Reasons To Hate You
1 Um
Notas iniciais
Nesse exato momento estou me perguntando de quantas formas é possível matar um ser humano dentro de uma sala de aula e não ser descoberta.
Posso jogar o apagador na cabeça dele, ou melhor, trancá-lo no armário até que ele morra de falta de ar. Mas isso não importa agora. Antes de matá-lo preciso ter certeza de que poderei fugir, o que não é o caso.
Sinceramente, de todas as coisas ruins que poderiam acontecer comigo esse ano, a última coisa no mundo que eu esperava era ficar trancada numa sala sozinha junto de Felipe Campana.
Quem é esse? Este ser infeliz é o tipo de garoto que faz com que todas as pessoas ao seu redor, num raio de 10 km, se apaixonem por ele.
Menos eu.
— No que está pensando? — ele me encara aparentando realmente se importar com que eu penso. Felipe está sentado no chão, logo abaixo do quadro negro, com os braços apoiados nos joelhos.
— Numa forma bem dolorosa de te matar — respondo lançando o meu melhor olhar maligno em sua direção.
— Oh, tudo bem — seus olhos miram algo através de mim até que seu pequeno cérebro de isopor possa digerir a informação. — O que você disse?
— Isso mesmo que você entendeu.
Ele tomba a cabeça para o lado me examinando pensativo.
— Só acho, Angelina, que muita gente nesse colégio ia ficar furiosa contigo.
— Então você lembra o meu nome — comento surpresa. É de se admirar que um garoto como ele possa lembrar o nome de alguém como eu.
Felipe dá de ombros.
— É claro — diz. — Sua prima é casada com meu irmão.
Eu reviro os olhos.
— Tecnicamente, — corrijo — eles não são casados.
É a vez de ele revirar os olhos.
— Mas moram juntos, o que dá no mesmo — diz ele. Garoto mais irritante.
Eu não gosto de Felipe Campana, mas também não o odeio. Pra nutrir qualquer sentimento — seja este bom ou ruim — por uma pessoa, ela precisa ter uma pequena importância pra você. E eu me importo com Felipe Campana tanto quanto um peixe se importa em ter uma bicicleta.
Seu jeito de andar, seu jeito de sorrir, sua capacidade de fazer as pessoas soltarem suspiros quando passa... Tudo isso me irrita.
É o tipo de garoto que eu nunca deixaria cruzar o meu caminho. Mas como nós muitas vezes não temos controle sobre nossas vidas, minha prima namora o irmão dele e agora, bem, eu estou trancada numa sala com ele.
Se eu não tivesse tido a brilhante ideia de reunir os membros do jornal da escola para debater sobre as próximas matérias, talvez eu não tivesse ficado sozinha na sala estudando depois que todo mundo tivesse ido embora. É, foi assim que tudo começou. Pouco mais de meia hora discutindo sobre os temas, alguns resolveram ir embora, e eu continuei estudando e imaginando que todo mundo tivesse ido embora. Engano meu, meu caro. Eis que entra na sala ninguém mais ninguém menos do que Felipe Campana como se tivesse acabado de correr uma maratona.
Ele respirava com dificuldade enquanto o suor escorria pela pele avermelhada do seu rosto. Fiquei o encarando completamente desconcertada. Que diabos ele estava fazendo aqui? Fugindo de suas fãs?
Seus olhos se levantaram e pararam em mim. Seu susto foi imediato.
— Mas que merda — soltou ele irritado. Admito que a palavra de baixo calão saindo de sua boca nem ficou tão desagradável. Reprimi imediatamente esse pensamento. — Você me assustou.
Arqueei as sobrancelhas em desdém por um rápido segundo e voltei a atenção para o caderno. Felipe se aproximou lentamente de mim e percebi isso por sua respiração continuar pesada.
— O que está fazendo aqui? — ele perguntou sentando em uma das mesas próximas a mim.
Isso mesmo. Ele se sentou em cima da mesa. Não em uma cadeira como qualquer pessoa normal faria.
— Te interessa? — indaguei sem olhar para ele. Felipe respondeu sim na maior cara de pau. — Eu estou...
Levantei o rosto com rapidez. O que eu estava pensando que estava fazendo? Desde quando eu devia satisfação a ele? Não, não. Isso estava errado. Muito errado. Eu deveria ter saído por aquela porta no momento em que ele deu as caras nessa sala. Fechei meu caderno com mais força do que deveria. De relance, vi que ele me olhou confuso.
-O que está fazendo? — interrogou ele levantando-se.
— Indo embora, é óbvio — respondi, enquanto deixei sem querer o meu estojo cair. Aberto.
Droga. Parece que essas coisas só acontecem comigo.
Antes que eu pudesse me mover para recolhê-lo, Felipe se abaixou antes de mim e guardou tudo com certo cuidado.
— E por quê? — ele perguntou olhando nos meus olhos quando puxei o estojo de suas mãos com brutalidade. Coloquei-o na mochila e suspirei.
-Você faz perguntas demais, sabia? — eu disse caminhando em direção ao armário no fundo da sala para guardar os livros que eu havia pegado.
— Prometo parar de fazer perguntas se você disser o porquê está indo embora justamente quando eu cheguei — ele arqueou as sobrancelhas escuras quando eu virei a cabeça para trás, dessa vez ele estava na cadeira do professor.
— Imagina se alguém me ver com você — disse eu, guardando os livros e socando a porta do armário para fechá-la. — Estou arruinada
Ele abriu um sorrisinho de lado quando eu me virei. Não sei se era por causa do que eu havia dito ou por me ver socar a porta do armário como uma retardada que está a fim de quebrar a mão.
Idiota. Peguei minha mochila e a coloquei nas costas.
— Arruinada? — ele pareceu surpreso. — A maioria das garotas daria a vida para estarem fechadas comigo dentro de uma sala.
— Eu não sou como a maioria das garotas — respondi caminhando firmemente até a porta.
E então eu me dei conta do que ele havia dito.
— Seu imbecil — gritei enquanto corria até a saída. — Porque você fechou a porta? Por quê?!
— Só não queria que os caras me encontrassem, ué — respondeu ele dando de ombros.
— Será que você ainda não viu que a porta está quebrada? — gritei girando a maçaneta repetidamente e não tendo nenhum sucesso. — Você não pode fechá-la. Não lembra que o professor avisou isso durante as aulas?
— Eu tenho muito mais o que fazer do que prestar a atenção no que ele diz, duh — Felipe retrucou e eu fiquei com muita vontade socá-lo na cara. — Ai, saí daí,vai, deixa eu abrir essa porta, franguinha.
Socar a cara dele? Esquece. Tenho vontade de desfigurar aquele rostinho bonito que Deus, muito generoso, havia dado a ele. Posso até ser um pouco pequena, mas ser chamada de franguinha? Quem ele pensa que é?
Se a situação não fosse tão trágica eu poderia rir ao ver sua desolação quando a maçaneta saiu na sua mão, mas não fiz isso por que a ideia de ficar trancada com Felipe Campana dentro de uma sala me causa ânsia.
Ideia não, realidade. Porque já faz quase meia hora que isso está acontecendo.
— Ouviu isso? — Felipe desencosta-se rapidamente da parede e olha na minha direção.
Estou tão concentrada na minha respiração para acalmar meus batimentos cardíacos que levo um susto com isso.
— Deve ser os anjos que vieram te buscar depois que eu te matar — respondo irônica e ele bufa. — Se é que você vai para o céu.
Felipe manda eu calar a boca enquanto se aproxima da porta. Então ele começa a berrar como se nessa sala houvesse um princípio de incêndio – ou talvez como se alguém estivesse tentando o matar. Haha.
Depois de um tempo uma voz aguda o responde e logo em seguida a porta se abre. Cabelos ruivos voam quando o ser se agarra no pescoço de Felipe. A garota tenta beijá-lo, mas não adquire sucesso, já que Felipe a segura pelos pulsos.
— Que bonito, ein? — comento um pouco alto demais enquanto bato minhas palmas uma contra a outra lentamente. — Achei que você fosse amiga da Catarina.
O ser ruivo, conhecida mundialmente como Thalita, adquire a coloração do seu cabelo e se afasta bruscamente de Felipe como se algo nele a repelisse.
Thalita Carvalho é o braço direito e melhor “amiga” de Catarina Avelar, a ficante/peguete/quase namorada de Felipe. Onde uma está, a outra está atrás. O que uma tem, a outra também tem. Não é de se assustar que as duas dividem o mesmo garoto, mesmo sem Catarina saber.
— Quem é você? — ela indaga com os olhos verdes esbugalhados.
— Alguém que está com a língua coçando pra contar para o mundo o que acabou de ver — sussurro de forma ameaçadora.
Thalita encara Felipe por alguns instantes, então passa as mãos sobre o uniforme justo como se tentasse desamassá-lo e cruza os braços na minha direção.
— Mas não era eu que estava presa sozinha com ele dentro de uma sala fazendo sei lá o que — ela comenta exibindo um sorrisinho cruel.
A boca de Felipe se abre, mas nada sai. A minha faz a mesma coisa. Encaro Thalita minuciosamente.
— Por acaso você está insinuando alguma coisa? — pergunto levantando-me da cadeira e dirigindo-me até ela.
Quando me aproximo de Thalita, percebo que ela fracassou totalmente na tentativa de esconder suas sardas com maquiagem.
— O que você acha? — diz ela arqueando as sobrancelhas ruivas. — Se não me disserem o que estavam fazendo aqui, vou agora mesmo contar para Catarina o que eu vi.
— E o que você viu? — Felipe pergunta. Certo, ele não está ajudando a nos livrar dessa situação constrangedora.
Thalita coloca o dedo indicador no queixo, pensativa.
— Tecnicamente? Nada — admite ela. — Mas tenho uma imaginação bem fértil e posso resolver isso ao longo do caminho.
Meu coração para na garganta e eu o engulo de volta. Só estou assim, porque meio mundo sabe que Thalita tem fama de fofoqueira. Ela é os olhos e os ouvidos desse colégio. O problema é que quando deixa de inventar, tudo o que ouve e vê, ela aumenta.
— Você não vai fazer isso — vocifero irritada e autoritária. — Felipe e eu não estávamos fazendo absolutamente nada.
— Não — ele me corta e por um segundo penso que Felipe está me ajudando a nos livrar dessa. Sou tão iludida — Estávamos sim. E pode ir agora mesmo falar pra Catarina isso.
As expressões do rosto de Thalita e do meu são as mesmas: completamente confusas.
— O quê? — Thalita inquire.
— Mas que diabos você está fazendo? — eu berro dando um passo na direção dele. — Está ficando louco?
— Não, é claro que não — ele me encara de forma inocente. — Mas acho que nós deveríamos logo assumir pra todo mundo o que está rolando entre a gente.
O queixo de Thalita caí junto com o meu quando ele se aproxima de mim e enrola os braços na minha cintura. Uso toda a força que me resta tentando me desvencilhar, mas é inútil sendo ele bem mais forte que eu.
— Não acredito que essa mocréia te enfeitiçou — Thalita choraminga e então seus olhos transbordam fúria quando ela me encara. — Não pense que Catarina vai deixar isso barato. Você está completamente ferrada.
Os pelos na minha nuca se eriçam quando ela pronuncia as últimas palavras antes de virar as costas e sair rebolando. Tomo consciência de que Felipe ainda está com os braços envoltos em mim e de costas pra ele, o cotovelo nas costelas. Ele geme, mas pelo menos me solta.
— Que palhaçada foi essa aqui, posso saber? — pergunto com a raiva tomando conta de mim. — “Assumir o que está rolando entre a gente”? Você pirou, foi?
Seu rosto ainda se contorce de dor quando Felipe se vira para mim.
— Eu não aguento mais a Catarina — ele explica com a mão sobre a barriga. — Ela é... grudenta demais. Estou de saco cheio dela.
— E não é homem o suficiente pra terminar com a garota? — zombo soltando uma risada nervosa.
— Primeiro: não tem como terminar com ela se nós nunca começamos algo — ele explica levantando o dedo indicador. Depois levanta outro. — E segundo: ela não ia aceitar muito bem um fora. Então pensei que se Catarina achar que eu estou a fim de outra, ela vai se afastar de mim e sem ressentimentos.
Eu respiro bem fundo tentando me acalmar. Catarina Avelar não é o tipo de garota que se contenta fácil com as coisas. Ela é possessiva. E Thalita vai contar – e aumentar – pra ela tudo o que acabou de acontecer.
Eu fecho os olhos e expiro pesadamente.
— É mais capaz ela fazer da minha vida um inferno do que se afastar de você, idiota.
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