Recomeçar
2 Um triste fim
O senhor e senhora Viczian eram um casal amável e de grande nome na Alta Sociedade Paulistana. Eles tiveram duas filhas: Aretuza e Yolanda. O Sr. Viczian sempre amou as duas filhas, mas sempre deu mais carinho e atenção para a caçula. Yolanda era a mais linda, educada, refinada e elegante das filhas do casal, desde criança. Aretuza sempre foi aquela criança marrenta e mimada, que sempre ganhava tudo no grito. Ao saber da gravidez de sua mãe, ficou tomada por tamanho ciúme e raiva, pois nunca desejara uma irmã.
Yolanda nasceu e recebeu a atenção de toda a família. Era o bebê mais delicado e cativante já visto. Todos queriam conhecer a mais jovem integrante da família Viczian.
Passou-se o tempo e Yolanda cresceu, tornando-se uma bailarina mundialmente conhecida. Seu pai cuidava de todos os seus negócios, acompanhando-a em todas as apresentações. A Sra. Viczian também a acompanhava, mas não com tanta frequência. Ela e Aretuza ficavam em São Paulo para tratar dos negócios da família. Os Viczian tinham uma famosa galeria de arte e uma casa de antiguidades.
O Sr. Viczian sempre fora um homem simpático, falante e elegante, entretanto, voltando da última turnê de Yolanda na Hungria, ele estava muito quieto, cabisbaixo, pálido e com uma feição preocupante. Ele sentia muitas dores no peito, pontadas e desconfortos. A jovem mulher percebeu o desconforto do pai, que seu problema era o cansaço e o stress das viagens. Ela desconfia da resposta, mas releva, voltando para casa com seu pai.
A dor não sessou e ele foi levado até o Hospital Santa Edwiges, conhecido por sua especialização nas áreas de cardiologia e pneumologia. Mas era tarde demais. O Sr. Viczian sofrera o seu segundo infarto do miocárdio. O Dr. Eduardo Machado o atendeu e realizou os procedimentos mais adequados para tentar salvar o paciente. Tudo foi em vão. Naquela noite, a família Viczian perdeu seu patriarca. Erothides Viczian havia falecido.
***
A pior coisa para um profissional da área da saúde é falhar em salvar uma vida. Para Eduardo não era diferente, ficava muito abalado quando não conseguia evitar a morte de um paciente. Ele havia feito de tudo para evitar o óbito daquele senhor. Entretanto, o momento mais difícil da vida de um médico é informar o óbito aos familiares. Chegou à sala de espera, onde se encontravam Aretuza e a Sra. Viczian. A primogênita de Erothides ficou toda agitada quando viu o Dr. Eduardo se aproximando. Ele era um homem alto, belo e elegante, de olhos verdes, cabelos curtos e barba semicerrada. Chamava muita atenção das mulheres do hospital.
– As senhoras são parentes do Sr. Viczian?
– Sim. Diga Doutor, como meu marido está? Ele está a salvo?
– Eu lamento senhora Viczian, mas seu marido não suportou o segundo enfarte. Fizemos tudo o possível...
A senhora caiu em prantos, sofrendo um mal súbito, tendo de ser levada a emergência. Aretuza não prestava atenção em nada além de Eduardo. Olhava-o com desejo e sedução. Quando despertou de seu breve devaneio, percebeu o que estava acontecendo.
– Então meu pai faleceu?
– Lamento dizer que sim. – Respondeu Eduardo.
Caminhavam em direção ao pronto socorro para o atendimento da senhora, que necessitava ser assistida. Ela estava aos prantos e dizia “como daremos a notícia para ela, Aretuza? Era tão apegada ao pai...”.
***
Yolanda estava em casa, descansando de sua longa viagem de volta, quando o telefone tocou. Ela o pegou e viu que era Aretuza. Ficou apreensiva em atender a chamada, mas colocou o telefone na orelha e ouviu de uma só vez a notícia que a irmã trazia.
Aretuza não teve papas na língua. Despejou o fato em Yolanda sem dó nem piedade. A jovem bailarina ficou em estado de choque. Como poderia viver sem seu braço direito, sem seu alicerce, sem seu amado pai. Pegou seu carro e foi imediatamente para o hospital encontrar com sua mãe e irmã. Chegando lá, foi obrigada a exercer a mais dura tarefa para um filho: reconhecer o corpo do falecido pai. Desceu até o segundo subsolo onde se encontrava o necrotério. Adentrou-o e deu o nome de seu pai. O homem responsável a guiou até uma pedra branca, onde havia um corpo coberto por um grande pano branco. O clima era frio e triste. Quando o rosto do defunto foi exibido, Yolanda desabou a chorar, apenas acenava a cabeça positivamente, confirmando que aquele corpo era o homem que lhe criou, cuidou e amou durante toda sua vida. Retornou ao pronto socorro e encontrou sua mãe e sua irmã. Trataram do velório e do enterro, e a família entrou em grande depressão.
A bela bailarina cancelou sua próxima turnê de três meses pelos Estados Unidos e Canadá. Quis ficar em casa com a mãe para lhe dar apoio, carinho e amor. Já Aretuza, pouco ficou abalada com a morte de seu pai. Logo no dia seguinte a morte, ela já foi trabalhar, abriu a galeria e casa de antiguidades, informou da morte do Sr. Viczian e pediu que todos dessem o melhor de si neste momento de dor para a família.
***
Passados cinco meses da viagem que fizera para a Europa, Eduardo só pensava em uma coisa: na linda bailarina Yolanda. Sua mente não esquecia aquela linda moça que cruzara com ele no Museu de Belas Artes, que vira se apresentar graciosamente no grande Teatro Nacional. Ela era uma mulher inesquecível. Só pensava se tornaria a encontrar aquele anjo em forma de mulher.
Yolanda voltara aos palcos em Maio de 2008, em uma grande turnê pela Europa. Coincidentemente, Eduardo também voltava a Europa para um congresso sobre doenças pulmonares. Ambos iriam aos doze dias de maio para Londres, pela mesma companhia aérea, no mesmo voo. O destino lutava pelo o encontro desse casal.
Eduardo embarcou primeiro. Não viu que Yolanda estava no aeroporto. Sentou em sua poltrona, na janela da Primeira Classe, e aguardou a decolagem. Não sabia se alguém sentaria na poltrona ao seu lado, pois estava quase na hora da decolagem, e ninguém havia aparecido. De repente, uma mulher alta e loira entra com um lindo casaco vermelho, pronta para o frio europeu. Era Yolanda que entrava na aeronave, e dirigia-se a seu assento. Para alegria de Eduardo, ela sentou-se na poltrona ao seu lado. Ele a cumprimentou esperando que ela o reconhecesse. Ela retribuiu o cumprimento, lembrando-se daquela face, mas não sabia de onde. Estava em dúvida, quando lembrou que haviam se conhecido em Budapeste.
Eles conversaram sobre a carreira dela e sobre os últimos fatos de sua vida. A morte de seu pai abalara sua carreira bruscamente, pois não tinha vontade de continuar a dançar. Ela lhe contou sobre o falecimento do Sr. Viczian e ele, contou-lhe que foi ele quem tentou, até o último segundo, salvar a vida daquele homem. Yolanda se emocionou e começou a chorar. Eduardo a consolou e pediu desculpas por não ter conseguido salvar o Sr. Viczian. Eles se abraçaram e voltaram a conversar sobre diversos assuntos. Tornaram-se amigos, mas ali, naquele momento, um sentia atração pelo outro. Trocaram seus números de telefone e marcaram de se encontrar algum dia.
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