Realmente (Me Chamam de Rei)
1 A Família Real
Notas iniciais
Ah, se você caiu aqui de paraquedas, não tem problema. Essa fic tem referências de outras, mas é INDEPENDENTE.
Meu irmão mais novo nunca me deu a impressão de que gostaria de crianças, mas ele era, surpreendentemente, um bom samchon para minha filha. Ele a ensinava a tocar piano, o que eu achava encantador, mas a relação não passava tanto disso, também. Eu estava acompanhando a aula deles em um dos salões do palácio, e ficava maravilhado com a velocidade com a qual Sunghee aprendia as coisas. Ela era mesmo uma criança diferente. No meio de uma demonstração dele, ela comentou como aquela música era boa para dançar, e veio dançar comigo.
Dançar era uma das coisas que eu mais gostava de fazer com Sunghee. Modéstia à parte eu era um dançarino muito bom, e ela também. Estávamos dançando juntos quando Yumi apareceu.
Eu perdi apenas alguns segundos — que pareceram a eternidade — encarando-a, pensando em nossa curiosa relação. Desde que era muito pequeno, sabia que meus pais jamais me deixariam escapar de um casamento arranjado em prol de decisões boas para o reino, mas suspeitava que seria doloroso me manter em um casamento desses se estivesse apaixonado por outra pessoa. Minha sorte foi que eu, de fato, não me apaixonei por ninguém. Talvez pela falta de companhia no palácio, talvez por medo de sofrer, já que eu conhecia meu destino. Felizmente, a garota que meus pais escolheram para minha prematura união matrimonial aos 15 anos de idade era bem bonita, mas eu não me apaixonei por ela. Eu tenho uma quedinha pela rainha, digamos assim… Mas não é amor, e nós dois sabemos disso. Nós somos amigos, parceiros, ajudamos um ao outro e… Ora, nós temos uma filha. Diria que as coisas entre nós melhoraram muito depois que Sunghee surgiu em nossas vidas.
— Por que não dança com a eomma, apeoji?
Eu sorri para Sunghee e seus sete anos. Ela lia muito e acreditava no amor. Eu não tinha coragem para tirar isso dela, mas às vezes sentia que devia. Quando ela crescesse, passaria pela mesma coisa que eu… E se ela se apaixonasse, sofreria.
Olhei para a rainha e lhe estendi a mão. Yumi sorriu para mim e aceitou o convite. Eu achava um grande privilégio tê-la, mesmo que não a amasse. Ela era linda, companheira, prestativa… Nós éramos atores, mas gostávamos de interpretar. Podia tornar-se divertido se você soubesse como fazer e se tivesse bons companheiros de cena. Nossa pequena princesa divertiu-se com aquilo tudo, porque achava incrível ter pais que se amavam.
— Parece que sua relação com a rainha está melhorando — comentou meu irmão, enquanto jogávamos o jogo dos reis.
— Só por que dancei com ela? Isso não é nada demais. Você acha que é?
— Não a dança, mas… o jeito que vocês se olhavam. Não tente me enganar, hyung. Nós só tínhamos um ao outro na infânrcia, então eu sei bem que você sempre quis se apaixonar.
— O que não significa que eu estou me apaixonando. Nós somos só parceiros.
— Não fuja do amor, hyung.
— Não estou fugindo. Acredite, se eu visse alguma possibilidade de amor, a primeira coisa que faria seria persegui-la. De qualquer modo, acho que me apaixonar por Yumi seria tolice.
— Tolice? Por que seria tolice se apaixonar pela sua própria esposa?
Eu segurei o riso.
— Sejamos práticos, irmãozinho. Muitas pessoas moram nesse palácio. Não que eu seja uma pessoa muito inteligente, mas teria que ser praticamente um vegetal para acreditar que a rainha que não me ama se mantém fiel. Você acredita nisso?
A resposta dele foi uma careta e um dar de ombros, enquanto mantinha seus olhos no jogo. Aquele jovenzinho não sabia disfarçar o nervosismo quando tinha culpa, o que eu achava deveras cômico. Isso porque ele tinha medo de que eu descobrisse o caso dele com a Yumi, quando eu já tinha esse conhecimento de anos, desde quando flagara-os, sem querer, aos beijos na biblioteca. Espiei-os pelos intervalos entre os livros, então eles nunca souberam. Eu achava aquilo divertido. Ficava notando os sumiços dos dois quando eu ficava com a Sunghee, as trocas de olhares toda vez que eu dizia algo suspeito, entre outros sinais que só são nítidos quando você sabe de alguma coisa. A parte divertida em tanta observação era que eles achavam que estavam me enganando, mas na verdade era o contrário, e eu ria sozinho com isso. Depois de algum tempo eu descobri que Jungkook era o único com quem Yumi me traía, o que eu achava bom.
— É complicado, hyung — disse ele, trazendo-me de volta.
— Nem tanto. Eu seria um monstro se exigisse exclusividade.
— Acha mesmo? Não é assim que os casamentos funcionam?
Eu ri de novo. Jungkook era metade ingênuo demais, metade espertinho demais.
— É. Mas é um casamento arranjado, não é? É como eu disse, Kookie… Nós não nos amamos. Se acaso ela encontrou neste palácio alguém para amar, devo me opor a isso?
— E você não encontrou ninguém para amar, ainda.
— Não. Mas se isso acontecer…
— Você vai traí-la?
Virei a cabeça. Jungkook parecia assustado com a ideia, o que era um tanto irônico.
— Talvez. Se achar que devo. Mas, sinceramente… se eu não me apaixonei em tantos anos, por que isso ainda haveria de acontecer?
— Não sei, hyung, mas ainda sinto que você e a rainha estão cada vez mais próximos.
Senti uma ponta bem fina de preocupação nele, o que me deixou feliz. Ele realmente se importava com ela, ao que parecia.
— Eu gostaria de poder amá-la. Nesse caso, gostaria que ela me amasse também. Tudo seria mais fácil.
— Acho que sim. Bom… Não é exatamente o relacionamento dos sonhos, mas… Ao menos você tem sua filha, hyung. Quando eu me casar, quero ter uma filha como a Sunghee.
A atenção não permaneceu no jogo por muito mais tempo. Aos poucos, as ideias foram tomando minha mente enquanto eu lentamente levantava meu rosto para observar meu irmão mais novo, enquanto tentava acreditar naquela suposição. Mesmo internamente inquieto, consegui me manter calmo até o fim do jogo. Como sempre, eu o venci, já que era sempre a metade tola quem jogava.
Eu passei o restante do dia pensando, observando a Sunghee por vezes, e cogitando transmitir logo a Yumi minha insegurança. Fui, no entanto, deixando para mais tarde. Estávamos nos preparando para dormir. Ela estava escovando o cabelo na penteadeira e eu estava sentado no sofá próximo, esperando-a.
— Yumi… Eu vou fazer uma pergunta muito séria, preciso que preste atenção e seja extremamente sincera em sua resposta.
— Está bem — disse ela, com muita calma, enquanto voltava toda sua atenção para mim.
— Sunghee é mesmo minha filha?
Eu achei que ela hesitaria, mas Yumi franziu o cenho como se aquela pergunta fosse absurda.
— Claro que é.
— Você tem certeza disso?
— Absoluta. De onde tira essas ideias, oppa? De quem mais ela seria filha?
Eu ri e me mexi no sofá, com a certeza de que ela estava tentando me fazer de idiota.
— Eu gostaria muito que você fosse sincera comigo — eu disse, em tom baixo. Estava triste por ela estar mentindo daquela forma.
— Eu estou sendo.
— Yumi, há muitas pessoas nesse palácio, e… E eu não sou tão idiota assim. Eu sei muito bem que eu não sou o único homem com quem você se relaciona. Do que você tem medo? Eu só quero saber se ela é realmente minha filha, e isso não vai mudar nada. Ela pode ser filha de quem for, eu vou continuar tratando vocês duas do mesmo jeito…
Eu estava falando tão rápido e tão nervosamente que não notei que Yumi estava tentando chamar a minha atenção para que eu lhe desse a palavra. Só no fim ouvi seu último grito, quando ela chegou perto de mim e segurou meu rosto.
— Oppa! Acha mesmo que eu correria o risco de ter uma filha que não tem sangue real nas veias?
— Eu também não sou o único homem da casa com sangue real, sou? — nunca tinha soado tão firme antes. Embora tudo se encaminhasse para a confirmação de que a Sunghee não era minha filha, ela continuava a insistir no contrário. Eu abaixei a cabeça, porque queria chorar. Não porque ela não era minha filha, mas porque Yumi ainda mentia. — Eu sei o que você faz e eu já disse que não me importo. Eu só quero que pare de mentir para mim.
Yumi me forçou a olhar novamente para ela.
— Eu não estou mentindo. Você é um homem bom para mim, oppa. Bom demais para que eu pense que não posso confiar em você. Eu não quero uma filha com qualquer sangue real, eu quero o sangue do rei de Omelas. O único e verdadeiro rei de Omelas, Kim Seokjin. — Yumi passou os polegares pelos cantinhos dos meus olhos e pegou as lágrimas. — Eu não te dou toda a atenção que você merece, e não te amo do jeito que eu deveria, mas eu sinto alguma coisa por você, e eu não quero te decepcionar.
Eu estava um pouco chocado com a atitude dela, com as palavras dela. De um minuto para outro, ela me passava uma segurança extraordinária, me fazia voltar a crer que Sunghee era minha filha. Ganhava a minha confiança e a minha admiração de volta.
— Você não me decepciona. Não pense dessa forma. Você é maravilhosa.
— Você é maravilhoso, meu rei.
Sem esperar qualquer outra coisa, Yumi começou a me beijar. Eu já não estava pensando muito bem, mas eu mantinha minha palavra: ela era maravilhosa. E eu não precisava ser apaixonado por ela para desejá-la.
Notas finais
Sim, Sunghee é filha biológica de Jin nessa versão. E sim, Jin e Yumi se pegam de vez em quando.
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