Recomeçar

1 Separação


Meus olhos eram selvagens, varrendo a área sem nada ver. Eu também não estava exatamente pensando no que fazia. Tudo quanto eu sentia (além da sede), era a vergonha e a culpa por quase ter bebido a companheira de meu irmão na sua festa de aniversário. Como eu pude?

A dor e a pena que senti vinda de cada um dos outros vampiros, no momento em que eu voltei a mim, ainda me esfaqueavam. Acelerei o meu ritmo. Precisava colocar distância entre eles e eu.

Eu era um empata; alguém capaz de não apenas sentir cada emoção que os outros sentissem, como também manipulá-las. E ainda assim, meus sentimentos, às vezes (como agora), eram como cavalos selvagens a quem eu não poderia controlar. Raiva. Raiva pela minha falta de controle, por ter ferido cada uma das pessoas a quem eu amava. Raiva de mim mesmo me sobrepujou. Minhas mãos em punhos cobriram meu rosto enquanto eu bradei aos céus. Em seguida, uma árvore caiu, depois outra. Em poucos segundos eu tinha devastado o lugar que até então era todo vida. Graças a mim, uma nova campina que mais parecia um berço de morte, surgiu.

Morte. Ela era a minha maldição; minha companheira diária. Independente do quanto eu tentava deixá-la para trás, no passado, junto com Maria e toda a vida violenta que eu conheci então. Morte, aparentemente, era a única coisa que eu era capaz de dar. Sem me aperceber, eu deslizei para o chão. Olhei para as minhas mãos cheias de cicatrizes com nojo. Eu não sei quanto tempo eu fiquei assim: olhando a minha própria deformação, aquela que me caracterizava como o demônio que eu era e que não conseguia deixar de ser.

Passos leves vieram me cumprimentar. Eu não precisava erguer os olhos para reconhecer a cadência e saber a quem eles pertenciam. Mesmo assim eu o fiz.

- Alice, eu sinto muito. Eu...

Ela ergueu um único dedo. Uma onda de dor me acertou enquanto ela se ajoelhava a minha frente. Eu não era o psíquico, mas algo em seus olhos me disse, antes de suas palavras que o meu pior pesadelo estava agora se tornando verdade. Os olhos dela brilhavam com lágrimas que jamais cairiam, quando ela encopou o meu rosto em suas mãos.

- Jasper, eu.... eu não posso. Eu não consigo... Me perdoe.

Ante suas palavras meu coração quebrou. Em uma fração de segundo eu a tinha envolvida em meus braços. Ela era tão perfeita para eles... Cabia perfeitamente... Como uma criança perdida, eu escondi o meu rosto na curva formada entre seu pescoço e ombro e a apertei ainda mais contra meu peito, respirando o seu cheiro de baunilha.

- Por favor querida, não faça isso. Eu não posso viver sem você. Eu vou fazer melhor. Eu juro que eu vou fazer melhor!

Eu não tinha a menor vergonha em implorar para que ela ficasse comigo. Ela era meu mundo. Eu não era nada sem Alice. Um soluço escapou dos lábios dela.

- Não chore. Por favor, não chore. Querida, a gente vai passar por isso, a gente vai superar. Eu vou fazer melhor; por favor, só... Só me dê uma chance. Só mais uma chance.Eu...

Eu pretendia implorar mais, mas cada palavra que eu dizia parecia intensificar a agonia dela. Então, eu me calei. Ela não deveria sofrer; Alice não merecia sofrer.Ela me salvou quando estive no meu pior, a última coisa que eu queria era lhe provocar qualquer dor; eu lhe devia tanto... Assim, sem dizer mais nada, eu reclamei-lhe a boca em um beijo que era cheio de desespero. Ela devolveu na mesma intensidade. Nossas línguas percorreram a boca um do outro com abandono. Os dedos dela estavam entremeados nos meus cabelos, puxando-os com tal força que doía, mas eu gostei e apertei a sua cintura, trazendo-a mais para junto de mim.

- Não, não, a gente tem que parar. Jasper... Pare, por favor.

Eu parei, mas permaneci com o rosto encostado no dela. Minha respiração desnecessariamente superficial. Eu fechei os olhos, como se em o fazendo, tudo fosse desaparecer e todas as coisas fossem voltar aos seus lugares. Não voltaram. O tempo perdeu toda a importância e nós apenas ficamos lá, abraçados, nos despedindo um do outro.

- Eu... Eu te amo. Quero que você saiba disso. Não estou indo embora por ter deixado de te amar. Não é isso. É só... É só que eu não agüento mais. Por favor, me perdoa. Eu sou fraca.

Aquilo me machucou.

- Você não é fraca. Eu sou. Não tenho controle, sou um monstro. – E era verdade. Eu estava perdendo a mulher que eu amava justamente por ser fraco.

- Não, você não é...Você...

Fiz uma careta desgostosa. Ela não tinha que ficar arrumando desculpas pra mim pelo meu comportamento deplorável.

- Alice, por favor... Não. Não tente me consolar. Isso não vai ajudar.

Seus olhos encontraram os meus e ela retrocedeu.

- Sinto muito.

- Eu também — disse-lhe beijando os cabelos escuros. Respirando mais uma vez o aroma delicioso de baunilha que era todo ela. E em uma voz fantasma eu finalizei, soltando-a – Vou pedir a Jenks que faça o nosso divorcio.

- Ok. Mas Jasper?

- Sim?

- Eu espero que você saiba que isso não muda nada com respeito a nossa família. É nossa família. Eles o amam, tanto quanto me amam ou a qualquer dos outros. No entanto, pelo menos por ora, eu acho que eu não conseguiria estar próxima de você. Me desculpa. Seria doloroso demais. Então, acho que vou viajar um pouco. Ficar longe. Talvez vá a Paris ou Milão...

Ela iria se separar de todos a quem ela amava por mim? Não! Nem pensar! Eu já tinha lhe causado dor e sofrimento demais ao longo dos anos com todos os meus “deslizes”. Recusava-me a ser a causa de mais esta dor. Ademais, embora com certeza houvesse um vínculo de amor entre mim e cada um dos outros Cullens, eles muitas vezes soavam-me tal qual uma cueca bonita, ainda que apertada. Era bom; mas simplesmente em algumas situações doía no saco.

Eu nunca me senti totalmente a vontade entre eles. Em parte, porque eu sabia o quão cheio de dedos eles eram ao tratar comigo.Isso melhorou um pouco com o passar das décadas, mas nunca mudou a sensação que tinha de que eles me viam quase como um frasco de nitroglicerina; algo que sem duvida deveria vir com o aviso de “Manuseie com cuidado. Instável”. Aquilo sempre me magoou e por isso, pra não sentir tão fortemente o seu receio, bem como pra aliviar um pouco o clima, eu sempre fiz questão de me manter um tanto a margem da família.

- Não Alice, o erro foi meu. Eu pago. Eu saio. Se você quiser viajar para espairecer, tudo bem. Mas eu não quero que você deixe a família por minha causa.

- Você têm certeza?

- Absoluta. – Falei-lhe em um tom definitivo.

- Eu vou tentar não ficar vigiando você. Nós dois vamos precisar de espaço pra curar. Mas, Jasper, se você precisar de qualquer coisa, por favor, não hesite em me ligar, ou a um dos outros.

- Eu ficarei bem Alice.- E eu era um mentiroso tão bom, não é? Acho que até eu acreditei que fosse ficar bem. Como se fosse possível eu ficar bem sem ela. — Agradeço pela privacidade.

Hora de mudar de assunto, eu não queria falar sobre nós, doía. E pelo jeito não iria mudar em nada. Eu abaixei a cabeça e os meus cabelos cobriram parcialmente o meu rosto. Acho que por puro hábito, ela levantou a mão para afastar as mechas da minha face. Infelizmente, bem nesta hora, eu resolvi olhá-la. Imediatamente o constrangimento e a insegurança dela me tocaram. Enviei um pouco de calma e confiança pra que ela completasse o gesto. Ela o fez. Eu sorri levemente.

-O que vai acontecer? – Perguntei.

- Edward irá romper com Bella e todos iremos embora.

Balancei a cabeça, um tanto triste.

- Pobre garota, ela nos ama a todos como sendo a sua própria família. E a Edward ela praticamente o idolatra! Ou melhor dizendo, ela o idolatra. Não há nenhum “praticamente” nesta equação.

- Sim, eu sei. Vai ser um golpe terrível para ela, ainda mais que Edward não quer nem mesmo que a gente se despeça dela , ou que mantenhamos um olho sobre ela. Na verdade, ele me proibiu de vê-la. Edward decidiu que viver no nosso mundo é arriscado demais para ela.

Mais uma coisa para ser posta na lista, quase infinita, de coisas que fiz e das quais tudo quanto posso fazer é lamentar. Sacudindo um pouco a cabeça, tentando me livrar um pouco da culpa, questionei:

- Isso não é uma escolha que ela deveria fazer?

- Eu acho. Mas, você conhece Edward, Jasper. Ele está absolutamente convicto de que sabe o que é melhor pra ela.

- Eu sei. Ele é um arrogante filha da mãe, às vezes.

- Eu acho tão bonitinho quando você minimiliza as coisas Jasper...

Eu e ela rimos um pouco, antes de a sobriedade voltar.

- Eu não acho que esta seja a decisão correta, Alice. E isso não irá mudar o fato de que agora, Isabella tem o conhecimento do nosso mundo, e ainda há uma boa parte do nosso mundo que tem conhecimento dela. Isso não vai mudar só porque nós nos retiramos de sua vida. Ademais, todos irão sofrer com a separação. Isabella, Edward, Esme, Carlisle, Emmett... Você.

- Sim. Eu vou, não apenas pela ausência de Bella. Eu vou sentir tanto a sua falta...

Alice me disse fazendo um leve carinho em meu queixo, os olhos cheios de lágrimas que jamais iriam cair. Imediatamente eu deitei a cabeça sobre sua mão e lhe enviei o meu amor. Um nó gigantesco travou a minha garganta.

- Você sabe que eu te amo. E que estarei ao seu lado se precisares de mim, a hora que for, onde quer que seja.

- Eu sei. – E neste instante eu senti o amor dela sendo enviado pra mim. Fechei os olhos deleitando-me com a sensação uma última vez.

- Eu tenho que ir. Contar a todos o que decidimos, empacotar...

- Sim, vá com eles. Eu vou depois. Preciso pensar um pouco sobre o que fazer daqui pra frente.

- Mas você vai se despedir deles, não é? Esme ficaria arrasada se você não o fizesse.

- Eu não sei. Eu me sinto muito constrangido no momento. Mas eu juro que vou pensar a respeito, tudo bem?

- Claro! Tchau Jasper.

- Adeus Alice.

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado. Me mandem um review contando-me a sua opinião a respeito. Adorarei ler o que você achou.