Reckless

3 Capítulo 2 - Briga de Gangues


Notas iniciais
Heeey gente! Mil desculpas pela demora, é que eu viajei de férias durante esse tempo e agora to em SP! Haha, se tiver leitoras aqui da cidade, me mandem MP que essa é minha última semana aqui, aí a gente pode combinar de se ver ;D mas voltando à fic, eu particularmente achei o capítulo meio chatinho, mas o final é muito legal :3 espero que gostem, boa leitura!

— Solta ela, Brian, a menina não é pro seu bico!

Eu respirava ofegante por conta da adrenalina que ainda percorria meu corpo. Se pudesse medir o alívio que meu coração sentia nesse exato momento, creio que não existiriam números ou letras suficientes que pudessem expressar. Ainda assim apertei os olhos, os fechando, talvez sem a capacidade de acompanhar a rapidez e gravidade dos fatos. Acabara de ser salva por um completo estranho, depois de quase ser estuprada por outro estranho; era muita informação pra uma noite só.

[N/A: Foi estupro sim, galera. Nossa dear Eliza que ainda não sabe]

Um pequeno círculo de pessoas se aglomerava ao meu redor, e isso me fazia acreditar que eu não abriria meus olhos tão cedo. A situação desesperadora de ter sido violada na frente de vários universitários era a única coisa maior do que a descarga de vergonha que eu sentia agora mesmo. E o nojo, provavelmente até de mim mesma.

— Quem você pensa que é? O guarda-costas da menina? Cai fora, Daniel! — Falou o loiro, em tom desdenhoso.

— Você não devia discutir com um de seus fornecedores, cara... ou esqueceu que eu conheço seus pontos? Posso acabar com seu joguinho de olhos fechados, se quiser.

Daniel devolveu com tamanha frieza que fazia o inverno londrino parecer uma sauna. Ele tinha a voz firme e permitia que através dela transparecesse uma raiva de Brian que nem eu sei explicar de onde veio.

Brian passou alguns segundos calado e sua hesitação se sentia no ar. Um pouco mais calma, mas não menos ressentida, abri os olhos lentamente e senti o olhar de Brian queimar em raiva e ódio, mas vi que ele não podia argumentar mais nada diante daquilo.

— É melhor não cruzar meu caminho de novo, Daniel, eu estou avisando... — Brian rosnou.

— Que seja — Respondeu ele, indiferente.

Daniel virou-se para mim, com uma expressão de pouco caso, e me analisou de cima a baixo com uma sobrancelha arqueada.

— Vai ficar aí parada? É melhor vir comigo.

Eu olhava para todas aquelas pessoas e me sentia a menor delas. Uma criatura suja e indigna de estar ali no meio das outras. Eu me sentia repugnante diante de quem quer que fosse e estava provavelmente toda descabelada e com a roupa amassada e bagunçada. Era uma situação lastimável, especialmente quando todas as pessoas que estão te encarando não fizeram nada para te ajudar diante de tamanha crueldade.

Em situações desse tipo, de extremo estresse, há pessoas que são influenciadas pela adrenalina a raciocinarem mais rápido e encontrarem formas mais práticas de sobrevivência e há aquelas que, pelo mesmo motivo, congelam e não têm nenhuma atitude ou reação. Infelizmente, eu pertenço ao segundo tipo. Não conseguia falar, nem chorar, nem sair correndo dali para o lado de fora e simplesmente me enterrar no jardim. Fiquei parada me sentindo humilhada e envergonhada.

Eu olhava para Daniel e para os outros. E de novo para Daniel, e de novo para os outros. Era quase enlouquecedor. Minha cabeça não me deixava livre de imaginar o que eles estavam pensando. Todos eles obviamente se lembrariam daquilo. Se lembrariam de mim como "a garota estúpida que o Brian pegou à força". Como eu iria andar naqueles corredores em algumas semanas com toda aquela carga em cima de mim? Como eu conseguiria me olhar no espelho enxergando ainda a mesma Eliza, com a mesma identidade de antes? Me sentia violada e agredida na mais alta instância. Meus olhos, presos nos de Daniel, clamavam silenciosamente por uma ajuda que estava além da que eu podia dar a mim mesma.

Não sei explicar o que estava por trás de seus olhos. Daniel parecia um cubo mágico ambulante, mas eu olhava para ele e sentia, além de tudo, uma grande dose de humanidade. Vi quando ele tirou sua jaqueta de couro preta e a colocou por cima dos meus braços, ainda comigo estática ali. Ele parecia ter entendido meu pedido de socorro. Colocou cada uma de suas mãos em meus respectivos ombros e foi lentamente caminhando ao meu lado, empurrando um pouco os meus ombros para que eu conseguisse andar, uma vez que meu estado catatônico nem sequer permitia que eu fizesse isso sozinha.

A multidão abria um corredor para que ele passasse, sem que ninguém dissesse nada, e pude testificar o quão temido ele era. Eu seria capaz de beijar os pés dele por fazer isso por mim, me tirar daquele lugar hostil andando ao meu lado, porque pelo menos assim eu poderia me sentir um pouco mais respeitada diante de toda aquela gente. A música não havia parado de tocar, mas tudo para mim estava silencioso desde que aquela odisseia começara.

Hesitante e insegura, eu o segui. Daniel acabara de me salvar de um aparente estupro, confiar nele estava muito além de ser uma opção.

Em poucos passos saímos do salão e finalmente pude inalar um pouco de ar fresco. O dia estava um tanto nebuloso e o ar gélido me gerava um congelamento de fora para dentro, além daquele que eu já sentia vindo direto do meu âmago.

— Respira fundo.

Enquanto disse isso, Daniel segurou minha mão — que não estava menos fria do que a dele — e foi me ajudando a descer com calma alguns poucos degraus que haviam logo na saída. Foi então que ele continuou a me conduzir até a parte de trás do salão, onde havia um jardim e o som já não parecia mais tão alto. Com a mão, ele levantou meu queixo de forma que meus olhos — que miravam o chão há um bom tempo — se encontrassem com os dele, aqueles claríssimos olhos azuis acinzentados.

— Não se sinta culpada. Não sei como está se sentindo, mas sei que não deve ser nada bom. Só... saiba que a culpa não é sua.

Foram essas as últimas palavras que ouvi dele. Daniel prosseguiu a fala, mas meu cérebro optou por não lhe ouvir. Culpa. Era essa a palavra que ecoava na minha mente e me fazia ver os lábios de Daniel mexendo sem fazer questão de saber o que eles diziam. Culpa. Era a palavra mais próxima de expressar o que eu sentia agora.

Culpa. Talvez se eu tivesse ficado em casa com a minha mãe, isso não tivesse acontecido. Ou mesmo que eu viesse... podia ter esperado Ben do lado de fora. Uma menina magrela e vulnerável como eu entrar num ambiente hostil e horripilante daqueles, com gente que ela sabe muito bem do que é capaz, é praticamente pedir pelo que aconteceu. Quem sabe se eu não tivesse usado um vestido, o Brian nem sequer me notasse... Ou se eu tivesse aceitado ficar com o Ben, ele poderia me proteger e nada disso teria acontecido.

Meu Deus, o Ben! O Ben, como eu não pensei nele? Será que alguém vai acabar comentando com ele? Será que vão descobrir que somos primos? Se o Ben ao menos sonhar com uma coisa dessas, ele é capaz de decapitar o Brian com uma caneta. Nem em última hipótese o Ben pode saber de uma coisa dessas, não dá pra contar pra ele.

E pra minha mãe? Não, ela já tem problemas demais. Provavelmente uma hora ia me culpar, outra hora ia chorar junto comigo e depois iria me tratar com pena. A tia Maisie... ela não merece aguentar mais outra carga minha. E eu fico, novamente, sozinha com a minha culpa.

— Você entendeu, garota? — A voz firme e grave de Daniel me arrancou dos meus delírios.

Como que num estalo, eu acordei e ele me olhava com olhos furtivos. Eu não ouvira uma palavra sua.

Estava tão atordoada, tão desesperada sem saber o que fazer, que imediatamente levei minhas duas mãos ao rosto, o tampando, cobrindo meus olhos que começavam a derramar rios de lágrimas.

— Me... desculpa... — Foi tudo o que consegui balbuciar com a voz embargada por um soluço descomunal.

Eu me arrepiava por inteira sentindo-me nua diante de toda a humanidade. Era muita vergonha, nojo e culpa que me afligiam no momento.

Me encolhi toda perto da parede, sentindo minhas costas, ainda vestidas pela jaqueta de Daniel, deslizarem por ela e meu bumbum tocar o chão. Eu mais parecia uma criança em posição fetal que chorava copiosamente. Meus joelhos comprimiam meus braços, que comprimiam meu rosto com as mãos e cobriam meus olhos de enxergar qualquer coisa naquela hora. Sentia meu corpo tremer e sacolejar nos tijolinhos.

E agora?

Ainda que abafado, ouvi um som se aproximar. Eram passos que logo pararam. Depois, ouvi o som de um outro tecido se arrastar pela parede e o calor de Daniel se fez sentir ao meu lado.

Ele bufou.

—Por que — soluço— fez aquilo? — Perguntei.

Daniel passou um tempo em silêncio.

— Bom... digamos que se um lobo ataca um cordeiro, só outro lobo pode pará-lo.

Franzi as sobrancelhas um pouco confusa com a parábola.

— Alguns lobos não são tão maus — concluiu.

Ele forçou um sorriso, mas que mais pareceu uma feição raivosa. Claramente se percebia que ele não tinha prática em sorrir, o que, em meio a todo aquele caos, me tirou uma gargalhada.

Daniel bufou outra vez e praticamente num pulo se reergueu. Passou as mãos por suas calças para tirar um pouco da terra e me encarou de cima.

— Você já percebeu que não é do meu feitio ajudar garotinhas indefesas. — quis furar meus próprios olhos com garfos quando ouvi a expressão que ele usou para se referir a mim — Não sei bem o que dizer ou como ajudar... enfim, se quiser mais alguma coisa, eu só posso te oferecer uma carona.

Ele me olhava de cima com uma expressão quase que indiferente. Era altamente corrosivo para mim tentar adivinhar o que se passava por trás daqueles enormes olhos cinzas, além de ser impossível.

— Eu não sou uma garotinha indefesa.

Riu, sarcástico.

— É, deu pra ver. Só me diz logo se vai querer a carona, porque tenho que ir embora.

Olhei para os lados me perguntando se tinha alguma opção melhor. Droga. Odeio ter que passar por cima do meu orgulho quando preciso de algo. Especialmente quando esse algo depende de alguém como Daniel.

— Eu... vou com você.

~o~

Limpava algumas lágrimas praguejando a mim mesma mentalmente por ter chorando tanto. Acho odioso o estado em que fico depois de chorar; é algo que não dá para explicar. Parece que empurraram um secador de cabelo na sua goela e depois tiraram ele pelo nariz. Fico toda trêmula e com alguns espasmos que parecem soluços, mas não são.

Olhei de relance para o retrovisor do carro e vi a mim mesma ali. Indiscutivelmente acabada, com olhos e bochechas parecendo o himalaia de tão inchados. Encarei meus próprios olhos azulados enquanto pensava algumas coisas comigo mesma.

Sou só eu agora. E chorar não vai resolver nada... Eu vou deletar isso da minha cabeça. Apagar. E mais todos os verbos que denotem esquecimento. Fingir que foi só um estado entre o sono e o acordar e que aquilo não passou de um pesadelo. Sem Brian, sem toques indesejados, sem um corpo violentado. Você não foi vítima de nada. Porque não aconteceu nada. Aquelas lembranças são lembranças ilusórias que minha mente criou para me atribular. Só e apenas isso.

[N/A: Nossa poor Lizzie passa por um fenômeno psicológico chamado virada maníaca, que será explanado nos próximos capítulos. Ela vai parecer se recuperar logo, mas não se enganem, é uma cilada, Bino]

— Onde você fica?

A voz de Daniel quebrou o silêncio. Olhei para ele, mas seus olhos continuavam absortos na avenida. Estava sério e inerte.

Tinha passado tanto tempo focando em mim mesma, que esqueci de sua presença no carro. Desculpa, um carro, não, um Mini Cooper.

E foi dentro do Mini Cooper adorável de Daniel que eu me lembrei de ser uma completa babaca por não ter lembrado de que me mudei há poucas horas. Não sei ao menos chegar no McDonald's mais próximo, quanto mais na casa de tia Maisie...

— Eu... não faço a menor ideia.

Senti minha massa cinzenta brincar de montanha-russa quando Daniel freou bruscamente o carro e meu corpo projetou-se para a frente com brutalidade.

— Como assim não sabe? Você é demente ou algo do tipo? — Exasperou.

Eu poderia ter ficado quieta ou ter sido gentil na resposta, afinal o carro e a gasolina eram dele. Mas poderia é uma palavra conjugada no pretérito imperfeito do verbo "posso, mas não vou".

— Ora, eu não pedi para você me dar carona! Fez isso porque quis, agora se vira.

Daniel me olhou com repreensão.

— Só sei que a casa é perto do Crab & Sons.

Crab & Sons era um pub perto da casa da tia Maisie. Lembro-me de querer ir lá muitas vezes por ter uma estética adorável, Daniel devia conhecer.

— Ótimo, uma criança sem senso de direção... — Murmurou traçando os dedos pelos cabelos lisos e morenos enquanto bufava.

— Não sou uma criança.

Daniel devolveu minha sentença com um olhar desdenhoso e um "jura?" pronunciado baixinho.

— Crianças não andam com traficantes de drogas — Retruquei, impaciente.

Olhou-me com o cenho franzido, em sinal de confusão.

— Como sabe com o que trabalho?

Encolhi os ombros e tentei dar uma de discreta, mas acabou saindo um pouco mais ridículo do que gostaria.

— Tenho meus contatos.

Daniel riu.

— Foi aquela moça do bar que te contou?

Me encontrava boquiaberta, perguntando-me se ele estava mesmo me observando aquele tempo todo.

— Como sabe disso?

— Tenho meus contatos.

Bufei com raiva dele por ter usado a mesma resposta que eu e cruzei os braços em descontentamento enquanto ele parecia achar graça.

Não demorou muito, chegamos ao Crab & Sons. Pedi para descer ali mesmo murmurando um "obrigada". Ainda que fosse literalmente do lado da casa da tia Maisie, não queria que ele soubesse qual a casa dela e queria muito menos dar explicações sobre o cara que me trouxera até em casa, por isso esperei que seu Mini Cooper sumisse no horizonte para eu poder entrar em casa.

Ao chegar, reconheci um rosto por trás do vidro da janela, e esse alguém sorria para mim. Tia Maisie estava sentada numa poltrona com uma xícara de chá em suas mãos, para combater o início de uma noite fria.

— Pensei que fosse voltar com o Ben — Ela disse.

— É, eu também. — Sorri — Mas ele preferiu prolongar a noite, então voltei primeiro.

— Quem te trouxe até em casa?

Eu pensei em mentir e dizer que tinha vindo a pé, mas o campus ficava no mínimo a uns 8 quilômetros da casa de tia Maisie, e eu jamais caminharia isso tudo. Pensei numa mentira menos escandalosa e resolvi arriscar.

— Eu... peguei carona com uma amiga do Ben.

Tia Maisie levantou-se do sofá trazendo um sorriso misterioso nos lábios.

— Você é uma péssima mentirosa, Lizzie... — Falou quando se aproximou de mim.

Senti as bochechas esquentarem enquanto ela seguia seu caminho até a cozinha, mas não pareceu ter terminado de dar o recado.

— E além do mais, eu vi o bonitão que te trouxe até aqui. Você não é boba, menina.

Corei violentamente. Ela tinha visto o Daniel, que coisa maravilhosa. Agora é só torcer para ela não descobrir o ofício dele.

Corri para o quarto e me enfiei debaixo das cobertas. Me recusava violentamente a pensar no que acontecera naquela tarde. Aliás, nada tinha acontecido. Nada. Esquecer é o primeiro passo para superar.

Ainda assim, minha cabeça girava. Passo 17 anos enclausurada numa cidade mediana com uma vida igualmente mediana e no meu primeiro dia em Southampton, já sentia meu mundinho andar pelo teto.

Vestidos, festas na faculdade, caras bêbados, lobos, cordeiros, Mini Cooper... e Daniel. Não necessariamente nessa ordem, foram os pensamentos que me sobrevieram antes que eu caísse irreparavelmente no sono.

~o~

3 dias depois.

(ainda passando pela sintomática virada maníaca de "esquecer" o trauma — vocês já já entenderão)

— Tem certeza de que vai ficar aí? Eu posso te deixar na porta da faculdade, se quiser.

Sorri para Ben e balancei a cabeça de forma negativa.

— Não, não precisa. Hoje tudo tem que sair perfeito, não é? Não quero que se atrase! — Falei ajeitando o nó de sua gravata.

Hoje é o dia. Ben fará uma entrevista de emprego numa das maiores multinacionais do país, e não queria fazê-lo cometer nenhum deslize. Ele estava mais feliz do que eu numa loja de revista em quadrinhos, e olha que isso é bem difícil.

Ben deu um beijo estalado em minha bochecha, mostrando-me um sorriso em retorno.

— Então vai lá, você também não pode perder tempo hoje, Liz.

— É, você tá certo. Até a hora do almoço.

Devolvi o beijo em seu rosto e desci do carro. Faltavam apenas uns seis quarteirões até a faculdade, não era assim tão longe.

E por que Ben disse que eu também não poderia perder tempo? Bem, hoje eu faria minha matrícula na faculdade, no curso de Jornalismo. É, eu sei, não é nada tão excitante assim, mas é como me enxergo sendo feliz.

Fui caminhando pelas ruas de Southampton apreciando os ares da minha nova cidade. Tudo lá parecia mais verde, as pessoas, mais alegres e tudo parecia dar mais certo ali, e eu esperava que comigo fosse assim também.

Já faltavam apenas umas cinco quadras quando me dei conta de uma estranha movimentação do outro lado da rua. Eram alguns caras vestidos de preto que formavam um círculo fechado como se estivessem tentando esconder algo, uma coisa bem errada. Percebi que eles olhavam para os lados observando se não vinha ninguém, e me escondi atrás de uma árvore para não ser notada.

Um calafrio mais longo e gélido que o normal percorreu meu corpo. Eles eram enormes, talvez o mais fracote fosse pelo menos o triplo de mim, uma menina magrela de estatura média. E o que eu estava fazendo tentando espioná-los em vez de dar meia volta e ir embora? Bem, eu ainda não tenho a resposta dessa aí.

Resolvi pensar mais um pouco sobre isso ali mesmo no meu esconderijo. Agora já era, se eu for embora, definitivamente vou ser vista, pensei, agora só me resta ficar aqui e esperar que eles vão embora.

Quando os homens fizeram menção de ir embora, afastando-se do centro do "círculo", percebi que havia alguém ali no meio, um outro cara estatelado no chão. Os brutamontes o acertavam com socos, pontapés e chutes em todas as partes do corpo e por muito pouco eu não fui lá impedir que algo pior acontecesse.

O grupo analisou mais uma vez a região e eu acreditei ter sucesso naquele esconderijo, afinal nem suspeitaram de mim. Já podem me chamar de Eliza Holmes, se quiserem. Eles pareciam gritar com o homem lançado ao chão, e por mais que estivessem do outro lado da rua, não conseguia entender o que diziam. Parecia um outro idioma, uma coisa bem diferente do que estou acostumada.

Quando pensei que iam embora, a sessão de golpes violentos voltou, e percebi que caso alguém não fizesse alguma coisa, o homem ali jogado iria acabar morrendo. Minha aflição só crescia e a cada segundo eu tinha mais vontade de intervir. O que estava apanhando levava mesmo a pior, se contorcendo no asfalto e com uma poça de sangue ao seu redor. Esquerda, direita, não tinha ninguém mais na rua. Se não fosse eu, não seria mais ninguém. Tinha que ser eu. Merda.

Ele podia ser quem fosse ou ter feito qualquer coisa de errado, mas ninguém merece apanhar de uns covardes brutamontes desse jeito, por isso, tomei 20 segundos de uma coragem insana e totalmente inconsequente e saí andando de trás daquela árvore como se estivesse num filme de ação e Chuck Norris estivesse ao meu lado, junto com o Daryl Dixon. Cá entre nós, eu realmente estava imaginando isso.

— VOCÊS SÃO TÃO COVARDES ASSIM? A PONTO DE SOCAREM TANTO O RAPAZ E DEIXÁ-LO SEM NENHUMA CHANCE DE DEFESA? — Berrei com minha melhor expressão de ódio.

Eu estava a pelo menos uns 5 metros daqueles homens, e tinha medo de me aproximar mais do que isso, mas talvez essa distância tenha me feito reparar numa coisa muito importante. Muito importante mesmo.

Enquanto rolava os olhos entre cada um daqueles homens — que agora me olhavam debochadamente -, parei meus olhos também sobre o pobre rapaz caído no chão. Ele não era ninguém mais, ninguém menos que o próprio Daniel.

Estava com um corte feio no supercílio e sua boca e nariz sangravam bastante, mas ainda dava pra reconhecer.

Engoli em seco quando percebi que era ele e acabara de me dar conta de outro fato bem importante: eu estava acabando de presenciar uma "briga de gangues", só que bem mais envolvida nisso do que gostaria.

Notas finais
Ok, o que acham que tem que acontecer? AAAAH, gostaram? Cara, a opinião de vocês é MUITO importante pra mim, então não deixem de comentar, ok? Valeu gente, beeeeijos!