Rebel Angels - Detention (Interativa)
3 A Esportista e a Bipolar
Notas iniciais

— Alguém mais? — Miss Wilhelm voltou a fitar os alunos. — Que tal você? — Ela olhou para a morena.
— Eu? — A garota olhou confusa para a professora.
— Sim. Pode ser?
— Tá... — Ela deu um suspiro levantando. — Meu nome é Beatriz Jorgian, eu tenho dezessete anos e estou no segundo ano.
***
Bia acordou às cinco da manhã. Todos os dias ela acordava esse mesmo horário para se exercitar. Ela se alongava por alguns minutos e depois corria em volta da casa. Quando se sentia um pouco cansada, ela pegava sua bola e jogava contra a parede, repetidas vezes, até às seis da manhã.
Às vezes ela parava por um instante e se lembrava do pai. Como ele fazia falta!
— Bia! Hora de se arrumar para a escola! — Ela ouviu a mãe gritar do segundo andar.
— Tá! — Ela revirou os olhos.
Ela odiava aquela escola. As pessoas daquele lugar pareciam fúteis e egocêntricas. A coisa que ela mais odiava, mas pelo menos tinham alguns clubes legais.
Bia subiu e tomou seu banho. Foi até o armário e pegou a primeira roupa que viu. Uma calça jeans e uma T-shirt. Ela odiava saias, talvez tivesse uma ou duas, porque seu padrastro-chato-milhonário-orgulhoso, fazia questão de lhe dar algumas, mesmo ela dizendo várias e várias vezes o quanto odiava aquilo. Ela preferia pegar essas roupas caras e doar para alguém que realmente precisasse.
E já não bastasse ela ter que aguentar o padrasto em casa, ele tinha que fazer a mesma rota do colégio. Resumindo: Ela precisava ir de carona com ele. A maioria das garotas da sua idade já tinham um carro. Bia também tinha, mas ele estava tão velho que não chegava nem na esquina de casa. Seu padrasto até lhe ofereceu um carro novo, mas ela não quis. Ela amava o seu velho carro. Era o carro que seu pai comprou quando se casou com sua mãe.
Ela vivia de cara amarrada. Exceto em um lugar. O clube de futebol.
Mas nem mesmo ali ela tinha paz. Ela se sentia deslocada por não ser como as outras garotas. Às vezes ela sentia como se algumas delas estivessem constantemente fazendo piadas sobre ela. Mas aquele dia foi a gota.
Ela abaixou-se para amarrar seus tênis quando sentiu a bola bater na sua cabeça. Ela virou-se para olhar e um grupinho de meninas começou a rir.
— Desculpa. — A mais alta disse sarcástica.
Bia cerrou os olhos. Aquilo era o suficiente.
— Vadia! — Bia avançou contra a garota a empurrando no chão.
— Ai! Sua louca! — A garota a olhou assustada. — Qual é o seu problema?
Antes que Beatriz pudesse dizer qualquer coisa, o treinador apitou.
— O que está acontecendo aqui? — Ele gritou.
— Essa garota maluca empurrou a Dana. — Uma garota baixinha de cabelos tingidos de vermelho se intrometeu na história, o que deixou Bia ainda mais irritada.
— Jorgian, por que você empurrou a Wilson?
— Ela chutou a bola na minha cabeça! — Beatriz disse nervosa.
— Foi sem querer, Mr. Donnovan. Eu pedi desculpas, todas as meninas estão de prova!
As garotas começaram um burburinho defendendo a outra garota.
— Isso é verdade, Jorgian? — O treinador colocou as mãos na cintura.
— Ela fez de propósito, eu tenho certeza!
— Jorgian, por favor, vá para a detenção.
— Mas foi...
— Sem mais, Jorgian. Vá para a detenção ou você ficará os próximos três jogos no banco.
A garota revirou os olhos e olhou para as outras que seguravam o riso. Logo ela mesma já fazia questão de não estar ali.
***
— Eu adoro esportes. De todo o tipo. Futebol, artes marciais, escaladas. Eu fiz o primeiro ano em outra escola, mas fui expulsa mal comportamento. Eu moro com minha mãe, minha irmã Esmeralda, e meu... Padrasto. — Ela revirou os olhos outra vez. — Minha mãe é brasileira, mas eu nasci e vivi minha vida toda aqui. Meu pai morreu há seis anos... — Ela fez uma pausa antes que começasse a chorar. — Eu... Acho que quero cursar direito. Meu pai era advogado...
— Ah. — Miss Wilhelm suspirou. — Obrigada, Beatriz... — Ela parou um instante. — Quem quer falar agora?
— Eu quero falar. — Uma garota de olhos azuis e contagiantes se levantou, suspirando. — Eu sou Mônica McGregor, mas todo mundo me chama de Mona. Eu tenho dezesseis anos e estou no segundo ano.
***
O cheiro da casa de Mona era um tanto peculiar. Uma mistura de cheiros que ia de feijão podre a meia suja, mas o cheiro mais forte era o de erva. Não, Mona não usava drogas, pelo contrário, ela as odiava, odiava aquele cheiro impregnado na casa. As drogas eram de Tessa, sua mãe.
Ela havia dormido tão mal naquela noite. Tinha um trabalho de história para entregar no dia seguinte, ela havia se enrolado com algumas matérias do jornal e acabou esquecendo totalmente. Ela passou a noite fazendo aquele trabalho, enquanto ouvia música alta. Mona também podia gemidos e batidas vindos do quarto de sua mãe, mesmo usando fones de ouvido. Ela não conhecia o cara daquele dia, nem fazia questão de conhecer, era só mais um drogado ou algo assim, com certeza quando ela acordasse ele já teria ido embora.
Quando amanheceu, ela foi até a cozinha, o cara estava sem camisa, a calça semi abaixada mostrava metade da cueca vermelha, o que deu certo nojo na garota. Ele bebia leite no gargalo e arrotou tão alto, Mona apenas queria que sua mãe parasse de se envolver com esse tipo de gente.
Ela não queria ficar muito tempo ali, só pegaria o trabalho e iria para a escola. Sua surpresa maior foi quando achou o papel rasgado e metade da folha em cinzas.
— Merda! Você fumou meu trabalho! — Ela levou as mãos à cabeça. — Filho da puta!
— Mona, filha, é você? — Uma voz enrolada vinha de trás dela.
Mona pensou em dizer: "Caralho, mãe! Tira esse idiota daqui, antes que eu mesma tiro", mas antes que pudesse falar, viu o estado deplorável de sua mãe. O cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos, o cheiro de vômito.
— É, mamãe... — Ela suspirou. — Sou eu...
— Você já vai pra escola, querida? Onde está seu boletim pra que eu possa assinar?
— Você assinou ontem, mãe...
— Assinei? — Ela riu. — Eu não me lembro. Mas eu não me lembro de muita coisa. Então se você diz que eu assinei eu devo ter feito isso.
Na verdade Tessa não tinha assinado boletim algum. Mona já havia recebido tantos avisos que já havia aprendido a falsificar a assinatura da mãe. No começo era bem ruim, mas agora era quase idêntica. De qualquer forma, Mona sabia que se tivesse entregado o boletim para a mãe, ele teria o mesmo triste fim do seu trabalho de história. O que a deixaria numa situação ainda pior.
Ao chegar na escola, a primeira aula era justo a de história. Ela até tentou fazer alguma coisa na hora, mas foi pega pelo professor Philips.
— Mona... — Ele suspirou. — Eu prorroguei o trabalho em duas semanas...
— Eu sei professor, é que... — O que ela ia dizer? "Um desconhecido fumou meu trabalho"? Quem iria acreditar nela?
— É que...?
— Sinto muito...
— Vou ser obrigado a te mandar para a detenção.
— Me dá só mais uma chance. Eu gosto de história. E eu presto atenção nas aulas. Você sabe disso, Mr. Phillips... — Mona fez uma carinha de cão sem dono.
— Olha, Mona... — Ele suspirou. — Eu poderia te dar mais uma chance...
Mona sorriu, a coisa que ela mais adorava era quando as pessoas faziam exatamente o que ela desejava.
— Mas não seria justo com os outros que fizeram e entregaram.
Mona cerrou os olhos. Que raiva ela sentiu naquele momento. Tudo aquilo por conta de sua mãe. Não exatamente sua mãe, mas o vício dela. Como ela queria que sua mãe abandonasse aquela vida!
Certo, ela iria para a detenção, mas alguém certamente iria pagar por aquilo.
***
— Eu amo livros. Eu passo o tempo todo lendo e escrevendo. Eu trabalho para o jornal da escola. Eu conheço todo mundo aqui, sei a história de cada um. — Ela deu uma olhada rápida para Cat. — Eu sonho em ser jornalista, mas eu sinceramente não sei se a Dartmouth aceitaria alguém que tirou um F em história... Eu também odeio Química, e concordo com o Noah. O professor Austin é maluco. E eu odeio quando alguém se acha superior a mim. Receber ordens não é muito a minha...
Antes que Mona terminasse de falar, uma garota de cabelos loiros abriu a porta da sala.
— Você... — Cat semicerrou os olhos.
— Miss Wilhelm? — A loira se dirigiu à professora.
— Sim, sou eu. — Sarah sorriu de leve.
— Eu preciso do seu assassinato...
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