Reboot
9 Por que não consigo te esquecer?
Notas iniciais
O pobre rapaz se surpreendeu ao ver que o teste tinha questões diferentes das do dia anterior.
“Isadora... O que é isso?” perguntou Zack “Esse não é o mesmo teste de ontem!”
A garota riu com sarcasmo e respondeu:
“Eu fiz isso porque não sou idiota. Você poderia muito bem ter estudado essas questões ontem à noite, então, como esse é um teste de conhecimentos gerais decidi criar teste completamente novo. Isso também é para evitar que você trapaceie de novo.”
“Quantas vezes eu vou ter que dizer? EU NÃO TRAPACEEI!”
“Prove isso, aqui e agora, acertando pelo menos 90% dessas questões. Só assim você será considerado inocente.”
Ela dizia essas palavras com um largo sorriso no rosto, como se estivesse se divertindo com o sofrimento do rapaz.
Jonas chamou a supervisora para um canto distante de Zack e perguntou-lhe:
“Qual é o seu objetivo de tudo isso?”
“Desmascarar um trapaceiro. Tudo o que eu fiz até agora foi uma tentativa de desmascará-lo.”
“Como assim?”
“Se lembra que ontem eu convidei Zack para ir conosco, no caso de Fabiana?”
“Sim. Mas e daí?”
“Eu sabia que iríamos passar o dia inteiro cuidando daquela garota. Se Zack fosse com a gente ele não poderia estudar, sem contar que chagaria tarde à noite em sua casa, além de ter se cansado, físico e mentalmente.”
“Uau! Você pensou em tudo isso sozinha?”
“É claro! Ah, e tem mais uma coisa. Se lembra que ontem eu ele tivemos uma conversa em particular? Eu mexi um pouco com o psicológico dele durante essa conversa.”
“Sim. O que você fez? Beijou ele?”
Isadora deu um belíssimo tapa na testa de Jonas, que deixou a marca dos cinco dedos da supervisora estampada no topo de sua cabeça.
“Idiota! Pare de pensar malícias! Eu só disse a ele coisas desmerecedoras, que serviram para baixar o astral dele. Depois, como você se lembra, eu o expulsei do hospital, e isso deve ter-lhe deixado pior ainda.”
“Entendi! Mexendo com o psicológico dele...” Jonas virou-se para Zack, que se esforçava para resolver as questões do teste. Depois, ele prosseguiu: “Você o deixou desorientado. Desmereceu ele. Ele não vai conseguir dar 100% de sua capacidade nesse teste, porque ele mesmo já não acredita mais em seu potencial...”
“Exatamente! Esse é o fim dele. É só uma questão de tempo. Ele vai desistir ou então vai errar a maioria das questões do teste.”
“Você é muito má...”
Ela riu impiedosamente, olhando na direção do rapaz; ele tentava, mas não conseguia se concentrar no teste.
Sabrina estava ao lado de Zack, fitando-o com seu olhar triste e ao mesmo tempo ameaçador.
***
Depois de cerca de uma hora de teste... Um som alto percorreu toda a escola, o sinal havia tocado, todos iriam embora para suas casas aconchegantes enquanto Zack estava preso naquela sala fechada. Mas ele preferia que fosse assim, a casa que ele alugou era velha, suja, feia, além de pouco aconchegante. A única parte ruim de ficar preso àquele lugar era que ele tinha de fazer um teste muito importante e muito difícil. Isso além de ter uma garota gótica fitando-o a cada movimento que fazia. Era pressão demais para suportar!
O rapaz queria desistir. Talvez ele encontrasse um emprego diferente por aí. Que tal vendedor? Faxineiro? Cozinheiro de um fast-food?... Não! Ele queria ser um médico! Ele queria ajudar as pessoas. Mas... A todo momento ele se lembrava das palavras de Isadora. Mas afinal, ela tinha razão. Não faz diferença se ele vai virar um médico ou não... Pessoas ainda vão morrer e doenças ainda vão existir... É inútil.
Então ele se decidiu: “não vou mais fazer esse teste. Eu vou desistir...”, mas quando ele ia se levantar para falar...
“Eu não vou deixar!!” disse uma voz infantil, com intensidade. A porta da sala, que antes estava fechada, se abriu com força. Uma corrente de ar entrou, assoprou para longe o teste e o material escolar de Zack. Isadora fechou a porta e tentou trancá-la com a chave, mas a porta insistia em continuar aberta.
-- O que está acontecendo...?! – perguntou Sabrina.
-- De onde está vindo essa corrente de ar? Pensei que as janelas da escola estivessem fechadas! – falou Isadora.
Zack, por sua vez, estava abismado. Havia algo de estranho acontecendo, mas por alguma razão parecia que ele era o único que tinha percebido isso.
Todos estavam bem desorientados. Zack continuava estático, Sabrina parecia uma estátua em pé, Jonas tentava fechar a porta, mas não conseguia mantê-la encostada por muito tempo; e Isadora... Bem, ela estava parada em um canto, assim como Sabrina.
Mas, de um momento a outro, a ventania parou. Todos estavam um tanto que desorientados, pois isso nunca havia acontecido antes. Zack também estava surpreso, mas diferente de seus colegas, ele havia entendido o que tinha acontecido.
Sabrina virou-se de costas para procurar o teste do rapaz. Esse teste estava no chão, todo sujo, e com a caneta do rapaz atravessando o papel. Todos se mantiveram em silêncio, menos a supervisora que, ao ver o teste rasgado no chão, começou a retrucar palavras de ódio bem baixinho.
A menina gótica pegou a folha em suas mãos e perguntou:
“O que nós vamos fazer agora?”
Isadora respondeu, cabisbaixa:
“Eu não sei... Essa era a única cópia que nós tínhamos...”
-- Então eu vou dar a ordem final. – disse uma voz masculina. O portador dessa voz era um homem idoso, cabelos esbranquiçados, costas curvadas, e usava um smoking muito estiloso.
-- Diretor? O que está fazendo aqui? – perguntou Jonas.
-- Hum... – ele começou a observar a bagunça da sala. Balançou a cabeça negativamente e prosseguiu: -- Isadora, eu deixo à você tamanha responsabilidade, confio à você uma sala como esta, e você ainda tem a audácia de descumprir seu dever.
-- Desculpe senhor. Mas se você está falando dessa bagunça, siba que eu...
--... Não estou me referindo a essa bagunça. Estou me referindo a esse rapaz -- disse, apontando o dedo indicador para Zack.
-- Desculpe senhor, eu não entendi o que quer dizer – acrescentou a garota.
-- Esse jovem acertou, incrivelmente, 97% do teste de admissão! E você ainda tenta afirmar que Le é um trapaceiro! Veja bem, se ele é um trapaceiro, como ele conseguiu essa nota tão perfeita? Colando? Eu acho que não. Então como ele o fez? Responda-me!!
-- Eu não sei senhor...
-- Não sabe? Pois deveria. Antes de acusar alguém por algo, tenha provas que comprovem o que diz. Caso contrário você só estaria mentindo.
-- Desculpe senhor... – disse Isadora, com os olhos lacrimejantes e, ao mesmo tempo, cheios de ódio.
-- É bom que você tenha aprendido a lição. E quanto a você rapaz, não se preocupe, não terá que fazer mais nenhum teste. – A supervisora tentou repreender essa escolha, mas foi fitada pelo olhar do diretor, o que a fez hesitar.
O velho homem saiu da sala logo depois. Isadora ainda estava cabisbaixa, e os outros imitavam sua atitude em sinal de respeito ao diretor. Mas depois de alguns demorados segundos, todos ergueram a postura.
-- Vá embora – falou Isadora, tentando manter a calma.
-- Eu? – perguntou Zack.
-- É óbvio que é você...
O rapaz não discutiu, pegou seus lápis e retirou a caneta que estava atravessada no teste. Depois, ele se dirigiu para sua sala de aula para buscar sua mochila.
-- Vocês também – continuou a garota, após a saída de Zack.
-- Nós? Mas o que nós fizemos de errado? – questionou Jonas.
Nesse momento, Sabrina segurou o braço do colega e puxou-o até a porta dizendo:
-- Ela quer ficar sozinha. Vamos embora.
-- Mas... – ele olhou brevemente para trás enquanto se distanciava de Isadora. Ela estava precisando de apoio, mas ás vezes o melhor que se pode fazer é deixar uma pessoa refletindo sozinha. – O.K, vamos então.
Isadora sentou-se na cadeira em que antes, o jovem estava fazendo o teste. Ela estava inconformada, mas ao mesmo tempo refletia sobre... Sobre tudo.
Depois de algum tempo, o rapaz passou pelo corredor diante da sala, para ir embora. A garota estava estática na cadeira, e piscava lentamente; o garoto achou que era melhor não incomodá-la.
***
A parte de fora do colégio – pois nesse lugar estudam-se pessoas do fundamental e do ensino médio – estava vazia. Havia poucos carros na rua que, antes costumava ser movimentada. Parecia que até os pássaros estavam descansando, pois havia poucos destes nas árvores.
Uma fileira de ipês amarelos seguia caminho junto á Zack, o que de certa forma, deixava a paisagem mais alegre. Claro, isso não era nada quando comparado ás inúmeras árvores da fazenda em que antes o garoto morava.
Ele não queria ter saído de lá, mas o destino o obrigou a isso...
“‘Eu não vou deixar!!’, será que era ela? A voz parecia diferente das outras vezes. Parecia mais... Humana. Helena... Por que você não sai da minha cabeça? Já faz oito anos! Por que todo dia eu me lembro de você?! É como se... É como se você ainda estivesse viva”, pensava Zack enquanto retornava para casa.
O garoto pegou um ônibus. Depois outro. Até que, finalmente as ruas começaram a se tornar sombrias. As casas, que antes eram de luxo, agora eram pobres e pequenas. Essa série de fatores indicava que ele estava se aproximando de sua pobre e velha casa.
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