Recém Casados
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Abri meus olhos com a claridade do dia que vinha de encontro ao meu rosto. Havia um lençol embolado em nossos pés e nada cobria nossos corpos, minhas pernas se entrelaçavam as dele e seu braço estava desajeitadamente jogado para o lado. Não estávamos abraçados, estávamos bagunçados. Uma bagunça despida e descabelada, e sorri vitoriosa antes de tentar me desvencilhar de Min Jun sem acordá-lo.
Saí da cama com cuidado evitando qualquer barulho e vesti a camisa azul jogada no chão. Vasculhei minhas roupas em busca de meu telefone e o encontrei no bolso de meu shorts.
Brie havia me ligado apenas quarenta e sete vezes e provavelmente estaria surtando ao lado de um cara aleatório que conheceu na noite anterior. Decidi ligar para ela antes que ela enlouquecesse e vendesse minhas informações pessoais à algum tabloide sensacionalista tosco.
— Quem é vivo sempre aparece, ou retorna as ligações de sua empresária.
— Me desculpe, eu estava meio ocupada e meu celular estava no modo silencioso.
— Pode me dizer onde infernos a senhorita se meteu para desaparecer desse jeito sem me avisar? Sabe o quanto aquela megera da Genna torrou minha paciência atrás de você?
— Estou no apartamento de Min Jun... – Eu andava descalça de um lado para o outro mexendo nos botões da camisa, me sentindo nervosa ao falar com Brie pela primeira vez em anos.
Não nervosa como no dia em que contei a ela que Min Jun havia me beijado, eu estava nervosa como no dia que disse a ela que estava saindo com um cara casado que me dizia que terminaria com a esposa para ficar comigo.
— Está aí desde ontem?
— Vim visita-lo, aliás ele está melhor! – Bem melhor.
— Você dormiu aí...
— Um pouco – Respondi receosa.
— Está me escondendo algo, não é Lisa?
— Eu? Escondendo algo de você? É claro que não – Ri de nervosa.
— O que está escondendo? Espere, você passou a noite aí, está nervosa, você nunca fica nervosa comigo, a não ser que seja realmente importante... Não, vocês não...
— Nós, não, não, eu e ele? Mas é claro que não – Ri apavorada.
— Não sabe nem mentir – Roí minhas unhas.
— Talvez coisas tenham acontecido e sua “Teoria da Lagoa Azul” tenha algum fundamento, é o que queria ouvir?
— Eu sabia! – Comemorou – Eu tenho faro para essas coisas, eu sabia, eu sabia, então as coisas realmente aconteceram entre vocês.
— Digamos que posso chama-lo de namorado e vice-versa.
— Cala. A. Boca. Não, namorados? Pensei que ainda estivesse traumatizada do ultimo namorado.
— Com ele é diferente, Min Jun não é casado, nem comprometido com a sócia da minha antiga gravadora.
— Uma decepção a menos, mas vamos lá, me conte, como foi?
— O que? – Me fiz de desentendida.
— O que? O último episódio de “Friends”.
— Não gosto de “Friends”.
— Estou falando do sexo, oras, como foi? – Insistiu irritada.
— Foi legal...
— Legal? Que merda!
— Ele é inexperiente. Não foi ruim, foi mais ou menos.
— Mais para mais, ou, mais para menos?
— Temos prós e contras, em alguns momentos eu pensei, uau isso é incrível, em outros pensei, é, posso viver sem isso, ou mais que merda essa? De qualquer forma, ele ainda é gostoso.
— Lisa? – Arregalei os olhos ao ouvir meu nome proferido por uma voz masculina logo atrás de mim.
Me virei temerosa, com o telefone ainda no ouvido como num filme de terror. Min Jun estava lá, parado na parte aberta da porta de vidro, trajando apenas uma calça de moletom cinza escuro. Era o tipo de visão divinal que faz seu coração parar, que tira seu folego por alguns segundos e que todos deveriam ter ao menos uma vez na vida para ela ser realmente completa. Mas meu coração estava parando por outro motivo e não era tão bom.
— O que faz aqui?
— É a minha casa.
— Ah, é verdade – Ri sem graça – Eu falo com você depois Brie – Finalizei a ligação em pânico – Como você está? Está bem? Dormiu bem?
— Dormi bem, estou preparando o café, você vem?
— Aham, estou indo – Soei mais estranha que o habitual.
Passei por ele e recebi um rápido beijo na bochecha antes de disparar até a cozinha, onde uma panela de macarrão instantâneo nos aguardava pronta para ser servida.
— Bem-vinda à casa de um coreano solteiro – Disse Min Jun com as mãos em meus ombros e se sentou ao meu lado.
Eu não sabia o que dizer, parte de mim estava apavorada com a ideia de ele ter escutado minha conversa com Brie e outra parte ainda não sabia o que fazer depois da noite anterior.
— Outra vez está quieta demais.
— Eu? Não, eu estou como sempre fui.
— Está assim porque ouvi sua conversa com Brie?
— Ouviu nossa conversa? – Esbugalhei os olhos, quase me engasgando com meu macarrão.
— A parte do “mais ou menos” e dos prós e contras – Comentou embaraçado – É apenas estranho ouvir isso.
— Me desculpe...
— Foi ruim pra você, eu disse que temia por isso.
— Não foi ruim. Não mesmo – Tentei amenizar a situação – Não foi perfeito, mas foi bom pra uma primeira vez e podemos praticar mais de qualquer forma – Sorri maliciosa, fazendo Min Jun corar imediatamente e embaraçado apoiar sua testa em meu peito. Segurei seu rosto o fazendo olhar para mim – Eu gostei, de verdade.
— Pelo menos ainda sou gostoso, não é?
— Cale a boca – Ri e apertei suas bochechas – Brie estava preocupada com meu paradeiro.
— E acabaram conversando sobre a noite passada?
— Pois é, de alguma forma acabamos nesse assunto. Ela queria me avisar que Genna está a minha procura, então acredito que a qualquer momento ela possa bater na sua porta.
A campainha tocou no instante que fechei a boca e assustada fiz o sinal da cruz.
— Ai meu Deus, isso é assustador – Saltei da banqueta onde estava sentada e corremos até a porta de entrada.
Pelo monitor de segurança ao lado da porta vislumbramos uma Genna enfurecida, batendo os pés no chão descontroladamente.
— Por Deus, essa mulher tem algum super poder ou algo do tipo?
— Tem o de me esfolar viva se souber que estive aqui o tempo todo.
— Vamos, se esconda!
— Onde?
— Ah, no meu closet, não, é muito óbvio, no banheiro, espere, pense, pense Min Jun, vá para a dispensa – Segurou minha mão, me conduzindo até um pequeno armário na cozinha repleto de enlatados e produtos de limpeza – Fique aqui até eu te chamar – Fechou a porta de madeira e tudo o que me restava, eram os pequenos buracos entalhados na porta do armário, para assistir a tudo o que acontecia do lado de fora.
— Que demora pra atender essa porta hein! – Ouvi a voz de Genna esbravejando com seu mal humor rotineiro.
— Eu estava... Bem, estava me vestindo, eu costumo dormir sem nada.
— Sei...
— Mas o que faz aqui logo cedo?
— Estou procurando Lisa, aquela inútil não está em casa e não teremos material gravado além de imagens de uma casa vazia.
— Ah, Lisa, você ainda não a encontrou?
— Não, por isso estou aqui – Pelos furos eu a via esticando o pescoço para todas as direções — Lisa não apareceu por aqui? Seu empresário disse que ela esteve aqui ontem à tarde.
“Maldito baixinho resmungão, você me paga” – Pensei semicerrando os olhos.
— Ah, sim, ela veio, mas logo partiu, nós tivemos uma discussão como sempre e Lisa saiu enfurecida.
— Por que brigaram?
— Por que sim? – Coçou a cabeça – Nós sempre brigamos, é assim que seguimos a vida – Riu forçado.
— Espere, o que é aquilo? – Apontou em minha direção.
— Aquilo o que?
— Isso! – Andou até próximo à dispensa – Eu sempre quis um desses, onde você comprou? – Segurou um dragão de porcelana.
— Ah, isso... – Respirou aliviado – Comprei na China, durante a filmagem de um filme.
— Eu sou apaixonada por essas coisas, mas encontrei apenas falsificações baratas, esse é realmente chinês. Ah, é tão lindo, tantas cores e detalhes, é tão diferente das falsificações que encontramos por aí.
— É, se quiser, pode ficar com ele.
— Está mesmo falando sério? Faria isso por mim?
— Claro, claro, você merece, afinal, graças a você, “Recém Casados” é um sucesso.
— Isso é verdade, estou mesmo fazendo um ótimo trabalho – Abraçou o dragão colorido – Muito obrigada, mas Lisa não está realmente aqui?
— Não Genna, você sabe como ela é barulhenta, se estivesse, você a ouviria.
— É claro, ligarei para Brie outra vez, talvez ela tenha aparecido. Agora me dê licença que sairei à procura daquela vadia.
— Genna – Min Jun a interrompeu – Pode não chama-la de vadia? Não é legal.
— Lisa não está aqui.
— Eu sei, mas eu estou e não acho isso legal.
— Sua cabeça ainda não está totalmente boa, entendo. Bom, vou indo, se ver aquela va... se ver Lisa, me avise, por favor e muito obrigada pelo dragão.
— Não foi nada.
Essa foi a última coisa que vi e ouvi até Min Jun abrir a porta e eu respirar sem temer que meu oxigênio acabasse.
— Liberdade! – Gritei saltando para fora do cubículo claustrofóbico – Pensei que ela não iria embora nunca e eu não sairia mais daqui.
— Mas saiu.
— Felizmente, mas teve que dar seu dragão chinês da China.
— É falsificado, tanto faz.
— Ah, você é tão fofo enganando Genna – Fiz um beicinho e apertei suas bochechas o deixando irritado.
— Pare com isso – Segurou minhas mãos.
— Você é fofo até quando não quer ser fofo, e não deixou Genna me chamar de vadia.
— Porque você não é uma vadia – Acariciou minha bochecha.
— Na verdade, às vezes sou um pouco sim.
— Não, você não é, pode ser meio doida, mas não uma vadia e não admitirei que a tratem como uma.
— Isso foi tão sexy oppa!
— Não, não, não, não, não, em nome de tudo o que é mais sagrado, não me chame de oppa novamente, eu odeio isso, é completamente irritante.
— O que não é irritante para você, oppa? – Ele revirou os olhos e apertou os lábios – Estou só brincando, senhor Hyun, afinal o que não te irrita mesmo?
— Poucas coisas não me irritam, e você não é uma delas.
— Eu sei – Segurei sua mão e o conduzi até o sofá – Tenho que ir para casa ainda esta tarde, mas antes disso, devemos fazer coisas de namorados.
— E o que namorados fazem?
— Hum – Bati a ponta dos dedos nos lábios e semicerrei os olhos – Namorados fazem coisas juntos, eles comem juntos, vão ao cinema, dormem juntos...
— E qual a parte divertida? – Brincou.
— A parte divertida é que normalmente ignoramos o filme e prestamos atenção em coisas mais importantes – Insinuei beijá-lo, mas fui repreendida.
— Você é realmente pervertida, vamos apenas ver televisão – Eu ri de seu recato, indo contra tudo o que acontecera na noite anterior.
Permaneci deitada sonolenta sobre ele, com a cabeça repousada sobre seu peito, sentindo sua mão acariciando minha cabeça, sem tirar os olhos do programa sobre bolos decorados que estava em sua vigésima reprise, mas por razoes misteriosas, continuava extremamente interessante.
Eu podia sentir seu coração batendo junto ao meu, no mesmo ritmo, como se estivessem em perfeita sincronia. Era calmo e tranquilo, e talvez fosse o momento mais confortável em todo o tempo que havíamos passado juntos. Sem brigas, implicâncias e discussões tolas.
Então meu telefone tocou destruindo nosso doce momento de paz. Brie me ligava novamente e atendi com má vontade, frustrada por ter nosso momento perfeito sendo desfeito por uma ligação estupida.
— O que é?
— Você não vai acreditar.
— Não vou acreditar no que? – Insisti em meu mau humor.
— Se prepare, se estiver de pé, é melhor se sentar.
— Já estou sentada e com raiva.
— Você vai adorar!
— Apenas diga logo –Implorei chorosa.
— Bem, eu estava sem nada pra fazer, navegando na internet e abri um site sobre música e paradas musicais só para saber o que as pessoas andam ouvindo.
— E?
— Quatro de suas músicas estão entre as mais ouvidas!
— Ah, meu, Deus – Saltei do sofá boquiaberta quase derrubando o celular no chão.
— Você está de volta, Lisa. As pessoas estão ouvindo suas músicas!
— Eu estou de volta! – Murmurei incrédula, com lágrimas nos olhos e o coração prestes a explodir – Eu estou de volta vadias!
— Está de volta? – Indagou Min Jun.
— Minhas músicas estão entre as mais ouvidas, eu voltei Min Jun, Lisa Scott, está de volta, e dessa vez vou arrasar! Brie, você é incrível – Dei pulinhos animados – Agora eu preciso comemorar...
— Calma, temos que fazer algo sobre isso Lisa.
— Quando pensar em algo me avise, até mais – Desliguei a chamada e pulei nos braços de meu namorado.
— Então parece que está funcionando.
— É – Mordi o lábio extasiada, explodindo de felicidade – Eu voltei, eu voltei, eu voltei – Cantarolei e beijei os lábios dele, que me abraçou e me derrubou sobre o sofá ficando sobre mim.
— Estou orgulhoso, Lisa – Fitou-me com um sorriso de orelha a orelha – Como se sente?
— Sinto que não é real, eu sonhei tanto com isso que parece ser apenas um sonho.
— É real – Me beijou – É real.
— Estou verdadeiramente feliz – Ele sorriu – Por estar aqui com você e mais ainda, por poder compartilhar esse momento com você. Porque, por alguma razão, eu realmente estou apaixonada por esse cara rabugento.
— Isso foi lindo, principalmente a última parte.
— Foi sim, eu pensei nela com carinho – Dessa vez, seu telefone tocou atrapalhando nosso momento de ternura.
Min Jun olhou para a tela do celular e seu sorriso se desfez, saltou do sofá com um ar perturbado.
— Eu preciso atender – Caminhou para a sacada e fechou a porta de vidro.
Mas a porta não era grossa o bastante para evitar que eu o ouvisse sua conversa acalorada. Min Jun andava de um lado para o outro ralhando hora em inglês, hora em coreano. Escondi-me atrás da cortina e observei a conversa exaltada com seu pai.
— Eu sei pai – Dizia e continuava em sua língua – Mas é que eu já tenho alguém... Sim, pai... Não, eu não posso fazer isso... Eu a amo...
Meu coração parou enquanto ele dizia algumas coisas em coreano e então finalizou a ligação. Corri para o sofá e fingi prestar atenção no que quer que estivesse passando na televisão.
— Quem era? – Sorri sem graça.
— Meu pai – Coçou a nuca e se acomodou ao meu lado, segurando minha mão.
— Está tudo bem?
— Sim, claro, ele só queria saber se seu filho está bem – Ele estava mentindo, não estava? – E eu disse que estou bem e que tenho uma linda namorada.
— Isso é ótimo.
— É sim.
— Mas parece preocupado.
— Não é nada, fique tranquila – Sorriu – Está tudo bem, prometo.
— Eu acho que devo ir, Genna vai me demitir se eu não voltar logo e eu não serei substituída por outra mulher mais bonita.
— Não quer que eu divida a casa com outra mulher?
— Não, eu sou a estrela desse show, nenhuma outra vai tomar isso de mim, meu bem.
— Claro – Riu.
— Min Jun? – Chamei com um aperto no peito e ele me acolheu – Você realmente gosta de mim, não?
— Mais do que imagina.
— Promete não me deixar, nem por essa Park sei lá o que?
— Prometo não te deixar, nem pela Park sei lá o que – Fez um sinal de juramento e gentilmente beijou minha testa.
— Nos vemos à noite – Me desvencilhei dele e vesti meu shorts jogado no chão – Fico com a camisa, gostei dela.
— E sua blusa? – Dei de ombros e o beijei nos lábios, antes de correr para fora do apartamento.
***
As palavras de Min Jun ecoavam em minha mente como um mantra sagrado, durante todo o caminho de volta. “Eu a amo”, martelava em minha mente, ele falava de mim, não falava? Essa dúvida me corroía como traças, mas não parecia algo bom, não da forma como ele andava de um lado pro outro, inquieto, com um olhar tenso, quase perdido e a voz alterada, prestes a gritar.
Minhas preocupações tiveram que ser deixadas de lado quando avistei Genna parada de braços cruzados em frente à porta de casa.
— Vejam só, se não é Elisabeth Scott que resolveu aparecer.
— Pois é, né!
— Você poderia me explicar onde infernos a senhorita estava?
— Eu estava por aí – Disse sem saber o que dizer.
— Por aí? Fui à casa de Min Jun, você esteve lá ontem!
— Ah, sim, estive, mas nós brigamos e eu saí de lá com raiva, então fui beber em um bar, mas acabei ficando muito – Dei ênfase no “muito” — Bêbada depois, porque bebi vodka na barriga de um anão ruivo de tanga que dançava conga e acabei dormindo na calçada, já que não conseguia voltar sozinha e Brie estava ocupada servindo sopa aos mendigos, então só acordei hoje quando um guarda me acordou por que eu ficava gritando enquanto dormia “Bota a calça Madalena, bota a calça” e acabava assustando quem passava na rua.
— Quem é Madalena?
— Eu não faço a menor ideia.
— Isso não faz o menor sentido, Brie não serviria sopa aos pobres.
— Ah – Respirei aliviada pelo fato dela ter acreditado em mim, mas incomodada com o fato dela realmente acreditar que eu era capaz de fazer tudo aquilo.
— Gravaremos com você esta tarde, então como a estrela do show está ausente, preparamos algo divertido para o público suportar ver apenas seu rosto.
— Eu também sou uma estrela, aliás minhas músicas estão entre as dez mais ouvidas.
— Não estou nem aí – Pontuou sem pestanejar.
— O que você preparou?
— Nada demais, apenas algo como uma pequena festa surpresa para Hyun Min Jun.
— Festa surpresa? – Indaguei desanimada.
— Exatamente, apenas entre os dois, afinal, seu retorno deve nos dar audiência, quem não gosta de um bom e velho drama, sendo explorado pelo sensacionalismo? Primeiro faremos um drama sobre como se sente mal por ele e depois irá as compras porque repentinamente decidiu surpreender seu marido com uma festa de boas-vindas. É o episódio perfeito.
— É um saco.
— Não. Não é um saco, é comovente e sensível. As pessoas amam drama e superação. Por favor atue como se realmente se importasse com ele. Sei que não se suportam, mas essa droga toda é uma grande mentira mesmo.
— Agir como se gostasse dele. Posso fazer isso.
— Não me decepcione Elisabeth.
— Pare de me chamar assim, meus pais me chamam assim, eu não suporto meus pais.
— A equipe chegará daqui a pouco para gravarmos seus comentários dramáticos e então sairmos as compras, mas antes de tudo, tome um banho, você parece uma derrotada, lave os cabelos, está uma merda e se possível passe alguma coisa na cara, parece doente.
— Obrigada Genna – Agradeci com ironia.
— Vou te esperar na sala.
***
— Hoje, eu, acordei, muito, inspirada, e, pensei, em, sair, para, comprar, umas, coisinhas. Infelizmente, meu adorável, marido, teve, alguns problemas, de, saúde, e eu, decidi, planejar, uma festa, de, boas vindas, entre nós, dois, quando ele, voltar para, casa, essa, noite.
— Você pode, por tudo o que é mais sagrado, se esforçar um pouco mais? – Genna ralhou, enquanto gravávamos em frente ao Shopping – Pode não dar na cara de que está lendo?
— Não sou atriz, sou cantora.
— Apenas se esforce mais! – Pediu entredentes.
— Por que, eu tenho que fazer isso? É ridículo, posso apenas recebe-lo com um abraço e um sorriso, você mesma disse que não teríamos mais roteiro.
— Eu disse, mas em casos especiais, eu preciso intervir e este é um caso especial, Lisa – Revirei os olhos e prossegui com minha atuação.
— Ah, minha nossa, vou entrar, nessa loja, e ver se encontro algo legal para ele – Entrei em uma loja de presentes acompanhada de Genna e as câmeras – O que será, que eu, devo comprar, para ele? O que vocês acham disso? – Mostrei um chaveiro sem graça para a câmera – Acho que não, vamos dar uma volta e ver se encontro algo, para, meu, maridinho.
— Está menos horrível, mas ainda está uma merda, já vi você fingir melhor.
— Meu cérebro ainda não se recuperou da noite anterior, foi uma loucura, nossa! – Genna fechou os olhos soltando um longo suspiro e cerrou os punhos.
— Certo, vou relevar, Min Jun não quer que eu seja grosseira com você e ele é importante para o show, então vou relevar, continue, apenas continue.
Caminhei pelo Shopping e finalmente encontrei o presente perfeito, mesmo que Genna discordasse, oras, eu o conhecia melhor do que ela podia imaginar.
Ela me passou longos trinta minutos me orientando sobre o que fazer quando Min Jun voltasse para casa naquela noite. Eu não me lembrava de nem metade do que ela havia me dito, pois me distraí com uma formiga carregando um confeito colorido de donuts e me recordava apenas de coisas aleatórias como, sorria sempre, pareça feliz, não use nenhuma droga e nem contrate anões, e a melhor parte, você ainda vai me matar do coração.
***
Seus olhos se arregalaram quando abriu a porta de entrada e se deparou comigo segurando um buque de flores e um pacote de presentes, de braços abertos enquanto um membro da produção segurava uma bandeja com cupcakes decorados com uma frase de boas-vindas.
— Seja bem-vindo! – Berrei feito idiota e estiquei os braços oferecendo os presentes que Genna havia me obrigado a comprar – Meu adorável marido... – Proferi as palavras tentando me lembrar do que a megera me fizera decorar mais cedo — ... Espero, que fique, feliz, com, com, o que, eu planejei, para, para... – Travei tentando me recordar – Como era mesmo? Para sua volta ou seu retorno? – Indaguei ao cinegrafista que deu de ombros – Tanto faz, para o seu retorno! – Sorri forçadamente e me posicionei ao lado de Min Jun que, observava a tudo com sua melhor cara de incógnita possível e então sussurrou ao meu ouvido.
— Que merda é essa?
— Pergunte a Genna – Respondi entredentes tentando manter meu falso sorriso – Você gostou disso, oppa? – Seu sorriso de fechou.
— Oppa? – Assenti da forma mais debochada possível – Não me chame de oppa, eu já disse para não fazer isso! – Advertiu entre risos forçados e sorrisos fingidos.
— Não fique assim, oppa! Eu passei a tarde toda com Genna por sua causa, eu mereço um pouco de diversão, não acha?
— Isso não é divertido, é bem irritante na verdade.
— Ah, isso é muito divertido pra mim, é como a Disney dentro de uma palavra. O-PPA! – Gargalhei e me aproximei da câmera – Vocês acham que meu oppa gostou da surpresa? – Escutei Min Jun resmungando atrás de mim e voltando a sorrir quando saí da frente da câmera – Gostou da surpresa, oppa?
— Eu adorei, nossa, que incrível – Fingiu.
— Eu e meu marido iremos comemorar seu retorno agora, afinal ele estava doente e teve que se ausentar – Fiz um beiço e pisquei infantilmente unindo as mãos como numa oração.
— Ele deve abrir o presente – Avisou o homem que segurava os cupcakes.
— Ele não precisa fazer isso! – Disse tomando o pacote das mãos de meu marido.
— Por que não? – Pegou o pacote de volta e se afastou.
— Realmente não precisa – Min Jun removeu a fita que fechava o pacote – Mas já que está abrindo...
Ele abriu e levantou o presente, arqueando as sobrancelhas.
— Macarrão instantâneo, sério Lisa?
— É uma coisa que você gosta né – Olhei para o teto – Faz ideia de como é difícil presentear alguém que já tem tudo?
— Não era necessário...
— Genna me obrigou, então apenas adicione água quente nisso, certo? – Me virei para as câmeras – E afinal quando irão embora? Está tarde!
— São oito da noite – Assinalou um câmera.
— É tarde em algum lugar no mundo. Apenas saiam.
— A senhora Owen não vai gostar – Alertou o mesmo câmeramen.
Olhei para a câmera no canto superior da sala e levantei o dedo do meio.
— Genna, estou mandando eles para casa – Sorri e acenei – Podem ir agora? – Contrariados, os homens desligaram suas câmeras e saíram porta afora resmungando.
Min Jun fechou a porta e colocou as mãos na cintura me olhando em silêncio por longos dez segundos até que eu perdesse a paciência e indagasse a razão de seu olhar de desaprovação.
— O que foi isso?
— Eu quero apenas um pouco de privacidade, ué! – Cruzei os braços irritada.
— Está num reality show, isso não existe.
— Ah, mas tudo tem um limite também – Marchei em direção à porta dos fundos, mas a mão de Min Jun me conteve.
— Venha comigo – Disse sério, mas seu telefone tocou no mesmo instante e seu olhar mudou repentinamente – É meu pai, preciso atender.
— Tudo bem – Concordei insatisfeita e continuei minha jornada rumo à beira da piscina.
Sua expressão não era das melhores quando retornou. Seu olhar em minha direção era aflito o bastante para formar um nó em minha garganta. Mas conforme se aproximava, seus lábios se curvavam formando um falso – embora convincente – sorriso.
— Está tudo bem? – Me levantei da cadeira de descanso.
— Sim, está.
— Não é o que parece.
— O que parece?
— Que, atender essa ligação te deixou perturbado.
— Não é nada demais, era apenas meu pai.
— Disse que se davam bem.
— E nos damos, mas não significa que concordamos em tudo.
— Claro – Decidi deixar o assunto de lado e amenizar as coisas – Quer dançar?
— Nossa chefe te pediu pra fazer isso?
— Não, eu quero fazer isso – Envolvi meus braços ao redor de seu pescoço – Mas estou com preguiça de encontrar uma música, então vou cantarolar aquela música que nunca terminei... hum, hum, hum – Min Jun segurou uma risada.
— Obrigado pelo macarrão, mostra que me conhece, isso é importante.
— Você pode interpretar dessa forma também.
— Não foi essa a intenção?
— É claro que foi – Suspirei e desviei meu olhar – Foi sim.
— Certo, quão foi a verdadeira razão?
— Talvez eu estivesse cansada e com sono, pois, não dormi direito na noite passada – Ele mordeu o lábio, segurando o riso – Sem contar a parte que sou preguiçosa, então comprei algo que eu tinha plena certeza que acertaria. Eu sei, sou incrível.
— Você é única, Lisa – Murmurou.
— Eu sei – Comentei e recostei minha cabeça em seu ombro.
— O que foi aquilo de oppa?
— Sério? Pensei que seria um fim de cena bonitinho com um diálogo fofo. Pra que tocar nesse assunto tão irrelevante justo agora? – Ele permaneceu me encarando sério – Pra me vingar, é obvio, eu passei o dia com Genna por sua causa, eu sou a vítima aqui – Voltei a apoiar minha cabeça em seu peito murmurando a música que ainda não havia terminado de compor.
Seu olhar não se desviava de meu reflexo no espelho do banheiro, enquanto eu escovava os dentes antes de dormir. Enxaguei minha boca e semicerrei os olhos intrigada.
— O que é isso?
Min Jun deu alguns passos até mim e segurou minha cintura me colocando sentada sobre o balcão da pia.
Seu silêncio era quase perturbador. As costas de suas mãos alisavam meu rosto com delicadeza e sua respiração era descompassada.
— A noite passada – Começou com os olhos fixos nos meus – Eu sei que pode soar idiota, mas foi especial para mim – Eu sorri – Mas também sei que você esperava mais e não foi bom o bastante.
— Ei, foi bom, não ser perfeito, não significa que não gostei, foi divertido e honestamente, eu esperava bem menos, em todos os sentidos – Olhei para baixo e ele arregalou os olhos boquiaberto.
— Oh, isso? Oh... – Acenei concordando.
— Foi melhor de que eu esperava.
— Mas não foi o bastante, por isso vou te pedir uma coisa – Sussurrou e meus pelos se eriçaram enquanto aguardava por seu pedido – Quero que me ensine – Pediu cada vez mais próximo e senti suas mãos quentes segurando minha cintura com firmeza – Me ensine, Lisa – Seus lábios quase tocaram os meus e minhas pernas amoleceram quando me trouxe para si num impulso.
Eu havia me esquecido de como se respirava e sentia seus lábios e a ponta de seu nariz tocando minha orelha e pescoço, voltando a me fitar com um olhar que eu jamais vira em seus olhos.
— Me ensine – Senti sua respiração pesada e então conduzi suas mãos com calma.
Capítulo 23
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