Reaprendendo a amar
4 Capítulo 3.
Notas iniciais
Naquele dia após o trabalho, Yasmin se sentiu desorientada.
Não era nada a respeito das crianças, dos professores ou do diretor.
Não.
O problema era Scott.
Após a saída, e encontrar Akiná e sua mãe na porta de escola com seus habituais sorrisos simpáticos (sim, Yasmin se afeiçoara demais às duas), ela não quis ir para casa. Ficou perambulando pelas ruas movimentadas do mundo bruxo. Yasmin parou em um café e tomou um chocolate quente, porém, os movimentos eram mecânicos, não prestava atenção no que fazia. Estava presa em um flashback doloroso.
— Scott, não! – ela exclamou.
O menino, porém, era mais forte a segurou com força pelo pulso. Algumas pessoas no meio da rua pararam para observar o showzinho.
— Pelo amor de Deus, Yasmin, você vai parar agora com sua frescura. Olha só, todos estão olhando.
Uma lágrima rolou de seus olhos por Scott estar segurando seu pulso com força excessiva. Aquilo não era um relacionamento saudável que Yasmin queria. Não era nem de longe. Uma mágoa passou pelos olhos da garota e ela puxou seu braço com força.
— Scott... Por favor, eu não quero.
— Se não parar agora nós vamos terminar.
Aquilo soou como uma ameaça. Mas Yasmin não conseguiu enxergar aquilo naquele momento, por isso parou de chorar e seguiu Scott, mesmo que seu coração dissesse que não.
Como ela tinha se submetido a tudo aquilo por causa de um namorado? Como?
Yasmin sentiu a raiva crescendo dentro de si e escreveu na tábua do seu coração que nunca mais isso aconteceria quando se relacionasse com outra pessoa. Nunca mais. Nem com Leonardo nem com ninguém.
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Leo estava realizando manobras de ressuscitação em uma mulher de, no máximo, quarenta anos. Aquilo estava sendo bem difícil para ele, já estava sem fôlego e seus chefes não paravam de gritar ordens enquanto alguns injetavam medicamentos na veia da mulher.
Porém, nada dos esforços foram o suficiente porque ela entrou em óbito às 19:43 p.m.
— Isso acontece, cara – Steve deu um tapinha no ombro do amigo no quarto que os residentes dividiam.
Leo estava sentado comendo um pacote de salgadinho, mas continuava pensativo. Ele se sentiu tão impotente não salvando a vida daquela mulher e depois tendo que dar a notícia aos familiares. Aquilo foi um soco em seu estômago.
Apesar de não ser a primeira vez que aquilo acontecia, Leonardo sempre ficava desanimado.
— Que profissão ingrata, né? – Leo refletiu. – Um dia nós salvamos quatro. No outro perdemos um e toda satisfação por ter salvado os outros quatro acaba porque perdemos um. É muito ingrato.
— Têm dias e dias, parceiro. Você não pode olhar para as baixas, e sim para cada sorriso no familiar de quem você salvou. Hoje eu consegui desintoxicar um garotinho de cinco anos, foi uma sensação ótima e eu até me esqueci de que ontem duas pessoas entraram em óbito nas minhas mãos.
Leonardo sorriu.
Então a imagem de Yasmin passou por sua cabeça e ele logo se animou ao lembrar-se que amanhã a veria duas vezes.
Decidiu contar para Steve sobre os avanços com ela.
— Nossa, Leo, você está caidinho pela loira! – Steve brincou.
O moreno sorriu encabulado.
— É impossível não estar caidinho por ela, babaca – Leonardo continuou. – Ela é linda, inteligente, fofa e ainda por cima é professora de jardim de infância.
Steve riu pelo nariz.
— Ser professora de jardim de infância é uma qualidade? Porque então vou procurar minhas futuras namoradas dentro da sala de aula...
Leonardo balançou a cabeça negativamente enquanto ria para o amigo.
— Adivinha quem irá vê-la duas vezes amanhã? – Leo perguntou com um sorriso malicioso. – Um tal de Leonardo Clearwater...
Steve, só para variar, deu um soquinho no ombro do amigo.
— Uau! Duas vezes?
— Steve, um dia terei que amputar meu braço de tanto que você me bate!
O amigo riu.
— Vou te explicar: existe o soquinho do “Oi, como você está?”, existe o soquinho do “Você é babaca”, existe o soquinho do “Aí sim, parceiro” e existe o soquinho do “Mandou bem, cara”.
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Yasmin decidiu andar pelas ruas bruxas à noite. Estava um dia quente e ainda não estava deserto aquele local. Preferiu andar para respirar um pouco de ar puro, para aproveitar a sensação de estar naquele lugar sem precisar ir correndo para o trabalho. Naquela hora ela viu exatamente o oposto: todos saindo felizes de seus empregos. Estava uma ótima noite.
Os sentimentos dela estavam confusos. Yasmin se sentia mais do que feliz ao saber que se encontraria duas vezes no dia seguinte com Leo, mas ao mesmo tempo se sentia apreensiva por estar se apegando tanto a ele em tão pouco tempo. E se ele não fosse nada daquilo que ela pensava? E se ele se mostrasse tão desumano quanto Scott?
Yasmin sacudiu a cabeça, tinha que parar de pensar em seu passado.
Estava andando distraída quando alguém em sua frente lhe chamou a atenção. Estava no seu sentido oposto e quando se cruzaram os olhares se encontraram.
— Ei! – Leo tentou acenar, mas segurava seu jaleco em uma mão e sua maleta em outra.
— Oi! – Yasmin sorriu.
Os dois continuaram a andar em sentidos opostos, mas não desviaram o olhar. E por não prestarem atenção no caminho ambos colidiram com pessoas apressadas. Leo e Yasmin sorriram um para o outro.
— Até amanhã, Yas – Leo exclamou para tentar ser ouvido.
— Vejo você! – Yasmin exclamou do mesmo modo.
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O jantar era na casa dos pais de Yasmin. Os quatro (Jorge, Lívia, Philipe e Yasmin) se reuniram naquela noite de quarta-feira. Apesar de ser um dia incomum para jantares, eles sempre gostavam de passar mais tempo um com o outro.
Porém naquele dia não foi o que aconteceu.
Jorge e Yasmin sempre se davam bem. Jorge era ciumento com Yas, mas ela ainda o acha seu super-herói. Era difícil para ambos ficarem longe um do outro então Jorge sempre dava uma desculpa para vê-la. Já Philipe era mais grudado com Lívia.
Estavam jantando tranquilamente até que Philipe fala, inocentemente:
— E aí, Yas? E o atrapalhado?
A loira mais nova riu.
— Está bem, Lipe.
Jorge arqueia as sobrancelhas sem saber o que se passava. Liv percebeu a movimentação do ruivo e o repreendeu pelo olhar, mas a expressão dele não melhorou.
— Quem é esse atrapalhado, querida? – Jorge perguntou parando de comer.
Yasmin percebeu que não seria um assunto muito aprovado pelo pai, mas mesmo assim decidiu contar. Não havia nada demais...
— Ah, eu conheci um menino. É o Leo. Ele trabalha no St. Mungus... O Lipe o chama de atrapalhado porque nós nos conhecemos esbarrando numa esquina. Literalmente... – ela abaixou o olhar. – Ele é legal, mamãe. Nós vamos jantar amanhã.
Jorge ficou em silêncio.
— Ele parece ser bacana pelo que Yasmin me contou – Lipe deu forças à irmã. – Aliás, a Clara vai vir almoçar com a gente domingo.
Yasmin sorriu para o irmão por ele tentar mudar de assunto, mas Jorge ainda não tinha se dado por vencido.
— E esse garoto... Vocês se conhecem há quanto tempo mesmo?
— Três dias – Yasmin engoliu em seco.
Lívia levantou-se e retirando os pratos disse:
— Chega, Jorge. Se Yasmin estiver feliz eu também estou. E você também deveria ficar.
Jorge olhou para a esposa incrédulo.
— Ela conhece o rapaz há três dias! – ele argumentou.
— Eu ouvi – Lívia respondeu voltando da cozinha. – E acho que a nossa filha tem que saber o que é certo para ela, Jorge. Yasmin tem vinte anos! Vinte anos, não treze. Nós a criamos da melhor maneira possível e ela sabe o que fazer ou não. Para com isso, querido, senão o que era para ser um jantar agradável ficará péssimo.
Yasmin paralisou ao ver sua mãe a defendendo. Ela tinha mesmo jogo de cintura para lidar com seu pai. Mas mesmo assim, Jorge não estava convencido de nada. Ficou quieto na mesa apenas encarando cada um deles.
— Eu só queria dizer que a Yasmin pode ter vinte, trinta, quarenta anos ela nunca vai saber como esse mundo é sujo, Lívia. A menina só conhece o rapaz há três dias e vai sair à noite com ele.
Yasmin ruborizou.
— PAPAI! – ela exclamou horrorizada com o que ele insinuara.
— Jorge! – Lívia a acompanhou.
— Pega leve com a Yasmin, pai – Philipe entrou na conversa. – Ela não se relaciona com ninguém há muito tempo!
Yasmin ruborizou mais ainda pelo comentário inoportuno do seu irmão.
Jorge se levantou e falou diretamente para sua filha:
— Você faz o que achar melhor, Yasmin, mas não me venha chorando quando algo der errado. Ouviu?
Lívia colocou as mãos na cintura e respondeu olhando fixamente para a filha:
— Pois eu digo que se algo der errado você pode, sim, chorar no meu ombro porque eu sou sua mãe e mesmo que você quebre seu coração eu vou estar aqui.
— Gente, para! – Yasmin pediu com o coração acelerado. Era incomum ver uma cena dos pais discordando tão avidamente. – Eu só disse que ia jantar com o Leo! – Seu pai revirou os olhos à menção do nome do garoto. – E eu sei o que vou ou não fazer com ele amanhã. – Seu pai boquiabriu-se com a ousadia da filha. – E eu não sei o que você quer que eu faça. Se não for com ele será com outro. Não pense que morrerei sozinha dentro de uma bolha criada pelo meu pai.
Nessa hora Yasmin arrependeu-se amargamente do que dissera. Toda a frustração que havia sentido descarregou em cima do homem que tanto amara. Nessa hora Jorge apenas a olhou com tristeza e se retirou da cozinha. Liv passou a mão pelo rosto, cansada. E Philipe apenas observava tudo de olhos arregalados.
Era muito comum Philipe e Jorge discutirem. Assim como Liv e Yasmin. Mas Yasmin e Jorge discutirem era extremamente raro. Jorge era o homem da vida de Yasmin e ninguém poderia ocupar aquele lugar. Por isso que quando houve a discussão um pedaço do coração dela se quebrou em milhares de pedaços.
Yasmin teve sua visão embaçada pelas lágrimas e sua mãe foi abraça-la.
— Ô, querida, não fica assim. Seu pai pegou pesado, mas você também... – ela acariciou o cabelo de sua filha. – Quando tudo ficar mais calmo vocês conversam. Aliás, o que seria daquele ruivo sem você, querida? Nada. Ele te ama tanto, mas tanto...
Philipe se posicionou do outro lado da irmã e também afagou seu braço.
Yasmin, diante daquela cena, secou as lágrimas e foi para o quarto do seu pai. O quarto que tantas vezes fora se refugiar em noites de trovão. O quarto que sempre ia para buscar refúgio.
Seu pai estava de costas para a porta, inclinado com o cotovelo no joelho e a cabeça apoiada em suas mãos. Era difícil para ele admitir que sua filha estava crescendo e se envolvendo com rapazes que podiam não ser de sua confiança. Ele a queria para sempre sendo apenas dele. Sendo o único homem de sua vida.
— Papai, se o senhor não quiser eu não saio amanhã com o ele – ela evitou dizer o nome “Leo”.
O ruivo virou rapidamente a cabeça em sua direção e ficou emocionado com a atitude de sua filha.
— Não, de jeito nenhum.
— Sim, papai – ela disse serenamente e se sentou ao seu lado. – Eu recuso, digo que não posso... Mas não fica bravo comigo nunca mais, por favor.
Jorge não aguentou ao olhar de sua menina e a abraçou, deitando a cabeça de sua filha em seu peito. Ele queria protege-la mais, mais ainda, mas não podia. Sua esposa tinha razão. Yasmin tinha vinte anos e ela tinha que viver. Tinha que errar, acertar, quebrar seu coração e consertá-lo. Ele não podia preveni-la de decepções.
Yasmin sentiu uma paz sobrenatural naquele abraço. Ouviu as batidas aceleradas do coração de seu pai e ficou ali por incontáveis minutos. Era muito bom ter alguém que a amasse tanto. E se arrependera instantaneamente do que dissera e que magoara seu pai. Seu tão amado herói.
— Vá em frente, filha – Jorge disse após um tempo. – Vai se encontrar com o menino. – Ele levantou a cabeça da menina com as duas mãos e a olhou nos olhos. – Mas não faça nada, nada, nada que não queira – Ela engoliu em seco. – Ouviu, querida? Só o que você estiver pronta. Se você não quiser abraça-lo, não abrace. Cumprimente só com um aperto de mão... Se não quiser apertar nem a mão dele, não aperte. Se não quiser beijá-lo, não beije. E se não quiser se entregar, não se entregue.
— Ah, papai... – Ela suspirou sorrindo. – Eu te amo.
Jorge sorriu e respondeu:
— Eu também te amo.
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O dia praticamente se arrastou. Yasmin estava muito eufórica para jantar com Leonardo e parecia que as horas não se passavam nunca. O café da manhã já tinha sido ótimo, a cada vez que se encontravam sabiam mais sobre o outro, conheciam os jeitos e trejeitos, decoravam melhor cada detalhe de seus rostos.
Na escola, Yasmin estava se dando muito bem com os alunos. Eles já a abraçavam e eram carinhosos. Já tinham se apegado. As professoras aceitaram Yasmin como funcionária nova e não dirigiram mais nenhum comentário maldoso apesar de olharem desconfiadas às vezes. Yasmin já tinha feito amizade com um professor de crianças de 10 anos, ele se chamava Marcelo e eles tinham se dado muito bem.
Na hora do intervalo, Yasmin descobrira que Marcelo também tinha se formado em Hogwarts, mas ele era cinco anos mais velho que ela, por isso não chegaram a se conhecer. Mesmo assim, era bom ter um assunto em comum para conversar. Os dois tomaram café juntos e os boatos entre as professoras já começou a aumentar. Nada, porém, que incomodasse Yasmin, ela tinha muita certeza de suas intenções.
Assim que deu sua hora de saída, Yasmin rapidamente pegou sua bolsa e seus pertences e saiu da escola. Deu seu habitual tchau para Akiná e sua mãe e seguiu pelas ruas procurando um beco para desaparatar. Chegou à sua casa na velocidade da luz e entrou no banho.
Eles iriam se encontrar no mesmo lugar de sempre para então seguirem para o restaurante onde iriam passar o resto da noite.
Yasmin queria estar apresentável, mas não muito extravagante. Por isso, escolheu um vestido florido branco e acinturado, colocou um sapato azul baixo e jogou um casaquinho por cima. Ela secou seu cabelo com magia e passou pouca maquiagem, só um pouco de rímel e lápis preto para aumentar seus olhos e deu umas batidinhas de batom pela sua boca. Olhou-se no espelho e gostou do que viu.
Ela viu que já eram oito e meia da noite, por isso saiu de seu apartamento e foi direto para a rua em que eles se esbarraram. Aquele sempre seria o ponto de encontro entre os dois.
Quando chegou à esquina pôde ver que Leo já a esperava. Ele tinha os cabelos ainda molhados pelo banho e tinha colocado uma camisa, um jeans e um sapato apenas, mas estava radiante aos olhos de Yasmin.
Ele era realmente bonito.
Quando Leonardo percebeu que ela tinha chegado um sorriso logo brotou em seus olhos. Ela estava fantástica. Como ele tinha demorado tanto para encontrar aquela mulher perfeita? Yasmin era a personificação da pessoa que ele sempre idealizara em sua mente.
— Oi – ela disse tímida.
— Olá, senhorita – Leo responde para quebrar o clima.
Eles se cumprimentaram e começaram a andar em direção ao restaurante.
— Então é comida japonesa? – Yasmin perguntou com o olhar de criança.
— Eu amo comida japonesa! – Leo respondeu. – E tem um restaurante aqui no bairro que vai se tornar o seu favorito, pode apostar.
Os dois continuaram conversando animadamente até chegarem ao restaurante. Vez ou outra Leo nem prestava muita atenção no que Yasmin dizia, ele apenas a observava e apreciava seu entusiasmo, sua delicadeza e seu sorriso. Ah, aquele sorriso...
Eles chegaram ao local e se sentaram. O ambiente era confortável e agradável. A luz um pouco baixa e bancos próximos.
— Bom, vou te confessar uma coisa, Yas – ele disse em tom de segredo. – Eu não sei usar hashi.
Isso fez Yasmin gargalhar.
— Eu também não – ela respondeu no mesmo tom.
Os dois conversavam e riram. Leo era espontâneo e engraçado e Yasmin tinha o mesmo senso de humor do que o garoto. As trocas de olhares também diziam muito. Vira e mexe ambos se pegavam observando um ao outro.
— Então, Yas – Leo arriscou tocar em um assunto mais íntimo. – Por que você disse que queria confiar de novo em alguém?
Yasmin se assustou ao perceber que Leo lembrava-se dos detalhes de suas conversas. Não que tivessem sido muitas, mas mesmo assim não esperava que Leo recordasse.
— Hum... – Yasmin enrolou a ponta do cabelo pensando em como dizer aquilo de maneira superficial. – Eu tive um relacionamento fracassado há um tempo atrás. Não acho que valha a pena estragar nosso jantar com isso.
Leonardo sorriu com a delicadeza da menina.
— Claro! Quem nunca teve um relacionamento fracassado?
Eles continuaram conversando animadamente. Comeram o suficiente para ficarem satisfeitos e Leo se ofereceu para ir com ela até sua casa. Yasmin aceitou prontamente e os dois andaram até a casa da loira na noite agitada de Londres.
As ruas ainda estavam iluminadas, várias pessoas andavam pelas calçadas e ainda havia carros em todas as direções.
Yasmin confessava a si mesma que esperava que Leo a beijasse naquela noite, porém ele deu um beijo em seu rosto. Ela disfarçou a incredulidade, mas isso não passou despercebido para Leo que riu.
— Ei, Yas – ele a chamou e ela ergueu os olhos. – Eu não quero que nosso primeiro beijo tenha gosto de peixe.
A loira gargalhou com vontade sendo acompanhada por Leo.
— Então isso é um convite para uma próxima vez? – ela perguntou mordendo o lábio inferior.
— Não sei. Isso foi um convite?
— Não sei – Yasmin respondeu no mesmo tom.
Leo sorriu e tirou uma mecha do cabelo loiro de Yasmin de cima de seus olhos.
— Você quer tomar café da manhã comigo amanhã? – Leo perguntou.
— Sim! – Yasmin respondeu rindo também.
Os dois se despediram com um abraço e Yasmin entrou em seu condomínio.
Ela subiu rapidamente para o apartamento e sentiu o seu coração disparar ao se lembrar dessa noite. Tinha sido maravilhosa. Ela queria mais.
Porém, as sombras do passado ainda a perseguiam. Por onde ela olhava ainda existia resquícios de mágoas passadas. Ela precisava se livrar de toda aquela dor antes de se envolver com alguém, principalmente com Leonardo que se mostrara tão especial.
Yasmin precisava externalizar suas marcas. Ela queria se ver liberta daquele sentimento tão doloroso que a perseguia. Ainda era um trauma para sua vida e trazia um bloqueio para ela mesma. Por isso começou a procurar por tudo que se lembrava de Scott pelo apartamento e foi juntando em uma caixa de papelão.
Cartas, fotos, presentinhos, objetos que ainda decoravam seu apartamento, bloquinho de anotações, portarretratos escondidos, canecas e até mesmo um perfume que Yasmin deixara de usar por se lembrar de Scott.
Ao separar tudo aquilo colocou em uma lata de lixo.
Ela pensou que se sentiria bem, renovada, mas não. Ela se sentiu da mesma maneira que antes.
Algo precisava ser feito de diferente.
Yasmin se olhou no espelho e viu o reflexo de uma menina com o corpo transformado, com o coração machucado e o pensamento no passado. Apesar de estar bem fisicamente, com seu cabelo loiro comprido, olhos cor de mel bem expressivos, pele que mais parecia porcelana e corpo em forma, seu estado emocional ainda não estava bem.
Então Yasmin tomou uma decisão.
Se guardar aquilo para ela não surtira o menor dos efeitos, ela precisava contar para alguém, desabafar com alguém.
Yasmin não conseguiu pensar em ninguém além de sua mãe. Ela era sua companheira, sua melhor amiga, era compreensiva, dava os melhores conselhos. Sim, Lívia era a pessoa perfeita para ela desabafar.
Por isso, limpou as lágrimas que insistiram em cair e desaparatou em frente à casa de seus pais.
Sentiu cheiro de comida e decidiu bater na porta.
Seu pai a atendeu sorrindo.
— Oi, meu amor! – Jorge a cumprimentou com um sorriso de orelha a orelha.
— Oi, papai – Yasmin fingiu entusiasmo. – Papai, eu quero falar com a mamãe.
Jorge a interrogou com o olhar, mas Lívia apareceu atrás dele.
— Pois não, querida? – sua mãe perguntou.
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