Reckless

13 Capítulo 13 - Mayflower


Notas iniciais
Gente, a música do capítulo! Sintam-se abraçados e beijados ♥ https://www.youtube.com/watch?v=E4povfmX144&index=5&list=PLjOLZVat-eRA6oZ8N5KfbfWvMjURJht2B

10h da manhã. Foi a primeira informação com a qual me deparei no dia. A segunda, foi um bilhete de Claire que dizia assim:

"Lizzie,

Preciso trabalhar hoje durante a manhã e a tarde, então você pode ficar tranquila e aproveitar o dia como quiser. Volto à noite. Sinta-se à vontade para ficar em casa e comer/usar o que quiser.

Beijos, Claire

Ps: deixei um chave reserva debaixo da cafeteira"

Ótimo! Assim, eu teria o dia todo para me planejar com precisão e tentar fazer algo produtivo durante o tempo livre. Estava gostando da ideia! Mas antes, precisava de um bom café da manhã para me inspirar.

Quando levantei, senti até a coluna da minha alma estralar. O sofá era meio desconfortável, mas tudo bem, tinha valido à pena. Me alonguei e caminhei até a janela mais próxima. Assim que abri as cortinas estampadas e coloridas da Claire, enfeitadas por todo tipo de penduricalho, me deparei com uma das mais belas manhãs de inverno que já havia visto na vida. O sol estava à mostra, mas a temperatura ainda parecia agradável. Várias pessoas caminhavam na rua, sorriam, algumas cuidavam de jardins e toda a vizinhança pareceu acordar junto com o abrir da cortina. Era algo lindo de se ver. Me senti completamente renovada e com energia cheia para aproveitar o dia. E por que não conhecer a cidade? Me pareceu uma ideia incrível. Decidi o que iria fazer: ir atrás de pontos turísticos, bairros periféricos, lugares históricos, ruas antigas... Southampton tinha muito a me oferecer, afinal!

Mas antes de tudo, fui correndo atrás de um caderno, um bloco de notas ou qualquer coisa para anotar tudo o que eu sabia sobre a cidade e tudo o que eu iria aprender durante o dia. Achei um bloquinho fofo com páginas envelhecidas e capa dura no armário da TV. Devia servir. No entanto, me vi num impasse: eu realmente não conhecia nada da cidade. Tudo o que eu havia visto ou ouvido eram vagas memórias da infância ou breves momentos com o Daniel. Daniel. Ele era tudo o que eu sabia nos últimos dias. Involuntariamente, comecei a escrever, como se meus dedos ganhassem vida e minha mente pudesse finalmente falar por si própria. Sinceramente, por mais que eu não soubesse o que estava escrevendo, era uma delícia a sensação da criatividade fluindo.

Alguns segundos depois, eu parei. Me perguntei o que realmente estava fazendo e tudo o que tinha era um papel com as seguintes anotações:

— Daniel Austin Woods, 19 de dezembro de 1991 (25 anos)

— Filho de Sidney Olsen e Joshua Woods (Irmãos: desconhecido; Família: desconhecido)

— Só veste preto e sempre anda com uma jaqueta de couro

— Gosta de carros esportivos

— Fã de Beatles e Queen, mas prefere The Who

— Pé provavelmente 43

— Bom em química e aparentemente em física

— Fã do Nelson Mandela

— Colecionador de moedas

— Cria ao menos um cachorro

— Prefere filmes cultos a besteirol

Ironicamente, apenas observações sobre Daniel. Eu não conseguia pensar ou escrever em mais nada que não fosse ele. Suspirei em frustração. Mas, como acontece nos desenhos animados, eu senti uma lâmpada brilhar sobre a minha cabeça e tive uma epifania: faria de Daniel meu objeto de estudo. Iria passar tempo com ele, descobrir quem ele realmente era, investigá-lo em cada área da sua vida e descobrir como eu me sentia em relação a isso tudo. Acho que foi o que Claire tentou me dizer ontem, mas agora eu via tudo com mais clareza.

Animada, esquematizei tudo na minha mente. Era só tomar o café e sair para conhecer a cidade e um de seus ilustres habitantes, Daniel Woods.

Tomei uma xícara de café e continuei observando pela janela. Havia uma velhinha cuidando de trepadeiras e roseiras que decoravam sua casa bem na frente da casa da Claire. Um outro vizinho de meia idade passeava com um belíssimo Husky pela rua e assim eu ia analisando o lugar e as pessoas até me deparar com um carro estacionado, mas que estranhamente parecia ter um passageiro. Estreitei os olhos. Era um conhecido meu: aquele Porsche preto jamais me passaria despercebido. E, dentro dele, estava Daniel, caído sobre o volante.

Sem hesitar, larguei minha xícara de café, peguei a chave reserva que Claire havia deixado e fui correndo até a rua para averiguar o que tinha visto.

De fato, era Daniel. Ele estava com os braços cruzados sobre o volante e a cabeça encostada neles, numa posição ainda mais desconfortável do que a minha no sofá. Ele estava ali desde quando? Essa e outras perguntas me ocorreram até que notei que os vidros do carro estavam abertos, mais ou menos uns dois ou três dedos. Ou seja, ele não havia dormido ali por acaso. Era algo proposital. E ele sabia que passaria muito tempo, pois abaixou os vidros para não ficar sem ar. Considerei a hipótese de que ele houvesse passado a noite ali. Só para confirmar, caminhei até o outro lado da rua onde estava a adorável senhora que aguava suas plantas, com quem comecei um breve diálogo:

— Bom dia, Sra.

— Bom dia, moça — Ela respondeu contente — Posso ajudar em alguma coisa?

— Ah, sim, eu gostaria de saber se aquele carro está ali há muito tempo. Acabei de acordar e acho que deixei meu namorado esperando desde cedo... — Sorri amarelo ao inventar tal desculpa esfarrapada.

A velhinha sorriu.

— Parece que se atrasou muito mesmo. Já são quase 11h e esse carro está aí desde que acordei, mais ou menos às 7h.

— Devo ter perdido a noção de tempo e sono. Muito obrigada, Sra.

— Por nada!

Ao virar-me de costas, não pude evitar que um sorriso de formasse. Saber que Daniel havia passado a noite ali me encheu de segurança e alegria. O segundo sentimento, eu não sabia bem por que. Caminhei até o carro e o observei novamente. Dessa vez, grata a ele e achando graça em sua teimosia de ter passado a noite ali.

Decidi recompensá-lo ao menos com um bom café da manhã. Voltei à casa da Claire e preparei uma tigela de cereais acompanhada de torradas amanteigadas. Não conhecia muito bem o gosto dele, mas me esforcei. Peguei mais um iogurte e uma xícara de café, arrumando tudo da forma mais fofa que podia.

Já do lado de fora da casa, me abaixei um pouco para ficar da altura do vidro do carro quando ele acordasse. Eu pagaria qualquer coisa para ver a cara que ele fizesse quando me visse ali. Dei três batidinhas leves com o dedo no vidro e imediatamente, como num pulo, ele se desligou do sono e olhou intrigado para a janela em que eu estava. Sorri para ele.

— Bom dia, raio de sol — Cumprimentei, com um sorriso orgulhoso.

— O que está fazendo aqui? — Daniel retrucou após alguns segundos.

Seu cabelo bagunçado conferiam a ele uma aparência diferente de tudo o que eu já tinha visto. De certa forma, ele já não me parecia mais tão tenebroso quanto das primeiras vezes que nos vimos. No momento, ele parecia apenas um cara que tinha dormido no carro por descuido. De uma forma incrivelmente linda.

— Eu que devia te fazer essa pergunta. Sabia que posso ligar pro departamento de polícia e dizer que você está me seguindo?

Daniel fez uma careta e eu ri em seguida.

— Só porque foi educado e me deu bom dia, vai ganhar um café da manhã — Apontei para a bandeja, acreditando que ele ainda não havia visto e falando em tom irônico.

Em vez de abrir a janela, Daniel apertou o botão de destravar as portas e fez sinal com a cabeça para que eu entrasse. Fiz como ele queria e sentei-me no banco do carona.

— Às vezes você me irrita por ser tão afeiçoada às boas maneiras — Se queixou assim que eu fechei a porta.

Imediatamente, ele pegou a xícara de café e deu um generoso gole.

— Às vezes você me irrita simplesmente por existir — Respondi.

Daniel fez cara feia. Provavelmente, levou a sério o que eu tinha dito, o que fiz questão de justificar.

— Mas de uma forma legal.

Ele balançou a cabeça e riu. Aparentemente, seu humor era melhor de manhã.

— Então — Perguntei enquanto ele atacava o iogurte e as torradas, inclusive mergulhando um no outro -, já viu como o dia está bonito hoje?

— O que foi? — Daniel indagou de boca cheia — Em Birmingham não tem sol?

Rolei os olhos.

— Seu mau humor não vai estragar meu dia. Não hoje.

— Definitivamente, seu café melhorou o meu. Essa torrada tá muito boa. Foi você que fez? — Perguntou enquanto devorava a última de uma maneira engraçada.

— Sim, fui eu. E acho meio nojento você mergulhar a torrada no iogurte — Confessei.

— Eu acho meio nojento você ser de Birmingham e nem por isso fico jogando na sua cara — Respondeu ele, mas de uma forma não ofensiva, o que me provocou uma gargalhada.

— Você é insuportável. É sério.

Daniel riu.

— É a minha melhor qualidade.

De certa forma, ele estava mais aberto e menos introspectivo naquela manhã. Por mais que mantivesse o tom sarcástico de sempre, eu podia ver que ele não falava para ofender. E gostava daquilo. Sentia que não éramos mais dois estranhos.

Puxei o caderninho do bolso da minha jaqueta e anotei, abaixo de todas aquelas informações sobre o Daniel, "— Come torradas mergulhadas no iogurte. E provavelmente não gosta de leite" deduzi, já que ele não tinha sequer tocado no leite.

— Que negócio é esse? — Ele questionou.

— Ah, não é nada — Menti — Coisa de jornalista mesmo.

Ao menos, tentei consertar. Ele acreditou.

— Você passou a noite aqui?

Mesmo sabendo a verdade, eu queria ouvir o que ele tinha a dizer sobre ter passado a noite lá. Percebi que isso o deixava constrangido quando ele hesitou em sua resposta. Nota para meu caderno: Daniel é sempre orgulhoso demais para admitir que tem algum sentimento.

— Eu tive que resolver alguns problemas durante a madrugada, e coincidiu de parar por aqui. Digamos que não era um bom momento para voltar para casa. Aqui é bem tranquilo durante a noite e resolvi ficar — Deu sua resposta em frases quebradas.

Bufei.

— Então quer dizer que você se preocupa num dia e faz um alvoroço dizendo para eu não dormir aqui porque não é seguro e depois você mesmo dorme porque é um lugar tranquilo? — O peguei em sua própria mentira; Daniel não disse nada — Não quer mesmo que eu acredite nisso, né?

— Se eu dormi ou não aqui, que diferença faz? Sou eu quem protejo você, não o contrário! — Retrucou, cheio de si.

Minha feição se montou como que num misto de surpresa e ironia.

— E o que te faz acreditar que eu preciso de alguém que me proteja? E se eu simplesmente quiser um amigo, Daniel? Você pode ao menos tentar fazer esse papel?

— É claro que eu posso. Me chame pra noite do pijama quando não estiver ocupada sendo caçada por uma gangue de bandidos ou com um pai maníaco atrás de você — Devolveu, sem um pingo de compaixão.

Corri minhas mãos pelo cabelo, já farta de tantas brigas. Não queria que aquilo continuasse daquela forma. Não com o Daniel.

— Então vamos tentar. Por um dia, um único dia em que você não tem que me proteger, e eu não tenho que agir como a princesa do conto de fadas que é salva pelo príncipe num Porsche. Você pode ao menos se esforçar para isso?

Daniel respirou fundo. Ele me parecia sem objeções e argumentos, totalmente desarmado. Eu não queria brigar mais com ele. E queria que ele soubesse disso. Mas não iria dizer, porque, feliz ou infelizmente, nós devíamos ter a mesma dose de orgulho em nosso sangue.

— Ok, princesa. Aonde quer ir?

Ignorando a ironia do novo apelido, eu simplesmente pedi a ele que me levasse para qualquer parte da cidade que o trouxesse alguma boa memória ou que simplesmente fosse importante para ele. Seguimos silenciosamente até onde quer que ele estivesse nos levando.

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— Que lugar é esse? — Indaguei quando estacionamos.

— O que parece? É um teatro, óbvio — Debochou Daniel.

Grunhi para ele.

— Eu sei que é um teatro, mas por que aqui? O que tem de especial?

Daniel, ainda sentado no banco do carro, olhou para mim de uma forma terna, como se, de fato, tivesse levado a sério a ideia de tentar agir normalmente comigo por um dia.

— Você vai ver.

Para mim, obviamente, o lugar era desconhecido, mas podia dizer que estava diante de uma gigantesca e bela construção provavelmente datada do século XX. Se tratava do Teatro Mayflower, um enorme prédio de cinco andares — ao menos pelo que se via do lado de fora — de cor cinza com detalhes em vermelho e alguns cartazes, além do enorme letreiro. Era realmente muito bonito.

Descemos do carro juntos. Daniel caminhou até a portaria e depois até mim com um sorriso.

— Não há espetáculos marcados para hoje. Temos o teatro só para nós por enquanto.

Sorri de volta. Algo naquele lugar realmente o deixava mais feliz, mais vívido, eu só não sabia o quê ainda.

— Ok, se prepare, porque depois que conhecer o teatro Mayflower, sua vida nunca mais será a mesma — Ele anunciou assim que passamos da porta, quando apenas uma cortina estava entre nós e o grande teatro. Respirei fundo — Está pronta?

Eu assenti, extremamente ansiosa. Quando Daniel levantou a pesada cortina, eu tive a sensação de ser reduzida a um mínimo grão de areia visto a grandeza daquele lugar. Cadeiras vermelhas se estendiam a uma profundidade tão grande que eu praticamente não enxergava o seu fim. O grande palco era feito de mármore branco, assim como todas as estruturas internas do teatro. As luzes antigas e amareladas davam um charme inglês ao lugar de uma maneira clássica e tão romântica que senti meu fôlego ser tomado de mim. FInalmente, o teto tão azul como o céu, enfeitado por esferas douradas, me cativou como nenhum outro lugar havia feito antes. Eu olhava para cima e para baixo, para as cadeiras suspensas, o palco, as cortinas e janelas, como uma criança quando vai ao parque de diversões pela primeira vez. Era demais para mim. Toda a beleza e fortuna do teatro Mayflower praticamente me abraçaram naquele momento e eu senti, mais do que nunca, que Southampton era o meu lugar.

— Daniel... Isso é... Uau! — Entre exclamações e reticências, era tudo o que eu conseguia dizer.

Ele estava ao meu lado, rindo e me observando tão fascinada por aquele lugar mágico.

— Eu acho que quero morar aqui! Esse lugar é muito lindo! Imagina todas as peças que já aconteceram aqui, todas as pessoas importantes que já sentaram nessas cadeiras... — Eu falava empolgada à medida que ia caminhando por entre as fileiras, apreciando a vista e passando a mão em tudo o que estava ao alcance do meu toque.

Como uma criança, ia dando giros por toda parte do Mayflower e tocando, saboreando cada pedaço da experiência que era estar ali.

— Não é de mais?! — Indaguei olhando para ele.

Provavelmente, eu estava com o sorriso mais puro e infantil no rosto, mas não liguei. Estava apenas feliz por estar naquele lugar.

Daniel apenas assentiu e me acompanhou em direção ao palco.

— Nossa, esse palco... é de tirar o fôlego — Falei quando cheguei bem perto.

— Você tem razão — Nos entreolhamos — Quer tentar subir?

Meus olhos se arregalaram mediante à proposta e o olhar maroto de Daniel.

— O quê? Como você faria isso? — Questionei.

— Eu te levanto e você aproveita seus cinco minutos de estrela. Quer tentar?

Imediatamente, eu disse sim e vi uma faísca brilhar no olhar de Daniel, provavelmente tanto quando uma faísca devia brilhar em mim. Estávamos ambos muito animados.

Ele se abaixou e me segurou pelas pernas, levantando-me sem muito esforço até que eu ficasse com as pernas na altura da base do palco. Assim que isso aconteceu, ele me soltou e eu sentei lá em segurança.

Me pus de pé e comecei a rodopiar no próprio palco.

— Uau, você devia ver a vista daqui! — Falei apreciando o grande salão — É lindo!

— É, eu sei que é — Concordou — Está feliz agora, princesa?

Ri.

— Sim, estou.

Dei mais alguns passos para lá e para cá no palco como toda boa fã e arte e, em poucos segundos, me imaginei como todas as grandes personagens do teatro que já haviam sido representadas ali. Por um instante, me senti uma delas. Foi quando comecei, depois de um longo suspiro, a declamar os versos mais bonitos que conhecia:

— A cara perfeição que Romeu tem, também se manteria se ele assim não se chamasse. Despe esse teu nome, e em troca desse título acessório, toma-me a mim.

Romeu e Julieta, por mais clichê que pudesse parecer, sempre foram meu romance preferido. Um claro exemplo de imprudência e imaturidade que se imortalizou por meio da poesia. Não havia nada mais belo do que o amor irremediável daquela história. Quando eu já me imaginava Julieta, perfeitamente como na cena do Balcão, escuto a voz de outra pessoa se juntar à minha atuação:

— Eu tomo a tua palavra: não mais serei “Romeu” daqui em diante — Daniel recitou do meio do teatro, olhando para mim, diretamente nos olhos -, batiza-me de novo como “amor”.

Sorri com a agradável surpresa. Ele, como eu, também conhecia de cor os versos da obra. Decidi continuar.

— Que homem és tu que oculto em plena noite, invades meus cuidados?

Ele, em toda sua sutileza e elegância, continuou caminhando até se aproximar mais do palco. Um leve sorriso se desenhava em sua boca.

— Por um nome, não sei como dizer-te quem eu sou: odeio, minha amada, este meu nome, pois ele é para ti um inimigo. — Finalizou quando chegou à beira do palco.

Eu sorria involuntariamente.

— Quem diria... Você recita Shakespeare quase tão bem quanto eu — Determinei.

Ele riu.

— Sou um bom britânico, garota. Quer descer daí e ir almoçar?

Balancei a cabeça que sim e ele me deu a mão para ajudar a descer. Caminhamos até o carro em silêncio. Eu não conseguia dizer nada, os momentos ali dentro haviam sido tão fortes e marcantes que tão cedo não os esqueceria. Quando apenas eu e ele estávamos ali no Mayflower, recitando Shakespeare um para o outro, foi algo como mágica que me fez sentir como se eu realmente fosse Julieta e ele o meu Romeu. Era como se uma corrente elétrica percorresse meu corpo de tanta alegria e surpresa, que mal conseguia parar de sorrir.

— Daniel — O chamei quando chegamos ao carro.

Ele me olhou.

— Eu gosto de princesa.

Daniel riu e entramos no carro. Fora a habitual discussão sobre o cinto de segurança, algo que já estava virando praticamente um ritual como tomar banho de manhã ou vestir meias, não conversamos muito durante o início do trajeto, até termos de parar num pequeno engarrafamento em direção ao centro da cidade.

— Para onde estamos indo? — Indaguei.

— Para o melhor restaurante dessa cidade. Fica lá no centro histórico, por isso geralmente congestiona nesse horário — Ele explicou.

— O que mais tem no centro histórico?

— Bem... muitas coisas. Tem esse restaurante, várias lojas de animais, perfumes, cafeterias, lojas de especiarias... e também tem o jardim central.

— Jardim central? — Perguntei com certo ânimo, ao que Daniel confirmou com a cabeça.

Sempre gostei de paisagismo, especialmente com flores, e era daquelas alunas péssimas em biologia que só conseguia tirar notas boas na área de botânica porque gostava de flores. Isso porque minha mãe, antes de eu nascer, era dona de uma floricultura, e continuou sendo até eu ter mais ou menos quatro anos, quando descobriram que minhas crises alérgicas eram por causas das flores e não dos móveis. Ainda assim, todo aquele ambiente florido e cheiroso ainda era uma memória e uma visão maravilhosa para mim.

Ao lembrar que, mesmo que Daniel me levasse a esse jardim central, eu não poderia vê-lo, desfiz minha postura animada e cruzei os braços com uma carranca no rosto.

— O que foi, garota? — Ele perguntou.

— Nada, é que... adoro jardins. Mas sou alérgica a flores, então digamos que não poderei visitar esse lugar, de qualquer forma — Contei.

Daniel virou-se para mim com os olhos e sorriso combinando de forma perfeita a indicação de que ele tinha um plano.

— Que cara é essa? — Minha vez de questionar.

— Mudança de planos. Vou te levar a outro lugar primeiro.

Ele imediatamente virou numa viela à esquerda e traçou um caminho provavelmente para fora da cidade. Não ousei sequer perguntar para onde; de certa forma, gostava da aventura e da surpresa quando chegássemos lá.

Não mais do que 10 minutos depois, Daniel voltou a se pronunciar, dessa vez, com um tom um pouco vago em sua voz.

— O teatro Mayflower. Sabe por que te levei lá? — Ele se manifestou.

— Porque é o lugar mais lindo da Inglaterra?! — Sugeri, ao que tive uma breve gargalhada em resposta.

— Por isso também. Mas porque meus pais me levavam lá sempre. Eles dois, mas principalmente minha mãe, era apaixonada por arte, mais especificamente por teatro. Toda semana, íamos lá e treinávamos algum soneto quando não havia espetáculos.

Olhei bem para as feições de Daniel, já um homem formado, mas que, ao pronunciar cada palavra daquelas, parecia se tornar de volta um menino. Não por acaso, uma camada de lágrimas se formou ao redor de seus olhos enquanto ele falava. Meu coração doeu por ele. Ele não olhava diretamente para mim, é claro, precisava se concentrar na direção, mas era possível vislumbrar em seus olhos que ao contar-me aquela história, era como se ele viajasse no tempo. Apreciei cada segundo daquele momento com ele.

— Sabe, eles iam tanto no Mayflower que uma vez conseguiram alugar ele para uma peça da minha escola. E eu sempre atuava, em todas as peças, eles davam a maior força. Minha mãe me colocava pra dormir lendo Shakespeare, e até hoje quando eu entro no Mayflower, consigo ouvir essas histórias...

Ele suspirou. Imaginei o quão difícil devia ser perder tanto amor de uma vez só. Pobre Daniel.

— Eu tenho certeza que ela tinha uma voz linda — Comentei.

Daniel virou-se para mim e sorriu. Um sorriso diferente dos outros. Não era maroto e brincalhão, como quando ele tramava algo, e nem era sarcástico e debochado como quando ele agia de forma rude comigo. Era seu sorriso mais natural. Coincidentemente, o mais belo.

Mais um pouco, e nós estávamos subindo uma sera nas proximidades da cidade. Quando eu ia abrir a boca para perguntar onde estávamos, Daniel se fez ouvir.

— Um dos meus amigos de infância é o cara que construiu o lugar que vamos agora. Ele é um tremendo paisagista. Acho que você vai gostar.

Assim que disse isso, ele parou o carro e desceu, caminhando até um portão enorme de ferro, abrindo-o. Assim que passamos do portão, ele pediu para que eu fechasse os olhos. Obedeci.

Não demorou muito, e senti o carro parar de novo.

— Daniel, já posso abrir? — Perguntei, ansiosa.

Ouvi-o respirar fundo e levantar todos os vidros do carro.

— Pode.

Quando me deu o aval e eu voltei a ver o que nos cercava, eu já deduzia que veria algo relacionado a flores, devido a todo seu cuidado para não me deixar ter nenhuma reação alérgica. Mas não fazia ideia de que seriam tantas flores. Nós estávamos no centro de um enorme jardim com os mais diversos tipos de flores que eu já havia visto em toda a minha vida. A propriedade, na verdade, era um ambiente todo verde e cheio de árvores, mas a parte em que estávamos era embelezada pelas flores que brotavam das mais variadas formas: arbustos, vazos, arranjos, trepadeiras. Era como um ecossistema inteiro composto por flores.

— Daniel, esse lugar é lindo! — Exclamei ainda analisando tudo com calma.

Num canto, identifiquei orquídeas azuis e copos de leite. Havia margaridas, girassóis, muitas rosas, gardênias, hortências, narcisos e lírios de todas as cores que se puder imaginar. Era uma paisagem linda. Quem me dera descer do carro e poder sentir tudo isso mais de perto...

— Gostou? — Ele indagou.

Olhei bem em seus olhos.

— Se eu gostei? Ah, eu amei esse lugar! É incrível, Daniel, incrível...

Ouvi-o rir enquanto eu ainda olhava para tudo bestificada.

— Muito obrigada por ter me trazido até aqui.

Ele balançou a cabeça negativamente.

— Obrigada você, garota. Eu já não ia ao Mayflower há alguns anos, então... hoje foi um dia importante.

Nem em um milhão de palavras, eu conseguiria descrever o que estava sentindo no momento. Por diversos motivos. O primeiro, porque eu sabia o quanto era difícil para o Daniel me agradecer daquela forma, e mesmo assim ele lutou contra todo o seu orgulho e o fez. Além disso, eu estava feliz por vê-lo feliz. Por sentir sinceridade em sua voz, e não sarcasmo pela primeira vez.

— Foi importante pra mim também — Afirmei — Sabe, você não precisa ser sempre a pessoa que os outros acham que você é. Na verdade, eu não acho que você seja essa pessoa em momento algum. Mas quando precisar ser só o cara que come torradas com iogurte — Daniel riu — e recita Shakespeare, eu quero que você saiba que tem a mim.

Então, estávamos lá novamente. Dentro do carro dele, com os rostos a apenas milímetros de distância. Repetindo a mesma cena da noite anterior. Dessa vez eu já estava tão feliz apenas por sentir que o conhecia mais um pouco, que não me importava se nos beijaríamos ou não. Sem mentiras, eu queria isso tanto quanto ontem à noite, e talvez até mais. Mas dessa vez, sem nenhuma frustração ou insegurança. Se não acontecesse, eu voltaria para casa igualmente feliz.

E foi então que eu percebi: Não importa se você está na porta da casa da sua melhor amiga ou no jardim mais lindo que já viu; não importa se você está irradiando felicidade ou triste porque acabaram de internar a sua mãe; quando algo deve acontecer, simplesmente acontece. Mas, por algumas vezes, o destino nos faz achar que sabemos de tudo, quando, na verdade, não sabemos nem de nós mesmos. O roteirista da minha vida havia feito uma escolha certa. Reservou o instante perfeito, no lugar perfeito — mesmo que eu tivesse alergia a ele — e o separou para que aquele momento acontecesse.

— Você faz ótimas torradas amanteigadas, princesa.

E, assim, Daniel me beijou.

Notas finais
O que acharam? O que querem para o próximo capítulo?