Recém Casados
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Desci do avião sentindo algo estranho em meu peito. Era como se aquele lugar não fosse mais o meu lugar. O lugar de onde eu pertencia. Como se tivesse deixado o mais importante para trás.
Meu pai me aguardava no saguão ao lado de outras dezenas de pessoas que também esperavam ansiosas por seus amigos e entes queridos. Um sorriso se abriu, iluminando seu rosto quando seus olhos repousaram sobre mim. Caminhei até ele puxando minha mala de rodinhas. Papai não havia mudado nada neste período em que não nos vimos.
— Aigoo, Min Jun, meu filho – Ele deu dois tapinhas em meu ombro.
— Pai – Sorri.
— Eu não gosto de admitir, mas senti muito sua falta, você demorou mais para me visitar dessa vez, filho.
— Tenho trabalhado muito ultimamente. Muitos filmes e como sabe, estou num programa de TV...
— É eu sei sobre esse negócio. E não gosto muito disso, toda essa exposição, esses americanos não sabem o significado da palavra privacidade? Por sorte sua noiva parece não se importar.
— Park Hae Jim, não é minha noiva, pai.
— Mas é claro que é, apenas não formalizaram isso ainda, mas a partir de amanhã serão noivos oficialmente – Ele sorriu orgulhoso, segurando meu ombro – Deveria se animar, não poderia estar com mais orgulho do meu filho.
— Claro – Dei um sorriso forçado e seguimos caminhando pelo saguão do aeroporto, rumo à saída mais próxima.
— Então, como vão as coisas na América? O seu jeito de falar até mudou – Indagou sentando no banco do motorista.
— Vão bem, eu gosto de viver lá, deveria me visitar um dia, comprei uma nova casa, o senhor iria gostar.
— Aigoo, eu já estou velho para essas viagens internacionais longas demais. Pelo menos você está aqui. Aliás, já falou com Park Hae Jim? Ela e o senhor Park irão gostar de saber que já chegou.
— Eu realmente devo me casar com ela pai?
— É claro que deve, não me dê esse desgosto de desistir de tudo, Min Jun, eu o criei para ser um bom homem e bom marido, então seja um homem honrado e um bom marido.
— Eu não posso ser um bom homem para outra mulher?
— Se está se referindo ao seu casinho com aquela americana...
— Eu a amo, pai. Adoraria me casar com ela, se você ao menos a conhecesse...
— Você está louco? Meu filho se casará com Park Hae Jim, filha de Park Jung Yo, meu grande amigo. Trate de por um fim em qualquer coisa que exista entre você e essa mulher.
— Nós vivemos juntos pai, no programa.
— Saia desse programa, se outras pessoas descobrirem sobre isso, será um escândalo. Sabe que estou fazendo isso para o seu bem.
— Eu sei – Murmurei frustrado, sentindo algo dentro de mim se quebrar.
***
A governanta Kang me despertou de um breve cochilo no quarto de hospedes, avisando que meu futuro sogro e futura noiva me aguardavam na sala de visitas.
Levantei-me resmungando, não apenas pelo sono interrompido e estar com o relógio biológico bagunçado, mas porque eu simplesmente não queria vê-los, já seria o bastante na noite seguinte.
Não queria encará-los e mentir sobre tudo, olhando dentro de seus olhos. Não queria fazer juras as quais nunca poderia cumprir. Mas ainda sim fui até lá. Talvez o medo de decepcionar meu pai fosse maior que meus próprios desejos.
— Vejam só quem resolveu dar o ar da graça – Park Jung Yo sorria de orelha a orelha e passei os olhos por sua filha acomodada ao seu lado.
Ela exibia um singelo sorriso nos lábios grossos e rosados. Hae Jim era bonita, uma bela jovem nos seus vinte e cinco anos de idade, de traços delicados e cabelos castanhos até a altura do pescoço. Nas raras vezes em que nos encontramos, não havíamos trocado mais que uma dezena de palavras e ainda éramos completos estranhos que, não sabiam muito mais além do nome e idade um do outro.
— Senhor Park, senhorita Park – Me curvei os cumprimentando e fizeram o mesmo.
— Olá Hyun Min Jun, oppa! – Sorri sem graça e me acomodei no sofá, ao lado de meu pai.
— Já se cansou da América?
— Não senhor, eu realmente gosto de viver lá, vim ver meu pai, pois sua saúde não parece muito boa.
— Não sabia qu estava doente Choi Song.
— Esqueça isso, não é nada demais, estou muito bem – Ele riu sem graça – Min Jun se acostumou com a América, e em breve deverá se acostumar com a Coréia outra vez.
— O que o senhor está dizendo, pai?
— Depois que se casar com a senhorita Park, viverá aqui, não está pensando em voltar para os Estados Unidos, está?
— Mas pai, eu tenho tudo em Los Angeles, minha vida é lá...
— Aigoo, venda tudo e compre algo aqui, vocês podem até viver nesta casa, se quiserem, você comprou uma casa muito grande pra apenas um velho homem como eu. Não é tão difícil, é? – Os dois homens gargalharam juntos.
— Eu não quero voltar para a Coréia, minha careira está estável, tenho meus fãs e... – A imagem de Lisa me veio à mente e senti um nó na garganta – Eu tenho coisas importantes na América, coisas que não são substituíveis.
O senhor Park me observou sério e eu soube que ele havia entendido.
— Pare de falar bobagens, você vai mudar de ideia depois que estiver casado e precisar da família por perto para ajuda-los com os filhos.
— Filhos? – Engasguei.
— Eu espero netos em breve – Riu papai e Hae Jim ficou vermelha de constrangimento.
— E falando nisso, gostaria que se casassem o mais breve possível – Senti-me sufocado, como se as paredes estivessem cada vez mais perto me comprimindo, roubando todo o ar do ambiente.
— Breve?
— Sim, o que o senhor Hyun acha deles se casarem no começo do inverno?
— Eu não posso me casar tão cedo, meu programa ainda estará no ar e... bem, eu mal conheço senhorita Park.
— Creio que possa negociar e sair do programa um pouco antes. Quanto a minha filha – Ela continuava em silêncio – Aproveitem para conversar e se conhecer um pouco mais – Sorriu – Filha, por que não leva Hyun Min Jun para uma caminhada no jardim?
— Sim papai – Ela se colocou de pé – Oppa, podemos ir?
Acenei, mudo e a segui, caminhando logo atrás dela.
Park Hae Jim, me guiava como se fosse a verdadeira dona da casa, que ainda me era um tanto desconhecida.
— Você conhece bem esse lugar.
— Eu costumo vir aqui, visitar o sogro. Ele é um senhor muito sozinho – Sua voz era calma e doce – Gosto também de caminhar pelo jardim, você deu uma ótima casa para o sogro, oppa.
— Eu não havia conhecido este lugar ainda, é realmente bonito – Olhei ao redor, para os arbustos, flores e árvores sobre o gramado que começava a amarelar com o outono. Tomei fôlego e o olhei de soslaio – Você quer mesmo fazer isso? – Indaguei e ela me olhou espantada.
— O que disse, oppa?
— Realmente quer se casar comigo?
— É claro que sim – Seu rosto se iluminou – Eu quero me casar com o oppa, tenho pensado muito nisso ultimamente. Sei que ainda somos um tanto estranhos um para o outro, mas eu gosto de você. Você é alto e bonito, além de ter um bom emprego.
— Gosta de mim porque sou alto e bonito?
— Você parece ser educado, e um bom homem também. O oppa, gosta de mim? – Inquiriu corando, tímida.
A observei acanhada, fazendo uma pergunta que talvez jamais tivesse feito a alguém e senti pena da mulher a minha frente, trajando um delicado vestido florido, sob um cardigã azul, e sapatos de salto, tão diferente de Lisa e seus habituais shorts e regatas largas, com os pés quase sempre descalços. Então me peguei sorrindo sozinho.
— Oppa?
— Sim – Voltei a realidade – É... bom... eu... Me desculpe Park Hae Jim, eu.... Você é linda, mas eu não a conheço o bastante para sentir algo. Espero que entenda.
— Está tudo bem, não está animado com nossa festa de noivado, vamos tornar tudo oficial amanhã.
— Não se importa em se casar com alguém que mal conhece?
— Você se importa?
— Sim, me importo – A olhei e reparei que seu sorriso havia se apagado.
— Por acaso, você tem outra pessoa? – Sua voz soava fraquejante.
Desviei o olhar e abaixei a cabeça, em silêncio e o nó em minha garganta tornou-se maior.
— Ela tem muita sorte – Sorriu triste – De ser amada por você.
— Por que, pensa que tenho outra pessoa?
— Porque quando raramente olha para mim, parece distante e então sorri, mas não por mim.
— E ainda quer se casar comigo?
— Sim, oppa. Eu ainda quero. Eu devo isso ao meu pai. Nos vemos amanhã à noite – Se curvou e retirou-se de cabeça erguida.
***
Eu me observava refletido no espelho de corpo inteiro, fixado na parede de meu quarto. O terno que meu pai havia encomendado me caía com perfeição, mas isso não me importava nem um pouco. Minha mente estava distante, mais precisamente do outro lado do mundo. Onde Lisa me esperava e eu não sei se por coincidência ou destino meu telefone tocou e sua foto apareceu na tela. Eu não podia atende-la, não naquele momento e me sentia morrendo por dentro.
— Estão te esperando lá em baixo – Park Min Ho abriu a porta e me chamou com sua costumeira animação excessiva.
— Estou indo – Enfiei o celular no bolso da calça preta e o acompanhei.
Min Ho passou o braço ao redor de meu pescoço, numa brincadeira.
— Ansioso? – Indagou entusiasmado.
— O que acha? – Disse sem emoção alguma.
— Parece que está a caminho de um enterro. Você é um ator, se estiver infeliz, atue.
— É tão claro assim?
— Claro como água, este desanimo tem nome? Tem algo a ver com a Noona? – Parei subitamente – Tem a ver com a noona – Concluiu – Se não quer fazer isso, hyung, apenas não faça. Não deixe eles controlarem seu destino.
— Eu não posso decepcionar meu pai, eu não quero que ele se decepcione comigo, como aconteceu com minha mãe, você não ideia do quanto ele sofreu, não quero que ele passe por isso de novo.
— Então vai deixar ele escolher com quem você passará o resto da vida?
— Eu devo, Min Ho.
— E a noona, você a ama, hyung?
— Mais do que eu acreditei que poderia.
— Eu sempre imaginei que aqueles olhares pra ela não eram em vão. Foi por isso que não investi nela. Aliás, já que está noivo de Hae Jim, posso tentar algo com a noona? – O fitei fixamente e comprimi os lábios – Calma, foi só uma brincadeirinha. É melhor descermos antes que pensem algo ruim. Mas e depois que voltar para a América – Insistiu caminhando ao meu lado – Vai estar noivo de Hae Jim, o que vai dizer a Lisa?
— Eu não sei Min Ho, eu não faço ideia, não quero decepcionar meu pai, mas não quero perder Lisa.
— Não acha meio egoísta?
— Ela me ligou e eu não atendi, por que eu não faço a menor ideia do que dizer a ela.
— Não diga nada ainda, mas quando voltar, diga a verdade a ela, a noona merece saber – Concordei calado.
Senti meu coração disparar e minhas mãos suando quando os olhares de todos ao redor da grande mesa de jantar se voltaram para minha direção.
— Aí está você, estamos todos te esperando – Papai abriu um grande sorriso e se colocou de pé.
— Boa noite — Me curvei em forma de cumprimento a todos e encontrei meu lugar à mesa, a frente de minha noiva.
— Hyun Min Jun, você ainda não deve ter conhecido – O senhor Park tocou na mulher ao seu lado – Essa é minha esposa e mãe de minha Hae Jim.
— Olá senhora Park, é um prazer conhece-la – Tentei soar o mais animado possível.
— O prazer é todo meu, estava ansiando tanto para conhecer o homem que será meu genro. Aliás pode me chamar de mãe.
— Sim senhora, digo, mãe – Ser um ator era minha maior vantagem naquela situação.
— Ele é realmente muito bonito filha, você deu muita sorte.
— Eu tenho – Assentiu orgulhosa.
— Já que os quase noivos estão aqui, podemos dar início a celebração do noivado – Começou papai – As alianças estão aqui – Ele colocou uma caixinha sobre a mesa – Aigoo, vocês dois devem ficar de pé e trocarem as alianças para que possam fotografá-los – Me entregou a caixinha e me coloquei de pé.
Park Hae Jim parou a minha frente, ambos na ponta da longa mesa, sendo observados por todos. Olhei para Min Ho de relance e notei sua face de desaprovação. Mas apenas segui em frente, fingindo ser forte e que aquele momento era o ápice de minha felicidade.
Segurei a delicada mão de Hae Jim e deslizei o anel com uma bela pedra vermelha em seu fino dedo anelar enquanto sorriamos para as fotos sob os aplausos orgulhos de nossos amigos e familiares.
Papai sorria de uma forma que eu jamais vira antes em toda minha vida, um sorriso de satisfação, e cogitei por alguns segundos que talvez eu estivesse fazendo a coisa certa, mesmo que minha alma estivesse desfalecendo aos poucos e meu único desejo fosse fechar e abrir os olhos e acordar daquele terrível pesadelo.
— Hyun Min Jun, diga-me, você voltará a atuar em dramas quando voltar a viver aqui? Seria ótimo ver meu genro na televisão.
— Ah... Bem... eu não sei, eu não sei.
Quase não toquei meu jantar, meu estomago parecia indigesto e saltei de minha cadeira sob os olhares curiosos e atentos de todos que mastigavam suas refeições.
— Eu... Eu vou dar uma volta no jardim, meu estomago não parece muito bem, deve ser o fuso horário – Menti caminhando para a porta dos fundos.
— Leve sua noiva com você, uma boa companhia pode ajudar – Observou a senhora Park e aceitei contrariado.
Hae Jim parecia tão desconfortável quanto eu. Parados. Lado a lado, observando o céu de Daegu. Não era como há três noites quando eu e Lisa apreciamos a calmaria noturna, lado a lado, abraçados. Quando sua cabeça repousava em meu ombro e sua mão acariciava a minha, enquanto eu sussurrava o quanto a amava.
Ali, naquela noite, era apenas frio. Dois estranhos prestes a se casar, sem qualquer vinculo ou sentimentos. Somente o desconforto com a presença alheia.
O vento frio do outono soprava contra nós e Park Hae Jim se encolhia cruzando os braços, e notei suas pernas descobertas tremelicando. Retirei meu paletó, o oferecendo a ela que, agradeceu curvando a cabeça.
— Obrigada.
— Deveria ter trazido um casaco – Disse seco.
— Deveria olhar para mim, quando fala comigo.
— Park Hae Jim.
— Me chame de Hae Jim, oppa, nós vamos nos casar, não precisa falar formalmente.
— Não nos casamos ainda. Por que você não desiste desse casamento? Diga aos seus pais que não quer, ambos sairemos ganhando.
— Por que você não desiste? – Sua voz soou embargada.
— Por que não posso fazer isso com meu pai.
— Então você me entende, eu... – Meu telefone tocou.
Lisa me ligava outra vez e Hae Jim se calou quando voltei toda minha atenção ao aparelho em minhas mãos.
Soltei um suspiro e coloquei minha máscara de ator.
— Oi – Atendi sorrindo.
— Oi – Pelo tom de sua voz, notei que ela também sorria – Você não me atendeu antes...
— Eu estava ocupado com meu pai.
— Ele está bem?
— Sim, está ótimo para ser sincero – Me lembrei de sua falsa doença para me atrair até lá.
— E você? Como estão as coisas?
— Estou bem? Acabamos de jantar, estou no jardim agora, justamente pensando em você.
— Mentiroso, não estava não.
— Estava sim, eu penso em você o tempo todo.
— Eu também. E a tal Park sei lá o que? Você viu ela por aí? – Olhei para a mulher de braços cruzados a minha frente.
— Não, eu não a vi.
— Que ótimo.
— Como estão as coisas aí? Genna tem a incomodado muito?
— E como, ela trouxe meus pais, disse que seria bom, para a audiência.
— Se mantenha forte, tudo bem? Pode fazer isso?
— Posso. Eu sinto sua falta, Min Jun.
— Também sinto a sua.
— Eu te amo – Apertei os olhos e a mão ao redor do telefone.
— Eu também.
— Tenha uma boa noite – Desligou e reparei em Hae Jim, que me observava atenta.
— Fique tranquilo, não entendi uma palavra do que conversaram. Era ela? – Ela não parecia ameaçadora, tampouco enfurecida.
— Estou cansado, acho melhor eu ir para o meu quarto.
Sorrateiro, evitei cruzar com qualquer um até encontrar meu quarto no corredor cheio de portas iguais.
Fechei a porta e nela encostei minha cabeça, buscando oxigênio em meus pulmões arfantes. Meus dedos tomaram vida própria e ligaram para Lisa, conduzindo o telefone até meu ouvido.
— Min Jun?
— Lisa.
— Está tudo bem? Acabamos de nos falarmos.
— Sim, eu só queria ouvir sua voz antes de dormir. Devo estar mal-acostumado.
— Ah, você é tão fofo.
— Quero que saiba que eu te amo – Senti meu rosto de molhando – Que não importa o que aconteça, eu te amo – Contive um soluço.
— Você tá chorando?
— Não, estou com alergia, aqui tem muita poeira fina no ar.
— Espero que melhore.
— Eu vou ficar bem. Eu te amo, muito Lisa.
— Desse jeito, eu vou chorar.
— Não, eu vou desligar. Fique bem, meu amor. Tenha uma boa noite.
— Bons sonhos, eu te amo, oppa! – Deu uma risada e ri disso pela primeira vez. A chamada foi finalizada e desabei.
Todo o desespero que segurava dentro de meu peito veio à tona, meu peito ardia e queimava, e minhas pernas fraquejavam, deslizando, recostado à porta, arfando em meio aos soluços. Minhas mãos tremiam e nada mais parecia importar, eu estava infeliz, quebrado e despedaçado em milhões de pedaços. O mundo havia desabado sob meus pés e eu estava caindo.
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