Recomeçar

26 Era uma vez


POV Jasper:

A nossa viagem correu no mais completo silêncio. Eu podia sentir a curiosidade e a preocupação e algo como ... realização? Talvez? Se derramando de Bella. Ela queria que eu lhe contasse a respeito de mim. Se a situação fosse diferente, eu teria prazer em fazê-lo, mas dado o que eu teria que lhe contar... Bem, eu posso dizer que apreensão poderia ser a porra do meu nome!

Eu entrego o cartão de crédito e o documento de identidade, distraidamente, enquanto em minha cabeça tento imaginar como contar a história fodida de minha vida.

A mão delicada de Bella pousou sobre a minha interrompendo o batucar dos meus dedos sobre o tampo do balcão que, a propósito, eu sequer tinha percebido que estava fazendo.

- Devagar, calma.

E então, eu a senti se acalmar e como que tentar empurrar conscientemente esse sentimento em mim. Logo agora que ela estava começando a aprender a se comunicar comigo através dos sentimentos, eu teria que lhe contar tudo e fazê-la sair correndo para longe de mim... Eu dei-lhe um sorriso rápido, que eu tenho plena certeza de que não a convenceu nem mesmo por um segundo.

E em pensar que há pouco tempo atrás eu tinha dito que eu era um mentiroso excepcional. Bom, eu costumava ser. Mas agora que Bella entrou em minha vida, parecia que a minha habilidade para fazê-lo tinha simplesmente evaporado. Não estava reclamando; esta parecia uma troca mais do que vantajosa. Eu com certeza abriria mão desta minha habilidade, contanto que Bella pudesse permanecer em minha vida.

Nós subimos para o quarto que nos foi destinado. Era um bonito quarto, eu acho. Mas eu não olhei de fato, tudo o que eu vi foi a sacada. Andei nela de um lado para o outro e acabei segurando o topo da grade de proteção.

Olhando o mar ao longe, em seu eterno ir e vir, eu ainda tentava encontrar a forma correta de dizer à menina inocente comigo, que eu era um assassino cruel, que tinha matado milhares. Tanto entre humanos quanto entre vampiros.

- Eu apenas não sei como fazer isso.

Braços macios envolveram-me pela cintura e eu senti Bella apoiar o seu queixo sobre o meu ombro direito, sobre o qual, logo depois ela deixou um pequeno beijinho.

- Dizem que o começo é sempre um bom lugar para começar.

- Eu devo começar pela minha vida humana então?

- Sim. Conte-me de quando você era humano, Jasper.

Eu balancei a cabeça em concordância, me virei em seus braços e pus os meus, sobre os seus ombros. Apesar de estar um tanto inseguro sobre se isso seria a atitude mais inteligente a se fazer. Quer dizer, pra mim sem dúvida era bom estar próximo dela desta forma. Ajudava a enfrentar as minhas lembranças. Mas quando a história ficasse avassaladora, eu não creio que ela vá gostar desta proximidade. Suspirei. Eu a deixaria ir embora então, até lá, eu aproveitaria o seu carinho. Com esta decisão tomada eu deixei as imagens me encherem.

- Eu não tenho muitas memórias da minha vida humana. As poucas que tenho, em sua maior parte não passam de pequenos flashes. Algumas destas memórias eu jamais esqueci. Outras, eu recuperei aos poucos. Às vezes, algo (uma imagem, um cheiro) parece funcionar como um gatilho. E então eu recordo de mais alguma pequena coisa.

Ela se aproximou mais e deitou a cabeça em meu ombro, relaxando. Sua calma, ajudou-me ainda mais a me manter centrado.

- Eu não me lembro da data em que nasci como humano; apenas que foi em algum dia do outono de 1844. Eu sei que era outono, porque me recordo de que na época do meu aniversário, as árvores sempre tinham as suas folhas avermelhadas. Meus pais tinham um haras nos arredores de Houston, no Texas. Nós não tínhamos escravos, nós interagíamos mais com os índios e eles eram ou nossos empregados ou nossos fornecedores. Mesmo assim, as coisas não eram fáceis. Os bloqueios econômicos da União já tinham começado e meu pai várias vezes falou do quanto ele detestava os Yankees.

- Eu tinha um talento especial para lidar com cavalos, eles pareciam se acalmar quando estavam comigo e pareciam ser mais facilmente treinados. Eu era feliz em saber que meu pai sentia orgulho de mim. Eu queria sempre trazer aquele brilho orgulhoso aos seus olhos. Queria a sua atenção. Acho que todo filho de família grande quer. — expliquei com um dar de ombros — Foi por isso que eu fugi de casa aos 17 anos para me alistar. Eu queria ser um herói. Queria que meu pai se orgulhasse de mim.

- As guerras, porém, não fizeram de mim um herói. Elas me roubaram tudo: minha alma e minha vida. Diferente de Edward, eu não acho que eu perdi a minha alma porque eu me tornei um vampiro. Eu a perdi porque eu me tornei um monstro.

Bella fez menção de me defender de mim mesmo. Mas eu coloquei um dedo sobre o seu lábio.

- Não. Você vai entender o que eu quero dizer. Só me dê um minuto para eu organizar os meus pensamentos.

Eu sai relutantemente do círculo de seus braços. Baixei os olhos ao chão e sorri sem graça. Eu era um estrategista tão bom, e aqui eu estava perdido em minha própria vida. Apenas pelo nervosismo em saber o que iria acontecer quando eu a contasse a uma doce menina humana.

— Eu estou me adiantando. Deixe-me voltar: eu me tornei um major muito rapidamente. As pessoas, como os cavalos, gostavam de mim. Na época, diziam que eu era carismático. Hoje eu sei que já era o meu poder trabalhando por mim, mesmo então. Eu me tornei o mais novo major do exército confederado. Eu me lembro que o meu pai tinha dito em carta que ele estava orgulhoso do meu feito. Isso me felicitou. Ele e minha mãe, especialmente ela, tinham estado muito raivosos ao saber que eu realmente tinha me alistado.

- Porque eu era muito novo, e porque os meus superiores gostavam tanto de mim, eles não me autorizaram a participar de batalhas. Mas me davam missões que eu considerava possivelmente ainda mais especiais. Por exemplo: a minha última missão foi garantir a retirada segura das mulheres e crianças de Galveston que tinha, infelizmente, caído sob o julgo da União.

- Eu tinha acabado de conduzir uma parte das mulheres até um lugar seguro, e voltava para apanhar as demais, quando me encontrei com três mulheres de beleza inigualável. Eram Maria, Nettie e Lucy. Eu achei que elas poderiam estar em dificuldade, e tinha a intenção de me oferecer para escoltá-las. Maria disse ter gostado de mim e que iria me “manter”. Mandou Nettie e Lucy para longe para não precisar "olhar as suas costas" e me mordeu.

- Passei três dias sob uma dor além da imaginação e quando acordei eu acordei num inferno. Você vê Bella, quando nascemos nesta nova vida a sede é absoluta. Ela nos conduz. Nossas emoções são instáveis, a raiva é praticamente uma constante e somos principalmente controlados pelos nossos instintos. Agora imagine um empata acordando dentre outros recém nascidos.

- Eu não sabia que eu tinha um poder, eu não sabia que as emoções eram provenientes de outras pessoas. Ninguém sabia. Então, quando alguém ficava com raiva, eu ficava com raiva. As brigas eram uma ocorrência comum e no início eram ainda mais corriqueiras. Você pode dizer que o meu comportamento era o de um valentão. Mas eu não era o único. Você vê? Eu também projetava às vezes, sem nem ao menos saber.

- Maria ficava furiosa e ao mesmo tempo satisfeita comigo. Furiosa porque eu abatia os seus outros recém nascidos quase tão rápido quanto ela os criava. Satisfeita porque, bem... Eu sobrevivia, uma e outra vez. Ela adorava a minha ferocidade. Isto, porém jamais a impediu de me punir. Envergonho-me em dizer que a tortura é algo que eu conheço bem; em ambas as pontas desta linha: tanto como vítima, como enquanto algoz.. Você sabe? O que eu fiz com Lúcius foi uma das mais brandas, mesmo assim, ele terá conseqüências advindas do que lhe fiz que talvez você não tenha se dado conta a priore. Você têm idéia de porque eu lhe quebrei os polegares de cada mão?

Como esperado ela balançou a cabeça em negativa. Eu sorri tristemente.

- Porque assim, ele não poderá pegar instrumentos. Ele não poderá se vestir direito; ele não poderá segurar, por exemplo, uma faca para comer. É uma forma de humilhar alguém, mostrar que ele é dependente e insignificante. No exército de Maria, isso garantia que ele fosse ter dificuldade em lutar. Por conseguinte, ele seria escravo de todos os demais. Tudo o que qualquer recém nascido quisesse, poderia pedir a ele. Sabendo que se ele não atendesse, as coisas poderiam ficar indesejavelmente quentes para ele. Maria poderia arrancar os polegares e os devolver quando lhe aprouvesse.

Bella estremeceu, mas de outro modo ela não deixou transparecer o seu horror. Estava começando. Eu resolvi que iria bloquear a percepção de suas emoções; caso contrário, eu não conseguiria lhe contar toda a história.

- Havia outras? Outras punições, eu digo. — Ela me perguntou.

- Sim. Corte os tendões de Aquiles e a pessoa não pode se sustentar em pé. Arranque o maxilar, e o vampiro não poderá se alimentar. Isso, sem contar as múltiplas mordidas, desmembramentos e o impedimento de se alimentar. O mais insano disso tudo, é que esse tipo de coisa (salvo as mordidas) não irá deixar marcas nos nossos corpos. Já que é o nosso próprio veneno quem as terá de curar. A única forma de termos cicatrizes é se o veneno de outro vampiro entrar em contato com o nosso. Se você for desmembrado e remontado. Nenhuma marca fica.

- Ah, Jasper. Eu, eu sinto muito.

E ela sentia, apesar de eu conscientemente estar evitando sentir as suas emoções, uma onda de piedade e de dor quase me avassalou.

- Por favor, não tenha pena de mim. O que eu sofri, não paga o que fiz.

- E o que você fez?

— Minhas habilidades de luta eram muito superiores às dos demais. Eu tinha vindo de uma família grande, com muitos irmãos... Apenas vamos dizer que aprender a lutar, também na minha família era uma questão de sobrevivência. E como eu tinha tanta facilidade em fazer amigos, os guerreiros índios com quem meu pai trabalhava acharam por bem me ensinar a me defender. Isso sem contar, é claro o treinamento recebido no exército.

- Enfim, os outros recém nascidos começaram a ter medo de mim. Percebendo isso, Maria me pôs no comando. Eu lamento dizer, mas..., eu gostava que eles tivessem medo de mim. Evitava que eles aprontassem comigo. E era uma vingança contra aqueles que tinham rido de mim após eu receber uma das punições de Maria.

- Um dia, Maria transformou um menino. Ele tinha um dom, não muito útil, mas ainda um dom. Ele podia moldar nuvens. Vendo-o e percebendo que muitas das emoções que eu sentia não faziam sentido pra mim, eu comecei a entender que eu também era dotado. A partir de então as coisas foram mais simples pra mim. Eu também já tinha os meus sete meses, estava mais velho e por conseguinte, mais no controle de mim mesmo. Comecei a testar a minha teoria, e acalmava os recém nascidos antes que eles chegassem às vias de fato. Como resultado, os nossos números cresceram. Até Maria, Nettie e Lucy começaram a trabalhar melhor entre elas.

- Jasper? Desculpa, mas porque ela estava transformando estas pessoas.

- Os humanos brigam por conta de terras, dinheiro, territórios estratégicos... Vampiros lutam em última instância pela única substância que realmente precisamos.

- Sangue – ela falou.

- Sangue – eu concordei. – A única regra que temos que seguir é não deixar que os seres humanos saibam de nossa existência. Caso não a sigamos os Volturis; que são uma mistura de polícia com realeza dos vampiros, por assim dizer; intervêm. Mas em cidades com grande número de pessoas, as mortes que nossa espécie provoca passam mais facilmente desapercebidas, não requerendo a intervenção dos Volturis. Assim sendo, quanto maior a cidade, melhor a alimentação que o vampiro pode ter. Entretanto, um vampiro não pode conquistar cidades com um bom número de habitantes se estiver sozinho. Por isso, os recém nascidos são criados. Nos primeiros meses desta vida, temos uma força inigualável e, por conseguinte, somos soldados interessantes de se ter.

— Maria, tinha perdido os seus antigos domínios e também perdido o seu companheiro. Eu não sabia o que aquilo significava na época. Eu só vim a saber muito tempo depois. Mas ela vivia para a vingança e o poder. E eu como todos os demais, muito cedo aprendi que se quisesse sobreviver, deveria agradá-la. Afinal, era ela quem me entregava a punição e a comida. E porque ela me tratava com diferenciação: por exemplo, eu não tinha que lutar entre eles para receber a minha cota de alimento. Não. A minha presa era-me dada em separado. Eu acreditei que ela me amasse. Você não faz idéia das barbaridades que fiz por aquela mulher. Eu não apenas treinava e construía planos de batalha contra os seus inimigos e os destruía, eu destruía os nossos próprios homens; sempre que eles atingiam a marca de um ano de idade. Eu sentia tudo o que eles sentiam e ainda assim, os matava. Eu fiz isso por quase um século.

- Bella, eu olho pra trás e sinto nojo do que fiz. Sinto nojo de mim. Mas na ocasião, eu não tinha a visão que eu tenho agora. Eu não sabia que era possível viver pacificamente, eu não sabia de nada. Eu me pergunto por que eu não matei Maria, depois que eu me fortaleci o bastante para que isso fosse uma possibilidade real para mim. A conclusão a que eu chego é: eu não era capaz de pensar direito. Você já ouviu falar em Síndrome de Estocolmo? Eu acho que eu a tinha; ou melhor, eu sei que eu a tinha.

- Entenda: na minha cabeça, matá-la era como me matar. Tão doentio quanto isso lhe possa parecer, ela era a minha criadora, a semente que me trouxe a esta vida. Eu aprendi a caçar com ela; torturar, com ela; matar, com ela. No início, ela era melhor do que eu nesta vida. Ela poderia ter me matado. Ela não fez. Torturar? Sim. Mas nunca me matou. Por incrível que pareça, uma parte de mim era grata, por isso. Por muito tempo eu fui grato.

- Mas para fazer o que eu fazia, uma e outra vez. Matar e sentir-me morrer junto com a minha vítima... Isso... Eu não tenho palavras pra lhe descrever. Não acho que existam palavras pra descrever o que eu vivi. Eu tive que me apagar, calar todo e qualquer sentimento que eu pudesse ter. Morrer por dentro, pra não morrer por fora. Eu era oco. Um espectro vindo do pior inferno. Eu não tinha piedade. Eu não tinha mais nada dentro de mim. Eu comecei a me esvaziar no momento em que eu dei a minha jaqueta do exército, pra ela. Eu abri mão do orgulho do homem que eu era, nessa hora. E eu continuei a me esvaziar até que não sobrou mais nada de quem eu fui. Eu já não era Jasper Whitlock, que meus pais criaram. Eu era um monstro. Eu era o Major.

- Então eu conheci Pedro. Ele era um recém nascido estranho, falava merda o tempo todo, contava piadas, provocava e tentava me fazer sorrir. Eu não sabia por que ele se importava. Será que ele não percebia que eu era o seu inimigo? No início eu tinha raiva dele, ele me fazia sentir alegria. E isso só fazia com que o desespero se acentuasse ainda mais. Eu acabei fazendo amizade com o filha da puta. E tanto por conta disso, quanto porque ele realmente era um lutador muito bom. Ele sobreviveu ao primeiro ano. Maria o autorizou a permanecer vivo. E ele se tornou a babá dos recém nascidos.

— Então, um dia, eu o chamei para me ajudar a matar os recém nascidos que estavam atingindo um ano de idade. Ele estava estranho... Agitado. Quando eu chamei Charlotte então, eu fui atingido por uma espécie de explosão de sentimentos vindo de Pedro. Eu não reconheci o primeiro sentimento, mas eu gostei. Depois veio o medo e a determinação. Ele gritou pra Charlotte fugir e saiu correndo atrás dela. Eu fiquei surpreso. Tão surpreso! Eu queria tentar dar um nome àquele sentimento doce que ele emitiu por primeiro. Eu queria ter esse sentimento em mim. Eu queria ter alguém sentindo isso por mim. Você sabe qual era esse sentimento, Bella? Amor. Do tipo mais puro que alguém pode sentir. Do tipo que faz com que você dê a sua vida pela do outro sem pensar uma segunda vez. Amor.

- Eles estavam ao meu alcance, eu teria condições de alcançar aos dois e matá-los, se esta fosse a minha decisão. Mas eu não poderia. Como punição Maria me privou de sangue por quase três semanas. Para quem eu era naquela época, isso era... Terrível. E então eu entendi, não era amor o que nós tínhamos. Por causa de Pedro, eu podia ver as coisas tal como elas eram. Eu podia ver o que eu fazia. Eu percebi finalmente o que eu me tinha tornado. Eu quis matá-lo, eu o odiei tanto! Eu quis morrer também. Eu fiquei deprimido... eu não agüentava mais. Não agüentava mais matar, ver as pessoas morrerem; aquele caos. Eu não agüentava mais. Agora que eu sabia que este sentimento maravilhoso era possível também para nós, todas as outras coisas mostravam-se odiosas. Maria não entendia o que acontecia comigo, e eu sei que ela planejava me matar. Eu me preparava para matá-la também.

- Foi quando Pedro voltou e me chamou pra fugir com ele, me disse que em cinco anos não tinha lutado com ninguém e me contou como era a vida para os vampiros no norte. Eu fugi com ele sem pensar uma segunda vez. Mas mesmo ao seu lado e de Charlotte, a depressão em que eu estava não arrefeceu. Eu não estava mais lutando. Mas eu ainda estava matando para me alimentar. Eu não conhecia outra forma de sobreviver. Eu tentei esticar o tempo entre as caçadas, mas toda vez que eu finalmente cedia a sede, a depressão voltava, ainda mais forte, como uma vingança. Porque eu sentia o que a minha vítima sentia em seus momentos finais.

- Eu os deixei e comecei a vagar sozinho. Eu tinha desistido de viver já. Eu só estava reunindo a coragem pra me deixar ser morto. Foi quando conheci Alice. Ela me esperava em um restaurante na Philadelphia onde eu me abriguei da chuva. Quando ela pulou do banquinho onde estava sentada e veio em minha direção, eu achei que ela queria me atacar. Então ela reclamou que eu a deixei esperando muito tempo; tomou a minha mão e pela primeira vez eu senti esperança.