Recomeços

1 Adeus Melanie Johnson


Eu estava de volta em Londres. De volta em minha casa no centro. Minha mãe fazia panquecas e eu esperava felizmente sentada na mesa da cozinha. Eu me sentia feliz, como há muito tempo não me sentia.

E então... Eu abri os meus olhos. Mais um sonho como aqueles. O tipo de sonho que você queria sonhar todas as noites. Me sentei na cama e olhei para o relógio que ficava na mesinha ao lado da cama. O relógio marcava 06h30min, eu só deveria acordar às 07h00min. Pensei em dormir novamente, mas logo desisti. Levantei e andei em direção ao banheiro, um banho longo seria ótimo para acordar de verdade.

Desci para tomar café e como raramente acontecia, meu pai ainda estava em casa. Me sentei no balcão e preparei uma tigela de cereal para mim. Meu pai me desejou um “Bom Dia”. Lhe desejei o mesmo. Ele me deu um beijo na testa e virou as costas, pronto para sair para trabalhar. Estava perto da porta da sala quando parou de andar, como quem se lembra de algo muito importante. Ele voltou para a cozinha e eu perguntei o que tinha acontecido.

- Melanie, nós precisamos conversar. – disse meu pai receoso. Logo percebi o rumo da conversa e não sabia se estava preparada para aquilo de novo.

- Sim? – fingi que não sabia o assunto.

- Precisamos nos mudar. Eu sei que é cansativo, mais uma vez. Mas aconteceu tudo tão rápido que eu nem consegui evitar.

Meu olhar agora estava na minha tigela de cereais. Meu rosto sem expressão.

- Onde dessa vez? Por quê? – perguntei, mas na verdade eu não estava interessada em saber.

- Um plano mal executado. Um erro. Eu sinto muito. Nós vamos para Northumberland no fim de semana. – meu pai disse por fim deixando a cozinha de vez.

Me mantive sentada e sem argumentar assisti meu pai ir embora.

Peguei minha mochila e sai para a escola. Decidi ir a pé. Fui pensando na história que contaria dessa vez.

Era sexta-feira. Eu passei pelo portão de entrada da escola pelo que parecia ser a última vez. Logo vi Anna sentada nos bancos perto da porta. Ela acenou quando me viu. Anna Baker era minha melhor e única amiga. Seria difícil partir.

- Bom dia! – disse Anna ao se aproximar de mim.

- Bom dia Anna! – era bom falar o nome da pessoa no final da frase. Deixava claro a quem o cumprimento era destinado.

- Mel, está tudo bem? – ela percebeu. Ela sempre percebia. Mesmo me conhecendo há pouco tempo, Anna me conhecia muito bem.

- Na verdade não. Eu não estou bem. – disse. – Posso falar com você e com o Vinny no intervalo?

- Claro amor! Eu estarei aqui. – ela me abraçou e sussurrou em meu ouvido. – Sabe que eu estarei aqui para tudo o que precisar não é?

- Eu sei. – sussurrei de volta.

Disse que iria para a sala onde eu teria a primeira aula.

Um a um, os alunos foram entrando na sala, mas nenhum deles me notou sentada ao fundo. A aula correu normalmente, eu nem me dei o trabalho de copiar as anotações, pois em vinte e quatro horas, ou um pouco mais, eu teria sumido o mapa. Completamente.

O sinal soou e eu me dirigi ao pátio onde Anna e Vinny, me esperavam apreensivos. Vinny Evans era namorado de Anna e meu fiel amigo. Nós dividíamos o mesmo gosto musical e isso tinha criado um laço de amizade muito forte entre nós. Cumprimentei os dois e me sentei junto a eles em uma mesa perto da porta.

- Acho que já posso falar. – disse me convencendo de que não havia mais volta. Eles afirmaram com a cabeça e eu entendi que era para continuar.

- Meu pai me deu a notícia esta manhã. Nesse final de semana... – engoli seco. – nós vamos nos mudar para Durham.

- Mas, por quê? – perguntou Anna realmente abalada.

- Complicações no trabalho. – nem terminei de falar e Anna já estava abraçada comigo. Eu chorava e Anna praticamente se liquefazia ao meu lado. Vinny apenas nos abraçava e dizia que tudo ia ficar bem. Matamos as últimas aulas. Fui para casa esperado ter tempo suficiente para arrumar as malas. Certamente teria, não tinha desfeito todas as malas desde a última mudança.

Sábado amanheceu claro, ensolarado, o que entrava em total confronto com o meu humor. As malas estavam prontas, as caixas estavam fechadas. Meu pai estava na garagem já arrumando o carro para a viagem. Estava encostada no carro. Olhei para o fim da rua e vi Anna e Vinny vindo em nossa direção, não pude deixar de sorrir. Vinny trazia uma caixa verde em suas mãos, e Anna, vinha abraçada com a Suzy. Suzy era uma vaquinha de pelúcia que Vinny tinha ganhado em um brinquedo do parque, naquela noite ele nos deu a nossa querida vaquinha.

- Oi amor! – disse Anna, havia tristeza em sua voz.

- Oi amores. – eu respondi e percebi que minha voz não estava muito diferente. Nunca tinha sofrido tanto com uma separação.

- Esta mudando de casa, mas ainda não perdeu o estilo! – disse Vinny rindo. Ele se referia a minha blusa, do AC/DC. Nós rimos, ele era o único que nos fazia rir mesmo quando o clima era de tristeza. – Nós queremos que você fique com isso. – ele completou me entregando a caixa.

Eu abri a porta do carro e me sentei no banco. Abri a caixa e na pude conter uma lágrima. A caixa continha uma enorme quantidade de fotos, de cartinhas e bilhetinhos que trocávamos no meio da aula. Nunca entendi porque Anna guardava tanto lixo, mas hoje percebi que aquilo não era lixo, era história. A nossa curta história.

- Obrigada. – disse simplesmente. Percebi que Anna também chorava.

- Mel, eu quero que fique com a Suzy. – ela disse. Tentei recusar, mas ela insistiu.

- Mel, é à hora de ir. – meu pai falou, ele estava sendo egoísta. Pensava somente nele. Como sempre.

Me despedi de meus amigos e entrei no carro.

- Melanie, este e um CD que eu fiz para você. Espero que goste. Coloquei 120 músicas que eu gosto. Acho que você vai gostar. – Vinny disse. Dessa vez ele também chorava. Eu não respondi, apenas o abracei. Ele entendeu o que queria dizer. Eu agradecia por tudo e dizia que nunca iria me esquecer deles.

Já estava escurecendo e ninguém, eu ou eu pai, tínhamos falado. Nem uma única palavra. O CD de Vinny rolava no carro e eu estava adorando as músicas. Como já eu disse, nós dividíamos o mesmo gosto musical.

Estava escuro, por volta da meia noite, meu pai parou o carro. Eu sabia o que viria a seguir, mas custava a acreditar que já estava fazendo isso de novo. Nós descemos e eu peguei a caixa verde que Vinny tinha me entregado e mais uma caixa que estava no banco de trás. Meu pai pegou uma lata no porta-malas. Era uma lata pequena, mas grande o suficiente para a sua finalidade. Nos afastamos do carro. Ele colocou a lata no chão e voltou para o carro para pegar a caixa dele.

- Kim... – ele começou. Mas o interrompi ates que ele terminasse. Eu sabia exatamente o que fazer, e ainda não estava preparada para falar.

Coloquei as caixas no chão e abaixei para poder esvaziá-las. Meu pai fazia o mesmo. Peguei as cartas e as coloquei no fundo da lata. Os bilhetinhos e as fotos teriam o mesmo destino. Minha identidade, carteirinha de estudante, histórico escolar. Tudo. Meu pai terminou de colocar as coisas dele na lata. Eu peguei o álcool e joguei por cima de tudo. Me afastei de lata. O fogo começou e foi aumentando.

Eu fiquei parada assistindo tudo sendo destruído. Minhas lembranças sendo apagadas. Me assisti indo embora.

O fogo foi diminuindo gradualmente ate que se esvaiu por completo. Melanie Johnson não existia mais, era apenas um fantasma que me assombraria para sempre. A família Johnson não existia. Melanie Johnson tinha morrido.

Andamos de volta ao carro e seguimos nossa viajem. Fiquei impressionada com o tempo em que ficamos em silêncio.

Quando o sol nascia meu pai parou em uma lanchonete para que tomássemos café e discutíssemos nosso futuro.

Nós sentamos em uma mesa perto da janela e afastada de outras mesas. Pedimos um café da manhã simples, pois pagaríamos com dinheiro e não tínhamos muito. Depois que nossos pedidos foram colocados em nossa mesa, meu pai se virou pra mim e disse que era hora de pensar.

- Kim, eu sinto muito por isso. Mas você sabe que é necessário. – ele disse como se fosse normal. A verdade é que eu não achava necessário, eu tinha passado pelas mesmas coisas que ele, e não tinha me tornado uma neurótica.

- Sim pai, eu sei. – mas quem disse que ele se importa. Para o meu pai só existe um jeito. O dele. Ele pegou a pasta dele e tirou um envelope e me entregou.

Eu abri e dele tirei uma nova identidade e um novo histórico escolar.

- Morgan? – perguntei.

- Sim, agora somos a Família Morgan e viveremos em Northumberland.

- Ok. – você pode achar que eu sou estúpida ou seca demais com o meu pai, mas se você vivesse a minha vida, não acharia isso.

- Sophia, você sabe o que tem de fazer, não sabe? – meu pai, agora John Morgan, perguntou.

- Eu sei pai. – disse e terminei o meu café em silêncio.

Nós pagamos com dinheiro e meu pai dirigiu até o ferro velho. Quem troca de nome, troca de casa, pode com certeza trocar de carro. Ele escolheu um carro antigo, que eu nem sei nome, e também não me importava. Saindo do ferro velho, nós trocamos de lugar. Eu comecei a dirigir para que meu pai pudesse descansar. Me sentei no bando do motorista e retomei a viajem.

Quando meu pai dormiu, comecei a pensar. Pensei em minha vida, na vida que poderia ter tido, na vida que gostaria de ter e comecei a chorar. Sei que se você está dirigindo é imprudente chorar, pois sua visibilidade diminui e seus reflexos também, mas eu novamente não me importava. No rádio o CD de Vinny ainda tocava. Eu me recusara a queimá-lo. Chorei por volta de meia hora, até que começou a tocar “Gunslinger” do Avenged Senefold, eu tinha a letra na cabeça e comecei a gritar junto com M.Shadows. Eu desafinava, mas não parava. Aumentei o volume do rádio, fazendo com que meu pai acordasse. Por incrível que pareça, meu pai gritou e começou a cantar junto comigo.

“Eu alcanço por trás dos céus

Eu disse meu adeus

Meu coração sempre esta com você agora

Não questiono porque tantos têm que morrer

Minhas orações superaram isso Yeah

não importa quando estou voltando para casa pra você” – eu cantava, ou melhor, gritava junto com meu pai. Porque essa era a verdade, eu sempre voltava para o meu pai, muitas morriam, mas eu sempre voltava.

A música acabou e começamos a rir. Era inevitável. Depois de dois dias de viagem, chegamos a nossa nova casa.

Era uma casa velha, mas muito bonita. Eu comecei a descarregar o carro e levar minhas caixas para o meu quarto.

Agora eu era realmente Sophia Morgan, cidadã de Northumberland, estudante de Coquet High School. Eu sentia fome, mas não tínhamos comida em casa. Disse ao meu pai que iria perguntar para alguém na rua se conheciam alguma lanchonete ou alo parecido para que pudéssemos comer.

Eu saí pelo portão da frente e logo vi um grupo de garotos sentados na calçada de uma das casas vizinhas. Andei até eles timidamente, afinal Sophia era tímida.

— Com licença. – pedi e eles olharam para mim. Não senti o sangue em minhas bochechas como Sophia sentiria.

- Sim? – um deles perguntou. Eram quatro amigos e todos me assistiam ali, em pé tentando fingir que estava envergonhada.

- É que... eu sou nova aqui na vila...- disse com calma.

- Ah, sim, a nova família, não é? – disse um dos meninos. – Morgan, não é?

- Sim, Sophia Morgan. – eu concordei.

- Vocês moram no casarão? – perguntou o primeiro.

- Aham. – concordei mais uma vez. – como eu dizia, sou nova aqui na vila e não conheço nada... Não tenho comida em casa e gostaria de saber se algum de vocês conhece alguma lanchonete que não seja muito longe. – disse logo de uma vez.

- Tem a Seasons, fica a três quarteirões. – disse o mais bonito deles.

- Obrigada. – eu agradeci já me virando para voltar a minha casa.

- Sophia? – ouvi me chamarem. – Sou Willian, Willian Gray. – me disse o mais bonito, agora eu sabia no nome dele.

- Prazer em conhecê-lo Willian.

- E esses são: Arthur Green, Leonard Baker e Andrew Moore. – ele me apresentou os outros que acenaram simpaticamente. Eu os cumprimentei de volta e voltei para dentro de casa. Contei ao meu pai sobre os meninos e sobre a lanchonete. Quando estava saído de casa Willian e os outros ainda estava sentado na calçada eu acenei para eles que acenaram de volta. O jantar foi calmo e uma sensação nova me invadiu. Eu não sabia se era bom ou ruim, mas era diferente.

Ao voltarmos para casa, nos dirigimos até a biblioteca da casa, meu pai já havia arrumado todos os livros e arquivos importantes. Me sentei em uma poltrona perto da janela, e meu pai se sentou de frente para mim.

- Sophia, — ele começou. – você quer começar a decidir agora?

- Sim. – eu disse. Ele se referia a nossa história de família.

- Bom, eu passei a viajem pensando como seria dessa vez, você tem alguma idéia? – ele me perguntou.

- Nenhuma idéia pai. – na verdade eu tinha várias idéias, mas não me atreveria a contá-las.

- Bom, a sua mãe morreu em um acidente de carro, você tinha uma irmã mais velha que também morreu. Nós vivíamos em Durham, e nos mudamos para cá, com a intenção de começar novamente. – ele disse como se fosse normal. Como alguém que discutia um livro, ou um filme. Eu me sentia mal ao fazê-lo, me sentia insultada. Minha mãe não morrera em um mero acidente de carro, mataram a minha mãe, e mentir desse jeito era um insulto a sua memória.

- Ok. – disse e não pude conter as lágrimas que tornavam a cair. Eu sempre chorava em momentos como esse. Já são dez anos vivendo desse jeito. Sem casa, sem família, sem identidade. Meu pai me abraçou docemente, eu amava o meu pai, apesar de tudo eu o amava, ele era o único que estava sempre comigo. Os outros iam embora, mas ele sempre ficava.

Ele também chorava afinal a perda de minha e mãe e de meus irmãos Brian e Katherine tinha sido muito para nós dois.

Depois da seção chore, eu subi para o meu quarto e fiquei olhando pela janela. Já era quase meia noite quando notei uma janela que tinha a luz acesa. Era a casa do meu vizinho, aparentemente o quarto de um garoto. Fiquei observando, havia fotos e pôsteres nas paredes. Pude reconhecer um grande pôster que era lindo, de uma das minhas bandas favoritas: Atreyu. Eu tive um pôster daquele, mas o dei de presente a um garoto, Craig Foster, eu costumava chamá-lo de Shads, porque o achava parecido com o M. Shadows do A7X. Jamais me esqueceria dele, era um ótimo garoto. Comecei a cantar, até que vi um garoto entra no quarto. Reconheci na hora, era Willian da calçada, Gray era o sobrenome dele. Ele ligou o rádio no que parecia ser o ultimo volume já que eu podia ouvir a música do meu quarto. Que por sinal era a música que eu estava cantando segundos atrás. Comecei a rir com Willian, ele gritava imitando o Alex Varkatzas, vocalista da Atreyu. A mãe ou o pai dele devem ter mandado abaixar o som, pois vi o fazendo uma careta a ir abaixar o volume do rádio. Ele abriu a porta e gritou alguma coisa como: “Feliz agora?” e bateu a porta em seguida. Ao se virar me viu na janela do quarto e sorriu. Fez sinal para que saísse na sacada, ele fez o mesmo.

- Acordada ainda essa hora? – ele perguntou.

- E quem pergunta! – eu disse rindo. Nossas sacadas eram bem próximas o que facilitava a conversa.

- Sei que não somos tão íntimos, mas parece que você estava chorando. – ele disse docemente, o ar sumiu de meus pulmões, não esperava uma pergunta dessas. Fiquei sem graça de verdade dessa vez. Ele percebeu e logo se desculpou, dizendo que não era da conta dele.

- Não, está tudo bem, eu chorei sim. Saudades da minha mãe. – eu não estava mentindo.

- O que aconteceu com ela?

- Acidente de carro, eu não quero falar sobre isso. – e ao queria mesmo, perder a mãe já era difícil, mentir sobre isso era ainda pior.

- Desculpa, quer falar sobre outra coisa?

- Gosta de Atreyu? – perguntei apontando para o pôster atrás dele. Era uma pergunta retórica, mas eu queria ouvir a resposta.

- Sim. Conhece Atreyu?

- O suficiente para ser uma de minhas bandas favoritas! – disse sorrindo.

- Qual a sua banda favorita? – ele perguntou, — se Atreyu que é Atreyu é uma das favoritas, eu quero saber se a favorita merece o posto! – não respondi, fiz outra pergunta no lugar.

- Música favorita? – ele virou os olhos percebendo que eu não responderia.

- Blow!

- Boa resposta, a minha é Right side of the Bed!

- Boa resposta!- ele disse me imitando. Eu ri. Nós ficamos conversando por cerca de mais meia hora.

- Boa noite Will! – eu disse, ele me pedira para chamá-lo pelo apelido.

- Boa noite V. – ele disse que só me chamaria assim, pois me achava parecida com o Zacky V. do A7X. Devo dizer que adorei a comparação, já que era fã assídua do Mr. Zacky Vengeance.

- Avenged Sevenfold. – eu disse, — é a minha banda favorita! – ele sorriu e disse que então era merecido.

Eu entrei no quarto e não saí da janela até que ele fez o mesmo. Me troquei e deitei na cama, mas não me esqueci de abaixar as cortinas.

Notas finais
Primeiro capítulo..

Espero que gostem..
Deixem Reviews Ok?? Críticas, sugestões, elogios... qualquer coisa!!

Beijos
MsShadows