Recomeço

1 Capítulo I - Lembranças


Notas iniciais
Esse capítulo revela o que aconteceu com Kevin depois de sair do Vácuo Nulo, e como ele se virou depois disso. POR FAVOR LEIAM ISSO ANTES DE CONTINUAR! Quem já leu o Capítulo 1 eu queiria avisar que eu atualizei ele e coloquei mais umas partes!

Capítulo I – Lembranças

“... Suas mãos trêmulas tocaram de leve a bochecha pálida do garoto, como se ela estivesse tendo certeza de que era ele, seu filho...”

-E- Eu... Eu voltei ao normal? – ele perguntou olhando para suas mãos.

- Aqui! Deixe-me mostrar! – Gwen encostou suas mãos pequenas nas bochechas de Kevin e puxou levemente seu rosto para seus lábios. Kevin levou algum tempo para processar o que ela falara, mas entendeu a tempo de não se surpreender pelo beijo que ela estava insinuando dar. Na hora em que seus lábios se tocaram nada mais ao seu redor importava... Apenas ele e Gwen, presos em um simples beijo. Mas como sempre, o momento foi interrompido por Ben:

— Pra que foi isso?

Seus lábios se separaram, Kevin fechou seus olhos como se estivesse sonhando, enquanto Gwen falou normalmente:

— Beijo da vitória!

Kevin abriu seus olhos... Ele não estava do ao lado de Gwen, e não estava em uma nave. Estava deitado em sua cama, olhando para o teto, pensativo. Desde o beijo, ele mal conseguiu falar com Gwen, e isso foi o bastante para deixá-lo mais ansioso e com mais tempo para pensar sobre o assunto... Será que... Ele devia chamá-la pra sair? Ou era ela quem devia chamá-lo?... Claro que deveria ser ele! Depois de todas as vezes que ele disse para ela “É o garoto que chama a garota pra sair!” Gwen deve estar esperando o mesmo dele... Droga! Por que isso era tão difícil? Ele ficava mais nervoso a cada instante em que ele pensava nisso... Água... Ele precisa de um copo d’água.

Kevin se levantou e hesitou ao olhar para o criado-mudo, em cima dele estava sua máscara ID. Ele sorriu, pegou a máscara, encarou-a por algum tempo, depois a jogou no chão e pisou nela até parti-la ao meio, causando um barulho que lembrava o de uma descarga elétrica. Depois foi para a garagem pegar seu copo d’água deixando para trás o que antes ele usava como um disfarce.

Na garagem. O garoto pegou seu copo d’água e depois foi até seu carro. Ele examinou seu automóvel com uma expressão de tristeza. O carro estava destroçado! Graça à Albedo. Sério ele estava precisando mesmo fazer alguma... Talvez blindar ele? Certo! Que piada! Onde ele ia conseguir dinheiro? Talvez se ele pedisse emprestado pra mãe dele... Não! Outra piada! Onde já se viu pedir dinheiro emprestado para a mãe? Depois de tudo o que ela fez por ele, ele ainda vai atrás dela pra pedir dinheiro? Nem pensar! Kevin até se lembrou de seu rosto quando que ele voltou depois de tantos anos... Mesmo depois de tudo o que ele fez... Ela o perdoa. Isso também o fez lembrar-se de tudo o que acontecera...

Depois de sair do Vácuo Nulo, Kevin se abrigou em baixo de algumas árvores. Graças à Vilgax ele conseguiu sair daquele lugar infernal! Kevin o ajudou a recolher todos os materiais necessários para construir uma máquina que abria um rápido buraco de volta para a Terra. Claro que se traíram no final, mas ambos conseguiram sair de lá antes que o buraco se fechasse e a máquina praticamente se autodestruísse. Kevin aproveitou a chance para se afastar Vilgax, pois estava muito fraco para lutar. Ele se escondeu por baixo das árvores para se esconder e não assustar ninguém, já que ainda estava na forma de monstro.

Ele ainda não podia sair por causa da chuva forte. Ficava cada vez mais fraco. Á medida que as semanas passavam, foi parecendo que sua estatura estava diminuindo, junto com o peso em suas costas graças às asas de um dos alienígenas. Ele também sentiu que dois de seus quatro braços “sumiam”. Seus olhos também ficavam cada vez mais “normais”. Primeiro os do lado direito, que pertenciam aos galvanianos ou “massas-cinzentas” começaram a tomar a forma de olhos humanos, castanhos para ser mais exato. A antena que ficava em sua testa também começou a sumir, sua pele ficava cada vez mais pálida e esbranquiçada. Em seu braço esquerdo as pedras flamejantes do alienígena Chama começaram a cair de seu braço e este ficava cada vez mais magro e esbranquiçado também. Todas as suas características de alienígena desapareciam... Até ele ficar completamente humano! O que o deixou muito feliz, mas também com muito frio já que ele estava usando apenas bermudas rasgadas, e que por sinal estavam meio apertadas.

Como ele também estava com muita fome, Kevin teve que arriscar sair pela chuva à noite para conseguir achar alguma coisa pra comer, o que seria difícil, mas ele estava com muita fome. Ele saiu correndo pela chuva, seu estômago roncando cada vez mais. Kevin percebeu que ele estava no mesmo lugar em que lutou contra Ben pela última vez: As Cataratas do Niágara, Nova Iorque. Ele saiu correndo até encontrar o grande número de luzes dos prédios da cidade, parou por uns instantes debaixo de umas das árvores do parque até procurar um ponto para se abrigar nos prédios, depois que conseguiu achar, ele saiu correndo até lá, e finalmente conseguiu chegar embaixo de uma das sacadas dos edifícios. Ele tentou recuperar um pouco de seu fôlego, apoiando as costas na parede. Um pouco depois ele começou a sentir cheiro de comida, levaram alguns segundos para identificar o cheiro, cachorros-quentes. Dessa vez através do olhar ele procurou de onde vinha o cheiro. E encontrou. Um carrinho de cachorros-quentes, seu dono estava tentando se abrigar da chuva indo para baixo de uma das sacadas do prédio que ficavam um pouco longe da onde Kevin estava. Como seu estômago não agüentava mais, o garoto saiu de onde estava e aos poucos se aproximou do carrinho fazendo o máximo para não ser visto por ninguém. Enquanto seu dono se distraia vendendo cachorros-quentes para um casal que tentava não se molhar com a chuva. Kevin escondeu-se atrás do carrinho e torcia ao máximo para que o casal demorasse em dar o troco ao vendedor. Ele tentou esticar uma das mãos para pegar o cachorro-quente mais próximo. Só mais uns centímetros...!

— EI! VOCÊ AI! – o vendedor percebeu a presença do garoto e foi tentando pegar o braço de Kevin – Tem que PAGAR ANTES!

“Merda!” Kevin pegou o cachorro-quente o mais rápido possível e saiu correndo de lá, ignorando os olhares dos pedestres surpreendidos por ver um garoto molhado de bermudas rasgadas correndo com um cachorro-quente nas mãos, enquanto o vendedor gritava:

— LADRÃO! LADÃO!

Isso não se via! Se bem que... Ah! Aqui é Nova York!

Ele tinha que sair de lá o mais rápido possível antes que o vendedor chamasse a polícia, mesmo isso sendo um pouco anormal já que ele só roubou um cachorro-quente ao invés de dinheiro. Mas do jeito que o mundo anda podia se esperar de tudo em uma pessoa, principalmente em Nova York.

Seus cabelos já estavam grudados em seu rosto e pescoço. Mesmo assim, continuou correndo até chegar onde estava escondido antes. Nossa! Kevin sentou-se apoiando as costas no tronco de uma das árvores. Ele olhou para seu cachorro-quente, que de alguma forma continuava seco. Não perdeu mais tempo e deu a maior mordida que pôde. Há quanto tempo não comia algo decente? Quando ele estava preso naquele inferno sua “dieta” eram alguns tipos de plantas alienígenas e até mesmo outros alienígenas, por mais estranho e nojento que isso pudesse parecer.

Agora que ele estava com o estômago cheio, ele precisava de roupas secas e que caibam nele, claro. A bermuda que ele estava usando estava totalmente esburacada. O mais “fácil” seria arrombar alguma loja. Nessa hora já devem estar fechadas.

Kevin olhou para a chuva com uma expressão de desânimo, mas correu novamente para enfrentá-la. Ele correu, procurando agora um lugar onde não havia muita gente. Procurou uma loja e avistou um prédio térreo onde estava escrito Brechó. Ótimo! Um brechó! Bem... Melhor do que nada, não?

Kevin saiu correndo para trás do prédio, procurando algum lugar em que ele pudesse arrombar. Encontrou uma porta, que pelo que parecia, era por onde os empregados entravam para abrir a loja... Certo. Como abri-la agora? Será que... Kevin procurou uma caixa de força... Será que ele ainda estava com seus poderes de antes? Seria uma boa hora para tentar, se não estivesse chovendo... Mas ele quis arriscar. Quando encontrou a caixa de força, ele colocou sua mão sob a tampa e tentou absorver a energia que estava dentro. Nada! Ele tentou outra vez, se concentrando mais. Só que dessa vez, ele não absorveu a energia, e sim a caixa. Uma camada fria de metal começou a avançar sobre a mão e braço, seguindo para o seu corpo todo até ele parecer uma estátua de ferro. “Oqueéisso?!” Ele olhou para suas mãos, mesmo tendo “absorvido” o metal, ele conseguia mover-se normalmente. Kevin sorriu “Não é tãããão legal como o meu poder de antes... Mas dá pro gasto!” Ele seguiu para a porta e deu um soco nela. Ela voou para o outro lado da loja sem mais nem menos. “Wow!” E ele nem tinha feito muito esforço.

O garoto começou a bisbilhotar a loja, — que por sorte não tinha alarme, diga-se de passagem, talvez o dono achasse que um brechó seria o último lugar que um ladrão tentaria roubar.

Roupas nunca foram seu forte... Primeiro ele procurou calças nas araras mais próximas, o melhor seria pegar dois números a mais do que ele usava antes.

Ele encontrou uma calça que parecia de seu tamanho. Tentou colocar, mas não deu muito certo. Apertado! “Caramba! Será que eu tenho que pegar GG, agora?”.

Kevin foi até um espelho para ver melhor e até se surpreendeu. Ele estava duas vezes maior de quando tinha onze anos. Seus braços de alguma forma ficaram mais definidos. Além de ter ficado com um tanquinho. Seu rosto estava com traços mais fortes, seu queixo e nariz ficaram mais definidos também. Até os seus olhos mudaram, estavam mais estreitos e a cor parecia mais escura do que antes. E pode-se dizer que ele ficou... Bonito. Os seus cabelos esticavam-se até as suas costas. “Eu pareço o Tarzan!”. Com quantos anos ele deve estar agora? Treze? Quatorze? Talvez quinze...

Voltando às roupas, Kevin procurou uma calça jeans maior, tirou a que estava usando e colocou-a. Dessa vez serviu. Ótimo! Agora ele só precisava de uma camiseta. Ele procurou no grupo onde havia as maiores. Encontrou uma camiseta preta de manga curta e outra bege de manga comprida. Serviram. Agora o cabelo... Devia ter alguma tesoura por aqui. Hm... Em cima da mesa... Deve ter alguma coisa... Ele começou a vasculhar a mesa, tirou os papéis de cima, e bem embaixo encontrou o que queria. Uma tesoura. Ele voltou para o espelho e tentou cortar seu cabelo o melhor possível, o que não deu muito certo, de um lado sua franja ficou maior e do outro lado muito curta, o jeito era cortar a maior. No final seu cabelo ficou meio curto, mas estava melhor que antes. Kevin procurou uma sacola e lá colocou os cabelos que havia cortado. Depois procurou sapatos, e acabou ficando com uns de cor preta. Ele arrumou a bagunça. Depois pegou a porta no chão e tentou arrumá-la, absorveu o material dela e tentou desamassá-la. Quando viu que a porta estava em um estado um pouco “melhor” ele procurou pelos parafusos e pelas porcas. Foi até a abertura, que antes estava a porta, e tentou encaixá-la. Melhor ninguém saber que ele esteve lá. Quando terminou de consertar a porta ele a examinou. Até que estava boa... O único problema era que a porta ia ficar aberta, já que a tranca fora forçada... Mas melhor assim do que não ter nenhuma porta! Kevin saiu de lá com uma das sacolas na mão, por sorte a chuva estava bem mais fraca o que deu a ele uma chance de sair e se abrigar antes que a chuva voltasse a ficar mais forte. Ele jogou a sacola no lixo mais próximo e foi andando procurando por um lugar para dormir, será que... O lugar onde ele costumava ficar quando era criança... Era um pouco longe, mas dava para ir andando até lá. Daqui a pouco ia amanhecer o melhor era ele ir saindo de lá antes que alguém suspeitasse de alguma coisa. À medida que ele foi andando, seu estômago voltou a roncar. Droga! Ele precisava de comida, mas estava sem grana... Pelo que ele se lembrava, quando ele ainda tinha 11 anos ele escondeu um pouco de dinheiro onde morava para o caso de alguma coisa dessas acontecesse, 200 dólares e alguns centavos, ele juntava tudo o que sobrava, só por precaução. Ele vai agüentar de fome até chegar lá.

Depois de algumas horas andando, Kevin chegou a uma antiga entrada de metrô abandonado. Para evitar a entrada de alguém, colocaram algumas estacas de madeira na frente. Mas o garoto tinha feito um pequeno buraco na parede de concreto para conseguir entrar lá dentro. Kevin olhou para os lados para ver se não havia ninguém, quando viu que estava tudo livre, ele tentou se espremer entre o buraco para entrar... “Ugh! Antes isso era bem mais fácil!” Com muita dificuldade ele conseguiu entrar, tirou a sujeira que ficou em sua camiseta, e depois começou a descer os degraus da escada que o levavam para sua “casa”. Quando chegou lá, se surpreendeu por ver que estava tudo do jeito que ele tinha deixado desde a última vez que ele esteve lá, a única diferença é que tudo estava meio empoeirado. Kevin procurou em uma de suas gavetas improvisadas o dinheiro que ele tinha guardado, quando encontrou fez as contas para ver quanto tinha... Duzentos e trinta e três dólares e cinqüenta centavos... Se ele economizasse daria certo. Ele saiu de lá para ir comprar um pouco de comida.

Passavam-se as semanas, e Kevin começou a viver no mesmo lugar de antes. Ele limpou tudo, arrumou a TV e o rádio antigos que tinha. Também comprara alguns alimentos e bebidas. Durante algum tempo ele não precisou sair muito de lá, já que a chuva ainda não havia dado nenhum descanso durante a semana toda.

Kevin se levantou do “sofá improvisado” para tentar arrumar a antena da televisão. A imagem voltou a aparecer, nela estava o rosto de um dos repórteres do jornal. Ele estava falando sobre pessoas que foram “supostamente” abduzidas por alienígenas e voltaram para a Terra com algumas “lembranças” deles. Kevin não pode deixar de rir da situação... Quantas pessoas ainda não sabiam da existência de alienígenas? Muitas! Com exceção é claro dos Encanadores e seus filhos. Enquanto ele esteve dentro do Vácuo Nulo, ele conheceu vários alienígenas que eram crianças de Encanadores, muitos diziam estar lá sem ter feito nada, que foram presos lá por causa de um moleque chamado Peter, Pierce... Alguma coisa assim. Ele não deu muita bola para isso. Estava se importando mais era em sair de lá.

Depois que a imagem voltou ao normal, Kevin sentou novamente, pegou um cobertor e se cobriu. Ele olhou para o canto da tela da TV e viu a data: 10/11/2007. Três anos! Três anos ele ficou preso lá dentro! Então agora ele já deveria estar com uns 14 anos... Mas com o tamanho e a aparência, ele parecia ter uns 15. Kevin pegou o resto do dinheiro que sobrara... 120 dólares... Daqui a pouco ele ia precisar de mais...

O garoto bocejou, seus olhos estavam pesados demais. Ele pensava nisso depois. Agora precisava dormir. Seus olhos se fecharam, e aos poucos ele ficou fora de consciência.

Blaft! Blam! Kevin acordou com o barulho estrondoso que estava vindo de fora. Ele se levantou assustado, mas pronto pra lutar com o que quer que seja que estava entrando. O barulho parara, mas agora se podia ouvir o som de passos descendo a escada, o que se lembravam passos pequenos de um rato. Kevin encostou-se na parede ao lado da entrada.

O barulho dos passos estava aumentando. A pessoa passou pela entrada, e Kevin viu quem era...

O garoto com cara de rato começou a fuçar nas caixas e gavetas como se estivesse procurando algo... Até achar em cima de uma das caixas o dinheiro que Kevin tinha deixado na noite passada. Ele sorriu, pegou o dinheiro, e quando estava para sair viu a sombra de um jovem alto e truculento. Ele saiu da sombra.

— Kevin?! – ele gritou assustado.

— Argit... – Kevin falou entre dentes, nervoso e ao mesmo tempo fazendo um jogo contra ele.

O roedor começou a andar para trás, com medo, enquanto Kevin avançava.

— Cara?! O quê... Mas como você... Glup... E-Eu pensei que você... Quero dizer... M-Me disseram que v-você foi preso no Vácuo... Nulo...!

— É... E só por isso você decide vir roubar as minhas coisas não é? – Kevin respondeu, avançando cada vez mais.

— EU? O quê?! NÃO! Você... Ainda... É o meu parceiro...

— To vendo! – Kevin disse apontando para o dinheiro que estava na mão do garoto.

— Ah... Isso... Bem... E-Eu... – ele saiu correndo, ou pelo menos tentou, já que Kevin o segurou pelo rabo, fazendo com que ele começasse a correr no mesmo lugar. Com não adiantava ele tentar escapar correndo, Argit alinhou seus espinhos, para tentar paralisar Kevin. Mas Kevin fora mais rápido, e disse sorrindo:

— Não vai dar mais certo – Kevin colocou uma de suas mãos nas pilastras de ferro e o absorveu. A camada de ferro avançou por seu corpo todo.

Argit se assustou ao ver, mas mesmo assim atirou seus espinhos contra seu ex-parceiro... Os espinhos não adiantaram de nada, a única coisa que eles fizeram foi bater contra o peito de Kevin e cair no chão...

— Ferrou...

— É... Ferrou... – Kevin respondeu sorrindo. Ele pegou o roedor pela gola da jaqueta laranja, levantou-o sem fazer muito esforço e o encarou nos olhos – Você sabe que essa não é a primeira vez que você me dá um pé na bunda, não é?

— Anh... – Argit não sabia mais o que responder – Me desculpa cara!

— Desculpa nada! Quando a gente tinha nove anos, você me deixou pra encarar aqueles valentões! SOZINHO! Você sabe como é difícil encarar quatro valentões que são duas vezes maiores que você de uma vez só?!

— Anh... Não... Mas acho que eu vou descobrir...

— É! Vai mesmo! – Kevin levantou os punhos prontos para dar uma punhalada no rosto de Argit.

— CALMA CARA! PERAÍ! TEM ALGUM JEITO QUE EU POSSA RECOMPESAR?! Por favor, diz que sim!

Kevin abaixou os punhos.

— Na verdade... Tem sim.

- Sério? Digo... Eu sabia que tinha...

Kevin o colocou no chão, mas ainda o segurava pela jaqueta.

— Sabe aquele cara? Andrew... Alguma coisa...

— Andrew? Ah! O grande Andrew! O que falsificou dois ingressos pra gente uma vez? Aquele desgraçado está me devendo dez pratas!

— Esse mesmo... Sabe onde ele ta?

— Sinceramente... Acho que ele deve ter se mudado de novo... Cê sabe como o cara é... Tem que ficar ligeiro, com os caras atrás dele e tudo... Uma vez me disseram onde ele tava, mas nunca fui lá pra confirmar.

— Me leva!

— Hein?! Tá louco... Ele ta me devendo dez pratas... Mas eu to devendo muito mais!

— Não interessa! Você vem comigo até eu encontrar ele e conseguir o que eu quero...

— E o que supostamente seria “isso” que você quer?

— Documentos falsos.

— PRA QUÊ?

— Preciso de grana...

— Ué? Você é o mesmo Kevin que eu conhecia? Até parece que não conhece a palavra-chave! Sete letras! R-R-O-L-B-A-R!

Kevin suspirou nada surpreso com o analfabetismo de Argit.

— Eu sei, eu sei. Mas é mais fácil encontrar o cara... To precisando de muita grana mesmo. Vou... Sair da cidade...

— O QUÊ?! Você acabou de voltar! Ta de brincadeira?

Kevin olhou para ele com uma cara séria e respondeu:

— Não.

— Por quê? Posso saber?

— Não.

— Vai encontrar alguém lá?

— Não... Interessa.

— Sabia! Quem é? Uma namorada? Uma ex?

— Eu acabei de voltar pra cá e você já acha que eu to de amasso com alguma garota?

— Do jeito que você é...

Kevin pegou a gola da blusa do ex-colega e o puxou para ir embora.

— Vamos...

Ele pegou o dinheiro da mão de Argit, colocou no bolso e o puxou para fora de sua antiga casa.

— Tem certeza de que é aqui? – Kevin perguntou para Argit com ares de desconfiado.

— Aham! Acho...! Agora... Será que você podia me soltar? Eu já fiz a minha parte! – Argit apontou para a mão esquerda de Kevin segurando a gola de seu capuz. Desde que eles começaram a andar pelos becos da cidade, Kevin não soltou Argit nem por um segundo.

— Não. Ainda não fez a sua parte do trato! Eu quero ver se ele está lá dentro mesmo. Kevin apontou para o prédio abandonado com sua mão livre.

Ele puxou Argit. Chutou a porta velha que estava no caminho e entrou.

— Anh... Cara... Eu acho melhor a gente não entrar aqui... Lembra da última vez que...

— Calaboca! – Kevin respondeu friamente.

— Tá bom pra mim... – Argit respondeu um pouco nervoso.

À medida que os dois entravam no prédio, Argit ficava cada vez com mais medo de ser pego por alguma armadilha que o “Grande Andrew” podia ter deixado pelo caminho... O cara era esperto demais, uma vez ele tinha conseguido construir um circuito novo usando só um pouco da lataria que tinha. Pelo que ambos ouviram, Andrew era filho de um encanador, mas o abandou com a mãe que morreu uns anos depois... Como não tinha lugar para ir, ele se alojou nos prédios antigos da cidade há uns três anos atrás e descobriu seus poderes. Desde então ele usou sua inteligência para sobreviver... O jeito foi começar a falsificar alguns documentos, no começo ele tinha muita gente pagando ele. Só que a polícia ficou atrás dele... Então ele teve que ficar um pouco mais esperto para quem ele vendia os “documentos”. Quando Kevin e Argit o conheceram, Andrew conseguiu vender uns ingressos falsos para assistir um lançamento do filme Sumo (claro que Argit teve que colocar o capuz em cima da cabeça para disfarçar na hora de entrar no cinema.)

Kevin começou a chamá-lo:

— OI?! Andrew? É o Kev—! – antes que ele pudesse terminar de falar, uma sombra pulou de algum lugar e aterrissou na frente dos dois. Kevin não se surpreendeu muito com a súbita aparição da sombra; enquanto Argit tentou fugir, claro que não foi possível, já que Kevin ainda o segurava.

A sombra começou a se erguer e se aproximou por um dos fechos de luz que entrava através dos buracos da parede. A luz revelou que a sombra era um garoto da mesma estatura de Kevin, cabelos de cor castanhos lisos e compridos até os ombros. Seus olhos eram verdes claros, e a pele muito branca. Ele estava usando uma calça jeans velha, com uma camiseta azul escura.

— Andrew? – Kevin perguntou dessa vez um pouco surpreso... Quando eles tinham dez anos Andrew era mais alto que Kevin, e um tanto gordinho. Agora, pelo que se dava para ver, Andrew havia ganhado mais músculos e perdeu praticamente todas as “calorias” que tinha antes, além de ter deixado o cabelo crescer, já que antes o garoto adorava raspar seu cabelo até ficar careca. A única coisa que não mudou fora a cor da pele e os olhos.

— Kevin?! – ele respondeu parecendo ainda mais surpreso que o próprio Kevin, seus olhos verdes se arregalaram – Não acredito...

— O mesmo... – ele disse dando um meio sorriso, tentando segurar Argit com mais força já que este tentava escapar.

Andrew sorriu. E voltou a falar:

— Wow... Você ficou mais alto.

— E você ficou mais baixo... – respondeu Kevin brincando.

— Nossa! – continuou sem prestar atenção na resposta – Antes você era tão magrelo, e agora ta assim...

— Anh... Valeu... O mesmo pra você... Eu acho.

— Bem... Mas então? O que você quer depois de tanto tempo sumido?

— Documentos.

— Hm... Certo. Que tipo?

— Identidade falsa, e uma passagem pra avião...

— PASSAGEM PRA AVIÃO? Tá louco? Acha que eu posso falsificar uma passagem pra avião?! Eu tenho que saber um monte de coisas... O vôo, o horário, o número, a data...

— Ah! Qualé? Você é o Andrew! É esperto o bastante pra fazer isso!

— Aham... Sei... Eu posso até tentar, mas se der errado, nada de reembolso, e vai custar caro...

— Caro quanto?

— Sei lá... Hm... – Andrew usou os dedos para fazer as contas – Umas quinhentas pratas... Mas vou te dar um desconto... 300 pratas!

— O quê, trezentos dólares?!

— Eu disse...

— Agora eu sei porque te chamam de Grande Andrew, deve estar cheio de grana ai dentro. Não dá pra diminuir mais um pouco? Eu to com 200...

— Hm... Maus.

— Não tem mais nada que eu possa dar em troca além de dinheiro?

Andrew olhou para ele, e depois olhou para o que Kevin estava segurando. Atrás dele estava Argit encolhido o máximo para não ser visto.

— Já sei... Você me dá esse cara ai – ele apontou para Argit.

O garoto com cara de rato se assustou e dessa vez tentou escapar o máximo esperneando:

— O quê?! Kevin não faz isso!

— Feito!

— AHHHH!

Kevin ia entregar Argit, mas pensou duas vezes antes de fazê-lo.

— Espera! – ele recuou a mão que segurava o rabo de Argit. Este olhou para ele, pensando ter alguma esperança de Kevin ainda ter piedade – Eu o entrego quando você me der os documentos que eu quero... Precaução sabe?

Andrew sorriu:

— Tudo bem! – ele saiu andando sem mais nem menos.

— Ei! Aonde você vai?

— Vou começar o trabalho ué! Espera ai! Daqui algumas horas os documentos vão ficar prontos – se virou e sumiu na sombra.

Kevin passou o tempo sentado no chão conversando com Argit e perguntando o que tinha acontecido enquanto ele estava fora. No começo Argit não abriu a boca, mas depois de um tempo ele voltou a falar como nunca. As mãos de Kevin já estavam dormentes de tanto segurar ele. Ele virou para os lados, cansado de ouvir Argit e caiu em seus próprios pensamentos, até ser interrompido.

— Você se lembra da Steph? – Argit perguntou.

Kevin arregalou os olhos e virou sua atenção a ele.

— Quê?!

— A Steph! Loira, olhos azuis, bonita...

Kevin ficou vermelho e torceu para que as sombras do prédio escondessem o seu rosto.

— O que tem ela?

— Ela. Bem... Estava querendo saber onde você tinha se metido.

— Sério? Você não contou nada né?

— Não.

— Ainda bem...

Kevin se lembrou dela. Steph era uma garota baixa, loira e muito bonita que vivia nas ruas e conhecera Kevin quando ele já tinha onze anos de idade, um pouco antes de este conhecer Ben. Foi com ela que ele deu seu primeiro beijo. Ele não gostava MESMO dela. Não pelo fato de ela ser irritante com todos, era só que ele não via nada de “especial” nela, além da beleza. Ele só aceitou ficar com ela, porque ela não parava de insistir nisso. Depois, Kevin não a tratava do jeito que ela esperava. Ele não se importava, muitas vezes até ignorava ela. A única vez que ele gostou de ficar com ela foi quando Steph o puxou para perto dele e o beijou. Claro que ele achou isso... Bom. No começo foi meio nojento, mas depois... Quando os dois terminaram, Kevin não parou mais, e começou a atrair todas as garotas para perto dele. Argit começou a chamá-lo de o grande “pegador” ou alguma coisa assim... Steph ainda tinha uma queda por ele, uma vez, ela apareceu do nada, na hora em que ele estava dando uns amassos em outra menina, deu uma palmada enorme na bochecha dele e chamou-o de “Canalha” como num filme. Kevin sorriu para ela, enquanto Steph saia e disse:

— Por isso você quis ficar comigo? Por que eu tenho o Charme dos Canalhas?

Steph ficou vermelha, mas saiu andando mesmo assim. Kevin nem ligou em segui-la, e voltou a dar atenção para a menina que observava tudo sem dar o mínimo de importância, para ela Kevin era só “um cara qualquer” que servia pra passar um tempo.

Argit o observou e abanou a mão para tirá-lo do transe de pensamentos.

Kevin fitou-o.

— Que foi agora?

— Ela ainda gosta de você sabia?

Kevin ficou quieto por uns instantes.

— É? Pois ela não devia...

— Agora sim você é o Kevin que eu conheço. – Argit não parecia nada assustado com a resposta de Kevin. Isso era o bom de ter Argit como amigo... Ele não cobrava muito com esses tipos de respostas, sem noção do jeito que era.

Kevin sabia que ela na verdade não gostava dele do jeito que parecia. Steph, na verdade fazia todo aquele drama para fazer com que Kevin voltasse a ficar com ela, para ela dar um fora nele e não ficar com uma ”má fama”. Já que na última vez, foi ele que deu. Pelo menos era o que ele pensava...

Argit e Kevin voltaram a conversar até Andrew aparecer das sombras, com dois papéis na mão. Ele se aproximou de Kevin, que se levantou. Enquanto Argit tentava escapar novamente. Andrew mostrou os dois papéis. Um deles era uma identidade e outra uma passagem de avião.

— Pronto!

— Valeu cara! – Kevin pegou os documentos falsos e entregou Argit para Andrew sem hesitar.

— E ai, Argit? Lembra de mim? – Andrew perguntou, pegando a cauda de Argit.

Kevin virou e foi embora colocando os documentos no bolso, sem ao menos se importar com Argit.

Ele sorriu e saiu.

Depois de abandonar Argit no edifício antigo, Kevin voltou para onde estava morando para pegar algumas coisas, como a comida que sobrara, e outras coisas.

Ele foi para o aeroporto. O vôo que ele tinha que pegar era os da 19h00min. Ainda era umas 15h00min. O melhor era ele ir andando, já que o aeroporto era próximo. Ele aproveitou esse tempo para decorar as informações que tinham na passagem e na sua identidade.

Kevin chegou ao aeroporto e se dirigiu para a atendente mais próxima para seguir suas instruções. Por alguma estranha razão o aeroporto não estava muito cheio, então foi tudo mais fácil.

Ele chegou perto da balconista, que parecia estar entediada, observando a tela do computador.

— Com licença... – ele tentou falar de um jeito mais formal.

A balconista levantou o rosto para vê-lo melhor e quase cambaleou da cadeira. Parecia que ela esperava ver outro turista de roupas floridas com uma máquina fotográfica pendurada no pescoço, o que ela viu foi totalmente o contrário.

Kevin tentou esconder sua diversão.

— Sim... C-Como eu posso ajudá-lo?

Ele sorriu. A atendente se atrapalhou mais ainda.

— Eu queria confirmar meu vôo das 19 horas para Bellwood. Por favor.

— C-Claro...

Kevin esticou a mão com a passagem. A atendente pegou com as mãos trêmulas e leu a passagem.

— Documento, por favor – ela disse recuperando-se.

Kevin pegou a identidade de seu bolso e a integrou. Ela examinou os documentos e carimbou a passagem.

— Aqui. Você tem alguma bagagem?

— Não. Só minha mochila. – ele apontou para a mochila que estava em suas costas.

— Certo. Seu vôo já está disponível, é só entrar no corredor nove... Se desejar mais alguma coisa... – ela sorriu. Kevin concordou e percebeu haver um duplo sentido das palavras da atendente.

Ele virou o rosto e torceu para que tudo desse certo. Passou pelo detector de metais e entrou no avião. Procurou pelo número da cadeira e se sentou. À medida que o tempo passava, as pessoas entravam e sentavam-se em seus respectivos lugares.

Depois que o avião levantou vôo, Kevin dormiu durante toda a viagem e só acordou na hora em que o piloto avisou para que todos retornassem aos seus lugares para o pouso do avião. Kevin saiu no mesmo momento em que as portas do avião se abriram e desceu. No aeroporto, ele comprou uma lata de soda e saiu.

Ele ia ter que andar um pouco mais, antes de chegar onde queria. Começou a observar a cidade em que morou há muito tempo atrás, antes de tudo aquilo acontecer. Ele, sua mãe e... Seu padrasto. Os três estavam fazendo uma “viagem” para Nova York... Até ele machucar Kevin o bastante para deixá-lo nervoso e retornar na hora da briga. Só que o padrasto ficou mais ferido... Muito mais ferido que Kevin. Ele ficou tão assustado que fugiu, deixando para trás um homem inconsciente em estado de coma, e sua mulher assustada com tudo o que aconteceu e com tudo que vira. Depois disso, Kevin nunca mais a viu. Sua mãe... Agora, ele estava voltando para ela, querendo pedir perdão por tudo o que ele fizera. Querendo que ela se esquecesse do que havia acontecido. Talvez isso fosse impossível, mas ele tinha que tentar...

Kevin olhou para o relógio... Onze da noite. Ele deve ter andado durante uma hora ou por ai, mas ele já estava chegando, e as horas que ele passou dormindo no avião compensaram bastante.

Ele chegou lá um pouco antes da 1 da manhã. Observou a casa por uns instantes. Ela estava do mesmo jeito que ele se lembrava. Uma casa térrea pequena e simples, mas muito bonita. Aquela pequena casinha trazia várias lembranças, quase nenhuma ruim. Kevin se aproximou e parou em frente à porta. Pensou duas vezes em apertar a campainha. Era uma da manhã. Ela devia estar dormindo. Ele estava muito ansioso para esperar outra hora.

Depois de apertar a campainha ele esperou para ela abrir a porta. Uma das luzes da casa se acendeu.

— Já vou! – uma voz de dentro da casa disse meio sonolenta.

A porta se abriu. E de dentro da casa ele pode ver quem era. Uma mulher de estatura média, cabelos pretos e lisos, olhos castanhos e pequenas rugas em volta dos olhos e boca. Em uma de suas mãos estava segurando um copo de leite quente.

A mulher estreitou os olhos para conseguir ver melhor.

O copo que estava em suas mãos caiu no chão e quebrou-se em mil pedaços. A mulher arregalou seus olhos, suas mãos tapavam sua boca mostrando uma expressão de espanto e tristeza. Kevin sentiu como se tivesse borboletas em seu estômago, começou a suar frio ao ver a expressão da mãe. Era isso... Ela iria sair correndo para o telefone e ligaria para a polícia dizendo que havia um garoto louco em sua casa. O bom seria fugir de lá o mais rápido possível, antes que a polícia chegasse. Ele sairia correndo na hora em que ela se direcionasse para o telefone. Mas ela não fez isso. Suas mãos trêmulas tocaram de leve a bochecha pálida do garoto, como se ela estivesse tendo certeza de que era ele, seu filho. Seus dedos magrinhos percorreram seus olhos. Kevin ficou paralisado, depois de tanto tempo sem sentir o toque carinhoso de sua mãe...

— K- Kevin? – ela gaguejou – Filho?

Seus olhos estavam ficando vermelhos de felicidade. E ela fez o que ele não esperava. Seus braços o envolveram em um abraço. Kevin não fez nada por alguns instantes. Levou alguns momentos para processar o que aconteceu. Depois de entender, ele não perdeu mais tempo e a abraçou de volta.

— Mãe...

Ela levantou seu rosto para observá-lo melhor e sorriu.

— Não acredito... – ela disse ainda sorrindo, suas bochechas molhadas com suas próprias lágrimas.

Kevin sorriu.

— Entre! – ela pegou a mão de Kevin e o puxou para dentro de sua casa sem se importar com os cacos de vidro no chão.

Ele entrou na sala e começou a observá-la. Nem mesmo a parte de dentro da casa mudou. Até a moldura, onde estava Kevin e seu pai não mudou de lugar. Ele se sentou no sofá e colocou a mochila ao seu lado, enquanto sua mãe o fitou.

— Quer alguma coisa?

— Não, obrigado...

Sua mãe sorriu.

— Não precisa ficar sem graça... Essa é a sua casa de qualquer jeito...

Ele corou de leve.

— Lembra daquele bolo que eu fazia quando você tinha cinco anos? O de chocolate com bastante recheio? Você quer?

Ele ficou mais vermelho. Não gostava de ser tratado como criança, mas estava tão feliz por dentro, que só assentiu com a cabeça.

— Com um copo de leite quente?

Ele assentiu novamente. Mas para recuperar o pouco de orgulho que lhe restava disse:

— Quer ajuda?

— Não precisa...

— Precisa sim, mãe...

Ele se levantou do sofá, mais feliz do que nunca, e saiu correndo para a cozinha. Sua mãe olhou para onde ele tinha saído e o seguiu depois de alguns segundos, correndo e saltitando como uma criança.

Na cozinha, Kevin pegou o bolo debaixo do forno e procurou por uma faca, olhou para trás e viu que sua mãe segurava uma. Ele pegou a faca e cortou um pedaço grande. Depois enfiou o pedaço dentro da boca com só uma mordida.

— Hm... Exe negoxio tax oximo! Como eu lebrava... Hm...

Sua mãe soltou uma risada. Ela não se sentia desse jeito há muito tempo. Desde que Kevin tinha ido embora, ela raramente sorria.

Ela foi até a despensa pegar um copo de vidro, lembrando-a de que depois ela devia limpar a sujeira de leite que estava na entrada da casa, mas ela se preocupava com isso depois.

Ela pegou um copo de vidro e o encheu com o resto do leite que ela havia deixado para tomar de manhã. Depois o esquentou. E levou o copo até Kevin.

Ela o cutucou, Kevin virou-se para ela apenas para mostrar que seus lábios estavam grudados graças ao excesso de chocolate do bolo que ele comeu. Kevin pegou o copo da mão da mãe e bebeu o leite em um gole. Depois que terminou de beber o leite ele soltou um grande arroto e tapou a boca com uma de suas mãos.

— Desculpa...

Sua mãe deu uma risada. Kevin não entendeu o porquê, mas os risos dela o contagiaram o bastante para rir junto.

— Senti tanto a sua falta, filho... – ela disse se aproximando dele e o abraçando. Kevin retornou o abraço.

— Eu também, mamãe...

Ela começou a chorar novamente. Dessa vez Kevin também não conseguiu se conter e chorou.

É tão incrível, antes Kevin era tão pequenininho... Mas agora... Sua mãe que parecia pequena!

— Agora que você está aqui, descanse um pouco, vai ser tão bom ter você morando aqui, de novo!

Kevin parou de sorrir.

— O que foi querido?

— V-Você quer que eu volte a morar aqui? Mesmo depois de tudo o que eu fiz?

— Claro!

— Mas... E... Ele?

— Ele?

— John...

— Ah! Ele... Depois que você fugiu... Ele decidiu não morar mais aqui, acho que tinha medo de eu fazer o mesmo que você fez... Mas nós ainda nos vemos.

— Aham... – Kevin não gostou muito da última frase.

— Por favor, Kevin... Não vá embora de novo só por causa dele!

— Não mãe... Não é por isso. É que...

— O quê?

— Eu... Eu sempre... Fui um estorv--

— Kevin Ethan Levin! Nunca mais diga isso! Você nunca vai ser um estorvo para mim! Você é o meu filho!

— Mas eu...

— O que?

— Eu não quero ficar vivendo à custa de ninguém...

— Kevin! Você só tem QUATORZE anos! – Kevin ficou um pouco assustado por sua mãe se lembrar de sua idade mais que ele.

— É! Mas até agora eu consegui viver sem a ajuda de ninguém... Desde que eu tinha oito anos...

Sua mãe não tinha objeções contra aquilo.

— Por que você quer fazer isso?

— Por que... Eu quero ser... Como é que se diz mesmo?

— Independente...

— Isso! Independente...

— Certo... Fique aqui pelo menos até amanhã, depois a gente conversa. Por enquanto durma.

Kevin assentiu com a cabeça. Mas ele não estava com a mínima vontade de dormir. Sua mãe pareceu ler sua mente.

— Quer saber... – seu sorriso voltou aos poucos – Eu não estou com vontade de dormir... Que tal a gente escolher um DVD e assistir um filme como a gente fazia antes?

Kevin sorriu como se ambos não tivessem argumentado há uns minutos atrás.

— Com pipoca e tudo?

A mãe riu.

— Com pipoca e tudo!

Ele ficou parado por alguns instantes encarando-a com um grande sorriso no rosto.

— Certo! Eu escolho o filme! Você prepara a pipoca! Wohoooo! – ele saiu correndo até a sala com os braços estendidos para cima como uma criança que acabara encontrar um parque de diversões com brinquedos feitos de doces.

A mãe começou a preparar a pipoca e os doces. Depois se direcionou a sala, viu que seu filho estava sentado no sofá em frente à TV com o controle na mão, esperando-a voltar com a comida. Ela se sentou ao lado de Kevin e o entregou o pote de pipoca cheio de manteiga derretida do jeito que ele gostava. Ela enfiou a mão no pote e comeu a pipoca toda de uma vez, antes que o filho pudesse pegar. Lá se fora sua dieta...

— Pronta? – Kevin perguntou animado.

— Bota o filme! – ela respondeu com a boca cheia de pipoca amanteigada.

Kevin apertou play do controle e deixou o filme rodar: Sumo: O Filme. Ela se lembrava de que quando Kevin era pequeno, ele não parava de assistir esse filme.

Depois de vários “Wohoooo” e “Vai mestre Sumo!” o filme acabara e finalmente, Kevin começou a sentir sono. Ele encostou a cabeça no ombro da mãe e finalmente dormiu.

Kevin sorriu. Mesmo depois de tudo aquilo que aconteceu, sua mãe tinha perdoado ele o bastante para oferecer a ele um lugar pra morar. Claro que no final Kevin tinha que ter aceitado, já que... Bem... Onde ele ia ficar morando? Naquele lugar que se parecia uma garagem, onde ele mora até hoje, ele encontrou um Camaro velho e enferrujado. Até a tintura vermelha parecia velha. Foi ele quem arrumou o carro, pintou-o de verde... Foi ele que arrumou tudo aquilo usando seu conhecimento por peças mecânicas e tudo mais... E agora... Ele estava lá, de novo, arrumando seu pequeno xodó depois de ser destruído pelo clone de seu antigo rival.

Pronto... Agora ele só precisava de um vidro novo. Foi aí que ele se lembrou que perto das caixas onde ele guardava suas peças de carro, tinha um vidro novo... Kevin foi até lá, pegou o vidro e tentou colocar no carro para ver se encaixava.

Maravilha! Kevin não pode deixar de sorrir. Estava orgulhoso com o próprio feito. Agora... “Para a casa da Gwen!”.