Recomeçar
12 Capítulo 12 - Má compania.
Claro que eu poderia ter corrido de onde estava para afogar minhas mágoas sozinha, mas em toda minha vida em Konoha eu sempre pensei em duas possibilidades para meus pais não estarem comigo. Primeira: Meus pais podem ter sido obrigados – ou não – a me abandonar e escolheram a vila oculta da folha para ser meu novo lar. A segunda possibilidade era a que eu menos desejava crer: Meus pais estariam mortos e fui deixada aqui.
Sempre foi uma coisa tão natural eu estar praticamente sozinha aqui sem eles que eu não chorava, somente quando sonhava com eles. Então, de certo modo, eu me acostumei com o pensamento de nunca poder encontrá-los e o choque se tornou menor.
Eu já sabia disso desde o início.
Uma risada sem humor escapou dos meus lábios, fazendo que o Yuuto me estranhasse.
– E como sempre, alguém morre por minha causa – Me encostei no banco, com o olhar do Yuuto pregado em mim – Só que desta vez eu consegui acabar com um clã inteiro. Acho que é um recorde.
Yuuto franziu o cenho e negou com a cabeça.
– Não fale desse jeito...
– Eu sei, eu já sei. A culpa não foi minha, foi inevitável, certo? – Olhei para ele, mas ele se manteve calado – Pois bem, vamos deixar isso de lado já que faz mais de vinte anos que isso aconteceu. Tem mais alguma coisa? – Perguntei estranhamente controlada.
Yuuto continuou me observando por um tempo, meio duvidoso que eu estivesse tão neutra o quanto parecia estar. Por fim, ele resolveu deixar isso de mão, e assentiu com a cabeça.
– Na verdade, oque eu queria te contar agora não é parte da história, mas é algo que eu acho que é o correto a fazer – Se silenciou por uns segundos, depois limpou a garganta e continuou – Vou te dar a única coisa que restou do nosso clã. Uma coisa que prova o quanto fomos fortes e temidos.
Aumentei os olhos de leve. Seria alguma lembrança antiga e valiosa de nossos pais? Ou do nosso avô? Ou até mesmo do clã inteiro?
– O que é? – Perguntei numa voz meio contida.
Ele se levantou do banco de madeira e estendeu a mão para mim.
– Irei te ensinar os dois Kinjutsus do clã Terasu, as únicas coisas que sobraram dele e que foram passados de geração em geração pelos nossos ancestrais, antigos líderes – Abri de leve os lábios de surpresa, e ele estendeu mais a mão – Então, quer aprender ou não?
Juntei as sobrancelhas e apertei a mão dele com força, sendo puxada na direção dele com um sorriso.
– Mal vejo a hora – Respondi com um meio sorriso.
Finalmente... Pode ser uma fração do meu clã, mas agora eu sinto que estou perto de ficar mais conectada a ele.
Eu realmente sinto isso.
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Estava entediado.
O grisalho caminhava pelas ruas com os olhos rolando nas paginas do livro “Icha Icha” de capa dura que lia – por mais incrível que pareça – sem vontade.
Um suspiro escapou de sua boca e ele fechou com um baque abafado, o seu livro preferido. Não adiantava forçar, ele simplesmente não conseguia ter animo para lê-lo. Não depois daquela noite que teve, principalmente depois de acordar e passar a manhã com ela.
Seu rosto corou de leve e ele deu uma risada humorada.
– Nunca pensei que me pegaria pensando numa coisa destas... – Murmurou para si mesmo.
Ele desceu as suas mãos para os bolsos da calça, guardando o livro ali mesmo e com um simples salto, alcançou o telhado mais próximo e focou sua visão na imagem da floresta a sua frente.
A mesma paisagem que eu observei um dia antes de “ressuscitar”, logo depois de ter salvado este mesmo homem.
De maneira repentina, aqueles momentos não saiam da cabeça dele, deixando-o estranhamente viajante. Aquecendo-o por dentro. Relembrando cada mínimo detalhe de nós dois juntos.
Amando-os.
Seus olhos se estreitaram de leve e vagaram sem rumo na paisagem verde, quase alienígena a sua frente, sem prestar atenção. Apenas olhava.
Com certesa eu não era a mesma de anos atrás. Não era mais ingênua, tímida, temerosa, muito menos cuidadosa. Se fosse, ele duvidava que o tivesse marcado tanto como agora. Antes pensava que nunca se acostumaria a minha frieza repentina, a minha teimosia e novo temperamento, mas foi isso que o atraia. Toda essa força, esse instinto destemido, feroz e até mesmo sedutor, me tornou uma mulher de verdade aos seus olhos. E me ter entregue inteira para ele, despertava algo que ele mesmo desconhecia, e todos os pensamentos lógicos, responsáveis e corretos sumiam. Isso o deixava louco.
– Mitsue... – Murmurou, deixando as palavras serem levadas pelo vento que passava – O que diabos você é para me deixar tão preso a você?
– E desde quando eu entendo oque você diz?
Por pouco o grisalho não cai do telhado. Ele realmente não esperava por uma resposta.
– Mas oque...?! – Virou o rosto para a jovem que o encarava com bastante surpresa, só então reconhecendo os olhos num tom claro, mas nada ingênuos, de violeta — Que diabos você está fazendo aqui Arisu?! – Exclamou, um pouco chateado por ter que se deparar logo com ela.
– Oi para você também Kakashi, e sim, lógico que estou bem! Obrigada por perguntar, isso me comove bastante depois de tanto tempo sem te ver – Deu um sorrisinho chacotador, mas o Kakashi não sorriu. Não gostava dela.
– Não estou a fim de suas brincadeiras Arisu, de verdade.
Ela desfez o sorriso e levantou uma das sobrancelhas bem feitas antes de colocar as mãos na cintura.
– Você continua sendo o mesmo estraga prazer de sempre. Era de se esperar vindo de você...
– Será que poderia me explicar o porquê de aparecer aqui? – Cortou, nada a fim de ter uma conversa com ela.
Ela bufou, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Alô-ou?! Eu vivo aqui, está lembrado? Não é como se eu estivesse morrendo de saudades de você – Tirou as mãos da cintura e cruzou os braços.
– Não sabe o quanto estou aliviado por esclarecer isso. Não quero decepcionar ninguém hoje – Tirou os olhos dela e deu as costas para ela – Tchau.
Ela revirou os olhos atrás dele, soltando uma risada zombeteira.
– Por que você me odeia tanto heim? Sei que não sou a melhor das pessoas dessa vila, mas você é muito intolerante comigo.
Ele virou o rosto para ela, interrompendo o andar e suspirou.
– Eu simplesmente não me sinto seguro perto de você desde a primeira vez que fizemos equipe na ANBU. Não sou capaz de poder confiar em você – Falou com franqueza.
Ela fez um rosto incrédulo.
– É muito engraçado você dizer isso logo para mim. Para sua informação, fui eu quem ajudou a Mitsue a conseguir salvar sua preciosa vida, para que ela conseguisse tirar aquilo de você sem que você acabasse virando nada mais que simples memórias enterradas no fundo de um cemitério – Falou com a voz controlada, mas com a irritação visível no olhar.
Kakashi voltou a suspirar e se virou para ela.
– Eu fiquei sabendo disso, e de certa forma, estou agradecido a você – Respondeu sem parecer realmente agradecido.
– Mereço um “Obrigado”? – Inclinou o corpo para ele, mantendo os braços cruzados.
– Obrigado.
– De nada – Abriu um sorriso amarelo.
– Posso ir agora?
Arisu descruzou um dos braços e colocou o indicador perto do lábio inferior, numa postura pensativa em quando olhava em outra direção.
– Não... Ainda não. Acabei de me lembrar de algo que anda me deixando bastante intrigada – Rolou os olhos para ele, mantendo o indicador no lugar.
– Fale logo – Pediu com um quê de impaciência.
– Nossa! você é realmente uma pessoa bastante mal educada não é mesmo? – Reclamou, mas ele apenas continuou encarando-a sem querer dar a mínima importância para seus comentários. Ela revirou os olhos e bufou ante a intolerância dele – Eu só queria saber o motivo que levou o “ANBU super forte e popular” a sair da organização sem motivo algum.
– Eu só achei que era a hora de me afastar da ANBU. Você sabe que uma hora ou outra eu sairia de lá para cuidar de uns assuntos pendentes na vila.
Um sorriso sugestivo surgiu no rosto dela, e uma risadinha medonha se espalhou pelo ar.
– Assuntos pendentes? O que seria tão importante para te tirar da melhor e mais poderosa organização de Konoha?
– Coisas que só cabem a eu preocupar – Revidou. Ele não confiava nela de forma alguma, não importa quantas vezes ela ajude a salvar a vida dele.
– Incrivel o modo como você trata isso, como se fosse a coisa mais bem guardada do planeta – Zombou com uma risada – Lógico que só tem um motivo para isso, e ela se chama: Senhorita encrenca.
– O quê? – Perguntou, estreitando os olhos para ela.
Bufou mais uma vez.
– A Mitsue, seu baka! A mulher mais amada pela população nada pequena de Konoha – Riu de novo e ele voltei a virar as costas, andando com mais pressa. Ela parou de rir e o observou – Opa, será que eu acabei magoando o “senhor emburrado”? – Provocou, usando o antigo apelido que o Yuuto deu ao Kakashi quando tiveram que me carregar no meu ultimo encontro com o Lance.
– Fique quieta Arisu e arranje coisa melhor para fazer – Pediu, louco para sair do mesmo telhado que ela e voltar a pensar em nós sem ser interrompido.
– Não sou um cachorrinho para ficar recebendo ordens Kakashi, e eu tenho sim uma coisa bem mais importante a fazer bem longe de você e da vila.
Ele parou de andar e se virou para ela.
– Porque vai sair da vila Arisu? Não é verdade que você é uma das organizadoras da Prova Chunnin daqui a uma semana?
– Sou sim, idai – Soergueu uma sobrancelha.
– Idai que nenhum organizador devia sair da vila numa ocasião dessas, então porque você sairia?
Arisu desfez o rosto chacotador e fez uma expressão estranhamente séria.
– Nada do que eu faço ou deixo de fazer é da sua conta – Respondeu com frieza.
– É da minha conta a partir do momento que envolve a vila, e se este for o caso...
– Continua não sendo da sua conta. O que estou fazendo é nada mais que o meu trabalho.
– Trabalho? A organização da Prova Chunnin? – Por algum motivo, ele não acreditava que fosse este o motivo da saída.
Ela reabriu seu sorriso e deu as costas para mim em direção a ponta do telhado. Assim que chegou lá, virou o rosto para ele, sacudindo os cabelos presos na cabeça com o mesmo sorriso.
– Quem sabe... – E sem dar tempo de ele perguntar o que aquilo queria dizer, ela sumiu do telhado sem deixar um rastro se quer.
Observou o lugar onde ela havia sumido por um longo tempo.
Porque será que aquilo não soou nada bom aos ouvidos dele?
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