Recomeçar
6 Combinado
Notas iniciais
- Vou ajudar você Jasper.
Eu fiquei lá, como um verdadeiro idiota olhando pra ela, embasbacado. Sério, eu já tinha meio que me conformado com o fato de que eu não entendia e provavelmente jamais entenderia Isabella Swan. Ainda assim... A sua atitude era chocante. Afinal, ela estava apenas dizendo que iria me ajudar a treinar o meu autocontrole, sem que absolutamente ninguém estivesse ao seu lado para impedir-me, caso eu simplesmente cedesse ao meu monstro interior. E ela não tinha medo. Na verdade, ela sentia orgulho, diversão, confiança e determinação, mas medo? O único sentimento razoável que ela poderia ter em uma situação como essa? Não.
Fale-me sobre pular de um trapézio sem rede de proteção. Isso era pior. Um trapezista conta consigo mesmo. Ele treina incansavelmente pra realizar a proeza que faz. Isabella apenas poderia confiar em mim. Se eu falhasse...Ela não teria a menor chance. E eu já tinha mostrado (muito recentemente) quão falho é o meu autocontrole. Uma imagem do corpo de Bella quebrado e pálido apareceu em minha mente e um arrepio de medo percorreu-me ante a hipótese de eu falhar. Não apenas Edward e Alice jamais me perdoariam, eu mesmo jamais conseguiria me olhar no espelho de novo. Por que? Porque não somente Bella era o amor do meu irmão e a melhor amiga de minha ex-esposa, mas eu estava descobrindo, muito rapidamente que Bella e Pedro, aparentemente, eram as únicas pessoas, em toda a minha existência a acreditar em mim. Mas eu podia aceitar que ela assumisse um risco desta magnitude?
- Absolutamente, não! Você está louca? Meu irmão pode ser idiota, mas em um ponto ele tem completa razão: você não tem o mais remoto senso de auto-preservação.
- Ah, Jasper. Cale a boca! Já chegamos a conclusão de que o ocorrido só se deu, porque você estava sobrecarregado. Agora as coisas serão diferentes. Confie em mim!
Ela realmente estava me pedindo pra confiar nela? Quão irônico isso era? Eu passei a mão pelos meus cabelos, exasperado.
- Você têm alguma idéia do que aconteceria se eu a matasse? Eu posso dizer: Edward tentaria me matar.
Sem dúvida ele tentaria, não acho que ele fosse conseguir porém. Não me levem a mal. Com a sua habilidade marcial (que eu mesmo ajudei a aprimorar) e o seu poder de ler mentes, Edward era um excelente lutador. E ele me conhecia. Mas, eu também conhecia os pontos fracos dele e de seu poder. Afinal de contas, ninguém agüenta tantas décadas junto com um telepata, sem aprender a burlar o seu poder. Sem nenhuma malícia aqui, apenas, de vez em quando você precisa segurar alguma privacidade.
- Isso não vai acontecer. Mas se você quer jogar pelo lado seguro, eu posso muito bem escrever uma carta de suicídio. Do jeito que tenho estado... – ela engoliu em seco e a sua tristeza e culpa chegaram a mim como uma espécie de aríete, quase me obrigando a dar um passo atrás – eu não tenho dúvidas de que todos irão acreditar. Edward não precisará saber de nada.
- Isso iria matá-lo.
Ela sorriu, mas foi sem humor.
- Ele terá seis de vocês para impedi-lo e cuidarem dele. Ele irá ficar bem.
Eu balancei a cabeça, ainda inconformado. Apesar de que devo confessar, estou tentado. E se isso pudesse me trazer Alice de volta?
- Bella, porque você está fazendo isso? Não me leve a mal. A sua confiança e a sua disposição de fazer algo assim por mim são muito... lisonjeiras. Mas porque se colocar em risco assim? Eu não entendo!
- Olha, eu posso não ter tido muita convivência com você. Mas isso não muda o fato de que pra mim você é família. E por conseguinte, eu te amo e faria qualquer coisa por você. Ainda há a questão de que, bem ou mal, eu fui a pivô de sua separação. Não gosto disso; nem um pouco. E eu quero corrigir isso.
Ela fez uma pausa pra respirar e prosseguiu.
- Há ainda pelo menos três outras razões. Você as quer escutar? Ou o que disse já basta?
- Por favor, fale. – Eu precisava entender. Talvez isso lançasse alguma luz sobre o seu raciocínio. Eu duvidava; mas como dizem, a esperança é a última que morre.
- Bem, há o fato de que quero que você e Alice sejam felizes, e acho que isso só vai acontecer se vocês estiverem juntos. Também há a mesma razão que você me deu, quando estávamos no quarto de Hotel lá em Phoenix e...
- Quarto? Phoenix?
Ela revirou os olhos pra mim. Sério, a humanazinha, pequenina e frágil, apenas revirou os olhos pra mim. Eu que era motivo de temor para uma série de outros vampiros. Quem diria que Bella teria um osso abusado em seu corpo? Ela sempre foi tão tímida! Agora eu começava a entender o fascínio de Edward por ela. A garota era uma porra de um enigma. E sem ele conseguir ler-lhe a mente... Eu tinha pena do meu irmão. O coitado nunca teve nenhuma chance de não se apaixonar por Bella. Pobre diabo, era o que ele era.
- Eu estava preocupada que algum de vocês acabasse morto e...
Eu já estava pronto a interferir e dizer-lhe que era seguro para nós quando ela me interrompeu.
- Se você vai dizer que vocês não corriam perigo apenas porque vocês estavam em maior número — e em resumo isso era exatamente o que eu ia dizer. Merda! Aparentemente, pra ela, eu era previsível — eu vou lhe dizer o mesmo que o médico disse a minha mãe quando ela foi se operar de apendicite: “Sempre há um risco”.
Bella arqueou uma sobrancelha como a desafiar-me a contestá-la. Eu não fiz. Eu não era idiota.
- Bom, então, como eu dizia. Quando vocês estavam se arriscando por minha causa, você me disse que eu valia a pena. Você acabou de repetir isso aqui mesmo, nesta sala. Novidade pra você, Jasper: você também vale a pena. Ademais, eu tenho um bom feeling pras pessoas. Eu sei quando elas são boas. Você é. Você merece.
Eu queria dizer-lhe que eu não era. Porque com as coisas que eu fiz no passado, boa pessoa seria o último atributo que eu merecia carregar. Eu matei... Muitos. Centenas de pessoas, entre humanos e vampiros. Eu não merecia a sua bondade e certamente, eu não merecia a sua confiança. Mas pra lhe dizer isso, eu teria que lhe contar sobre o meu passado e eu apenas não estava pronto pra isso. Assim sendo eu me contentei em acenar uma vez com a cabeça em confirmação a eu ter compreendido tudo o que ela disse e fiquei em silêncio pensando. Uma vez, eu prometi que faria qualquer coisa por Alice. Pelo jeito, a minha promessa veio pra me morder o rabo agora. Eu poderia fazer isso?
- Eu não estou dizendo que concordo com isso. Na verdade, eu acho que o que você está fazendo é uma tremenda estupidez. Me desculpe, mas esta é a minha opinião sincera.
Ela deu de ombros, nem um pouco ofendida.
- Estamos em um país livre, você têm direito a ter a sua própria opinião.
- E você a fazer as suas próprias coisas estúpidas, correto?
- Com certeza! – Confirmou ela muito senhora de si. Revirei os olhos.
- Mas se vamos fazer isso, eu não vou aceitar sem que você aceite algumas condições.
A surpresa dela veio de imediato.
- Condições?
- Condições. – Confirmei. E agora era a minha vez de estar orgulhoso – Eu sei que não é educado falar assim sobre a aparência de alguém, muito menos quando se trata de uma dama, mas... Eu estou preocupado. – E com isso eu a deixei sentir a minha preocupação por ela – Você está muito magra e é evidente que não tem dormido direito. Sério Bella, eu mal fui capaz de reconhecê-la.
- Eu estou tentando...Eu já estou melhor.
Ela disse. E a cor banhou o seu rosto enquanto ela se encolhia como se eu a estivesse atacando. Isso fez eu me sentir mal, mas eu empurrei um pouco de calma pra ela e prossegui. Lembrando a mim mesmo que isso era necessário.
- Melhor? De alguma forma eu duvido.
- Durante as primeiras duas semanas, eu fiquei catatônica.
Merda, ela realmente estava melhor. Novamente eu passei a mão pelos meus cabelos. Maldito Edward. Quando eu o visse, acho que ia arrancar as suas duas pernas e as esconder por pelo menos duas semanas. Idiota de uma figa!
- Bom, eu fico feliz em saber que você está melhorando. Mas é preciso mais. Você precisa se alimentar direito e dormir Bella.
- Eu não consigo dormir. Eu tenho pesadelos.
Com isso, eu pensei em arrancar as suas duas pernas e os seus genitais. Mas em se tratando de Edward, como ele não os usa, acho que seria melhor as duas pernas e um braço. Ele ficaria impedido de tocar piano.
- Eu posso ajudar com os pesadelos. Eu não posso controlar o conteúdo de seus sonhos, mas posso tranqüilizá-la pra que eles não a afetem assim.
- É só isso? — Bella me perguntou bufando.
- Não. Você vai ter que se fortalecer, por dentro e por fora. Isso que falamos até aqui, irá fortalecer o seu corpo. Nós vamos discutir atividades que irão fortalecer a sua alma. Eu não tenho nada em mente, no momento. Mas posso dizer de ante-mão que se você concordar com isso, você irá fazer algumas coisas que você jamais pensou em fazer antes.
- Tipo o que?
- Não sei... Aulas de defesa pessoal? Talvez? Pra alguém que se mete com tanta freqüência em apuros, como você; isso pode vir a calhar.
- Não com vampiros.
- Não com vampiros — Concordei — Mas se você for olhar bem, nós não somos os únicos monstros a solta. Há monstros humanos também. Mas, como disse, eu não tenho ainda um plano montado pra isso. Eu vou ter, porém... Dentre em pouco. E então, estamos combinados?
Perguntei estendendo a mão pra ela.
- Combinado. Mas eu vou ter direito a opinar a respeito dessas outras atividades.
- Ei, eu não iria querer de outra forma. – Disse-lhe com um sorriso torto e um bocado do meu sotaque sulista acabou vazando neste momento. Bella ficou olhando pra mim com um ar estranho, antes de piscar e dizer que precisava ir, porque Charlie em breve estaria em casa.
- Acho que vou ter que arrumar uma desculpa pra Charlie também, já que iremos gastar mais tempo juntos. Eu vou pensar nisso. Eu devo passar em sua casa, se tudo estiver bem pra você, para ajudá-la a dormir, tudo bem?
Ela concordou e antes de sair eu a lembrei:
- Bella, a coisa da alimentação está valendo desde já. Isto quer dizer que é pra você jantar. Ok?
Mais um revirar de olhos em minha direção. E então, por alguma razão desconhecida a garota se encheu de malícia. Enquanto eu a ajudava a subir no seu caminhão eu apenas aguardei que merda que viria a seguir. Não tive que esperar muito.
- Sabe? Você está me lembrando da bruxa de João e Maria, eu vou precisar de um ossinho? Posso arrumar um.
Claro! Conte com Bella pra fazer piadas sobre a possibilidade de eu a matar.
- Não funcionaria. Minha visão é perfeita.
- Droga! Tempo de voltar pra prancheta e arrumar um novo plano. – O caminhão rugiu de volta a vida, tão logo a garota bateu a chave na ignição. Eu dei dois passos atrás para lhe dar espaço para manobrar. Então, mais uma vez, as suas emoções viraram e agora Bella estava triste. Que diabos!
- Jasper?
- Sim?
- Emmett levou o vídeo game e os seus jogos com ele?
Que pergunta estranha. E mais estranho ainda era a profundidade da tristeza e da saudade dela. Será que isso era por conta do vídeo game? Era possível, mas... Eu nunca soube que Bella fosse uma viciada em jogos eletrônicos. Bom, se este fosse o caso, era facilmente remediado, eu poderia comprar novos jogos pra ela. Quem sabe isso não a alegrasse? Ela certamente merecia alguma alegria depois do que a fizemos passar.
- Infelizmente levou. Sinto muito.
- Tudo bem. Até mais tarde Jasper. Eu vou deixar a janela do quarto aberta.
- Até mais tarde. Me ligue quando estiveres próximo de ir dormir. Eu mantive o meu número antigo.
Com um último aceno, ela foi embora.
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