Rebeldia
1 único
Ajoelho-me no assoalho e observo o templo diante de mim, nele há um velho sem vaidade nenhuma e de aparência frágil. Ele me oferece sua tigela de arroz e eu aceito agradecido.
A sala em que estou é iluminada pelo sol da tarde que atravessa as janelas fechadas, e eu não me lembro de ter as visto algum dia abertas, na verdade não lembro de ter olhado ao meu redor desde então.
O arroz gruda nos meus dedos e se agarra nas minhas unhas sujas de terra, algo que me deixa surpreso. Olho-me com atenção e vejo que meu estado não é muito diferente do velho maltrapilho a minha frente.
A boca do velho se mexe e eu vejo apenas os pelos da barba longa e grisalha se moverem. Ele me diz que é meu ego.
Eu pergunto por que é tão feio, pensando se era a falta do amor próprio. Mas o velho me responde que se fosse isso não estaria num templo como um adorno valioso tanto quanto aqueles que Jesus ganhou no pé de sua manjedoura.
Então eu pergunto se eu só penso em mim, pois tal ideia já ocorreu pela minha mente quando me odeio tanto e, embora esteja me odiando, ainda estou pensando em mim.
Ele responde que não está sentado num trono, apenas sentado com as pernas em flor de lótus. Mas eu vejo que o seu assoalho é um degrau mais alto e ele responde que esse é o tamanho do tempo que penso em mim.
Volto a pensar se é a falta do amor próprio, ele volta a responder que não.
O que era então?
Uma borboleta pousa no meu ombro e olho para trás, vejo a porta do templo aberta e lá fora só havia o verde. Sempre foi assim? De fato, só agora prestava atenção ao meu redor.
Eu deixo a tigela de lado para me levantar e sair do templo, não quero perder mais tempo falando com um velho raquítico parecendo um sábio inquestionável. Vou explorar o verde sem saber a verdade.
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