Reckless

5 Capítulo 4 - Jason


Notas iniciais
Gente, eu to tristinha com o número de Reviews, mas queria agradecer ao JSS, Thaaty e Isabel A que me motivaram a escrever esse capítulo!

— Ei, você está bem? — Ele perguntou.

Eu não conhecia aquela voz, não fazia ideia de quem era. Era claramente uma voz masculina e até bonita, mas desconhecida.

Levantei o rosto delicadamente, permitindo aos meus olhos verificarem quem era. A noite já caía e a grade fazia muita sombra ali, por isso toda a luz que chegava até ali eram reflexos do sol dourado prestes a se pôr. E mesmo em tons de dourado, dourado que nem início de verão, eu pude ver nitidamente o rosto dele.

Sua pele era levemente bronzeada — coisa rara pelas redondezas-, o que a luz dourada ressaltava, juntamene de seus olhos castanhos, que me lembravam chocolate. O cabelo moreno era quase um topete, mas ele não tinha cara de que usaria aquele penteado, mas mais parecia que tinha esquecido de cortar o cabelo, dormiu por cima dele e acordou daquele jeito. Era muito bonito, com uma carinha doce de criança.

— E-Eu... — Gaguejei. Pigareei em seguida — Estou bem sim. Só tive um contratempo.

Tentei dar um sorriso, mas com a cara toda melecada de lágrimas — eu devia estar que nem um espantalho ruivo -, acho difícil de ele ter acreditado.

— Hm, entendo. Deve ter sido um contratempo bem feio, hein? — Ele se levantou e pensei que fosse embora, o que qualquer pessoa normal faria, mas na verdade, ele se abaixou ao meu lado e sentou de joelhos dobrados encostado na grade.

Percebi que ele não ia embora tão fácil.

— Não precisa se preocupar. Só ajudei um estranho e depois ele praticamente me escurraçou por ter tentado ajudar.

— Sei o quanto isso é ruim. Mas por que veio chorar justo aqui? Quer dizer, eu nunca te vi andar no campus... — Ele pôs a mão atrás da cabeça e me lançou um olhar de lado, estava realmente interessado.

Ele podia ser realmente uma ótima companhia e era um rapaz bem bonito, mas isso não me importava agora. O dia já havia sido difícil o suficiente, por isso comecei logo a me levantar e dar a entender que ia embora.

— E nem vai me ver por aqui por um bom tempo, só no ano que vem. Foi justamente por ajudar esse cara que cheguei aqui atrasada e perdi os horários de matrícula. Olha, foi muito bom conversar com você, mas...

— É, isso seria uma pena...- Ele me interrompeu — Caso você não fosse amiga do chefe do departamento Um de diretoria, no caso, o que é responsável pelas matrículas. — Concluiu pretensiosamente.

Franzi as sobrancelhas em confusão. Chefe do departamento o quê? Eu nem conheço isso, muito menos esse cara.

— Mas eu não sou amig... — Me interrompi no meio da frase e meus olhos arregalaram por impulso.

Foi como se uma lâmpada tivesse brilhado em cima da minha cabeça que nem nos desenhos animados. A expressão do cara logo em seguida esclareceu ainda mais as coisas. Ele contraiu um sorriso e seus lábios foram para o canto direito do rosto, enquanto em seus olhos eu podia ler tudo.

— Mas por que você faria isso por mim? — Perguntei sorrindo involuntariamente.

— Ué, por que não? — Ele indagou se levantando e sacudindo a calça — Você mesma disse que ajudou alguém hoje. Por que não posso fazer o mesmo?

Ajeitei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e não conseguia parar de sorrir. Ele me lançou de volta um sorriso encantador.

— Jason Michigan. — Estendeu a mão amigavelmente — Mas só Jay pra você.

— Eliza Peters, mas prefiro Lizzie. — Apertei sua mão.

Aquilo ainda era meio surreal. Depois de um dia mais feio que bater em mãe, finalmente um alívio.

— Mas você não está brincando, está? — Me certifiquei. Quando as coisas começam a dar certo, sempre acho estranho — Quer dizer, vai mesmo fazer isso de graça?

Ele fez uma careta engraçada, quase fechou um dos olhos e contraiu os lábios fingindo estar pensativo.

— Bem, eu ia, mas já que você insiste, eu quero que aceite sair comigo na sexta. Não vai doer, eu prometo. — Jason riu e deu uma piscadela para mim.

Eu ri de volta. Ele era realmente bem legal. Balancei a cabeça indicando um si e começamos a caminhar.

— Você... Não é meio novo pra trabalhar aqui? Quer dizer, você devia estudar aqui, não trabalhar aqui. — Puxei assunto. Jason riu.

— Não, não tão novo. Carinha de criança, mas eu tenho 26. Já cursei uma faculdade aqui antes, engenharia da computação, e me formei, mas quis fazer outra, a de jogos digitais. No meio do curso, meus pais sofreram um acidente e morreram e eu quase enlouqueci. O professor Mayers se ofereceu para pagar meu curso, mas eu ainda precisava de grana pra aluguel, essas coisas. Me vieram ótimas ofertas, mas não tinha tempo pra trabalhar em grandes empresas, eu precisava estudar, então o Mayers me arrumou uma vaga no departamento. Não é grande coisa, mas eu estou sempre no campus, então ajuda muito. — Ele explicou calmamente.

Senti pena dele por um instante por causa dos pais. Era realmente alguém muito forte por não ter desistido de tudo.

— Poxa, eu... Eu sinto muito. Mas é uma história bonita. Eles teriam muito orgulho de você por não ter desistido da faculdade.

Jason sorriu de leve e olhou para o chão, com um certo pesar nos olhos, mas não estava triste.

— Mas e você, hein? — Indagou.

Ah, eu? Não tinha muita coisa pra falar, minha vida era a mais monótona do mundo até um mês atrás. Desde então que ela muda todo dia.

— Ah, eu... Tive uma infância feliz em Birmingham, não teve nenhum alienígena ou Doctor, nenhuma carta de Hogwarts ou tragédia, desculpa te decepcionar. — Falei meio desajeitada e arranquei uma gargalhada de Jason — Mas há uns meses descobri que meu pai estava traindo minha mãe e eles se divorciaram, por isso mudamos pra Southampton.

— É uma pena que tenha sido por esse motivo, mas que bom que veio. Já fez muitos amigos por aqui?

Suspirei. O Daniel não conta como amigo, certo?

— Não, nenhum ainda. Só tenho o meu primo Ben aqui. Você deve conhecer, é o Ben Watson.

No mesmo instante, Jason virou-se para mim com os olhos arregalados e a boca aberta num perfeito "O".

— VOCÊ É PRIMA DO BEN? DO BENNIE LENNIE? — Ele perguntou com um entusiasmo fora do normal.

Como assim Bennie Lennie?

— Bem, esse é o apelido dele de drag? — Eu ri bastante junto com ele, até a barriga incomodar — É, mas ele é meu primo sim.

— Ben é o meu melhor amigo. — Jason tirou do bolso um molho de chaves e abriu uma pequena porta. A conversa havia sido tão boa que não tinha reparado na caminhada — Depois pergunte a ele como conseguiu esse apelido, você vai rir muito!

Assim que abriu a porta e ligou o interruptor, algumas luzes de neon brilharam e eu me senti num fliperama. A sala era toda preta e escura, mas havia luzes com o Pacman brilhando, alguns pontinhos e um J bem no fundo, de neon azul.

— Uau, esse lugar é fantástico! — Exclamei maravilhada feito criança.

— É tudo uma criação minha, então obrigado. A sala é meio pequena e abafada, mas é meu cantinho aqui no campus. A sala do Departamento Um chamaria muita atenção a essa hora.

O tal cantinho dele era realmente pequeno e lotado de computadores e outras máquinas enormes que eu não fazia ideia que existiam, algumas bem legais, mas para mim era tudo a mesma coisa.

— É realmente bem legal, pena que não sei nada de informática... — Me lamentei com um biquinho.

— Você quer qual curso?

Jay sentou-se numa cadeira de frente ao computador principal e imprimiu uma folha em branco com algumas tabelas desenhadas.

Soltei um suspiro apaixonado.

— Jornalismo. Quero muito poder viajar, entrevistar pessoas, correr atrás de notícias...

— Combina com você, já que é curiosa. — Jason riu — Eliza, vou só precisar que você preencha essa folha com seus dados e me entregue. Só isso e você é oficialmente membro da Universidade.

Abri um sorriso enorme. Todos dizem que a faculdade é a melhor fase da vida... deve ter algum motivo.

Preenchi cada lacuna com cuidado. Nome, informações civis, pessoais, sociais... Finalmente, terminei minha matrícula e dei uma última olhada para ver se não faltava nada.

— É, Jay, acho que está tudo em ordem, tudo aqui. — Entreguei para ele o papel.

Surpreendentemente quando me virei, ele já estava me olhando e parecia ter feito isso todo o tempo que estive ali preenchendo o papel. Corei com essa hipótese.

— Ótimo, então deixa eu ver. — Arrancou o papel da minha mão e fez uma cara de inpetor malvado. Eu ri — Hm, Eliza Jean Peters, 17 anos, Birmingham, filha de Daisy Green e Gerrard Peters, classe média alta, sem irmãos e... Opa, achei uma coisa importante aqui, é solteira! — Brincou com certa alegria na voz e no olhar.

Eu ri, ri bastante enquanto ele gargalhava comigo. Jason era um cara fofo e engraçado ao mesmo tempo.

— E sobre sexta? Vamos mesmo sair? — Perguntou e eu murmurei um "aham" um pouco tímido — Ótimo, do que você gosta?

Fiquei um pouco pensativa. Os caras geralmente escolhem essa parte, né?

— Bom, eu gosto de hamburguer. — Dei de ombros. Não conseguia pensar em nada melhor.

— Ótimo, vou te levar no melhor Burger King dessa cidade! Aí a gente pode aproveitar que é bem na esquina da minha casa, e se você quiser a gente pode ir pra lá depois pra ter um pouco mais de privacidade.

Foi nesse instante que a ficha caiu. Ele podia ser uma das pessoas mais gentis que eu conheci em Southampton, mas ainda era um portador de textículos, e esse tipo de gente não faz nada assim de graça. Ele só queria sexo, não ia ser trabalho nenhum matricular mais uma garotinha recém-chegada.

— Espera... Você não... — Pisquei os olhos e balancei a cabeça ainda tentando negar, mas tudo já estava bem evidente — Quer saber, esquece essa história da matrícula, eu não sou desse tipo. E nem vou ser por causa de uma vaga na faculdade.

Me levantei da cadeira bruscamente e me virei para a porta. Argh, que ódio desses homens imbecis.

Então a mão de Jason segurou meu braço antes que eu pudesse alcançar a maçaneta e me colocou contra a porta, com os dois braços o dando apoio e me impedindo de sair dali. Mas que merda, por que todo mundo resolveu fazer isso comigo hoje?

— Ei, o que você tá pensando de mim? — Ele perguntou com uma expressão confusa.

Revirei os olhos e ri com deboche.

— Eu não sou uma dessas garotas que transa no primeiro encontro e nem que transa por causa de uma vaga na faculdade. Desculpa te decepcionar. — Ironizei.

— E eu não pensei que fosse, não pensei mesmo. Eu não fiz sua matrícula por pensar que você transaria comigo, se quiser nem precisa sair comigo, só... Não queria te deixar chorando ali no pátio.

Se tinha uma coisa fácil a respeito do Jason, era ver o que ele estava pensando ou sentindo através dos olhos dele. Coisa que nem em mil anos eu seria capaz de perceber em Daniel. E lendo aqueles olhos castanhos, eu pude ver que ele dizia a verdade em cada palavra.

— Você tá mesmo falando sério? — Indaguei.

Ele balançou a cabeça positivamente. Parecia um pouco inseguro.

— Olha, eu realmente achei você bem bonita e divertida desde o portão, mas não quero que saia comigo se não quiser, e nem que fique com uma impressão errada de mim.

— Desculpa. — Falamos em coro.

Comecei a rir daquela situação por ele ser estranhamente doce e eu estranhamente maliciosa, quando no início, parecia o contrário. Jason também riu e por um segundo tudo aquilo pareceu besteira.

Foi então que paramos de rir lentamente e nos encaramos por alguns segundos. Não sei exatamente o motivo. Tinha gostado de conhecê-lo. Admirei por um pequeno espaço de tempo aqueles olhos castanhos, quase perguntando ao dono deles o que iríamos fazer em seguida, mas a resposta veio mais rápido do que a pergunta: ele me beijou.

Por mais rápido que ele tenha trazido os lábios aos meus, não aconteceu de um jeito bruto. Foi... maravilhoso. Devagar, mas não o suficiente pra ser lento. Voraz, mas não o suficiente pra ser violento. Ele parecia concentrar toda a sua atenção naquilo e o fazia carinhosa e intensamente.

Merda. Como esse cara beija bem.

As mãos dele finalmente saíram da porta e foram delicadamente pousando sobre meu pescoço e a outra sobre minha cintura. Me puxou um pouco mais para perto dele e eu já estava num ponto em que não podia recusar. Pus uma mão em seu pescoço, bem onde seu cabelo estava mais ralo enquanto a outra passeava pelo seu peito. Pude sentir o coração dele bater forte, mesmo com a camisa.

O beijo talvez tenha ficado um pouco mais intenso do que eu gostaria, mas era bom demais para parar. Até que, por fim, lembrei que nós dois precisávamos respirar. O ar nunca fora tão desprezado quanto naquele momento.

Finalmente fiz com que parássemos e estávamos ambos ofegantes. Ele me segurava pela cintura e eu precisei usar um pouco de força para empurrá-lo pelo abdômen, por isso meus braços ainda estavam lá.

Quando nos olhamos, antes mesmo que eu pudesse rir, ele disse:

— Uau... Você podia vir se matricular mais vezes.

Notas finais
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