Recomeçar - Uma Fanfic Blackwater
30 Dores do passado
Notas iniciais
Já se fazia três semanas que estava morando com os Lewis. Como sempre na minha vida, o sofrimento virou rotina. Antes, Jacob e Sam que provocavam esse sofrimento, essa dor no meu peito. Mas longe de casa, o principal sofrimento era a saudade.
June e Rox se tornaram minhas amigas. Nunca fui muito aberta para amizades, mas as duas, depois de tanta gentileza e solidariedade, passaram a ocupar um espaço em meu coração, embora nunca tivesse confessado isso a elas.
— Leah, pode me passar aquele prato? — pediu-me Rox com aquele sorriso materno nos lábios.
— Claro. Aqui. — entreguei-lhe o prato. Ela pegou e começou a lavá-lo. Com o braço seco, limpou o suor de sua testa.
— Quer ajuda? — ofereci-me para lavar a louça com ela. Rox andava muito cansada nos últimos dias. Meus sentidos lupinos logo captaram minúsculos sinais de olheiras, odor diferente no suor, característico de quem está preocupado. Realmente, não andava bem.
— Obrigada, querida, mas não precisa. Dou conta sozinha. — sorriu pra mim, mas não senti sinceridade naquele sorriso. Ela está escondendo algo.
— Mãe, cheguei! — gritou June do outro cômodo da casa.
— Venha comer algo, June! Chame seu irmão para comer também! — retornou o grito.
June veio em direção à cozinha com os braços cruzados e uma cara de tédio.
— Mãe... Você quer me matar de tanto comer?! Eu como mais que... Qual o bicho que mais come no mundo? — levou o dedo ao queixo e levantou o olhar fitando o teto.
— Baleia Azul. Oito toneladas de comida por dia. O que corresponde a 5% de seu peso total.Não é por acaso que é o maior animal do planeta. — respondi. As duas me olharam com certo espanto, mas deu lugar a uma admiração.
— Hum... Pelo visto, é muito inteligente. Aposto que era a nerd de La Push. — brincou June.
— Ela não tem cara de nerd, tem cara de modelo. — elogiou-me Rox.
Uma série de lembranças invadiu minha mente.
— Filha, o que vai querer ser quando crescer? — perguntou-me.
— Quero ser... Sei lá. — ignorei-a e continuei a brincar com Emily.
— Vamos, filha! Diga à mamãe. O que quer ser? — acariciou meu cabelo. Olhei para ela, que me lançava um sorriso doce.
— Não sei ainda, mamãe.
— Eu quero ser modelo. — disse Emily.
— Modelo? Hum... Beleza você já tem, querida. — mamãe deu um pouco de atenção para minha prima.
— Quero ser... Como você, mamãe. Igualzinha. — ela olhou emocionada em meus olhos. Seu sorriso tremia por conta do choro que estava segurando. Aproveitei para reparar mais em seus detalhes. Tão linda. Tão... Tudo! Não havia nada no mundo melhor que minha mãe. Nada. — Te amo.
— Você é tão inteligente, Leah. Fez faculdade? — June me chamou para realidade, porém outra onda de pensamentos tomou conta de minha cabeça.
— Leah, chegou uma carta pra você. — Seth entrou na cozinha segurando um envelope branco médio.
— Carta? — Pra mim? Completei a pergunta mentalmente.
— Um admirador secreto, Leah? — minha mãe perguntou com aquele sorrisinho malicioso. Revirei os olhos com aquele comentário.
Seth se sentou juntando-se a nós no café da manhã e eu tratei de abrir a carta. Confesso que a curiosidade estava presente quando retirei um documento de dentro do envelope.
Tratava-se de uma carta de admissão em uma universidade da Carolina do Norte. A Duke University, uma das melhores faculdades dos Estados Unidos. Um sonho para qualquer um. Um sonho que eu tive, mas desisti pelo fato de me tornar loba. Não podia simplesmente abandonar tudo. Não podia sair da matilha. O maldito do meu DNA me condenou a uma vida presa em La Push.
— O que foi, filha? Por que está chorando? —minha mãe perguntou delicadamente, porém com um semblante entristecido. Só reparei que estava chorando quando senti as lágrimas molharem minha blusa. — O que está escrito nessa carta?
— Não é nada. — sequei rapidamente minhas lágrimas para manter minha máscara de durona e amassei o papel com força. — Besteira.
— Fala logo, Lee. O que está escrito? — perguntou impaciente o Seth.
— Seja o que for, não vai me tirar daqui. Nada vai mudar, Seth. O sangue é mais forte do que um pedaço de papel.
— Não. — respondi quando retornei a realidade. — Mas eu costumava ser a melhor aluna de La Push. Isso antes de... Er... Rox, tem certeza que não quer ajuda? — mudei de assunto assim que reparei que estava falando demais.
— Não, querida. Já terminei. — fechou a torneira e encostou-se na pia cruzando os braços. Seu olhar parecia perdido. Podia sentir que não estava bem. Talvez fosse impressão minha, mas vi poucas lágrimas se acumularem em seus olhos.
— Bem... Então vou para o meu quarto. — June saiu da cozinha e quando ouvi a porta de seu quarto se fechando, aproximei-me cautelosamente de Rox. Ela nem percebeu minha aproximação. Parecia triste e desconcentrada no ambiente.
— Tudo bem, Rox? — encostei-me a seu lado. Esperei por sua resposta, que não veio. Acho que ela não me ouviu. — Tudo bem, Rox? — perguntei em um tom mais alto, estalando meus dedos na frente de seus olhos.
— Sim. — abaixou a cabeça. Aquilo já estava me preocupando. Não planejava desistir, queria descobrir o que estava acontecendo com ela, mas um cheiro familiar invadiu minhas narinas. O jeito de andar logo o denunciou. Mason.
Seus passos firmes e rápidos vinham em direção à cozinha. Logo minha respiração ficou descompassada e, quando ele me avistou, seu coração se agitou.
— Ma... Mason... Oi. Veio... Veio almoçar? — Idiota! Completamente idiota! Como pude gaguejar na presença dele!? Ele sorriu de canto.
—Não. Já almocei. — encostou-se ao meu lado e firmou as mãos na pia. Senti-me incomoda com aquela aproximação. Não gostava de quando ele se sentava ao lado na mesa, no sofá, quando ficávamos sozinhos ou quando ele inventava uma desculpa boba para se aproximar de mim.
— Hum...
— Então... Está gostando de ficar aqui... Conosco?
— Sim. Por que não estaria? — coloquei uma mecha do meu cabelo liso atrás da orelha.
— Sei lá. Talvez... Saudade? — a imagem de todos que amo voltou à minha mente.
— É. — sorri sem humor — Saudade... Carência... Medo... Mas isso não significa que eu não esteja gostando de ficar com vocês. Já me ajudaram tanto. E você, Rox? Melhorou? —virei para encará-la, mas não encontrei ninguém. — Ela estava... Estava aqui. — justifiquei-me ainda olhando para os lados.
— Leah... Ela subiu quando eu cheguei aqui na cozinha. Você não viu? — perguntou-me como se fosse algo óbvio. Para mim não era. Eu deveria ter percebido. Parece que meus sentidos, minhas percepções, minha consciência desaparecem quando ele está por perto.
— Eu... Não tinha visto? Quer dizer, eu não tinha visto. — tentei parecer bem natural com esse acontecimento tão anormal.
— Normal. Todos se distraem às vezes.
— É. Acho que sim.
— Bem... Eu tava pensando se... — Apoiou as mãos na cadeira, desencostando da pia. — Hoje vai ter uma festa na casa de uns amigos meus e... Vai ser legal. Por que você não vem?
— Festa? Não, não é a minha. Melhor chamar outra pessoa. — não estava em clima para festas ou qualquer outro tipo de comemoração.
— Outra pessoa? Não, quero ir com você.
— Não vai rolar, obrigada.
— Leah, tenho reparado que você quase não sai dessa casa. Tem que interagir com outras pessoas... Tem que... Se divertir! Vamos! Vai ser divertido. Não vai me deixar ir sozinho, vai? — segurou minhas mãos entrelaçando nossos dedos. Arregalei os olhos com a ousadia dele. Na mesma hora, retirei minhas mãos das dele e olhei para um ponto na cozinha, fingindo estar realmente concentrada naquilo.
— Já disse que não vou. Não estou pra festas.
— Tem certeza, por que lá tem piscina e... — parei de ouvir o que ele dizia e deixei a imagem de Jacob dominar meus pensamentos. Oh, Meu Deus! Como queria que ele estivesse aqui. Queria que o coração dele se acelerasse quando eu estivesse por perto. Queria que ele entrelaçasse nossos dedos e me chamasse para sair. Queria que fosse Jacob ao invés de Mason. Mas a imagem do amor de Jacob por Bella fez um sentimento de rejeição dominar meu peito. Lágrimas invadiam meus olhos. A imagem já estava ficando turva. A dor fazia meu coração se comprimir dentro do peito. — Então?
— Quê?
— Vai à festa?
— Eu já disse que não estou a fim. Será possível que minha presença fará tanta diferença pra você? Deve ser fácil pra você ir à festas... Jogar com os amigos... Beber e se divertir. Mas olha pra mim! Você acha que sabe algo de mim, mas não sabe nada! Eu sofri o suficiente para não poder sair e me divertir como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Não sou o tipo de garota que consegue amar com tanta facilidade. Não depois do que passei. Então desista do que estiver planejando comigo. Não sou seu tipo! E olha só pra você! Só tem que se preocupar com a própria reputação. Então, caso não tenha percebido, eu não vou à droga dessa festa! — disparei tudo de uma vez.
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Ele deu um passo para trás e o sorriso que sempre estava presente em seu rosto, não estava mais. Mordeu o lábio inferior e piscou os olhos algumas vezes seguidas.
— É isso o que pensa de mim? — não respondi, apenas processei o que tinha acabado de falar. — Então realmente não é o meu tipo. Tem toda a razão, Leah. Mal te conheço. Só está aqui há três semanas.
— Eu...
— Não! Deixa eu terminar. Você chegou nessa casa e de repente se tornou algo que não sei definir. Só sei que tentei me aproximar de você, mas parece que uma barreira invisível sempre nos afastava. Só que agora vai ser diferente. Eu serei essa barreira. Não vou mais tentar nada, Leah. Considere-se livre de mim. — tinha certa mágoa e rigor em sua voz. — E sabe por quê? Porque você também não sabe nada de mim. Acha que sou o quê? Um cara que tem uma vida perfeita? Que não sabe o que é dor? O que é traição? Amar e não ser correspondido? O que é perder um pai? — riu sarcasticamente — Você que não sabe de nada. — Traição? Perder um pai? Amar e não ser correspondido?
Ele me deu as costas e saiu. Um sentimento de vazio preencheu meu coração com aquele ato. A culpa chegou junto com a solidão. Mas o que realmente me fez ficar paralisada foi a semelhança entre nós. Nossas histórias. Se ele passou mesmo por tudo aquilo, então somos mais próximos do que eu pensava.
Corri para meu quarto e me tranquei. Bati a porta com muita força. Provavelmente ficou arranhada, mas não me virei para conferir, apenas me sentei na cama e me pus a pensar no que tinha acabado de fazer.
Sempre cometendo erros. Sempre descontando nos outros minha raiva. Sempre sendo rude e amarga com quem me quer bem. No que eu me tornei?
Ouvi passos rápidos vindo em direção ao quarto. Respirei fundo e captei o cheiro de June. Antes que batesse a porta, chamei-a para entrar.
— Entra, June. — disse com muito esforço para não chorar e dar uma de fraca.
— Leah... Ouvi a porta bater e fiquei preocupada. O que houve? — fechou a porta com cuidado e veio andando lentamente em minha direção. Ela logo reparou as lágrimas que se acumulavam em meus olhos. — O que aconteceu lá em baixo? — June sabia ser discreta. Com os gritos meus e de Mason, até um humano conseguiria ouvir.
— O Mason... Eu... A gente... Quer dizer, na verdade... — tentava formular uma frase coerente enquanto forçava minha voz embargada.
— Brigaram? — sentou-se ao meu lado na cama. — apenas assenti com a cabeça.
— Ele é calmo, mas às vezes perde o controle. — tentou me consolar.
— Não. A culpa é minha. — neguei balançando a cabeça.
— Se quiser me contar...
— Não, eu não conseguiria.
— Vocês não podem ter brigado tanto assim, né?
— Não é ele! Sou eu. Eu... Não consigo! — A imagem de meu pai, Seth, minha mãe, Sam, Emily, Bella e, por fim, Jacob vagavam livremente pela minha cabeça. Não conseguia controlar. Era mais forte que eu. Podia sentir as lágrimas descendo pelo meu rosto, passando pelo pescoço e molhando minha blusa. — Eu não aguento mais! — gritei. — imagens da morte do pai me aterrorizavam. As promessas do Sam. Os beijos de Sam e Emily. Jacob e Bella. Aquela coisa na barriga dela. O amor dele por ela. Meu amor por ele. Rejeição. Medo. Todos os sentimentos que tanto evitava vieram de uma só vez.
— Leah, eu te amo. Quero me casar com você. Nunca vou te abandonar. Eu prometo. — promessas de Sam.
— Minha filha... Sempre estarei com você. — meu pai.
— Eu amo a Bella. — Jacob sempre deixou claro seu amor por ela.
— Te amo, Leah. — Jacob brincava com meus sentimentos.
— Leah, somos primas, espero que um dia me perdoe. — Emily sempre se fazendo de santa.
— Amo Edward, mas não posso ficar sem Jacob. — Bella, aquela egoísta!
— Você é um monstro! — falei pela primeira vez na cara dela.
— Você tem que superar, querida. — minha mãe disse como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
— Leah... Calma. Sou eu. — June tentava me acalmar, mas eu já estava surtando. — Leah! — segurou meu rosto e virou em direção ao dela. — Sou eu. June. Acalme-se.
— Ju... June? — minha mente finalmente parou de formular as imagens que tanto me machucavam e se focou no ambiente onde eu estava. Minha respiração e coração estavam acelerados. Aos poucos, foi se regularizando. Concentrei-me em não surtar de novo e finalmente pude ver June na minha frente. Sua expressão era de desespero. Afastei-me um pouco e levei a mão à cabeça quando senti uma pontada de dor nela. — Ai! — reclamei do dor que sentia.
— Leah. O que aconteceu? Fala comigo! — ela me segurou pelo braço com força, mas nada que se compare com a minha.
— June? — chamei seu nome de olhos fechados.
— Estou aqui. — falou baixo me abraçando. pus-me a chorar pela primeira vez sem medo, sem vergonha ou tentando me controlar. Pela primeira vez, coloquei para fora tudo o que sentia e nunca pude revelar.
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