Não sei se minha transformação havia durado três dias ou mais. Pareceu muito mais, porém, agora eu sei que acabou. Não sinto mais o incômodo mental que me avisava que eu ainda estava com dor, apenas uma claustrofobia. Alec só estava tentando me ajudar, mas piorou muito mais. A sensação de ficar presa na própria mente é pior do que arder no fogo. Assim como o veneno, eu não tinha para onde correr, mas também não sentia que estava viva. Era como se eu tivesse morrido, mas minha mente ainda estivesse ativa. Não conseguia ouvir quem estava na sala comigo, ou se eu ainda estava naquela sala. Não sei o que aconteceu com Dom e Michael.

Não posso garantir se eles morreram ou escaparam, nem quantas baixas tivemos. Mas, se ganhamos, o mundo vai aprender a não subestimar os Volturi. Os Romenos não tentaram algo tão cedo, e se tentarem, precisarão de muito mais que algumas dezenas de vampiros com poderes.

Ouço baixos ruídos e abro os olhos.

O mundo parece diferente. Vejo detalhes que não via antes, mas reconheço o lugar. Estou no meu quarto. Minha cama. Levanto rapidamente e uma mão me para.

Alec.

Ele parece cansado, apesar de não poder dormir mesmo que quisesse, mas sorri.

— Oi – ele diz.

Não respondo, mas olho ao redor. Estamos sozinhos. Entrelaço meus dedos em sua pele fria lembrando que agora, minha pele também está fria.

— Quanto tempo eu fiquei aqui? – pergunto. Minha voz sai com facilidade e isso me surpreende. Esperava que ela estivesse rouca com os gritos ou com o tempo que fiquei calada, mas o veneno curou qualquer dano em minhas cordas vocais.

— Três dias – Alec responde.

— Pareceu bem mais – digo, ele sorri e pergunta:

— Como está se sentindo?

— Estranha – respondo, e ele sorri ainda mais.

— Beba isso – diz ele me entregando uma garrafa – Fará com que se sinta melhor.

Abro a tampa e o cheiro me desorienta. Viro a garrafa na boca e um pouco do conteúdo escorre pelo meu queixo. Minha garganta, que nem havia percebido que estava ardendo, se acalma.

— Como você conseguia ficar perto de mim? Eu tinha esse cheiro? – pergunto curiosa e Alec ri.

— Não. Seu cheiro era mais fraco porque o sangue estava por baixo da pele. Sem falar dos anos de prática – ele sorri.

— Como você sabia que a transformação havia acabado?

— Seu coração parou de bater – ele diz e limpa o sangue que escorreu em mim.

— Você parece destruído – e ele ri novamente.

— Bom, esses últimos dias foram agitados.

— O que aconteceu? Todos estão bem?

— Sim. A batalha acabou um pouco depois do que acredito ter sido a hora em que você foi levada – e ele se entristece – Peço desculpas a você Claire. Eu quase estraguei tudo.

— Estragou o quê? – pergunto incrédula.

— Claire, nas batalhas, eu costumo ser escalado junto com Felix, Demetri e Jane por uma razão: eu paraliso todos para eles matarem. É isso que nos torna tão bons em batalha. É essa perfeita combinação. Na batalha, eu fiz tudo errado. Esqueci dos meus poderes e lutei com o corpo, e apesar de ser bom nisso, não é essa minha especialidade. Minha função. Não quero fazer com que você se sinta culpada, mas você me distraiu totalmente! Eu ficava de olho em você enquanto você usava seus poderes, para garantir que nada te pegasse desprevenida e esqueci de proteger os outros membros da guarda e do clã. Poderíamos estar mortos porque fui negligente. Quando Jane me chamou, percebi que não estava fazendo o que eu deveria fazer e me distraí de você. Atingi a todos que estavam em meu alcance e quando olhei você não estava mais lá. Você não sabe o pânico que senti. Larguei tudo e fui te procurar e Aro foi atrás de mim. Felizmente, nossa guarda já havia destruído vários dos invasores quando parei de paralisá-los. Eu sinto muito, Claire. Muito mesmo. Você poderia ter morrido e seria tudo culpa minha! Eu deveria ter te protegido, mas vendo você lutando ao nosso lado me fez esquecer, por um momento, de que você ainda era humana e não conseguiria ouvir quando alguém se aproximasse de você ou contra-atacar rápido. Eu sinto muito mesmo. Não deveria ter sido assim.

Quando acordamos depois de longos dias em coma, normalmente, somos recepcionados com rostos felizes de quem amamos, ou de uma enfermeira que estivesse em seu quarto no momento, mas ninguém nunca é recebido com uma confissão assim. Não culpo Alec por ter se esquecido de mim no meio de uma batalha. Estávamos tentando proteger a todos e nos salvarmos ao mesmo tempo. Todos estavam com esse pensamento. Mas, também sei que mesmo que eu diga isso, não fará com que ele se perdoe, mas posso fazer – ou pelo menos tentar fazer – com que ele se sinta melhor.

— Alec – digo segurando seu rosto com as mãos – eu sei que você não vai acreditar, mas não é culpa sua! Aquilo foi uma batalha que ninguém esperava. Ninguém podia prever o que fazer, nem planejar um contra-ataque. Não tivemos tempo para isso. Você fez o melhor que pôde. Todos nós fizemos. Eu estou aqui. Viva. Fui transformada antes do tempo? Sim, mas isso ia acontecer cedo ou tarde. Não seja tão duro consigo mesmo.

E o beijo. Como nunca fiz antes. Um beijo digno dos romances mais lindos já escritos, porque apesar de não ter tido um relacionamento concreto para comparar, eu sei que o amo mais que tudo. Encontrei nele a principal razão para estar aqui. Viva, e com essa família poderosa e odiada por todos.

∞

Mesmo não querendo desgrudar dele tão cedo, Alec me afasta dizendo que temos que ver os outros. Aro quer saber como fiquei e se meus poderes aumentaram como havíamos planejado.

Assim que entramos na sala dos tronos, sou recebida com muitos olhares. Eu e Alec estamos de mãos dadas, o que faz Jane revirar os olhos. Aposto que ela queria que eu tivesse sido devorada antes que Alec me encontrasse.

A sala dos tronos já foi reparada, ou talvez, não tenha sofrido tanto. A grande porta já estava no lugar dela e os tronos não pareciam ter se mexido nem um milímetro.

— Está se sentindo bem, Claire? – pergunta Aro chamando minha atenção.

— Estou sim – respondo.

— Que bom – diz ele – Por que não nos conta o que aconteceu?

Apesar da minha nova mente funcionar mais rápido, foi difícil me lembrar de tudo no início. As imagens fugiam e se confundiam na minha mente, mas no fim, consegui me lembrar de todos os dados significantes.

Ninguém falou nada durante minha longa história, mas algo dentro de mim sabia que eles já conheciam esses fatos. Não sei quando parei de proteger minha mente, talvez, em algum momento em que eu fui raptada, a dor da mordida ou os poderes de Dom, mas se Alec conseguiu usar seus poderes em mim, Aro pode ter lido minha mente, e aposto que ele o fez. Ele não deixaria passar essa oportunidade. Tudo o que vasculhei na mente dele e na de todos, ele sabe que eu sei. A guarda não consegue esconder nada dele, mas agora eu sei esses segredos. Segredos esses, que eu não deveria saber e que, se eu contasse, mudaria tudo.

— Sei que você acabou de acordar para sua nova vida, mas precisamos saber se nossos planos não foram afetados – diz Aro – Espero que entenda.

— Tudo bem – digo.

— Pode testar em mim se quiser – diz Demetri.

De todos os poderes que aprendi, escolho remover a visão. Algo simples de ser notado por ele. Concentro-me e a força vem com muito mais facilidade.

— Então? – Demetri pergunta.

Olho para ele confusa, e todos me olham com a mesma confusão. Nada aconteceu? Como isso é possível? Mudo para dor, mas Demetri continua aguardando. O pânico surge. O que aconteceu com meus poderes?

— Quando quiser – provoca Jane.

— Não está funcionando – digo desesperada por ajuda.

— Tente se concentrar... – começa Aro, mas o interrompo.

— EU ESTOU ME CONCENTRANDO – grito – Por que não está indo?

— Todo esse trabalho para no final ela ser mais sem graça do que era quando humana – diz Jane.

— Claire – Alec me chama -, quais você já tentou?

— Dor e remover a visão – digo. Se eu pudesse chorar, já estaria em lágrimas agora.

— Vamos tentar proteger a mente – diz Aro.

Tento me concentrar, mas a possibilidade de não conseguir me deixa mais em pânico ainda. Aro toca na mão de Demetri e diz:

— Não vejo nada.

O alívio toma conta de mim. Meus poderes não sumiram, afinal. Tento controlar a mente de Demetri, e funciona também.

— Só alguns poderes ficaram – diz Caius.

— Ela ainda tem mais do que todos os vampiros que já conhecemos – diz Marcus.

— Sim, ela pode proteger e controlar a mente – diz Aro tristemente -, mas só isso.

A decepção em sua voz é clara para todos. Na verdade, a decepção de todos é clara. Inclusive a minha.

Todo esse tempo treinando sem parar, para nada. Nem sei se permanecerei na guarda. Aro está sentado pensando, e tenho certeza de que o que está se passando na mente dele é se eu fico ou não na guarda. Eu sou uma distração para Alec, isso já foi comprovado na última batalha, e agora, o que me tornava tão especial para eles, acabou.

Qual poder é mais útil para Aro, meu ou do Alec?

Há muito tempo atrás, Marcus era casado com a irmã de Aro, Didyme. Eles, querendo começar uma vida juntos longe do clã, anunciaram para Aro que partiriam. O poder de Didyme não era de grande valor para os Volturi, mas o de Marcus, sim. Então, Aro a matou. Sem a esposa, Marcus não tinha mais razão para partir, mas também perdeu a razão de viver.

Ninguém sabe disso, é claro. Mas, eu sei. Graças a minha enorme curiosidade e aos meus poderes que me permitiram vasculhar a mente de Aro. Se ele fez isso com a própria irmã, imagina o que fará comigo e com Alec.

Sei que Aro sempre quis um escudo mental para a guarda. É muito útil. Mas como o Alec me falou mais cedo, seus poderes são essenciais na batalha. E eu, sei segredos demais.

Se ele matar o Alec, perde a mim e a Jane; se me matar, perde o Alec, e como ele e Jane são um pacote completo, perde Jane também. O melhor seria nos deixar vivos, mas, agora que ele sabe que eu sei seu maior segredo, ele me deixará viva? Confiará em mim o suficiente?

Eu poderia ler a mente dele, mas tenho medo do que verei por lá. A mente maligna de Aro se esconde por traz de sua máscara de gentileza.

— Você está bem? – sussurra Alec próximo ao meu ouvido. Já perdi as contas de quantas vezes ouvi essa pergunta desde que me transformei.

— Não – digo.

Alec me guia até meu quarto novamente. Ninguém falou nada desde que perceberam que meus poderes se foram, e nem tentaram impedir minha ida para o quarto. Acho que ninguém mais sabe o que fazer.

— Todos os treinos – digo me sentando na cama – foram em vão no final das contas. Só fiquei com três poderes.

— Três muito úteis por sinal – diz Alec se sentando ao meu lado – Vampiros só costumam ter um poder, e bem limitado. Eu e minha irmã, por exemplo. O dela age instantaneamente, mas ela só consegue atingir uma pessoa de cada vez. Eu posso atingir mais pessoas, mas levo mais tempo. Você continua muito poderosa e não precisa se preocupar com isso.

Ele me abraça.

— Decepcionei a todos, não é?

— Eu não estou decepcionado. Você continua sendo incrível para mim – ele beija o topo da minha cabeça.

— Obrigada – digo – Não só por tentar me colocar para cima, mas por tentar amenizar minha dor.

Não precisava contar para ele que a experiência de ficar presa na minha própria mente tinha sido horrível. Ele fez isso com a melhor das intenções e é isso que conta. Além de realmente ter aliviado a dor, então, eu não estava mentindo.

— De nada – posso o sentir sorrindo – Mas veja pelo lado bom, agora você poderá ir conosco ver os Cullens.

— Mas, por quê? – levanto a cabeça para olhar para ele — Já descobrimos quem queria nos atacar e está morto, não é?

— Sim, mas ainda precisamos ver como está a híbrida.

— E quando nós partimos? – pergunto ansiosa por qualquer assunto que não me fizesse pensar na morte de um de nós dois... ou ambos.

— Primeiro você terá que treinar.

— Treinar o quê? – pergunto. Estava contando que os treinos já haviam terminado agora que, aparentemente, meus poderes resolveram retroceder.

— Luta – ele diz – Poderes não são o suficiente para vencer uma batalha.

— Tudo bem – digo – Quer me contar o que eu perdi da batalha? Como você me achou? Preciso de uma distração para não pensar nos poderes que perdi.

Alec começa a me contar o que aconteceu. Como me encontrou e matou Dom. Não foi uma batalha épica, mas ele estar vivo é o que importa.

Ele me beija e todas as preocupações se vão. Não quero mais pensar em batalhas, poderes perdidos, treinos e nem sobre o que Aro fará conosco. Tudo isso ficará para depois. Agora, tudo o que importa sou eu e Alec e em como minha vida mudou graças a um desejo de vingança idiota.

Notas finais
Primeiro de tudo, gostaria de agradecer a todos vocês que acompanharam a história desde o início e a quem chegou depois que alguns capítulos já haviam sido postados. Foi muito importante para mim as visualizações e os comentários. Vocês não fazem ideia do quanto isso me motivou a continuar escrevendo. Segundo, gostaria de agradecer à minha beta que garantiu que essa história não tivesse erro de português, me ajudou a definir alguns nomes de capítulos e me ajudou a escolher qual caminho era melhor para a história quando eu tinha várias opções não minha cabeça. Escrever essa história foi uma experiência incrível. Nunca havia escrito uma fanfic antes, e saber que tive leitores que realmente gostaram dela, e gostaram da personagem que eu criei, foi incrível. Graças a vocês, pude sentir um pouco como é uma vida de autora. E é muuuitooo legal, admito. Minha próxima fanfic será de Harry Potter. Caso vocês gostem, é só aguardar que ela vai sair. Estou coletando as informações necessárias para escrevê-la. Se não gostarem, podem esperar que talvez eu escreva uma continuação para essa. Vocês iriam gostar de ver mais sobre a vida da Claire e dos Volturi? Uma viagem para os EUA ver os Cullens seria interessante, não? Se gostaram da fanfic, não se esqueçam de recomendá-la. Quanto mais pessoas lerem, melhor! E se quiserem uma continuação, me contem também. Me contem tudo. O que gostaram, o que te decepcionou, o que fez você gritar, chorar, rir... Seu ship se concretizou? Me contem tudo aqui nos comentários, porque a opinião de vocês é mais importante do que vocês imaginam. Com amor, Supernatural Girl =^.^=
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!