Notas iniciais
Cara... Eu li esse capítulo pra revisar e tô tão chocada... Eu não lembrava de essa fic ser tão interessante assim.

— Estou chegando, minha filha.

Repeti isso todo o caminho, enquanto o cavalo me chacoalhava, galopando a toda velocidade. Passamos rapidamente pela parte central da cidade, com ruas de pedra, mercados e pessoas por toda a parte. Fomos passando para ruas cada vez piores, com terra em vez de pedra, e casas substituíram os comércios. Depois, as casas foram piorando de qualidade, ficando cada vez mais afastadas. Começaram a aparecer vegetações e os monstrinhos dos quais Tteok havia falado. Não que eu pudesse vê-los muito nitidamente na velocidade em que estava. As casas foram sumindo e sendo substituídas por arbustos e árvores cada vez maiores e em maior quantidade, até que eu me vi em uma floresta. Em contrastes com a vegetação verde, percebi, ao longe, a mancha preta que parecia a definição perfeita da morte.

Conduzi o cavalo a uma velocidade mais moderada, tendo em vista a grande quantidade de obstáculos, mas sabia que estava na direção certa, embora ainda estivesse longe do destino. O sol começava a se pôr. Depois de algum tempo, fui me aproximando e sendo mais cauteloso, lembrando do que Tteok tinha falado sobre o habitát dos monstros maiores.

Estava chegando perto quando comecei a ouvir os barulhos. Comecei a olhar para os lados. Só ouvi o assobio e uma ardência no ombro quando a flecha passou raspando.

— Aish — murmurei, enquanto o cavalo começava a se agitar. Era um cavalo de passeio, não de batalhas, então não demorou muito para eu parar no chão enquanto o bicho disparava para algum lugar desconhecido.

Mesmo assustado e com dificuldades, me levantei rapidamente e comecei a procurar o autor do disparo. Um assovio, dessa vez não de uma flecha, mas um de verdade, fez-se ouvir. Ao olhar na direção da origem do som, avistei o arqueiro com sua flecha apontada para mim. As vestes eram pretas, tal como a máscara que cobria ao redor dos olhos e era decorada com penas.

— Acho melhor você não se mexer, rei de Omelas — sugeriu ele.

— Eu concordo — disse, entre risos divertidos, um rapaz mais novo que apareceu do nada atrás de mim. Logo senti a incômoda pontinha da lâmina de sua adaga em minhas costas.

As roupas e a atitude dos rapazes, bem como o local de nosso encontro, me fizeram ter certeza de que estavam a serviço do inimigo da monarquia.

— O que faz por este lado? — perguntou o arqueiro, aproveitando-se da ameaça do outro para afrouxar um pouco a corda. — Veio buscar sua filhinha?

— Eu vim fazer uma troca. Sei sobre o sacrifício que querem fazer, e eu quero que seja o meu sangue em vez do dela.

O arqueiro olhou para o outro, que riu novamente como uma criança. Depois, voltou sua atenção para mim.

— Não sou eu quem decide isso. Nós vamos levá-lo ao Lord Baepsae, e ele vai te avaliar. Já adianto que dificilmente ele aceitará sua proposta. E… — disse ele, enquanto já começava a caminhar em direção à Morte. — Eu não devia te ajudar, mas… Se quiser um bom argumento, diga que o sangue de um rei vale mais do que o de uma princesa.

~

Os homens amarraram minhas mãos e me levaram pela floresta. Em pouco tempo, alcançamos a imensa clareira onde ficava o castelo sombrio. A primeira coisa que chamou a atenção foi o bicho gigante com dentes maiores que meu braço, que logo supus ser o capturandam. Assim que nos viu, ele se agitou e veio em nossa direção correndo, o que obviamente me deixou muito nervoso.

— Para, Hebi! — disse o da adaga, erguendo a mão para o monstro e rindo como se ele fosse só um cachorrinho. — É o rei, o Lord ainda vai nos dizer o que fazer com ele.

— É, Hebi, ele tem que ver primeiro.

Hebi deu uma grande lambida no da adaga, o que ele achou divertidíssimo.

— Você deve estar com fome! Eu vou pegar suas carniças assim que terminar o serviço.

Os dois me levaram para dentro do palácio — que aliás era muito, muito menor que o meu. O hall, como se esperava, era escurecido pelas cortinas pesadas e fechadas.

— Cadê o Lord? — perguntou o da adaga.

— Deve estar nos aposentos dele. O sol está se pondo, ele deve estar se preparando para a primeira noite com a escrava.

— Oi?

— Vai chamar ele, Taehyung, e diz que é importante. — disse o arqueiro, me ignorando.

Taehyung foi para algum lugar além do hall que eu não vi direito, já que o arqueiro me jogou no chão. Eu arquejei, e ele me recomendou que mantivesse a cabeça baixa. Achava estranho que ele quisesse me ajudar de alguma forma.

Esperamos um bom tempo até que ouvi a voz sinistra daquele que certamente era o Lord Baepsae se aproximando pelos corredores. Ele estava reclamando da atitude de Taehyung. Ao entrar de fato no hall, o Lord começou a resmungar.

— Então quer dizer que o rei de Omelas veio atrás da filhinha. Isso é muito meigo.

Eu não podia perceber muito além de um vulto preto com minha visão periférica. Ousei levantar o rosto, já que ele aparentemente falava comigo, e rapidamente vi a figura preta com uma máscara que cobria seu rosto completamente, e tinha o exato formato da cabeça de um corvo, inclusive com o bico. Ele se movia em direção ao trono. O arqueiro logo forçou minha cabeça novamente para baixo.

— O que exatamente você pensa? Acha que eu vou ter pena da princesa de Omelas e libertá-la sem cumprir a promessa de fazer a monarquia pagar por seus crimes?

— Não espero que tenha pena. Nem que desista do seu plano, embora eu ainda não entenda que crimes são esses.

— Não cabe a você saber.

— Também não entendo por que uma princesa tão jovem teria que pagar por eles.

— Porque eu a escolhi. Mas, afinal, o que você espera? O que veio fazer aqui?

— Vim propor uma troca. Eu quero ficar no lugar dela.

Lord Baepsae começou a rir.

— Ah, sim. Por que eu faria uma troca dessas?

— Porque o sangue de um rei é mais forte do que o de uma princesa herdeira.

— Você acha, é? Acha que os plebeus se importam com você? Acha que vão sentir seu sacrifício? Eles não vão. E outra coisa: são três dias de escravidão. Três dias aqui na Morte antes de ir para a boca do Hebi. Ou seja: eu vou ficar três dias na companhia dessa pessoa. Então olhe para mim e me diga por que eu trocaria uma linda e jovem princesa por um velho rei.

Ergui minha cabeça lentamente, já com medo do arqueiro. No entanto, dessa vez eu tinha certeza de que era uma ordem, e eu deveria erguê-la. Repousei meus olhos sobre aquela assustadora face corvinal. Mergulhei minha visão nos buracos da máscara e observei atentamente a única parte humana que estava visível naquela criatura.

Os olhos castanhos dele mudaram um pouco quando passei a observá-lo. Não estavam interessados em nada particular no momento em que olhou para mim, mas de repente se tornaram tão focados que tive certeza de que havia algo muito errado ou muito certo comigo. Encarei aqueles olhos que de repente pareciam muito profundos, esquecendo completamente a máscara que os cercava.

Eu não sei quanto tempo o encarei. Perdi completamente a noção do tempo, até que ele se levantou do trono e veio caminhando na minha direção, sem tirar os olhos de mim, o que foi fazendo meu coração acelerar aos poucos enquanto o medo me tomava. Perto de mim, ele me parou, com aqueles olhos famintos, e fez algo ainda mais surpreendente: tirou a máscara e entregou-a a Taehyung.

Ali por baixo, havia o rosto de um rapaz certamente mais jovem que eu, mas não muito. Um rosto incrivelmente diferente do que eu poderia supor se esconder ali. A expressão era dura, mas não era suficiente para tirar dele a humanidade que o fazia parecer alcançável de alguma maneira. Talvez por isso se escondesse por trás daquela máscara inanimada, obscura, desafiadora. Estava prestes a me perguntar o motivo de sua escolha em tirá-la, quando ele segurou o meu rosto com as pontas dos dedos, apertando bem o polegar e o dedo médio contra minha arcada inferior, chegando a me machucar com a força. Ele não tinha raiva; estava apenas observando. Virou meu rosto para a direita, depois para a esquerda, enquanto parecia pensativo, mergulhado em sua análise.

— Mostra os dentes.

Eu era uma mercadoria. Obviamente, eu era. Ele queria averiguar todos os detalhes, por isso tirara a máscara que poderia atrapalhá-lo. Mostrei os meus dentes em um sorriso forçado enquanto ele sustentava minha cabeça bem para o alto com o dedo indicador sob meu queixo. Depois de alguns segundos, ele recuou um passo, deixando o dedo escorregar e minha cabeça pender bruscamente para baixo. Aproveitei-me disso para mexer um pouco os músculos faciais, na tentativa de recuperar-me da leve dor que restara da pressão. Lord Baepsae pegou a máscara com Taehyung e colocou-a de volta no rosto. Voltou-se para o seu trono enquanto ordenava.

— Joguem-no no calabouço.

Eu queria protestar, mas sabia que minhas chances estavam esgotadas. Os dois me ergueram pelos braços e começaram a me arrastar para uma das entradas que levavam a outras áreas do palácio.

— Hoseok — chamou o Lord, quando chegamos ao portal.

— Sim, meu senhor.

— Eu disse jogar, sim?

— Sim, meu senhor.

— Depois que fizerem isso… Enviem a princesa de volta ao palácio.



Hoseok não economizou na obediência. Fui jogado dentro da cela como um saco de farinha é jogado em uma carroça. Meu ombro imediatamente voltou a arder. A ferida era pequena, mas ardia bastante. Hoseok sussurrou um “miane” muito leve, trancou a porta e foi embora com Taehyung.

Eu fiquei jogado de qualquer maneira, pensando em tudo aquilo. Eu tinha conseguido aquela troca. Tteok disse que era impossível passar pelo Hebi, mas tudo havia sido mais fácil do que eu tinha imaginado, o que me fez pensar que nem tudo funciona como dizem as lendas. Além disso, notei que ele poderia ter ficado com os dois, mas Lord Baepsae não era tão mau quanto se fazia parecer. Ele não queria o mal da família real, queria apenas se vingar de alguma forma pelos misteriosos crimes, o que significava que ele era um plebeu. Ele não achava que fosse possível ele desejar aquela troca, mas algo… Algo em mim o havia feito mudar de ideia.

Mais tarde, apareceu uma pessoa mascarada trazendo peças grandes de carne para os prisioneiros das outras celas, que eram monstros imensos. Depois de dar comida a todos eles, abriu a minha cela, deixou no cantinho um pequeno pote com pedaços de pão, desamarrou minhas mãos (que tinham deixado de qualquer jeito) e me ajudou a cuidar do machucado. Eu tinha certeza de que era Hoseok, até ouvir uma voz diferente da dele.

— Perdoe o Hoseok. Ele se amolece facilmente, então o Lord pede que ele seja mais brusco quando percebe que isso está acontecendo.

— Por isso estou surpreso por você ter vindo. Você, que até agora só se divertiu com a minha desgraça.

— Eu ainda acho divertido. Não sei como Hoseok suporta situações tão extremas sem achar graça… Mas eu ainda tenho o mínimo de senso. Você está ferido.

— Isso não é nada, Taehyung. Provavelmente é só o começo de uma amarga temporada de escravidão.

— Eu não apostaria nisso. Meu senhor foi muito bondoso deixando sua filha ir… E também foi muito bondoso ao mandá-lo para o calabouço.

— Por que me deixar amarrado e ferido no calabouço seria bondade?

— Porque você é um escravo, deveria estar trabalhando arduamente. Ele te deu uma primeira noite de folga. Mas também não sei quanto tempo essa bondade vai durar, já que ele está instável agora.

— Instável?

— Sim. Você fez isso com ele, não percebeu? Enfim, não posso ficar mais tempo. Não é muito confortável aqui, mas eu sugiro, de verdade, que tente descansar ao máximo. Ah, só mais uma coisa… Se realmente quiser desestabilizá-lo, o que me parece uma boa estratégia, chame-o pelo nome.

— Uma boa estratégia para quê?

— Para… Não sei. Para mudar o destino, eu acho. Ou, no mínimo, para achar graça.

— Hum. E qual é o nome dele?

— Kim Namjoon.

Notas finais
Agora eu quero ler mais, que droga kkkkkk