Reboot

6 "Talvez o amanhã seja um dia melhor!"


Notas iniciais
Estava entediado em casa, então decidi escrever mais um capítulo da fic. Espero que gostem!

Zack estava muito arredio com a idéia de dormir no hospital. Ele queria se deitar em uma cama de verdade, no conforto de sua casa, com suas fotos de família grudadas nas paredes e o cachorro da vizinha latindo sem parar. Sim. Ele sentiria falta de tudo isso.

“Aqueles dois estão demorando...” falou Isadora “Vamos até a lanchonete que fica ao lado. Eles devem estar lá.”

Helena continuava dormindo tranquilamente, e nem suspeitava de sua doença. Isadora exigiu que a assistência do hospital mandasse uma enfermeira para ficar vigiando a garotinha. Ele causou alvoroço até conseguir o que queria.

Depois de chamar a atenção de todos os pacientes do estabelecimento, ela e o rapaz seguiram rumo à lanchonete, que ficava ao lado deste.

As ruas estavam desertas, apenas vez ou outra um carro passava por aquela rua. As ambulâncias do hospital estavam no estacionamento, paradas, à mercê da noite. Os postes de iluminação não deixavam o clima mais agradável; uns nem estavam funcionando! Enfim, vamos ao que interessa: logo eles chegaram à lanchonete. O lugar estava vazio. Tinha apenas um idoso de barba mal-feita trabalhando. Na parede, jaziam cartazes rasgados e sujos que aparentavam ser bem antigos. A tinta laranja das paredes estava desbotando e deixando à vista os velhos tijolos que deram forma àquele lugar.

“Oi, com licença, mas o senhor viu um rapaz de óculos, cabelo espetado e uniforme colegial passar por aqui?” perguntou a supervisora ao velho que estava atrás da bancada do estabelecimento. Ele respondeu à pergunta feita com um belo não.

“E por acaso você não viu uma menina gótica de cabelos pretos, uniforme preto, olhos pretos com um celular preto?” perguntou Isadora.

“Talvez... Mas eu não sou obrigado a me lembrar de quem vem ou não aqui! Eu tenho mais coisas para fazer, e mais com o quê me preocupar...” respondeu friamente.

O vendedor se virou de costas e ignorou a presença dos dois.

“Entendi... Que pena por que eu tenho uma bela gorjeta para quem souber do paradeiro deles...”

“‘Gorjeta’? Há! Por que não disse antes?!” ele roubou uma nota de dez reais que a garota balançava nas mãos “Agora você está falando a minha língua!”

O olhar da supervisora sobre o homem dizia o óbvio: que ser humano desprezível ele é.

O idoso estava muito satisfeito com a nota de dez reais, mas ele devia cumprir o que prometeu (ou seja: nada).

“Vou lhes dizer tudo o que eu sei. Agora a pouco uma menina com aparência extremamente gótica passou por aqui. Junto com ela, tinha um rapaz que usava óculos...”

“Eles compraram alguma coisa aqui?” perguntou Zack, quase que lendo os pensamentos de Isadora, pois ela pretendia fazer a mesma pergunta.

“Não... Eles não gostaram daqui e foram lanchar em outro lugar...”

Que bom! Qualquer pessoa em sã consciência lancharia em outro lugar, pensou Zack.

Isadora virou-se repentinamente e seguiu rumo à saída. Ela estava preocupada.

-- E agora, como vamos fazer para encontrar seus amigos? – perguntou o jovem. Veja bem: ele disse “seus” porque ainda não considerava Jonas e Sabrina como seus amigos.

-- Não sei... – respondeu. Ela se sentou em um banco de madeira que ficava próximo, e começou a pensar... – Estou com fome.

-- Eu também... Mas acho que eles já vão voltar!! – disse Zack tentando ser otimista.

-- Você não entende... Eu estou com MUITA FOME...

-- O.K, mas...

-- Eu seria capaz até de comer os lanches daquele velho...

-- Tudo bem, mas...

-- Qualquer coisa poderia me satisfazer...!!

-- Cale a boca! Eu estou a um tempão tentando dialogar e você só fica falando de comida!

Ela sorriu, e disse em seguida:

-- Eu só fiz isso para descontrair um pouco. Não estou com tanta fome assim.

Zack percebeu que ela realmente estava brincando com ele. O rapaz sentou-se ao lado dela e disse: “você parece uma criança...” ela não se importou com a comparação, e continuou a sorrir.

A noite estava fria. O vento soprava e levava consigo as folhas mortas das velhas árvores. O silêncio dominava sobre os sons, e o único barulho que se ouvia eram o das folhas das grandes plantas, e o do vento...

No céu: nenhuma estrela. “A noite da cidade não é tão bonita quanto a noite do campo” pensava Zack.

Der repente, um som cortou a paz do silêncio. Um barulho similar ao de uma sirene soou e ecoou pelas ruas vazias. Ao longe, uma ambulância vinha a toda velocidade em direção ao hospital. Logo, esta já estava bem próxima. O veículo entrou no estacionamento, e alguns paramédicos saíram dele carregando uma maca. Nesta maca havia um garoto de aparentemente 12 anos. Pele morena, roupas simples e sandálias. Era mais uma vítima do trânsito. Mais uma vítima da criação humana denominada “automóvel”.

-- O mundo é tão triste, não é? – falou Isadora, repentinamente.

O rapaz concordou com a cabeça. “O mundo é um lugar de pessoas injustiçadas. Abandonadas. Sofredoras. Mas...” -- um pensamento repentino tomou conta da mente de Zack – “O mundo é ao mesmo tempo, tão bonito... Mas... Por que estou pensando nisso...?”

Helena costumava dizer: a vida é como uma árvore. Ás vezes elas morrem sozinhas. Mas outras vezes o homem corta o tronco, e acelera o processo... E pensar que ela, uma menina de oito anos de idade, tivesse tanto conhecimento sobre a vida...

A saudade de casa. O cansaço (apesar de ele ter dormido por horas). Tudo parecia ter perdido a importância naquele momento. Tudo parecia ser inútil...

“Talvez o amanhã seja um dia um dia melhor!” disse-lhe a voz em seus pensamentos. Por alguma razão, aquelas palavras o animaram e realçaram o seu humor. Mas mesmo o assim... Essa voz... O rapaz olhou para a vasta escuridão do céu noturno e refletiu: “Helena? Será que ela... Não... Ela morreu... Simplesmente morreu. E eu tenho que aceitar isso. Mas já faz oito anos... POR QUE EU AINDA ME LEMBRO DELA?!