Recomeçar
1 Capítulo 1 - Sophie
— Sophie, não que eu esteja criticando seu trabalho. Não é isso, longe de mim!!! – exclama Fábricio – Mas não é isso que quero, ainda não está bom.
Raios, o que você quer, então?! Pensou Sophie, mas sem a menor coragem de peitá-lo.
— Senhor, se me der um briefing poderei executar melhor o trabalho.
A garota o encara sem muito entusiasmo. Falara essa frase tantas vezes que já a manifesta de forma espontânea.
— Mas você tem o briefing! O cliente quer algo clean, clássico, moderno e com informação! – disse categoricamente.
— Senhor Levi, telefone para você. A Jeans.Co quer saber da produção deles. – disse a secretária.
— Raios! Já vou atender. – disse o homem ao se levantar da cadeira que estava ao lado do computador de Sophie.
Saiu da minúscula sala a passos pesados, batendo com força a porta ao sair, causando um estrondo que mais parecia um trovão.
Soph ficara aliviada de o chefe ter ido atender o telefonema. Já passava das 19h e ainda estava na confecção. Estava cansada e não conseguia desenvolver mais nada. Aproveitando a deixa, arrumou suas coisas, desligou o micro e saiu da sala em direção ao ponto. Não se importava de ficar até mais tarde no serviço. Mas o fato de saber que suas horas extras são apenas banco de hora (no qual ela sabe que jamais irá conseguir tirar folga) permitiu-se sair sem ter concluído o trabalho.
Não é do feitio dela sair sem terminar um serviço, mas nesse caso ela teve que fazer. Fazia uma semana que estava com esse cliente e nada de aprovação. Sequer uma direção. Já trabalhara com pessoas difíceis, mas aquilo era ridículo! Clean, clássico, moderno e com informação... será que ele escuta o que diz?! Pensou, assim que pôs os pés para fora da confecção.
Não havia uma parte do corpo de Sophie que não estivesse dolorida: costas, pernas, braços e pulsos latejavam. Sem falar na dor de cabeça que resistia, não importava quantos analgésicos ela tomara durante o dia. Agora, mais uma coisa reclamava: seu estomago. Por conta da produção que não saia de forma alguma, esqueceu-se de almoçar.
— Aaaii... – gemeu – como assim? Você era o único que estava de boa até agora...
Resmungou bem baixinho, em um tom que somente ela poderia ouvir. Apesar de cansada, a fome falava mais alto. Sabia que não conseguiria chegar em casa rápido, pois mora há duas horas de distância de lá. A única opção seria comer alguma coisa na rua. Continuou a andar até achar algum lugar onde poderia sentar e comer alguma coisa não muito gordurosa e com gosto de comida. Continuou a andar mais alguns quarteirões até avistar uma pararia nova.
Gente, eu passo todos os dias por aqui e nunca reparei nesse lugar?!
De fato, Sophie podia ser atenta para várias coisas. Mas no geral, era bem avoada. Como sempre passava por lá as pressas, nunca tinha visto esse prédio.
Era um lugar que destoava de todo o restante: uma construção clássica, no estilo parisiense, com uma fachada de janelas grandes que mostrava seu interior. A frente tinha as cores grafite e toldo verde escuro, escrito “Panificadora Narni”, e no seu interior, um charmoso piso xadrez, mesas redondas e cadeiras acolchoadas, um balcão imenso lotado de pães e bolos de todos os tipos e uma vitrine com uma variedade de lindos doces – dá até pena de comer. Num lugar onde só encontra botecos e lojas de roupas, a charmosa padaria parece um sonho!
Será que é muito caro...?— pensou, assim que pôs os pés no local – Quer saber?! Hoje eu mereço algo gostoso e ridiculamente caro! Concluiu. A garota entra no local e uma péssima sensação passa por sua cabeça: de que ela não está bem vestida. Pode parecer bobagem, mas ela gosta de estar sempre impecável com sua aparência. E justamente hoje não foi seu melhor dia. Saiu de casa atrasada, não dando tempo de se maquiar. Somente fez um coque bagunçado em seus longos cabelos castanho, calçou uma sapatilha, pôs um jeans escuro e regata branca com um casaquinho vermelho. Sem acessórios. Para qualquer outra pessoa, Soph estava muito bem. Mas não para ela, que está acostumada a se produzir como se fosse sair no editorial de uma revista de moda!
Mesmo desconfortável com ela mesma, sentou-se e logo foi atendida. Um rapaz alto, forte, de olhos heterocromáticos como os dela e sorriso largo veio a sua direção.
— Boa-noite, seja bem-vinda! Já conhece nosso estabelecimento?
— N-não... – conseguiu dizer, pois ainda está em choque: não é todos os dias que ela vê uma pessoa com um olho azul e o outro verde, iguais aos dela.
— Bom esse é o nosso primeiro dia aberto – sorriu. Permita dar uma sugestão: a pannacota é a nossa especialidade! A de doce de leite é uma delícia! – disse, sem tirar o sorriso do rosto.
— Então eu vou querer essa e mais uma garrafa d’água, por favor.
— É pra já! – deu uma piscadela, anotando o pedido e saindo apressadamente.
Pannacota de doce de leite... Igual a da Nena... Madonna mia...
Sophie cai em suas lembranças de infância: sua avó Nena fazia sempre pannacotas para ela. Com várias coberturas. Mas as de doce de leite eram as mais especiais, por ser seu doce favorito! Que saudade sentia da avó. Ela falecera há alguns anos, e desde aquela época, Soph não quis mais comer a sobremesa. Provar o doce iria faze-la lembrar de coisas...
Tão distraída em seus pensamentos, ela vaga seus olhos sem mirar em algo especifico, até dar de frente a um homem no fundo do estabelecimento: vestido com um terno com botões do colarinho aberto, de cabelos escuros e impecavelmente bem penteados, de feições bonitas e olhos de ressaca, como os da Capitu.
Seu coração dispara. No lugar da fome, borboletas voam em seu estomago. Sua alma fervilha, como jamais sentiu. E a única coisa que consegue pensar é nesse novo par de olhos que nunca viu, mas deseja conhece-los imediatamente.
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