O friozinho úmido da madrugada estava indo embora quando o raios solares começaram a anunciar sua chegada diante do céu, meticulosamente insiro a chave na porta de casa para não despertar o devaneio da Mãe à minha espera no sofá da sala. Surpreso por ela não estar lá ainda continuo com meu ritual, subo às escadas à ponta pés, já no topo penso em ver se Mãe estava no quarto mas hesitei, virei a esquerda e segui rumo ao meu quarto, tiro os sapatos, as meias, e faço todo o processo de tirar as roupas antes dormir, despido abro as janelas e deito na cama, é incrível o poder de liberdade que sentimos quando ficamos pelado, e rapidamente eu adormeço. Passava-se das 15:00hrs quando me desperto com os sinais de notificação do meu celular, levanto da cama e dou minha atrasada e habitual espreguiçada matinal, caio em mim e percebo que Mãe não me acordou pro Colégio hoje, afinal ainda era quarta-feira, visto uma cueca e vou até o quarto da Mãe receoso com as broncas, ela não estava lá, desci as escadas e lá estava ela, sentada no sofá assistindo a novela da tarde, senti um alívio espontâneo que eu mesmo não entendi.
"Bom dia! Tem almoço?" -digo cautelosamente pra evitar perguntas.
"Tem Frango grelhado, arroz e salada no fogão, e sobras do feijão de ontem na geladeira." — disse Mãe friamente.
Fui até a cozinha preparei um prato e voltei a sala pra comer, pus o prato na mesa e voltei à geladeira pra apanhar o suco, não tinha percebido mas a pia estava submersa de louça que acredito estar ali há dias. Terminei minha refeição, peguei minha louça e coloco junto ao amontoado na pia. À caminho do banheiro pra tomar uma ducha sinto uma aspereza no chão, a casa estava imunda, ignorei e segui em frente, fiz toda minha higiene e decidi sair, precisava filtrar o que estava acontecendo lá em casa.
"Mãe, to saindo" — eu disse.
"Tchau" — disse ela ainda fria.
Queria espairecer, peguei um ônibus rumo há uma praia um pouco distante no litoral norte da cidade, em quarenta minutos estava lá, eram exatamente 16:42hrs quando eu cheguei. Distanciei-me um pouco das pessoas que haviam ali, acendi um cigarrinho de maconha e deitei ali pra fumar, olhando pro céu, apreciando a beleza do local em que estava, o tempo passou e o sol estava a se pôr lindo como sempre. Apaguei ali naquele lugar, acordei assustado forçando a mente pra me situar, a praia estava um breu, tinha um grupinho um pouco a minha frente, pus as mãos nos bolsos pra pegar o celular mas não estava lá, por sorte havia posto a carteira na cueca quando tirei o cigarro. Caminhei até um quiosque que havia no entorno comprei uma água e ao avistar as horas eram 23:27hrs, o tempo voou ali naquele lugar, fui imediatamente pro ponto de ônibus, por sorte quando eu havia chegado passou um, deveria ser o último do dia. Entrei, comprei a passagem com o cobrador e sentei à direita no meio do ônibus, de imediato só havia eu lá além do motorista e o cobrador, encostei a cabeça na janela enquanto o ônibus seguia o seu destino. Lembrei da minha mãe e lembrei-me de como éramos feliz antes da morte do Pai, éramos só nós três Eu a Mãe e o Pai, saíamos sempre juntos em quase todos os fins de semana, éramos muito amigos um do outro, não havia segredo entre nós, até que há 2 anos atrás eu e a Mãe, que por sinal estava grávida com 4 meses da minha irmã Gina, havíamos ido na reunião de Pais, alunos e professores do 1 ano do E.M. no meu novo Colégio, ao chegarmos em casa, eu sentei no sofá da sala pra assistir TV e a mãe subiu pra trocar de roupa, quando eu escuto o grito forte e eufórico da Mãe, subi as escadas correndo pra saber o que tinha acontecido e lá jazia meu pai no chão, ensopado de sangue com uma arma perto dele que parecia ter atirado na cabeça. Suicídio, a pior das mortes, foi muito difícil pra mim e muito pior pra mãe que com o susto acabou perdendo a Gina, ficarmos sem saber o motivo dele ter cometido o suicídio foi horrível, uma morte sem respostas.Desde então nossas vidas desandou, eu fui reprovado nos 2 últimos anos do colégio, vivo em raves me drogando para sentir um vestígio da felicidade que eu sentia antes do ocorrido, e a Mãe vivia e vive acho que somente por mim. Volto à consciência e me irrito com uma voz velha cantando uma música numa língua que eu desconheço, cantando e cantando, aquele zunido me agoniava, irritado viro pra trás e grito:
"Cala a boca sua velha agourenta!"
A cantoria ficou mais forte com aquela língua estranha, até que escutei como se estivesse falado nos meus ouvidos:
"Crie a sua nova felicidade meu jovem, recomece."
E a voz, a cantoria, a velha sumiram. Aquilo ficou enfurnado na minha mente. Dei sinal no ônibus, pois meu ponto era o próximo, desci e caminhei até em casa pensativo, já passava das 00:00hrs quando cheguei, entrei fui pro meu quarto e nem reparei se Mãe estava por lá, deitei na cama e esperei o dia surgir. Já eram 09 da manhã, era meu aniversário, fiz minha higiene matinal, e fui até a mercearia comprei alguns saquinhos de veneno de rato, aqueles de pó branco, e fui numa delicatessen comprar um bolo pro meu aniversário. Chegando em casa, a mãe já estava na sala, pus as coisas na mesa e ela me deu um abraço frio e triste de feliz aniversário, e voltou a assistir TV, "Crie a sua nova felicidade meu jovem, recomece.", peguei o veneno e derramei todo em cima do bolo, todos os saquinhos, tudo. Levei o bolo até a mesa de centro com dois pratos e talheres, sentei ao lado da Mãe, fiz os pratos e entreguei um pra ela, quando terminamos de comer, eu a abracei e disse no ouvido dela:
"Mãe, encontraremos nossa nova felicidade e recomeçaremos."
Ao terminar a frase, eu vi um sorriso no rosto dela que não tinha visto há 2 anos.
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