Recomeçar

8 Nana Neném


Cerca de sete minutos depois, eu estava sob a sua janela. Eu sabia que Edward a pulava todas as noites, mesmo assim, era um pouco... Estranho pra mim, imaginar-me fazendo o mesmo. Parecia... Eu não sei, um tanto pervertido, talvez? Ainda que ela soubesse da minha presença e a tivesse permitido (coisa que nem sempre aconteceu com Edward, não no início). Eu ainda me sentia incomodado.

Sentindo-me mais como um colegial do que jamais me senti em toda a minha existência, eu peguei uma pedrinha e a joguei na sua vidraça. Logo a cabeça de Bella apontou do buraco luminoso que era a sua janela. Ela tinha o cenho franzido, e parecia confusa. Bem, eu não sou o meu irmão; tive vontade de lhe dizer, mas apenas ergui uma sobrancelha e apontei o seu quarto. Ela me fez um sinal com a mão para eu entrar e se afastou dando-me passagem.

Eu saltei e agarrei o parapeito, ergui o meu corpo sem dificuldades e passei para o lado de dentro de sua casa. Ela estava sentada na ponta da cama. Isso era constrangedor. Desviando os olhos dos delas eu tomei o em torno.

Seu quarto não era arrumadinho como o de Edward costumava ser; o lençol estava bagunçado sobre a cama, havia uma almofada no chão. Mas era meticulosamente limpo e um tanto espartano. Eu não via nada de pessoal. Nada de CDs, ou livros...

- Achei que você gostava de ler. – comentei externando a minha própria confusão.

- Eu gosto, mas não recentemente.

A voz dela era tão diminuta; eu não precisava do meu dom pra saber que ela estava envergonhada. Uma hipótese, encheu a minha cabeça e eu juro que estava rezando pra estar enganado.

- Não recentemente?

- Pelas últimas sete semanas, pra ser mais precisa.

Bella falou e se remexeu desconfortavelmente. Ela parecia tão frágil, sentada com as pernas cruzadas em borboleta, os olhos fundos demais no seu rosto excessivamente pálido.

E infelizmente eu precisei admitir que a minha hipótese estava certa. Ela parou de ler por causa dele. Anotei mentalmente arrancar as duas pernas e os dois braços do meu querido e amado irmãozinho. O sentimento de inadequação e insegurança de Bella cresceu e eu vi que era hora de mudar de assunto.

- Então, você disse que queria me proteger. Do que exatamente? Não pode ser de James, você sabe que ele está morto.

- Ele costumava dizer que eu era um imã para o perigo. Particularmente, eu me considero amaldiçoada. Eu não sei o que vai vir depois, mas....

- Mas?

- Mas por vezes, meus sonhos parecem significativos. Não são como as visões de Alice, nem de longe. Mesmo assim, quando as coisas acontecem, é impossível não sentir que eles estão relacionados. É difícil explicar.

- E você está tendo algum sonho que a leva a crer que você está ou estará em perigo nos próximos dias?

Ela acenou mais uma vez com a cabeça em confirmação.

- Parece loucura, não é?

- Ei, eu fui casado por 60 anos com uma pré-cognitiva, dificilmente eu posso considerar a intuição de alguém, loucura. O que você têm sonhado Bella?

- Não é realmente muito. No início, quando ele me deixou, eu vivia sonhando que eu o procurava na floresta; como eu fiz, de fato. Mas ele sempre estava na minha frente, inalcançável. Agora, eu ainda estou na floresta, mas eu estou fugindo de alguém. E eu estou muito assustada. De alguma forma, eu sei que se me pegarem, eu vou morrer.

- Você nunca vê quem é? Nada?

- Não. Eu só escuto os passos atrás de mim.

Ela estremeceu ligeiramente. E eu pude sentir o seu medo, apenas em lembrar do seu sonho. Me ajoelhei a sua frente. Obrigando-a a focar seus olhos nos meus.

- Você sabe que eu jamais vou deixar ninguém machucar você.

E eu quis dizer isso. De alguma forma, Bella se tornara especial pra mim. Eu não sabia exatamente o porque. Não era apenas por conta de Alice e de Edward. Acho que tinha mais haver com a conversa que tivemos em minha casa e o fato de perceber que apesar de eu ter lhe dado todas as razões do mundo para que ela não tivesse por mim nenhum sentimento além do medo, ela ainda assim acreditava em mim. Isto era... redentor.

- Eu não quero que te machuques em meu lugar.

Ela explicou em sua voz simples, mas muito séria. Percebi que tinha que lhe garantir que eu não era ninguém facilmente machucável, por assim dizer. Se realmente acontecesse de haver algum perigo, eu não queria que Bella tentasse fugir de mim, como ela tinha feito no aeroporto de Phoenix.

- Bella, eu agradeço a sua preocupação, mas isto não é necessário. Olha, o meu passado é tumultuado; muito mais do que o de qualquer outro dos Cullens. Não quero entrar em detalhes, mas eu posso lhe assegurar de que sou o mais experiente lutador dentre eles, e sem falsa modéstia, um dos melhores que há lá fora. Foi em uma dessas minhas “experiências anteriores” que eu ganhei o “adorno” — eu expliquei enquanto passava o dedo sobre a marca mais profunda em meu maxilar. Aquela que eu acreditava, era a que Bella tinha visto — Que você achou que James tinha me dado. Não foi ele. E você não teve nada haver com isso. De fato, eu a ganhei décadas antes de você nascer. Acredite em mim quando digo que posso cuidar de mim mesmo, e se necessário, eu irei cuidar de você e protegê-la. Tudo bem?

Ela mergulhou seus olhos castanhos nos meus e eu apenas fiquei lá, aguardando que ela encontrasse o que quer que ela estivesse procurando.

- Tudo bem – Ela disse com o mais leve dos sorrisos em seus lábios, felizmente, a sua preocupação tinha sido suavizada; infelizmente, a sua curiosidade, não – Você vai me contar sobre o seu passado?

- Talvez um dia.

- Você sabe que eu sei guardar segredos.

- Eu sei. Mas não é este o caso. – Expliquei novamente desviando os olhos dos delas – É só que não é fácil e não é bonito.

E eu tinha um puta medo de que se fizesse isso, ela fosse perder a confiança em mim e me visse como todos os demais sempre me viram: como uma espécie de demônio. Doeria muito se isso acontecesse.

- Quando você estiver pronto então.

- Quando eu estiver pronto – confirmei. – Agora, me diga: você jantou?

- Eu comi um pedaço e meio de pizza.

- Isso é o bastante? Eu não como; vou admitir isso. Mas eu via o que a garotada comia nos refeitórios e era muito mais.

- Doeria se eu tentasse empurrar mais comida.

Oh, que ótimo, o estômago dela reduziu de tamanho devido ao tempo que ela ficou sem se alimentar direito.

- Ok, mas então você precisa aumentar o número de refeições, já que elas agora são menores.

- Ah, Jasper – ela reclamou como uma criancinha. Ela ficava tão engraçada com essa expressão desgostosa.

- Nada de “Ah, Jasper” pra cima de mim, mocinha. Você prometeu. — Eu senti a sua alegria e uma certa malícia vindo dela. O que me fez estreitar os olhos. – E, nem adianta você tentar mentir pra mim. Você deve saber até agora, quão ruim como mentirosa você é; e mesmo que você fosse uma mentirosa excepcional (o que não é o caso), eu sou um empata, eu sei quando as pessoas estão mentindo. Portanto, nem tente. Coma!

- Estúpidos vampiros sabem tudo. Merda! – cochichou ela e eu não pude deixar de rir.

- Eu também consigo escutar os seus cochichos, você sabe.

- Espero que você saiba também o quão chato você é. – Ela falou fazendo beicinho e um olhar que supostamente era pra ser intimidador, eu ri e me sentei na cadeira.

- Não se preocupe, Bella, você vai ter a oportunidade de descarregar toda esta raiva, eu já tenho um plano.

- É? Qual? – Eu escutei o chefe Swan subindo as escadas, provavelmente pra verificar a filha.

- Amanhã eu lhe explico. Bons sonhos Bella.

E com isso, eu lhe bati com uma dose imensa de letargia. O corpo dela, caiu sobre a cama, quase imediatamente, como um marionete cujas cordas tinham sido cortadas. Eu pulei pela janela e me escondi na noite. Logo em seguida, Charlie abriu a porta do quarto e deu um beijo na testa de sua filha adormecida.

- Durma bem, pequena.

O amor e a preocupação do homem eram avassaladores. Eu senti pena dele, e enviei alguma esperança.

- Tenha bons sonhos. – Ele acrescentou já à porta, saindo logo depois.

- Ela terá Charlie. Eu prometo que irei cuidar dela. — Disse, tão logo a porta foi fechada.

E eu fiz. Passei a noite na cadeira do seu quarto, velando-lhe o sono. Por volta das três da manhã eu comecei a senti-la com medo. Mas enviei-lhe uma dose grande de calma e ela jamais acordou. O dia estava quase amanhecendo quando a deixei.