite em claro, debruçada sobre folhas de papel, fazendo algo que eu sequer sabia que era possível, quando uma súbita onda de inspiração tomou conta de minha mente, me impedindo de pregar os olhos. Eu já não me lembrava mais de como era passar noites em claro, sem sono algum. Mas naquele momento não importava, não notei o dia clarear, até a luz do Sol bater contra meu rosto e eu despertasse de meu transe criativo.
Admirei cada palavra escrita naquelas simples folhas de papel. Cada uma delas estava ali por uma razão, não era nada jogado sem sentimentos, apenas para criar um hit de sucesso sem conteúdo e me senti orgulhosa comigo mesma, sorrindo sozinha feito boba.
Senti as grandes mãos de Min Jun em meu ombro e ouvi sua voz grave e sonolenta.
— Passou a noite acordada? – Ele estava de pé, logo atrás de mim, com a cara amassada, cabelos desgrenhados e trajando uma fina calça de moletom.
— Você é lindo até quando acaba de acordar, sabia? É sexy – Ele deu uma risada tímida e insistiu.
— Você não dormiu...
— Não dormi. Acho que vir para este lugar me inspirou – Min Jun levantou as sobrancelhas – Eu consegui escrever duas músicas novas e adivinhe, lembra-se daquela música que comecei e nunca terminei? – Ele assentiu – Agora eu terminei, tenho 3 canções novinhas em folha e totalmente minhas, ou seja, poderei cantar no festival.
Min Jun se abaixou e sorriu. Beijou minha testa, se levantando outra vez.
— Depois quero ouvi-la cantar.
— Será uma surpresa, vai me ouvir cantar quando me apresentar, vai estar comigo lá, não vai?
— Vou, é claro que vou. Está com fome? Vou preparar nosso café antes de partirmos.
— Mas já? – Fiz um beiço.
— Eu devo te levar em casa e ir ao aeroporto.
— Oppa! – Pisquei os olhos uma centena de vezes, forçando um beiço ainda maior.
— Não começa, Lisa, não quero me estressar logo de manhã de cedo – Advertiu e saiu quarto afora.
— Me espera! – Corri descalça deixando as folhas para trás.
Me sentei à bancada de mármore branco e o assisti cozinhando macarrão instantâneo outra vez.
— Essa casa se parece com a minha... – Comentei aleatoriamente.
— Você disse que, não poderia comprar uma casa como essa.
— Me refiro as cores, tudo é tão branco e claro, lembra minha casa e sinto falta dela.
— Em breve estará de volta.
— E então sentirei falta de nossa casa atual. Também me apeguei a ela.
— Eu posso instalar umas câmeras na sua casa e convidar Genna pra torrar sua paciência de vez em quando. Vai parecer que ainda está no programa – Riu segurando um pacote vermelho de macarrão.
— Que droga – Gargalhei – Sua presença é o suficiente.
— Eu posso fazer isso.
— Vou esperar por isso.
***
Min Jun se despediu com um beijo e pegou um táxi que o conduziria ao aeroporto.
E eu já sentia sua falta, mesmo que fizesse apenas dez minutos de sua partida. Eu sabia que não o veria por algum tempo e ter aquela casa toda para mim, já não era mais uma opção.
No entanto minha solidão foi breve. Não que Min Jun tivesse desistido da ideia de visitar seu pai e voltado correndo para meus braços, era algo ruim e tinha nome e sobrenome.
— Genna! – Disse ao abrir a porta e dar de cara com a mulher de cachos loiros, parada com um sorriso maligno e prepotente nos lábios.
— Lisa! – Ela entrou me forçando a abrir passagem.
— O que pensa que faz aqui?
— Olha como fala comigo – Franziu o cenho.
— Quer que eu finja gostar de você? O ator aqui é o Min Jun.
— Ele já foi?
— Há uns vinte minutos.
— Aquele bastardo.
— Não fala assim dele – Repreendi e ela levantou as sobrancelhas – Digo, não é legal falar assim dele pelas costas.
— Caguei. Vim trazer vida pra essa casa. Ou você acha mesmo que segura a audiência deitada, peidando e comendo o dia todo sozinha? Então vim trazer um pouco de emoção.
— O que quer dizer com isso? – Inquiri temerosa.
— Eu trouxe sua família – Curvou o canto dos lábios e estremeci, perdendo o chão.
— Você fez o que?
— Eu trouxe seus pais. Pense em como será divertido. Diversão em família – Sorriu de orelha a orelha.
— Você não fez isso – Minha voz soava tremula – Você não pode.
— Eu fiz, porque eu posso. Eles estão lá fora, esperando que eu os chame.
— Eu realmente te odeio! – Murmurei enraivecida.
— Isso não me importa. O programa ainda é meu e seu namoradinho não está aqui pra te proteger e dizer o que, eu posso ou não fazer no meu show.
— Namoradinho?
— Acha mesmo que, eu não sei o que há entre vocês dois? Eu apenas finjo que não vejo, mas não significa que não vejo. Eu sei sobre vocês, sempre soube. Agora me dê licença, vou buscar seus pais...
— Por favor, não! – Segurei seu braço e implorei desesperada – Por favor, Genna!
— Isso não vai adiantar, eles já estão aqui.
— Então desisto desse programa!
— Lisa, minha querida, você precisa entender uma coisa bem simples. Nesse mundo, você não é ninguém há muito tempo, recebeu convites para concertos? Agradeça a mim – Ela ralhava entredentes a poucos centímetros de meu rosto – Você é substituível, eu posso simplesmente enfiar um processo por quebra de contrato no seu rabo, tão caro que vai precisar vender até sua alma pro diabo para me pagar. Eu refiz você Elisabeth Scott, então me agradeça por ter permitido sua entrada nessa droga de programa. Agora, você vai fazer exatamente o que eu mandei você fazer – Concluiu entredentes, apertando o dedo indicador contra meu peito e saiu da casa em busca de seus convidados especiais.
Permaneci imóvel. Talvez estivesse chocada demais para me mover um mísero centímetro sequer. Talvez minha mente estivesse simplesmente travada, incapaz de raciocinar. Eu apenas permaneci ali, sentindo meu peito se comprimindo e a visão embaçada da parede do outro lado da sala.
Não notei quando meus pais entraram em casa. Mas os percebi quando ouvi a voz de minha mãe chamando por meu nome e virei a cabeça, olhando em direção a entrada e os avistei parados ao lado de suas malas.
— Elisabeth! – Papai disse e senti asco, meu estomago se revirou – Elisabeth?
Minhas pernas amoleceram e estremeci. Então tudo se apagou.
***
A figura de minha mãe foi, a primeira coisa que vi quando abri os olhos. Ela estava sentada ao lado da cama, me olhando com um semblante triste, enquanto segurava minha mão com delicadeza. Minha visão tornou-se mais nítida e sentia a garganta seca.
— Você acordou Elisabeth...- Apertei a mandíbula e afastei minha mão da sua, não queria seu toque. Eu a repudiava demais para isso – Quer um pouco de água? Deve estar com sede.
— Eu pego minha água sozinha – Respondi seca e me levantei.
Mamãe segurou meu pulso e a fitei com frieza.
— É melhor permanecer em repouso – Sorriu gentilmente e puxei meu braço de sua mão, apertando minha mandíbula até senti-la doer.
— Não. Encosta. Em. Mim — Afastei-me – Nunca mais ouse encostar um dedo em mim – Saí do quarto batendo a porta atrás de mim.
Papai se levantou do sofá e me observou preocupado. De maneira alguma, seu olhar me comovia. As imagens dele me colocando para fora de casa e o som de sua voz gritando e dizendo o quanto eu o envergonhava, ainda estavam frescas em minha mente.
— Filha, está melhor? Você desmaiou de repente...
— Para com isso – Parei em frente à pia da cozinha – Só, pare de fingir que se preocupa. Não se preocupou durante tanto tempo, não é agora que se importa. Não é porque Genna os trouxe aqui que, algo mudou entre nós, ainda é a mesma coisa. Então não percam seu tempo se fazendo de bonzinhos em frente às câmeras, não vai colar comigo – Bebi a água e notei mamãe parada próxima a porta do quarto – Com licença – Marchei para meu quarto.
Fitei a porta, sentada e encolhida sobre a cama. Olhei para a tela de meu telefone, contendo meu desejo de ligar desesperada para Min Jun e chorar até todas as minhas lágrimas secarem. Eu me sentia coagida em minha própria casa e isso era assustador.
Adormeci ali e acordei apenas quando senti o estômago vazio reclamar faminto. Eu sabia que dar de cara com meus pais era inevitável, mas ainda insistia em evitá-los o máximo possível. Saí do quarto e meus olhos avistaram mamãe cozinhando, cantarolando sua canção favorita e papai tentando dançar desengonçado a girando, como numa cena de filmes românticos. Escorei-me no batente da porta e assisti a cena inusitada, esboçando um sorriso involuntário, até seus olhares se voltarem para mim.
— Elisabeth? Você estava aí? Venha jantar conosco, preparei seu prato favorito, bolo de carne com legumes, você sempre gos...
— Não estou com fome – Menti, apesar dos ruídos escandalosos de meu estômago afirmarem o contrário.
— Não vai comer? Nenhum pouco?
— Se eu sentir fome, eu peço uma pizza.
— Mas eu fiz bolo de carne, não precisa pedir comida...
— Eu me viro bem sozinha, obrigada – Me virei para voltar ao quarto.
— Seus pais estão aqui Elisabeth, nós podemos cozinhar outra coisa se quiser.
Fechei os olhos e respirei fundo, andando até eles.
— Eu não preciso de vocês pra nada, tenho me virado sozinha há um bom tempo, não sei se perceberam – Apoiei as mãos na bancada – Vocês apenas me descartaram como se eu fosse nada e continuam com esse teatro fingindo que nada aconteceu, mas aconteceu. Por que fazem isso comigo? Por que me odeiam tanto? – Solucei, sentindo meu peito prestes a explodir com a dor ainda vívida e sufocante.
— Filha, nós sentimos muito...
— Sentem? Agora sentem?
— Me perdoe Elisabeth – Implorou papai e o encarei enojada.
— Apenas me deixem em paz – Pedi arfante – Não, não me chame assim, é Lisa. L. I.S.A, Lisa! – Soletrei irritada – Elisabeth deixou de existir quando disse que eu era uma vergonha para você, por não sonhar em ser a droga de uma contadora como sua família sempre foi.
— Elisabeth, não fale assim com seu pai! – Ralhou mamãe enfurecida.
— É Lisa. E eu falo como eu bem entender – Marchei até a porta da frente – Não esperem acordados – Saí sem rumo em busca de ficar a mais bêbada possível.
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