Há um vento morno soprando a sudoeste, vindo da beira mar. Eu posso sentir a ponta dos cabelos de Bella roçando lentamente o meu antebraço, que está firmemente enrodilhando a sua cintura. Isso me dá uma sensação boa... é quase como um afago. Alice com seus cabelos curtinhos jamais pôde fazer isso. Eu descubro, muito sem querer, que eu gosto. E essa não é a única coisa de que gosto.

Seu cheiro de morango e frésia me envolve como se fosse um cobertor. Eu estou surpreso que não haja a menor porção de sede pelo seu sangue. Apesar da sua proximidade e do seu perfume delicioso. Acho que o meu instinto de protegê-la estava surtando com todo o ocorrido. Se ao menos pudesse ser sempre assim... Eu sei que isto não é possível, enquanto ela for humana, eu sempre desejarei o líquido que corre em suas veias e lhe dá vida. Mas é tão bom saber que pelo menos contra isso, naquele momento, eu não tenho que lutar... Não, não é a sede a minha inimiga no momento. A minha inimiga é a raiva que sinto de Lúcius e o desgosto que sinto por mim mesmo, em ter permitido que ele chegasse tão perto de Bella. Deus! Se algo pior tivesse acontecido com ela...Não. Eu não posso seguir por esse caminho. Eu preciso me acalmar. Por ela. Ela precisa de mim.

E assim, é tanto em benefício dela, quanto no meu próprio que eu torno a repetir uma vez mais que ela está segura, que eu estou aqui e que tudo está bem.

Seus tremores correm de uma ponta a outra de seu corpo e eu a aperto um pouco mais contra mim. Se eu pudesse, eu a afundaria em meu peito; apenas para ter certeza de que ela estaria segura e que nenhum mal lhe viria. Eu continuo consolando-a, acariciando as suas costas em círculos carinhosos e ocasionalmente esfregando os seus braços. Aos poucos, muito lentamente, seus tremores vão arrefecendo. O que me faz aliviado.

Ela aperta a minha cintura, deixando-me saber que ela já está suficientemente bem. Eu relaxo os meus braços em torno de seu pequeno corpo, e ela se afasta um pouco. Eu busco o seu olhar, lendo neles como ela está. Seus olhos, porém não encontram os meus. Eles pousam sobre os meu lábios e eu vejo o chocolate de sua íris escurecer para um tom quase de café. Imediatamente eu testo as suas emoções, pois, eu deveria estar vendo demais, não? Mas não há nenhum erro. O desejo está se derramando dela de modo poderoso; o que me faz aquecer por dentro. Eu não resisto e também volto os meus olhos para a sua boca rosada. Ela se inclina, apenas alguns milímetros. Eu giro os polegares em pequenos círculos em sua cintura. Ela se aproxima ainda mais. Se eu me inclinar apenas um pouquinho, nossos lábios irão se encontrar. E, contra todo o bom senso, eu percebo que eu gostaria disso. Gostaria de saber se a sua boca é tão macia quanto ela aparenta ser, se o seu sabor é tão bom quanto o seu perfume.

E então eu me recordo de quem ela é. Esta é Bella: o amor de Edward. Como eu posso sequer pensar em fazer algo assim com ele? Que espécie de patife eu seria se agisse assim? Ele foi meu irmão por mais de cinqüenta anos e ele foi um bom irmão. E quanto a Alice? Embora tenhamos nos separados, eu sei que eu ainda a amo. E tanto quanto eu gostaria de acreditar no contrário, eu sei que ela ainda me ama. Como eu poderia fazer isso com ela? Como eu poderia fazer isso com os Cullens de um modo geral? Isso rasgaria a família em dois!

A resposta simples a todas estas perguntas é: eu não posso. Até porque, se o fizesse, mais do que ferir aos Cullens eu acabaria por ferir Isabella. No final das contas, o que eu sou além de um homem quebrado? Seria uma traição a nossa amizade se eu agora a beijasse, apenas porque eu estava carente, apenas porque eu também estou me sentindo sozinho.

Eu fecho os meus olhos e desvio o rosto, apoiando-o sobre a sua cabeça. Eu posso sentir a dor e a rejeição que ela sente. Mas eu não quero que ela se sinta assim. Talvez, se ela me rejeitar...

- Eu sei que você ficou chocada comigo, pelo que eu fiz àquele...patife. Eu lamento querida. Lamento que você, mesmo estando comigo, viveu momentos de medo. Lamento que eu não possa usar nenhuma armadura branca imaculada para salvá-la. Será que você pode me perdoar?

E esta não é uma pergunta calhorda? Quer dizer, eu sei que ninguém poderia me perdoar pelos meus crimes. Eu sei. E ainda assim, eu lhe peço. Eu nunca deveria ter pedido. Eu não tenho sequer o direito; mas eu gostaria. Ela balançar a cabeça em negação antes de se afastar novamente e me olhar nos olhos, um pequeno sorriso brincando no canto dos seus lábios.

- Eu não tenho nada a perdoar. Somente a agradecer. Você me salvou... de novo. Acho que você está errado quanto a não ter uma armadura branca. Você parece muito com um cavaleiro resgatando a indefesa donzela, pra não ter.

- Ah, eu com certeza tenho armadura, mas ela não é branca e nem de longe é imaculada.

- O que você quer dizer?

Eu suspiro e olho a distância.

- Se eu vou lhe contar a minha história, eu preferiria que não fosse em um lugar aberto. Será que você se oporia a me acompanhar até um hotel?

- Porque eu iria me opor? Se você não se recorda, eu já estive em um hotel com você antes.

- Verdade. Vamos então?

Eu enlacei a sua cintura com o braço, não querendo deixá-la ir. Tanto porque eu queria sentir que ela estava bem, como porque eu sabia que aquela provavelmente seria a última vez que eu estaria autorizado a ficar tão próximo dela. Tão logo ela soubesse sobre a minha história, eu sabia que ela quereria ficar tão longe de mim quanto possível. Eu estava a minutos de perder a minha única amiga humana. E eu já sentia saudades dela. Doía imaginar que nós não iríamos mais brincar um com o outro. Que eu não poderia mais desafiá-la a montar em touros mecânicos e que ela não me obrigaria a comer comida humana.

Eu entrei no bar de novo para pagar o consumo. E enquanto a garçonete saía para pegar o troco, eu acariciei os cabelos e a bochecha de Bella. Eu podia sentir seu olhar preocupado sobre mim, ela devia estar percebendo a minha tensão. Ela não sabia ainda que aquilo era uma despedida. Eu sorri sem graça. Não queria explicar-lhe. Não queria abreviar ainda mais o pouco tempo que teríamos juntos, deixando-a saber o que estava acontecendo. Egoísta da minha parte? Com toda a certeza. Mas ainda assim, irrecusável.

Será que ela sentiria tanto a minha falta quanto eu sentiria a dela? Eu não digo como homem; não. Eu sei que aquela tentativa de beijo da parte dela era muito provavelmente apenas uma reação à experiência terrível que ela tinha passado. Era da natureza humana, após um momento de perigo, comemorar a vida. Não era por isso que se servia comida nos velórios? Para lembrar aos vivos que eles estavam vivos? Mas como amigo, será que ela sentiria a minha falta? Possivelmente não. Quando tudo isso acabasse, ela teria tanto medo de mim, que a minha ausência seria apenas um alívio. Eu não gostei disso. Não gostei nada.

Mas era como tinha que ser. Era como os Cullens tinham decidido que fosse, e como possivelmente deveria ter sido. Se eu não fosse o rebelde que eu era, eu já estaria muito longe daqui. E nós nunca teríamos formado o vínculo que formamos, ela não teria se tornado para mim, mais do que a namorada humana do meu irmão. Ela não teria sido a Bella que era minha amiga. Mas quanto a isso, eu não poderia me arrepender. Mesmo que a nossa amizade acabasse hoje, pelo menos a dela comigo; eu ainda guardaria com todo o carinho a lembrança da menina humana, que pelo menos por alguns dias mostrou que confiava em mim e que tinha carinho por mim. Eu sempre teria carinho por ela. Não importando o que acontecesse.

A maldita garçonete me entregou o troco muito antes do que eu gostaria e nós seguimos para a porta.

- O que quer que você esteja pensando, Jasper. Pare. Não é assim.

- Eu tenho as minhas dúvidas quanto a isso. – Disse-lhe enquanto montava na minha moto e lhe entregava o seu capacete.

- Não tenha. Confie em mim, por favor.

Pediu ela pouco antes de montar atrás de mim e fechar os braços em minha cintura. Mais uma vez, eu acariciei a sua mão e parti.