Reckless

15 Capítulo 15 - Tequila, vodka e tequila


Notas iniciais
BIIIITCH, I'M BACK BY POPULAR DEMAND! Haha e aí, mores, como vocês estão? Ansiosos pra mais um capítulo? Aqui está gente, eu vou aproveitar julho pra postar pelo menos duas ou três vezes na semana, ok? E também to aproveitando pra postar várias outras fics, quem puder conferir Lei de Murphy e Do It Like a Man, eu tô agradecendo ♥ Lei de Murphy tem um ar mais pra comédia enquanto DILAM é mais ação, e espero que vocês curtam ambas as fics. Sem mais, a música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=VbfpW0pbvaU PS: Gente, pra quem entrou aqui e tava um capítulo todo zoado, isso aconteceu em todas as minhas fanfics, quando eu tentei agendar os capítulos pra postarem aqui, mas já tô entrando em contato com o site pra averiguar o que é esse erro tosco de formatação -'-

Daniel era um homem muito misterioso, e não era para menos todo aquele suspense sobre o que eu encontraria em sua casa. Imaginei que poderia ser onde ele preparava as drogas, por exemplo, e por isso queria tanto segredo, mas seria previsível demais... Previsibilidade e Daniel na mesma frase era uma possibilidade viável. Depois, achei que pudesse me deparar com provas de um crime mais hediondo cometido por ele, mas não conseguia pensar em algo tão ruim que Daniel pudesse fazer. Para ser sincera, eu estava realmente curiosa sobre o que aconteceria a seguir, quando chegamos à uma loja de ferragens antiga e abandonada. Pensei que estacionaríamos um pouco antes ou depois do desabitado estabelecimento, pois na quadra havia várias belas casinhas, mas não, paramos bem em frente à loja.

Franzi o cenho e olhei diretamente para Daniel, que me encarava com sua boa e velha indiferença.

— Você mora aqui?

O moreno esboçou um sorriso.

— Mais ou menos.

Então, ele desceu do carro, entrou por uma portinhola ao lado do grande portão da antiga empresa e desapareceu. Minha curiosidade, que ao mesmo tempo podia ser definida como confusão, apenas aumentava. Daí, ele abriu os portões maiores e revelou um grande espaço abandonado, repleto de ferramentas mecânicas enferrujadas e jogadas aleatoriamente em toda parte. As paredes estavam ainda firmes, mas esteticamente envelhecidas e muito feias. Várias caixas também se distribuíam pelo local, contâiners e pedaços de isopôr. Lá estava o Mini Cooper que ele tinha usado da primeira vez que nos vimos, no dia da festa, e também, mais ainda para a direita, uma Ferrari conversível.

— Gostou da garagem? — Indagou assim que assentou-se novamente ao meu lado.

— É bem... Diferente. — Atestei.

Não é muito comum ver uma remota loja de ferragens ser usada como garagem, afinal. Mas, de fato, era algo que não alarmava a suspeita de ninguém, fosse polícia, pessoas comuns ou outras gangues. Boa escolha. Ele pôs o carro para dentro e saiu novamente para fechar o portão. Eu teria desci do carro temendo que se fizesse isso depois, fosse ficar escuro demais.

Daniel caminhou até mim com a lanterna do celular ligada e depois de focar a luz em mim, me causando extremo desconforto e uma careta, mirou-a numa portinha à minha direita. Abri a porta e dei de cara com um enorme lance de escadas.

— Primeiro as damas- Brincou.

Fui subindo as escadas de degraus estreitos e íngremes à frente de Daniel até estar encarando uma larga porta de madeira escura. Quando me dei conta de que era a porta da sua casa, abri espaço para que o moreno tomasse a dianteira.

Ele pôs a chave na porta com muito cuidado e vagarosidade, como quem não tem a menor intenção de fazer barulho, e assim que colocou a mão na maçaneta para girá-la, ele dobrou os joelhos, abaixando-se como se fosse receber um cachorro. Quando o mínimo feixe de luz passou pela porta agora entreaberta, eu pude vislumbrar uma casa interiormente adorável. A casa de Daniel. (http://cdn.homedit.com/wp-content/uploads/2012/08/british-house6.jpg) A parte da sala, que era a única vista por mim até então, tinha as paredes todas pintadas de azul e uma decoração simples, mas muito elegante e confortável. Havia um sofá colorido no qual uma mulher aparentemente na casa dos 30 estava deitada, à sua frente uma mesinha de centro rodeada por vários brinquedos de criança. Mas a surpresa maior veio quando eu olhei para o que, ou melhor, quem estava ao lado do sofá, completamente concentrado no documentário científico exibido na televisão. Meus olhos imediatamente se arregalaram, tamanho era o espanto.

Era um garoto. Ele não devia ter mais do que 10 anos a julgar por seu aspecto físico: uma ossada magrela com suas extremidades — ou seja, os dedos, partes do braço, partes da perna e os pés — visivelmente atrofiadas. Para meu maior choque, o menino estava sentado numa cadeira de rodas infantil ao lado da mulher que lhe fazia companhia. Ele tinha grandes olhos tão azuis quanto os de Daniel e um cabelo igualmente negro e encaracolado, mas bem mais curto. Os dois eram realmente muito parecidos, mas o menor era demasiado magro e um pouco dentuço (para falar a verdade, seu maxilar me parecia um tanto torto e malfeito). Ainda assim, ele era uma criança linda de aspecto doce e gentil.

Meu queixo praticamente atingiu o chão quando analisei bem aquela cena. Até mesmo o ar me faltou para que eu suspirasse em sinal de tanta surpresa. Era como ver os pontinhos, enxergar a gravura, mas sem conseguir ligá-los.

— Ooolha quem chegou em casa, campeão! — Daniel exclamou com um sorriso de orelha a orelha, me puxando para fora do meu universo particular que no momento estava chocado.

— Danny! Danny, você voltou! — A voz do garotinho se fez ouvir, de modo que se podia julgar o quanto ele estava feliz.

O pequeno encarou Daniel com um sorriso ainda maior do que aquele que o mais velho carregava, e conduziu sua cadeira elétrica na maior rapidez possível até a porta, onde era esperado por alguém tão feliz em vê-lo que estava abaixado para lhe receber num abraço.

Assim que os dois se encontraram, o garotinho por si só conseguiu impulsionar o corpo num pulo e foi parar diretamente no colo de Daniel, que já o aguardava de braços abertos. Não sei bem em que parte daquele abraço minha boca passou de um enorme buraco surpreso em forma de "O" a um enorme sorriso, mas sei que isso foi o que aconteceu. A alegria genuína dos dois em se reverem era tão tocante que chegava a contagiar.

— Danny, eu estava com muitas saudades... — O garotinho murmurou com a cabeça aninhada no pescoço de Daniel.

— Eu também senti sua falta, amigão.

O abraço dos dois parecia não ter fim, bem como a felicidade deles. Nesse meio tempo, a moça que estava descansando no sofá levantou-se e caminhou até onde estávamos. Aparentemente, ela foi a única que me notou ali, pois nossos olhares se encontraram e a mesma sorriu de forma amigável, recostando-se na parede para também admirar a cena.

Daniel levantou-se ainda carregando o garotinho em seu colo e o pôs virado para mim, sorrindo.

— Tom, eu quero que conheça uma pessoa — Suspirou — Lizzie, esse é meu irmão Tom, e Tom, a Lizzie é uma amiga minha que veio ficar com a gente por uns dias, ok?

O pequeno Tom assentiu.

— Olá, Tom! — Eu o cumprimentei animada, estendendo a mão.

— Oi, Lizzie — Respondeu, um pouco tímido, com as duas mãos na boca.

— Vamos lá, cara — Daniel o animou -, você não vai deixar uma mulher bonita dessas esperando, vai?

Por mais bobo que houvesse sido o comentário dele, senti o sangue esquentar em toda a extensão do meu rosto e abri ainda mais o sorriso.

O irmão de Daniel, com certa dificuldade, conseguiu estender sua mão franzina para mim e eu a apertei. Claramente, ele não tinha forças ou capacidade neurológica para apertar minha mão de volta, mas já me sentia gratificada pelo simples esforço de ele ter me dado a mão.

— Então... — Tentei puxar alguma conversa com o pequeno, olhando para o que estava em destaque na televisão a fim de iniciar algum assunto — Você gosta de tubarões? — Indaguei assim que confirmei sobre o que o documentário na TV se tratava.

Tom balançou a cabeça positivamente, ainda muito tímido.

— Por que não diz à Lizzie o que você quer ser quando crescer? — Daniel sugeriu lhe fazendo carinho nas costas.

Desde que ele havia chegado lá, não parava de sorrir. Seus olhos brilhavam e até o tom da sua voz era outro. Era exatamente o mesmo tom que ele havia compartilhado comigo durante a tarde inteira, em que não havia sido um traficante ou uma espécie de guarda-costas, mas simplesmente Daniel.

— Eu quero ser... Biólogo marinho! — Tom respondeu empolgado.

— Uau! — Juntei as duas mãos num estalo não muito alto — Eu aposto que você vai ser o melhor biólogo marinho de todos, Tom.

Ele sorriu e, em seguida, ainda tímido, escondeu seu rosto na curva do pescoço de Daniel, que ria observando nossa conversa.

— Está bem, rapaz, agora você tem que deixar eu pagar a Sophie para ela poder voltar pra casa — Disse seu irmão mais velho, colocando-o de volta em sua cadeira de rodas.

Tom assentiu e já moveu sua pequena máquina elétrica até um corredor paralelo à sala, que eu deduzir levar aos quartos.

A mulher que até então estava parada sorrindo para nós caminhou até Daniel com uma doce expressão.

— Que bom que voltou, Danny — Ela disse aproximando-se dele, no momento, ignorando minha presença.

Confesso, me senti extremamente incomodada por aquela atitude. Sophie cruzou os braços ainda encarando o moreno de cabelos encaracolados que sorria de volta para ela.

— Tom não parava de falar em você, ele sente muito sua falta — Ela atestou.

— Ele sempre sente... Mas prometo não demorar tanto da próxima vez — Daniel garantiu.

— É bom mesmo. Porque eu sinto saudades também... — Sophie sibilou a última parte levando um de seus dedos à bochecha de Daniel e acariciando-a.

Odiei estar ali para ver aquele momento. Por alguma razão desconhecida, ela parecia fazer questão de que eu visse aquilo e, por outro motivo ainda mais incógnito, eu realmente me importei.

— Vai com calma, Soph, eu vim pra te pagar agora — Daniel replicou puxando sua carteira do bolso.

Bufei e, em seguida, me pus no meu lugar. Daniel e Sophie podiam muito bem ser namorados, e isso não é algo que deveria me preocupar nem um pouco. Claro, nos beijamos hoje mais cedo, mas um beijo pode muito bem significar apenas um momento, certo? Ao menos, é o que eu espero.

Decidi que ficar ali prestando atenção na conversa de dois adultos não era algo que eu devia estar fazendo. Portanto, me virei e trilhei o mesmo caminho que Tom havia feito mais cedo.

Para minha surpresa, quando entrei no quarto do garotinho, um pequeno e adorável cômodo repleto de aquários e estantes com livros, Tom estava em sua cadeira de cabeça baixa e com os olhinhos fechados, mais parecendo um anjo em miniatura.

O admirei por algum tempo. Era notório o quanto ele levava uma vida feliz ali, com seu irmão mais velho, e os esforços de Daniel, mesmo que através de meios ilegais e mal vistos, finalmente fizeram algum sentido na minha cabeça. Quem, no universo, deixaria um ser humano tão frágil e adorável à mercê do seu próprio destino?

Fui até ele em passos contados e silenciosos, o retirei de sua máquina particular e repousei seu corpo magro sobre a cama. Só depois, o cobri com uma manta até que ficasse bem aquecido e abri um pouco a janela que ficava bem ao lado do leito de Tom. Com tudo pronto, sentei-me em sua cama e voltei a olhar para seu rosto, me perguntando tudo o que ele devia ter passado para chegar até ali, quantos problemas deveria ter e quais limitações isso implicava em sua vida.

Acariciei seus cabelos negros e cacheados como o do irmão, como se acreditasse que aquele pouco carinho fosse compensar tudo de ruim que já tivesse lhe acontecido.

De repente, alguém pigarreou atrás de mim. Olhei assustada, Daniel me encarava escorado na porta. Suas orbes azuis sorriam para mim de uma forma curiosa e terna.

— Ele é um bom garoto. O melhor que já conheci — Afirmou com carinho.

Sorri, sem deixar de mexer no cabelo de seu irmão.

— Eu tenho certeza disso. Daniel... — Comecei um tanto insegura, com medo de ser invasiva — Tom ficou assim por causa do acidente?

Ele suspirou com certo pesar. Em seguida, balançou a cabeça em afirmação.

— Eles tinham acabado de me buscar no colégio, era o último dia de aula e íamos viajar pra Londres — Seu olhar, agora vago, encarava o nada como se ele ainda visse todas as coisas em sua mente — o Tom tinha apenas quatro anos. Pegamos o mesmo caminho que leva pra praia, num dia de chuva, e minha mãe não parava de brigar comigo para eu colocar o cinto — Quando disse isso, Daniel riu. Provavelmente lembrando-se daquele momento ou recordando das nossas várias discussões sobre a importância do cinto de segurança -, mas eu sempre fui teimoso demais para usá-lo. Quando eu, ela e Tom finalmente pegamos no sono, meu pai... deslizou numa curva e acabamos caindo de uma altura com mais ou menos 11 metros. Como eu não estava de cinto, fui arremessado pra fora do carro e quebrei vários ossos, sem contar os cortes e lesões. Mas ela e meu pai...

Daniel dava súbitas quebradas no meio de seu discurso, talvez porque fosse difícil lembrar-se de algo acontecido há quase uma década ou simplesmente porque era difícil abrir aquela ferida. Daniel colocou as mãos nos bolsos da jaqueta para se aquecer.

— Bem, eles se foram. E o Thomas teve danos neurológicos seríssimos e irreparáveis. A maior parte dos seus membros é atrofiada, mas as mãos, por exemplo, ele ainda consegue mexer um pouco. Trabalhamos com muita fisioterapia.

Levantei-me da cama, não era justo deixar Daniel naquele estado sem que ele recebesse apenas uma palavra de conforto e incentivo. A vida havia sido mais dura para ele do que para muita gente, inclusive eu, por exemplo. Não era certo que ele ficasse assim tão mal toda vez que lembrasse de seu passado.

— Hey, Danny, você é o herói dele. Deveria se orgulhar disso — Falei pegando em seu braço, como que animando-o.

Daniel esboçou um sutil sorriso no rosto e fez um gesto para que eu o seguisse. Assim eu fiz, e então ele me guiou até o quarto ao lado do de Tom. Assim que abriu a porta, revelou um cômodo pequeno e bem desorganizado, que presumi ser o seu quarto. As paredes eram marrons e a decoração simples, ainda que estilosa. Havia uma cama de casal bem de frente para mim envolta em lençóis brancos e rodeada por duas mesinhas marrons, cada uma com um abajur. O guarda-roupas ficava do lado direito do quarto e estava com suas 6 portas quase todas abertas, deixando à mostra várias roupas amassadas e outras até jogadas no chão. Não preciso nem mencionar que as portas do meio guardavam apenas jaquetas de couro de todas as cores, marcas, modelos, tamanhos e estilos, o que Daniel sabia como harmonizar junto com outras roupas como ninguém. Do outro lado, jazia uma mesa de estudos com um notebook em cima e alguns livros sobre química. Vários tênis e coturnos estavam espalhados pelo quarto inteiro, e minha soma sinceramente não batia, porque contei ao menos 12 diferentes modelos de sapatos e apenas 3 deles estavam com seus respectivos pares. Ao menos, o cheiro daquele lugar era banhado no perfume de Daniel, uma essência amadeirada com um toque cítrico, que dava ao ambiente tanto charme quanto dava ao dono da fragrância.

Ri assim que entramos. Daniel coçou o cabelo, claramente embaraçado pela situação.

— Ok, não fazia ideia de que você dormiria aqui hoje, então seu direito é de ficar calada, não encher meu saco e aceitar que aqui é onde você irá passar suas próximas noites.

Levantei as mãos em sinal de rendição.

— Touchè. Mas onde você vai dormir? — Indaguei.

— Na sala, oras. E este — Disse apontando para a terceira e última porta — é o banheiro. Pode tomar um banho se quiser, já deixei uma toalha preparada.

Agradeci a ele e entrei no banheiro. Precisava mesmo de uma boa ducha.

Ao entrar no chuveiro, regulei a água na maior temperatura possível, para relaxar o máximo meus músculos e absorver tudo o que havia acontecido durante o dia. Um teatro lindo, um jardim, um excelente almoço, uma tarde extremamente divertida, uma surpresa desagradável, dois beijos — inclusive, de dois homens diferentes — e o Tom. Ah, claro, e a Sophie. Ainda estava pensando nela.

Não era tão bonita assim. Ela tinha o cabelo castanho escuro num corte chanel, os olhos esverdeados e sobrancelha bem definida. Além disso, tinha a pele bronzeada — não era branquela em tom de defunto que nem eu — e possuía lábios rosados e desenhados. Seu corpo também era muito bonito, pois ela conseguia ser magra, mas não era tão magra quanto eu, a ponto de dar para contar as costelas. Que droga que eu estava falando! Sophie era meio milhão de vezes mais linda do que eu! Eu me senti como ser uma reles mortal perto de uma Kardashian. Além do que era uma mulher, e eu, mal havia deixado a adolescência. Se é que havia deixado.

Bufei. Não devia sequer estar me preocupando com ela! Abanei com a mão o chuveiro, como se isso pudesse realmente espantar os pensamentos sobre Sophie.

Depois de mais alguns minutos em que preferi ficar elencando as melhores trilhas sonoras para um beijo romântico no banho, resolvi que já estava suficiente de água quente no corpo. Me sequei e pus uma camisola. Senti um pouco de vergonha por sair do banheiro daquele jeito, pois o tecido que usava era seda, e ainda que preta, era um tecido um tanto sensual, além do fato de a peça em si ser curta e ter alcinhas.

Como meu nome do meio é burrice, havia esquecido de empacotar um chinelo de dedos na mochila. Por isso, minha única opção de sapatos era o all star preto que havia usado o dia inteiro.

Só depois que me calcei, saí do banheiro e me deparei com um Daniel pensativo, sentado no sofá com o queixo apoiado nas mãos e uma posição séria. Estranhei e caminhei até ele.

— Daniel?

Como alguém que é acordado do seu mais profundo sonho, ele despertou num pulo e me olhou espantado.

— Desculpa, garota, eu... — Pareceu se desconsertar à medida que eu caminhava em sua direção — Não notei que estava aí.

Sorri para ele, sentando-me ao seu lado.

— Tudo bem. Só fiquei preocupada quando vi você aqui sozinho.

Daniel olhou, como se fizesse pouco caso de mim.

— Pois não deveria. Já sou grandinho, princesa — Disse, um tanto rude.

Resolvi ignorar sua aspereza.

— Sabe, Daniel, eu estive pensando... — Tentava achar algum jeito de trazer o assunto Sophie à tona. Mas já que não achei nada, teria que ser na lata mesmo — A Sophie pareceu especial para você. Vocês dois...?

Gesticulei algo com as mãos ao fim da frase, pois a ideia me parecia tão incômoda que não consegui expressar em voz alta. Não parecendo se importar muito com isso, Daniel elevou uma de suas sobrancelhas e liberou um riso que mais soou como gozação.

— Você realmente não está com ciúmes, está? — Ele indagou, ainda exibindo aquela expressão ridiculamente debochada e infelizmente provocante.

Minhas bochechas coraram, mas por sorte, Daniel levantou-se do sofá e foi até a cozinha, conjugada com a sala e por isso muito pequena, mas não menos organizada e bem decorada. Ficou de costas para mim, apoiado com as duas mãos na pia.

— Não tenho nenhum motivo pra sentir ciúmes de você — Repliquei, um tanto seca — É só... curiosidade. Sou uma jornalista, você sabe.

Daniel desdenhou de mim com uma risada cínica. Mesmo sem ver sua face, eu já podia ver nitidamente seus lábios comprimidos e os olhos parecendo um mar de espinhos.

— Você não é uma jornalista. Ainda nem entrou na faculdade, pare de botar banca.

Com raiva, bati as mãos no sofá e bufei simultaneamente. Dessa vez, minhas bochechas estavam vermelhas, mas de ira.

— E você, pare de botar banca de durão — Levantei-me e fui até ele, na pia.

Daniel virou-se para mim, ainda como todo o típico cinismo estampado em seus olhos azuis e um morder de lábios que revelava o quanto ele caçoava de mim.

— Caso não se lembre, você está falando com a garota que te beijou hoje cedo, não com uma idiota que cai nessa sua palhaçada de "não me toque, eu sou perigoso" — Disse fazendo aspas enormes com as mãos.

Pelo seu arregalar de olhos, deduzi que tivesse realmente saído do sério com o que eu havia dito. Feliz ou infelizmente, era exatamente o que eu queria. Cruzei os braços já me preparando para a resposta desaforada que teria.

— E aquele beijo é a única razão pra você ficar com ciúmes — Falou com total e plena certeza. Ciúmes. Não sabia se o que eu estava sentindo era isso, mas era, no mínimo, parecido — Acha que eu não vi sua cara quando eu estava conversando com a Sophie?

Sabe aquele filme, Divertidamente, em que apenas uma das emoções controla o seu cérebro? No meu, a raiva já devia estar bem confortável na cadeira de controle. E este foi o exato momento em que ela apertou o alarme de incêndio.

— Sério? A mesma cara que você fez quando o Jason me beijou no hospital, não foi? — Devolvi.

Daniel bateu as mãos com força no balcão da pia, o que provocou um espasmo de susto em mim.

— Caramba, garota! — Ele berrou — Se o Jason te beijou ou não, isso não fez a menor diferença pra mim, ok?

— É, deu pra ver — Ironizei.

— Escuta aqui — Daniel se pronunciou tão perto do meu rosto que o ar da sua boca chegou a bater nas minhas bochechas -, se aquele beijo significou algo pra você, então ótimo. Mas, pra mim, aquilo não foi nada, se é o que quer saber.

Quando Daniel disse aquilo, alguma coisa dentro do meu coração se apertou e depois soltou-se, como se tivesse quebrado um pedacinho. Eu não sabia se aquelas palavras haviam sido verdadeiras ou falsas, apenas sabia que não queria ouvir mais nada sair daquela sua boca nojenta que eu tinha adorado beijar, tal sentimento de repúdio e tristeza que eu não consegui esconder.

Mordi meu lábio inferior com força suficiente para fazê-lo sangrar.

— Que razões eu já te dei pra você me tratar com qualquer diferença do que me tratou hoje a tarde inteira, Daniel? — Indaguei da forma mais sincera e profunda que consegui.

Para dizer a verdade, o que disse a ele foi a verbalização perfeita do que eu pensava naquele instante.

Sem hesitar, dei as costas a ele e caminhei direto até a porta. Eu não tinha muita escolha, mas não iria me submeter a ficar no mesmo ambiente que Daniel, me sentindo humilhada e feita de otária. Encarei a saída e corajosamente, a abri, mas antes virando-me para ele e olhando diretamente em seus decepcionantes globos azuis.

— Se quer saber — Comecei, esforçando-me para não chorar em sua frente -, aquele beijo também não significou nada pra mim. — Menti.

Dei as costas de uma vez e bati a porta sem esperar qualquer reação dele. Em sequência, desci as escadas com pressa, já com a visão um tanto borrada por causa das lágrimas, e quando me encontrei na noite fria e nada receptiva de Southampton, em que só as pequenas luzes dos postes iluminavam a rua erma, corri até a esquina na esperança de achar algum estabelecimento aberto. E achei.

Era uma boate. Diamond Night Club, bem do outro lado da rua. Para o bem ou para o mal, eu nunca gostei efetivamente de danceterias ou baladas, mas naquela noite, já estava tão ferrada e com tanto ódio de Daniel e o que tinha feito comigo que só conseguia pensar num grande "Foda-se, eu vou entrar e fazer alguma besteira como qualquer pessoa normal da minha idade faria".

Apenas me dei ao trabalho de secar as lágrimas e arrancar o cadarço de um dos tênis para amarrar na cintura e transformar a camisola num vestido para entrar na Diamond. Por sorte, sempre escondia meu dinheiro debaixo da palmilha do tênis, o que tornou fácil pagar minha entrada.

Por infortúnio do destino, assim que adentrei aquelas enormes cortinas negras do lugar, o cheiro enjoante da fumaça artificial me envolveu como uma velha conhecida. Espirrei. Depois, ri, em parte porque eu não estava acostumada a estar em lugares daquele tipo, o que tornava aquela experiência nova e inusitada.

Rodopiei em direção à pista. Havia muita gente apesar do horário já tardio, muitos usando pulseiras fluorescentes, mas todos se divertindo. Alguns dançando, outros se beijando, uns bebendo, mas de uma forma muito mais interessante e atrativa do que a festa na qual eu tinha entrado atrás do Ben.

A sensação de estar num lugar em que ninguém te conhece é muito boa. Você sente como se pudesse fazer todas as merdas que já pensou em fazer, porque não vai ter ninguém ali para te julgar. E foi pontualmente o que eu decidi que ia fazer.

Andei até o lugar mais iluminado e infestado do ambiente, o bar, para começar a sessão de coisas das quais me arrependeria no dia seguinte.

Depois de cruzar o caminho me enfiando entre diversas camadas de seres humanos, consegui chegar até meu desejado destino.

Só havia um problema: eu e minha escassa vida social só conhecíamos as duas bebidas mais populares de todas: vodka e tequila. Bem, agora eu também conhecia margaritas, mas pedir qualquer coisa que me lembrasse Daniel estava fora de cogitação. Por isso, pedi ao barman uma tequila.

Quando ele me entregou, ainda hesitei por alguns segundos enquanto olhava a bebida levemente amarelada com uma rodela de limão num copinho. Lizzie, de qualquer forma você já está bem ferrada, disse pra mim mesma antes de virar o recipiente inteiro garganta adentro.

Má ideia. Péssima ideia. Pior ideia de todas. Faltei morrer de tossir parecendo um alce engasgado no meio de todo mundo daquela balada, praticamente entrando em óbito por causa das propriedades cítricas e alcoólicas da bebida. Eu definitivamente não estava acostumada com aquilo.

Bati o copinho com força no balcão, ainda contorcendo o rosto num milhão de caretas pra aliviar a dose. Foi quando alguém se aproximou de mim rindo da cena.

— Você devia ir com mais calma — Uma voz masculina e desconhecida se fez ouvir.

Levantei o rosto para ver quem era. Grandes olhos azuis me encaravam, junto a um cabelo loiríssimo à là Justin Bieber 2011 e uma boca grande o suficiente para ser sexy e não feia. Não era o cara mais bonito do universo, mas também não era de se jogar fora, além de não parecer muito mais velho do que eu.

— Primeira vez — Assumi.

— Acho que sei do que pode gostar — Disse com um sorriso amigável.

Então, virou-se para o barman e pediu duas vodkas, tornando-se para mim o mais rápido possível.

— Sou Chase, à propósito.

— Lizzie — Apertei sua mão.

Assim que as vodkas chegaram, ele segurou uma e passou a outra para mim.

— O segredo da vodka é lembrar que, depois dela, você aguenta qualquer coisa, ok? — Ele avisou, ao que recebeu um sinal positivo meu — Pronta?

Assenti e acabamos quase que junto com toda a dose, num único gole. Novamente, uma péssima ideia, mas não tão ruim quanto da última vez. Eu sentia mais o alcóol na vodka, só que sem todo aquele azedume da tequila. Era forte, mas gostosa. Ainda assim, fiz algumas caretas, ao que fui acompanhada pelas risadas de Chase.

— Sabe, Lizzie, você é muito bonita, até fazendo careta — Elogiou com certo humor.

Eu ri em agradecimento.

— É fácil dizer isso depois de uma dose de vodka — Repliquei, brincalhona.

— Quer tentar tequila outra vez? — Chase indagou e eu aceitei.

Afinal, não tinha nada a perder naquela noite. Não devia minha fidelidade a ninguém e muito menos a minha sobriedade.

E vieram mais duas, três doses, quatro doses de tequila. Orgulhosa, eu admiti para mim mesma que estava aprendendo a beber. Chase me acompanhou em todas as rodadas fazendo piadas sobre como eu parecia mais atraente a cada gole, cumprimentos que eu agradecia sorrindo cada vez mais exageradamente, sem motivo específico.

Impressionantemente, eu não havia apagado como da última vez em que bebi, mas já notava uma certa falha em meus sentidos. Minha noção de profundidade, por exemplo, estava quase 100% afetada pela bebida. Percebi isso ainda mais quando estiquei o braço para pegar mais um copo com drink e o derrubei do outro lado do balcão, me batendo também em Chase, que estava bem à minha frente.

— Ou, ou, ou! — Ele exclamou, segurando-me pelo braço para que eu não caísse — Acho que você já bebeu o suficiente por hoje, meu bem.

Mesmo que não fizesse sentido algum, soltei uma gargalhada e abracei Chase, escorando o rosto em sua camiseta.

— Você está certo, garotão.

Ele me empurrou com cuidado para mais longe de si e olhou bem para mim antes de se pronunciar.

— Acho melhor eu e você irmos para um outro lugar, não acha? — Sugeriu — Algum lugar sem tanta gente...

Mesmo que já entrando no estado de resignação de todo bêbado, tive alguns segundos de lucidez e minha coluna enrijeceu com medo do que aquela noite poderia acabar se tornando.

— Algum lugar tipo onde? — Questionei.

— Tipo a minha casa — Respondeu, acariciando meus braços com uma feição extremamente provocante e repleta de terceiras e quartas intenções.

Minha respiração saiu um pouco do compasso, ainda com certo receio. Chase pareceu perceber isso.

— Hey, estou te chamando pro seu bem. Não faço nada que você disser que não, ok? — Garantiu.

Ainda meio insegura, comecei a olhar para todos os lados da casa noturna considerando e ponderando bem aquela hipótese. Por um lado, poderia me tirar da mira dos russos ao menos por um tempo, já que Chase não era nada suspeito, mas por outro lado eu não o conhecia tão bem quanto conhecia o idiota Daniel.

E como que por ironia do destino, assim que meu olhar alcançou a entrada da Diamond, ele estava lá. E mesmo bêbada, eu sabia que aqueles penetrantes e aflitos olhos azuis não podiam pertencer a mais ninguém no mundo inteiro. Era Daniel. Parecia afoito, suado, como quem acabara de entrar ali me procurando com apreensão.

Por obra do acaso, seus olhos também se encontraram com os meus, e ele me pareceu sem reação. Olhar para ele despertou novamente toda a raiva que eu estava sentindo quando deixei, furiosa, sua casa. Com o coração pulsando de ódio, virei-me para Chase, que ainda esperava uma resposta, e disse:

— Sabe, garoto, acho que hoje é seu dia de sorte.

Com as duas mãos, segurei seu rosto impetuosamente e o beijei da forma mais exagerada que consegui. Aparentemente, ele não achou nada ruim, apenas prosseguiu como se a cena já estivesse programada. Correspondeu não só ao beijo, mas aos toques no meu quadril e em meu ombro. Por sorte, eu não sentia nada mais do que o gosto da tequila misturada com vodka, além de sua língua invasiva e estranha para mim.

Eu não queria, mas eu precisava. Precisava brincar com os sentimentos de Daniel de uma forma tão perversa como ele havia brincado com os meus. Isso, se ele sequer tiver qualquer sentimento.

Continuei beijando o recém conhecido Chase até praticamente perder o fôlego, mas não o deixava se afastar da minha boca segundo algum, sugando tudo o que podia dele. Foi quando, bruscamente, sinto ele morder minha boca no mesmo lugar que eu tinha machucado mais cedo, e, ao abrir os olhos, já não o enxergo ali, como deveria estar, deparando-me com uma briga engatilhada.

Um Daniel cheio de fúria estava entre mim e Chase com sua caixa torácica aumentando e diminuindo em alta velocidade devido à adrenalina. O outro garoto o encarava com o cenho franzido enquanto levava a mão à sua boca provavelmente machucada também. Até mesmo alguns ao redor já haviam parado com seus afazeres para nos encarar, algo para que Daniel não parecia dar a mínima, pois ao que parecia, só tinha olhos — e diga-se de passagem, olhos cheios de cólera e rancor — para Chase.

— Você — Grunhiu tão alterado como eu jamais havia visto — fica longe dela. Ouviu bem? — Ameaçou-o.

Notas finais
E aí, queridxs, o que acharam? Gostaria de agradecer a todos que leem e acompanham e pedir que comentem, ok? A brandi, Isabella Menezes e blue secrets que sempre estão por aqui nas reviews são pessoas mais do que especiais pra mim, certeza que se vocês deixarem seus comentários, vão me deixar tão feliz quanto ♥ Link de Do It Like A Man: https://fanfiction.com.br/historia/699904/Do_It_Like_A_Man/ Link de Lei de Murphy: https://fanfiction.com.br/historia/699330/Lei_de_Murphy/ Beijinhos! Perguntinha de fim de capítulo: tem alguma música que vcs gostam muito, ou que lembra vocês da Lizzie e do Daniel? Qual é a música que não para de repetir na playlist de vocês?