Recomeço
2 Back home
O rapaz no alto dos seus 19 anos, recém completos, entrava no apartamento, um lugar enorme que ficava de frente pra praia. O lugar era a casa de seu pai, onde viviam sua madrasta e seus dois irmão mais novos. Passara mais um dia cansativo no cursinho estudando feito um condenado, tudo que queria no momento era passar no vestibular e parar de ouvir sua madrasta e seu pai jogando em sua cara que era um folgado preguiçoso.
Tudo isso porque ao invés de ter entrado na faculdade logo de cara ele resolvera ir pros USA passar uma temporada aproveitando a vida sozinho e sem pessoas lhe dizendo o que fazer. A viagem fora magnífica, muito proveitosa para a vida do rapaz, seu pai porem discordava e achava uma tremenda perda de tempo o que ele fizera.
Sua única chance de se livrar de toda a ladainha era passar na federal e arrumar um emprego que desse pra ele se bancar. Tinha a possibilidade de ir morar com sua mãe também, mas pra isso ele teria que conviver com sua irmã mais nova, o que era de longe a pior das opções já que eles não se suportavam.
Gio crescera absurdamente nos anos que se passaram, agora já com quase dois metros de altura, tinha um corpo escultural, graças a constante pratica de esportes, o cabelo agora crescia desgovernado já passando da linha das orelhas do rapaz se fundindo com a barba que insistia em ficar grande.
Estava a exatos 7 meses naquela cidade, recebera um choque ao se dar conta de que não tinha mais amigos por ali. A maioria tinha sumido ou mudado completamente, grande parte das pessoas do seu cursinho eram um tanto quanto estúpidas, então tentava ignorá-las o máximo possível. Óbvio que não era completamente isolado, tinha alguns conhecidos que falavam com ele de vez em quando naquele lugar, mas nenhum deles era muito importante. Eram 4 salas com mais de 100 alunos cada uma, mas os poucos com quem tentara puxar algum assunto ou eram muito sem cultura ou muito malas ou os dois ao mesmo tempo. Então decidiu que ignorá-los era a melhor opção, assim se concentraria melhor nas aulas.
Eram por volta de 19:00 hrs da noite e ele já estava exausto, passara a manha assistindo as aulas do cursinho e a tarde estudando na biblioteca da escola. Não agüentava mais pensar. Sua única válvula de escape em ocasiões assim era a musica, havia aprendido a tocar violão em são Paulo, desde então esse se tornou seu passatempo favorito. Porem, desde que mudara-se para a casa de seu pai novamente, tocar violão era algo raro. Sua madrasta odiava musica, sempre reclamava quando ele começava a tocar, até que um dia ele se deu por cansado e desistiu de fazer isso com a mulher em casa.
Andou pela casa procurando seus ocupantes, dando de cara apenas com seu pai no escritório.
— Ei velho, cheguei em casa ok? — ele bateu na porta avisando seu pai.
— Tudo bem, a Lorena foi na casa da irmã com os meninos mas deixou sua janta no microondas.
— Nossa, que milagre, a megera lembrando que eu me alimento! — Disse Gio em verdadeira surpresa, geralmente sua madrasta esquecia que ele morava na casa, jogando sempre fora a comida que devia guardar pro rapaz.
— Deixa de ser implicante e vai estudar seu folgado! — disse o pai nervoso com as atitudes do filho.
— To indo... — disse gio desanimado.
Serviu-se da sopa azeda que fora deixada pra ele, enquanto remoia em sua memória o momento em que ele e seu pai se tornaram tão estranhos um com o outro. Quando era mais novo eles se davam extremamente bem, mas tudo ficara diferente quando Lorena se casou com seu pai. A mulher odiava Gio com todas as forças. Ele nunca entendera o porque disso, no inicio do casamento dos dois ele sempre fazia de tudo pra agradar a nova esposa de seu pai, mas sempre era ignorado. Com o tempo se conformara com isso e desistira de tentar agradar a mulher. O tempo que passara longe só fez piorar sua relação com os dois.
Terminou de jantar, tomou um banho e se trancou em seu quarto com fazia sempre. Olhou pro seu violão e lembrou-se que a megera não estava em casa, logo ninguém ia encher o saco por ele tocar violão ali. Ficou um bom tempo ali dedilhando seu velho companheiro, perdendo completamente a noção do tempo. Sua concentração só foi quebrada pelo estrondo de alguém esmurrando sua porta.
— Olha a hora seu infeliz, já ta tarde, para com essa barulheira infernal! — era Lorena, sua madrasta, provavelmente acabara de chegar em casa.
O rapaz se levantou e abriu a porta, encarando a mulher a sua frente. Ela era pequena, devia bater na altura do cotovelo do rapaz alto, tinha o cabelo loiro esticado e uma cara de sapo que deixava o rapaz com nojo de olhar diretamente pra ela.
— Pedir com educação funciona muito bem sabia? — ele disse ríspido encarando a mulher de cima.
— Ao contrario de você que não faz nada da sua vida, tem gente que trabalha o dia inteiro pra conseguir sustentar pessoas como o senhor. É bom ter um pouco de respeito com os mais velhos seu pivete preguiçoso! Seus irmãos estão cansados e deu muito trabalho colocar os dois pra dormir, se essa barulheira ai acordar os gêmeos é você que vai ficar lá ninando os dois até eles dormirem!
— Essa sua voz me da dor de cabeça, a essa hora você já acordou os moleques com esses berros histéricos. Então para de encher o saco e vai cuidar dos seus filhos. — Gio disse batendo a porta com força.
A mulher o tirava do sério, fazia questão de ser totalmente ignorante com ele e ainda jogava em sua cara que ela trabalhava e ele não. Era irritante ter que passar por discuções estúpidas como essa todo maldito dia naquele lugar. Guardou o violão em sua capa e fora dormir, cansado de pensar nas coisas ruins daquele lugar.
•••
Já era mais de meia noite quando Milla chegou em casa. O apartamento de sua família ficava absurdamente longe da escola, mais de uma hora dentro de ônibus pra chegar em casa. Todo o dia era a mesma coisa, chegava tarde do curso, cansada de mais pra estudar e tinha que acordar de madrugada no dia seguinte pra trabalhar.
Ela comeu o prato de comida que sua mãe deixara dentro do forno antes de ir dormir. Sua família era muito pobre e a coisa só piorara nos últimos anos. Milla mudara muito, tanto física quanto mentalmente. Era uma garota alta, por volta de 1,80, muito magra e branca. Seus cabelos crespos agora eram lisos e não passavam dos ombros, seus olhos já não tinham o brilho de antigamente. Era uma garota muito bonita, mas séria de mais pra algum garoto descente querer alguma coisa com ela, os poucos que ainda tentavam era totalmente desprezados pela garota, que só pensava em conseguir ter um futuro nesse momento.
Estava extremamente exausta, tomou um banho quente pra relaxar e entrou de fininho no quarto onde seu irmão mais velho já dormia. Sua família, apesar de muito humilde, era muito religiosa e unida. Seu irmão era muito carinhoso e dedicado com ela, quem olhava de fora não entendia como dois irmão que passavam tanto tempo juntos não brigavam. Seus pais eram muito amáveis com a garota, e faziam de tudo pra que ela consegui-se estudar. Assim que bateu em sua cama Milla desmaiou de sono, exausta só de lembrar que no dia seguinte seria tão cansativo quanto esse.
•••
Gio acordava cedo todo dia, tomava seu café da manha o mais rápido o possível pra não ter que agüentar as ladainhas de sua madrasta por muito tempo. Ele tinha um carro só para si, tinha ganhado da mãe quando voltara dos USA. Era uma pick-up gigantesca preta. Tomou seu café da manhã, sonolento de mais pra dar alguma importância pro que as pessoas conversavam ao seu redor. Era melhor assim, não se irritava logo cedo.
Guardou suas coisas na mochila e saiu sem se despedir. Chegou no cursinho, cedo como sempre, sentou no canto da sala como de costume e abriu um livro de matemática pra estudar antes da aula começar. As pessoas foram entrando na sala e se acomodando. Por ser muito alto e estar sempre com a cara fechada, a barba mal feita também ajudava, as pessoas não costumavam se aproximar do rapaz.
As aulas foram monótonas como sempre, mas ele sempre tentava absorver o Maximo possível de tudo que os professores falavam, principalmente os de português e geografia, que eram as matérias das provas discursivas que ele teria que fazer. O ritmo de estudo do rapaz era demasiadamente cansativo, e ele sempre sentia falta de ter amigos por perto. Durante o intervalo desceu para a quadra da escola, sempre tinha alguém jogando alguma coisa por lá, ele sempre se aproveitava da oportunidade de praticar algum esporte naquele lugar, isso afastava um pouco da solidão do rapaz.
Hoje era basquete. Um pequeno grupo de caras muito altos corriam pela quadra, metade deles com camisa e metade sem.
—Ei, se importam se eu jogar também? — gritou Gio quando eles pararam pra beber água.
— Tem problema não cara, entra ai no time dos sem camisa. — disse um rapaz de cabelos escuros,um pouco mais alto que ele.
— Ta beleza então. — disse gio empolgado se juntando a eles.
Os garotos deviam estar no ensino médio ainda, eram todos mais novos. Gio passou o intervalo inteiro ali com os garotos jogando, se divertindo um pouco pra variar, antes de voltar fedido e suado pra aula.
Algumas horas mais tarde quando as aula terminaram ele foi pro vestiário tomar um banho e tirar o cheiro forte do corpo antes de ir almoçar. Ele sempre comia no mesmo lugar, uma churrascaria que tinha próxima a escola, era o restaurante favorito da grande maioria dos alunos dali que tinham dinheiro.
Ao chegar no restaurante ele descobriu que graças ao atraso no vestiário não ia conseguir almoçar ali tão cedo, o restaurante estava completamente lotado. O desanimo se abateu sobre o rapaz, mas ele foi andando pelas ruas a procura de um lugar descente pra comer. Acabou parando em um restaurante popular mais próximo do centro da cidade.
Como o lugar era pequeno muito popular, pessoas que não se conheciam não tinham problema de se sentar na mesma mesa. Ele foi pegou um PF e vasculhou o lugar inteiro a procura de uma cadeira vazia. Avistou uma mesa com dois lugares apenas, um deles ocupado por uma mulher alta de cabelos negros que estava de costas pro rapaz no momento.
— Ta ok então, vai ser essa mesma. — ele disse pra si mesmo enquanto caminhava na direção da mesa. Gio nunca tivera problemas para conversar com mulheres desconhecidas, não ia ser hoje que isso aconteceria.
O rapaz deu a volta na mesa e parou em frente a moça senta:
— com licença. — ele disse chamando a atenção da mulher que já comia. — Tem algum problema se eu me sentar aqui? Todas as outras mesas estão ocupadas.
— Problema algum, fique a vontade. — Milla disse sorrindo ao rapaz. — Eu te conheço de algum lugar, não é? — ela disse quando ele se sentara na mesa.
— Engraçado, eu também to com a impressão de que te conheço de algum lugar. — Gio disse analisando o rosto da mulher a sua frente. — Eu sou o Gio, prazer. — ele disse estendendo a mão para que ela apertasse.
— Gio?! Nossa como você cresceu! — ela disse surpresa. — Agora que você falou o nome eu me lembrei de você seu pilantra! Como você some todo esse tempo e não manda nem um misero e-mail pra avisar que ta vivo?
— Milla? É você mesmo? — O rapaz disse sorrindo e se levantando. Ele dera um abraço de urso na amiga que não via a muito tempo. Eles se sentaram quando as pessoas do restaurante começaram a olhar feio pros dois jovens escandalosos. — Você sabe que eu não sou grande fã de computadores. Mas e ai, como ta a sua vida?
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