‘‘Vai ser ótimo viver lá na cidade do surf, vocês vão gostar. Vão aprender a gostar.’’ Susan pronunciava tais palavras calmamente enquanto embalava a pequena criança, que mais parecia um cobertorzinho enrolado, em seus braços. Enquanto isso, Brian e Brent permaneciam calados, jogando todos os seus pertences em caixas. Logo, porém, Brian entreabriu os lábios, tomou uma tragada de ar e, antes que pudesse soltar uma única palavra, foi interrompido por seu irmão.

‘‘E os nossos amigos?’’ Brent perguntou à sua mãe, este que parecia ler o pensamento de Brian.

E, logo antes que Susan pudesse responder, o pai deles adentrou o cômodo, respondendo em um tom frio. ‘‘Vocês podem fazer outros lá.’’ Então empilhou três caixas e as levou para o lado de fora da casa.

‘‘Apressem-se, logo vamos pegar a estrada.’’ Disse Susan, retirando-se do cômodo ao perceber a criança adormecida em seus braços.

‘‘Cidade do Surf, pf.’’ Brian vomitou essas palavras quase como um resmungo após confirmar certa distância de sua madrasta.

‘‘Vamos morrer lá.’’ Disse Brent, terminando de fechar a caixa onde guardara tudo o que lhe pertencia.

‘‘Eu só... Eu só queria ser adulto. Queria poder mandar na minha própria vida agora.’’ Brian imitou o ato do irmão, fechando sua caixa com certa dificuldade. ‘‘Quero ficar.’’

‘‘Vamos, garotos, já é tarde. Vamos para o carro!’’ Exclamou o pai deles de outro cômodo próximo.
Então os meninos seguraram suas caixas e observaram cada pequeno detalhe da casa que estavam deixando, todas as suas vidraças, seus detalhes de tijolo em vidro nas paredes das escadas, a escadaria feita em granito e logo após o jardim, o pequeno jardim onde ficava sua goleira de futebol. A goleira qual eles passaram todos os fins de tarde de suas vidas sentados sobre, observando o sol se pôr. E aquele pôr-do-sol não existiria em Huntington Beach. Era algo único da pequena e tradicional cidade de Agoura Hills.

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Brian demorou a entrar no carro, foi como se por aquele portal de metal tingido de branco ele pudesse ver todos os dias da sua vida. Ele relembrou os seus amigos, seus jogos naquele jardim gramado, ou mesmo quando chutavam a bola forte demais e ela ia parar atrás da casa deles, onde era um morro, um morro bem alto. Ou mesmo da vez em que ele foi tentar pegar uma bola que caiu lá e rolou morro abaixo, esfolando suas duas pernas. Então ele lembrou de sua mãe...
Ele fechou os olhos, mas foi em vão. Uma lágrima conseguiu escapar.

Entrando no carro, a família ficou em silêncio absoluto. Brent parecia divertir-se no banco de trás com os cordões de seu moletom. Susan parecia divertir-se, também no banco de trás, com seu pequeno cobertorzinho enrolado que ela chamava de filha. Brian, o pai, parecia divertir-se com a direção. Brian filho, sentado no banco do passageiro, parecia não divertir-se nada com uma das têmporas recostadas sobre a janela fechada do carro e a visão através do rabo do olho que ele tinha de sua cidade natal. Sua querida cidade.

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A viagem pareceu mais longa do que qualquer outra coisa longa. O pai tentou ligar o rádio e procurar alguma música, mas logo foi repreendido por sua mulher por conta do bebê dorminhoco que poderia acordar e deixar de ser um bebê lindo para tornar-se um monstro-chorão-insuportável. Brian agradeceu a Deus por ela não ter acordado com o som dos auto-falantes sendo colocados em funcionamento após anos.

Eles comiam balas, chicletes, pirulitos, barras de cereais e batatas fritas para que o tempo passasse mais rápido, mas tudo parecia ser em vão.
Era agoniante ficar dentro de um carro tanto tempo. O calor era cruel, mas parecia não incomodá-los uma vez que estavam todos isolados em seu próprio mundo.